Fire Scars

26 Missão


Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Demorei, mas estou de volta com mais um capítulo. Dessa vez, é um capítulo especial em homenagem a Manu, que está completando mais uma primavera! Feliz aniversário, Manu! Espero que você goste do capítulo e que me perdoe pela demora em atualizar sua história. Boa leitura...

Capítulo XXV — Missão


"Deixei você me cortar só para me ver sangrar

Desisti de quem eu sou por quem você queria que eu fosse

Não sei por que estou esperando pelo que não vou receber

Acreditando na promessa da máquina do vazio

Girando como um revólver

Já está decidido como perderemos

Porque há um fogo sob o altar

Eu continuo mentindo também"

The Emptiness Machine – Linkin Park



Krósvia – 1996

Os dez dias se passaram mais rápidos do que eu imaginei que seria. Isso porque Manu, Tyler e eu estávamos ocupados demais aprendendo sobre política, idiomas e estratégias de guerra para notar o tempo passando.

Apesar de ainda sermos vistos como intrusos por Maria, Paul e, principalmente, por Olga, os outros tripulantes do submarino pareciam ter aceitado melhor a nossa presença e já conversavam de forma mais amigável com a gente.

Cam se tornou um amigo muito próximo. Com seu jeito extrovertido e amigável, ele foi o principal responsável por nos ajudar na adaptação da rotina do submarino. Talvez por termos as idades parecidas, ele tinha mais paciência para nos explicar as situações e tirar nossas dúvidas.

Irina também foi uma peça-chave para a nossa adaptação. Além de ter nos dado lições importantes sobre como devemos agir assim que chegarmos em Boise, ela era uma das poucas que conseguia controlar a hostilidade de Olga, que estava constantemente me atacando de alguma forma.

Fosse nos treinos de combate ou com seus comentários sarcásticos, Olga não escondia o seu ódio pela família real de Krósvia. Os únicos momentos em que a ruiva parecia não querer exterminar as pessoas que carregam o sobrenome Dawson são quando a tripulação conversa sobre Ally.

Nesses momentos, eu entendia como minha irmã era de fato a esperança para essas pessoas. Mesmo que não houvesse qualquer explicação para isso, todos presentes no submarino exibiam um semblante diferente ao falar de Ally. Até mesmo Johnny exibia uma expressão suave e sua voz se tornava mais doce quando narrava seus planos para a proteção de minha irmã caçula.

O líder da Resistência continuava um grande mistério para mim, mas eu tinha que admitir que ele era um líder admirável. A forma como ele conseguia lidar com todas as personalidades divergentes que conviviam em um local tão apertado quanto um submarino e impedir que todos brigassem era impressionante.

Apesar de ser uma pessoa calada e geralmente se manter afastado, quando alguém ameaçava perder a linha, Johnny conseguia conter a pessoa facilmente. E não foi apenas uma ou duas vezes em que eu vi o seu domínio sobre o grupo ser demonstrado. Tendo pessoas com personalidades tão fortes quanto Olga e Manu, era raros os momentos que todos conseguiam conviver sem conflitos.

E uma prova da inteligência e perspicácia de Johnny foi vê-lo colocar em prática o método de manter todos os tripulantes do submarino ocupados demais para terem tempo de brigar.

Durante os dez dias de viagem, enquanto Manu, Tyler e eu tínhamos as aulas intensivas, os outros membros da Resistência precisaram treinar e estudar inúmeros documentos que Irina havia conseguido no tempo em que esteve em Krósvia.

Eu não sabia do que se tratava esses documentos.

Nas três vezes que tentei descobrir, Johnny me impediu, dizendo que ainda não era hora e que eu não estou pronto para ter conhecimento total do que é a Resistência. E isso me frustra.

Mas não havia o que ser feito. Eu sabia que precisava seguir as regras de Johnny e confiar em sua liderança. Nós estamos prestes a entrar em um território completamente novo para mim e a enfrentar perigos dos quais eu não tenho qualquer conhecimento ou confiança de que serei capaz de lidar.

— Prince? Você está bem?

O chamado de Manu me faz desviar a atenção da caneca de café em minhas mãos para encará-la. Eu não fazia ideia de quanto tempo eu estava sentado na mesa de reuniões, aguardando ansioso para a nossa chegada em Most.

Ela se senta ao meu lado e me observa com os olhos repletos de preocupação.

— Sim. Apenas um pouco nervoso — admito, dando um fraco sorriso. — E você? Achei que fosse dormir mais um pouco, já que precisou ficar acordada a noite toda treinando vocabulário com a Mel.

— A Mel pode ser bem cruel às vezes — comenta Manu, suspirando. — Mas estou ansiosa para conhecer Most. É a primeira vez que saio de Krósvia, então estou um pouco nervosa.

Sorrio e coloco minha mão sobre a de Manu, tentando transmitir alguma segurança para ela. A garota se surpreende com minha ação, mas logo seus dedos se entrelaçam aos meus e vejo um discreto sorriso se formar em seus lábios.

— Nós vamos ficar bem. Eu prometo que não vou te deixar sozinha — afirmo, intensificando o aperto de nossas mãos.

Manu se aproxima mais de mim e encosta a cabeça em meu ombro. Acomodo-me de forma que a deixasse mais confortável e encosto a minha cabeça na dela. Por algum motivo, ficar assim com Manu me traz uma espécie de paz que há muito tempo eu não sentia.

— Eu sonhei com o meu pai e meus irmãos — revela.

A voz de Manu estava baixa e neutra. Não parecia que havia sido um pesadelo e tampouco eu conseguia identificar se tinha sido algo bom, já que a garota não havia expressado reações. Na verdade, ela parecia pensativa.

— Foi um bom sonho?

Manu suspira e se aconchega melhor em meu ombro. Meu corpo se arrepia quando a respiração da garota se choca contra a pele de meu pescoço. E devo ressaltar que era estranho como seu cabelo tinha um perfume tão bom, mesmo que usássemos o mesmo sabão para tomar banho.

Respiro fundo e tento me concentrar no semblante sombrio que a garota exibia. Não era o melhor momento para lidar com as mudanças bruscas do meu corpo por causa da puberdade. Manu precisava de um ombro amigo e não de um idiota sentindo arrepio na barriga por causa de perfumes ou toques inconscientes.

— Foi uma lembrança de quando eu tinha oito anos — conta Manu, dando um fraco sorriso. — Meu pai, Tyler, Tony, Henry e eu visitamos um campo de flores que ficava em Ligne. Foi um dia mágico. Eu pude brincar com o Tyler, meus irmãos e com meu pai. Eles me contaram histórias sobre a minha mãe e fizemos um piquenique debaixo das árvores. Tudo era tão bonito, caloroso e divertido.

Manu apoia a testa no meu ombro e se encolhe contra mim, como uma criança em busca de consolo. Com a minha mão livre, acaricio o topo da cabeça dela, sem saber bem como reagir diante da fragilidade que ela me mostrava naquele momento.

Nesses quase um ano em que tenho convivido com Manu, foram raras as vezes em que ela permitiu que eu visse seu lado mais vulnerável. No geral, ela costuma se fazer de forte e prefere esconder seus sentimentos. Então eu sabia que aquele momento era muito importante para ela.

— Eu sinto tanto a falta deles — murmura com a voz embargada.

Ela estava fazendo um grande esforço para não chorar e isso me destruía. Eu queria ser capaz de tirar toda a dor de dentro de seu coração e garantir que ela tivesse apenas motivos para sorrir de agora em diante. Mas, infelizmente, eu não podia fazer muito além de abraçá-la e ouvir suas dores.

— Eu sei. Eu também sinto — sussurro, puxando-a para um abraço. — Eu prometo que nós vamos nos vingar. Um dia, meu pai, Taynara, Gavin e todos esses malditos que contribuíram para a morte das pessoas que amamos pagarão pelo que fizeram.

— Sim. Não importa quanto tempo demore. A justiça será feita — garante Manu, apertando ainda mais o tecido de minha camisa.

Eu conseguia sentir toda a raiva e determinação da garota. Enquanto as lágrimas desciam por seu rosto bonito, seus olhos exibiam toda a dor e ódio que ela tem cultivado em seu coração desde a morte de sua família. Isso era prova de que Manu não descansaria até ter sua vingança.

Afasto-me de Manu e a encaro com seriedade.

— Mas, antes de qualquer coisa, precisamos sobreviver. Estamos prestes a entrar em um território no qual não podemos confiar em ninguém — relembro.

— Eu sei. Não cometerei o mesmo erro de confiar em pessoas que podem nos apunhalar sem qualquer remorso — responde Manu, limpando o rosto molhado. — Dessa vez, não vou permitir que me enganem e menos ainda que machuquem as pessoas que eu amo.

Assinto.

— Até que tenhamos conhecimentos e poder suficiente para trilhar nosso próprio caminho, vamos nos esforçar para aprender tudo o que for necessário e conhecer o mundo que estava além do nosso alcance antes de tudo isso acontecer.

Manu sorri e assente.

— Tudo bem. Nós vamos conseguir!

A garota se acomoda em meu ombro de novo e permanecemos em silêncio por mais um tempo, apenas observando o azul intenso pela janela do submarino.

— Prince...

Minha melhor amiga se afasta de mim e me observa com intensidade. Encaro-a, esperando que me revelasse o que se passava em sua cabeça complicada.

— Sim?

Manu hesita em continuar e isso me deixa bastante confuso. A garota nunca foi do tipo de se conter. Se há algo que a incomoda ou que desperte sua curiosidade, ela será a primeira a se manifestar, então, se ela se sentia insegura para falar, provavelmente era algo realmente sério.

— O que você acha da Olga? — questiona Manu, surpreendendo-me.

— O que eu acho da Olga? — repito, apenas para ter certeza de que eu não ouvi errado. — Por que está me perguntando isso?

— Apenas... estou curiosa.

Manu desvia o olhar e sua resposta sai muito mais como uma pergunta do que uma afirmação. Encaro a garota com desconfiança e isso parece deixá-la ainda mais nervosa.

— Curiosa?

— Se só vai ficar repetindo o que eu estou dizendo, não precisa responder — resmunga Manu, empurrando-me.

A garota se levanta e tenta ir embora, mas eu a impeço de sair, puxando-a levemente pelo pulso. Ainda estava bastante confuso sobre a curiosidade repentina de Manu pelo que eu acho sobre a pessoa que me odeia desde que me viu.

Os olhos de Manu me encaram em surpresa e sinto um arrepio estranho passar pelo meu corpo ao observar como o rosto dela é tão bonito ou como seu cabelo parecia tão sedoso. Seu pulso era fino demais para alguém que possuía um soco tão poderoso.

Manu é um verdadeiro mistério para mim. Ao lado dela, eu me sinto dividido em um misto de sentimentos.

Ela me faz rir e sabe como me irritar profundamente. Nós costumamos brigar muito, mas ela é a pessoa em quem eu mais confio e a única pessoa que eu tenho certeza que me faria pular dentro de um vulcão em erupção se fosse para protegê-la.

— Prince?

A voz suave e confusa de Manu me desperta do encanto em que eu me encontrava e somente nesse momento é que eu noto que continuava a segurar o braço da garota feito um idiota sem dizer nada.

— Ah, desculpa! — lamento, soltando o pulso de Manu. — Sobre a Olga, eu não sei o que eu acho dela. Quer dizer, nunca pensei profundamente sobre isso. Mas eu acho que tirando o fato dela me odiar, Olga é uma pessoa admirável.

— Admirável?

Manu esboça uma expressão confusa diante da minha resposta.

— Eu sei que é estranho. É claro que eu não gosto da forma como ela me trata, mas eu entendo os motivos dela. Mesmo que eu não pudesse controlar as ações do meu pai, eu era o príncipe herdeiro e a pessoa que deveria trazer a liberdade para Krósvia...

— Não é justo que você tivesse que ser responsável por isso, Prince — afirma Manu. — Você não escolheu isso. Não é justo que as pessoas coloquem esse tipo de responsabilidade sobre você, principalmente sem saber o que você passou naquele lugar!

Suspiro.

— Eu entendo o que você está querendo dizer, mas se seguirmos essa lógica, não é justo o que estamos fazendo com Ally — retruco. — É verdade que não escolhemos como ou em qual família nascemos, mas a vida não é justa, Manu. Nossas ações refletem nas pessoas a nossa volta, independente de quem nós somos. Eu escolhi fugi das minhas responsabilidades como príncipe herdeiro e agora estou lidando com as consequências. Não importa o que aconteceu comigo. Essa é a verdade absoluta.

— Você não fugiu — resmunga Manu, inconformada.

— De qualquer forma, apesar da pouca idade, Olga é bastante habilidosa e inteligente. Não passei tempo com ela o suficiente e duvido muito que ela permita que eu a conheça de verdade, mas posso ver que ela é dedicada. Eu gostaria de ter a força e a coragem dela, por isso, eu a admiro, apesar de ter meus problemas com ela — respondo.

— É só isso? — questiona Manu.

Ao ver que eu não tinha entendido o que ela queria aquela pergunta, a garota suspira e volta a se sentar ao meu lado.

— Você só a admira? Não está... apaixonado por ela? — sussurra Manu.

— O quê?! — exclamo, assustado. — De onde você tirou isso?

Manu parece surpresa por eu ter ouvido seu questionamento, assim como eu continuava incrédulo com a linha de raciocínio de minha melhor amiga, que de alguma forma acreditava que eu tinha me apaixonado por Olga, quando tudo o que fazíamos era treinar e trocar insultos.

— Prince!

Antes que Manu tivesse a chance de se explicar, Olga surge na sala com a expressão ríspida de sempre. Desvio minha atenção para a ruiva, que estava com os longos cabelos vermelhos presos em uma trança e usava as roupas de combate.

— Johnny está nos chamando na cabine de controle — informa Olga com seriedade.

— Aconteceu alguma coisa? — pergunto.

— Não sei. Ele não falou nada. Apenas pediu que você e eu fossemos para a cabine, porque ele quer conversar com a gente.

Observo a garota por alguns instantes e logo consigo entender que ela desconfia do que iremos conversar com Johnny, mas que não revelaria nada na frente de Manu. Além disso, normalmente ela me atacaria e me chamaria por algum apelido idiota só para me ofender e me irritar, mas a calma e seriedade com a qual ela falava deixava claro que o assunto seria algo sério.

— Tudo bem — concordo.

Manu abre espaço para que eu saísse da mesa. Nossos olhos se encontram, mas ela imediatamente desvia o olhar, parecendo envergonhada.

Suspiro.

— Continuamos nossa conversa mais tarde, Manu — aviso, despedindo-me com um aceno.

Ela não me responde e permanece de cabeça baixa sem me encarar.

Suspiro novamente e sigo Olga, que me encarava com desconfiança, mas não diz nada. Mesmo que estivesse curiosa para saber o que Manu e eu tínhamos conversado, seu orgulho jamais permitiria que ela admitisse ter algum tipo de interesse por mim.

Seguimos em silêncio para a sala de comando do submarino. Como de costume, Johnny estava sentado em completo silêncio, encarando o mar com o olhar distante. Eu não fazia ideia do que se passava em sua mente, mas ao notar nossa presença, ele pede para que Paul deixasse a sala para que ficássemos sozinhos.

Paul apenas assente e sai, sem questionar a ordem de nosso líder. Ainda assim, eu podia perceber seu olhar ríspido sobre mim, em um claro sinal de que sua antipatia por mim continuava intensa, mesmo que já tivesse aceitado a minha presença.

— Espero que tenham descansado — comenta Johnny, chamando minha atenção e de Olga, depois da saída de Paul. — Chegaremos em Most em cerca de duas horas.

— Já?! — exclamo, surpreso. — Pensei que demoraria mais.

— Eu acelerei a nossa chegada. Recebi algumas informações interessantes e preciso que vocês dois investiguem pessoalmente.

— Que tipo de informações? — indaga Olga.

Johnny se levanta da cadeira que estava e se vira para nós com aquele semblante neutro que sempre me trazia um certo desconforto. Era como se ele analisasse meticulosamente cada movimento meu, esperando o momento certo para me atacar.

— Existe um grupo de rebeldes em Most que parece ter como líder um velho conhecido meu da Fire Scars. Seu nome é Tomaz McLaughlin. Ele era uma pessoa brilhante na época em que atuamos juntos. Se Tom estiver mesmo envolvido com esse grupo de rebeldes, quero unir forças com ele mais uma vez — responde Johnny. — Mas, não sabemos se ele continua com os seus mesmos ideais e quais são suas intenções com esse novo grupo.

— Então nossa missão é nos infiltrarmos nesse grupo e descobrir mais sobre eles? — pergunto.

— Sim — concorda Johnny. — Vocês ganharão novas identidades e terão que se infiltrar nesse grupo por conta própria. É uma missão confidencial. Apenas eu, Dimitri, Bóris e vocês devem saber do que será feito e o objetivo desse movimento.

— Tudo bem. E como conseguiremos nos infiltrar nesse grupo e investigar? — questiona a ruiva.

— Assim que ancorarmos em Most, vocês dois permanecerão no submarino enquanto todo o restante da equipe desembarca. Você seguirão para Landover, uma cidade que fica há umas três horas de Most. Lá, você encontrarão com Arnie Richter. Ele é um amigo de confiança que vai cuidar de vocês durante esse tempo em que estiverem na missão. Sigam todas as orientações dele — orienta Johnny. — Enquanto estiverem na missão, seus nomes serão Hannah Lenz e Simon Vogel. Para justificar que vocês estarão sempre juntos, terão que se disfarçar como namorados e...

— O quê?! — exclama Olga, indignada.

— Como assim?! Por quê? — resmungo, incomodado.

— Essa é a forma mais segura de estarem sempre juntos sem levantar suspeitas — retruca Johnny, encarando-nos com tédio.

— Nunca conseguiremos fazer as pessoas acreditarem que estamos namorando — afirmo, ainda inconformado com o comando de Johnny.

— Então deem um jeito de fazer com que acreditem, Prince — responde, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Eu não me importo como farão isso, contanto que não atrapalhem a missão. Aprendam a agir como se estivessem apaixonados e encontrem Tomaz.

— Não pode me enviar com outra pessoa? — questiona Olga, desesperada. — Pode ser com o Cam ou Irina. Eu tenho certeza de que...

— Não. Os rostos deles são muito conhecidos e eles serão necessários para o avanço da Resistência. Não posso arriscar perder meus informantes por tempo indefinido. Além disso, essa é a oportunidade perfeita para analisar as habilidades de Prince.

— Nesse caso, eu poderia ir com Manu ou Tyler. Eles...

— Não seja tolo! Nenhum de vocês têm experiência em uma missão de campo — repreende Olga, irritada. — Mandá-los para algo assim seria o mesmo que colocar uma placa bem grande em nossa testa, dizendo que somos impostores.

— Você não sabe...

— Como Olga disse, Manu e Tyler não estão prontos ainda para uma missão desse nível.

Johnny me interrompe, provavelmente prevendo que Olga e eu entraríamos em uma mais uma discussão típica.

— Eu estou ciente da hostilidade que vocês possuem, mas se quisermos que a Resistência se fortaleça, precisam aprender a confiar um no outro. Ambos possuem habilidades essenciais para a expansão de nossas forças, mas se não forem capaz de cumprirem com suas missões, entenderei que vocês não poderão continuar conosco. Aproveitem essa oportunidade para resolverem suas diferenças. Gostando ou não, vocês são parte de uma família agora. Não coloquem a perder todos os esforços que fizemos para chegar até aqui — repreende Johnny. — Eu estou os mandando para uma missão importante como essa, porque confio em seus potenciais. Não me decepcionem.

O olhar gélido de Johnny faz um arrepio percorrer minha espinha. Aquele era o aviso de que ele não aceitaria erros. No menor deslize, Olga e eu seremos expulsos da Resistência ou, no pior dos casos, mortos por sabermos demais.

É tudo ou nada.

Eu conseguia enxergar a importância dessa missão para o líder da Resistência e, mais do que isso, eu sentia que essa era a oportunidade que eu queria para mostrar a Johnny que eu falei sério quando afirmei que faria o que fosse necessário para proteger minha irmã.

Então, mesmo contrariado pela situação, viro-me para Olga, implorando em silêncio para que ela estivesse tão determinada para garantir o sucesso na missão. Ela me encara de volta e suspira, parecendo se dar por vencida.

Suspiro também.

— Tudo bem. Nós cumpriremos com a missão — respondo, tentando soar confiante, ainda que estivesse bastante inseguro.

— Certo. Reúna todos os membros na sala de reuniões. Eu irei em alguns instantes para passar as orientações de nossos próximos passos — ordena Johnny. — E lembrem-se: a missão de vocês é confidencial. Mesmo que confiem em Manu, Tyler, Cam e Irina, devem manter isso em segredo, inclusive deles.

— Mas como irei explicar para Manu e Tyler que ficarei no submarino com Olga? — questiono, sabendo que minha melhor amiga não aceitaria muito bem essa situação.

— Esse também será um teste para eles — responde Johnny. — Haverá momentos em que vocês terão que fazer coisas das quais não gostam, ainda que não concordem com a situação. Se eles quiserem continuar na Resistência, terão que confiar em mim e agirem de acordo com as minhas ordens sem questionamentos. Essa é a melhor forma de verificar se posso confiar nos dois.

Por mais que me desagradasse os métodos de Johnny em alguns momentos, eu tinha que dar o braço a torcer e concordar que ele estava certo. Não há como negar que esse é o melhor teste que ele poderia passar para avaliar a lealdade e a capacidade de cumprir ordens de Tyler e Manu.

Então, tudo o que Olga e eu podemos fazer é assentir e agir de acordo com suas ordens. Com uma missão tão importante em nossas mãos, não há tempo para questionamentos.

Não importa o que aconteça, eu farei o que for preciso para obter sucesso nessa missão, mesmo que para isso eu tenha que me tornar o namorado de uma das pessoas que mais me odeia na face da Terra.