Fire Scars
5 Importância
Notas iniciais
Capítulo IV — Importância
Quando não houver uma luz pra te guiarE ninguém para andar, para andar ao seu ladoIrei até vocêOh, irei até vocêQuando a noite estiver escura e chuvosaVocê não precisará tentar me encontrarPois eu irei até vocêOh! irei até você
I Will Come to You — Hanson
✻
Krósvia – 1995
A tensão se fez presente com a entrada brusca do rei. Penny, sua esposa, encarava a cena com apreensão. Phillip observava o pai e seu receio era evidente. Após alguns instantes, em silêncio, Lester Dawson, se aproxima do filho e o olha com frieza.
– Prepare seu armamento. Hoje, você matará um inimigo. – Avisa o rei, surpreendendo a todos.
– O que? – Questiona Phillip, assustado. – Do que você está falando? Eu não vou matar ninguém.
– Não ouse me desobedecer, Phillip. – Ameaça o homem, agarrando o braço do filho com brutalidade.
Pela fresta da porta do banheiro eu conseguia ver que o rei estava completamente fora de si. Seus olhos estavam arregalados e brilhavam em ódio, seu corpo tremia em fúria. A rainha, apavorada, corre até o marido e puxa seu braço.
– Lester, por favor! – Implora, tentando afastar o rei de seu filho. – Você está o machucando.
– Me solta. – Exige Phillip, puxando o braço e se afastando do pai. – Por que eu mataria?
– Phillip! – Repreende a rainha, pelo tom altivo usado pelo filho. – Acalmem-se, por favor. Se continuarem assim, os empregados irão nos ouvir.
– Eu não estou me importando se os empregados irão ouvir ou não. Eu quero a cabeça de Edgar! Eu quero a morte daquele maldito! E você, moleque, irá fazer o que eu estou mandando. – Exige Lester, alterado.
– Não seja inconsequente! – Fala Penny, aumentando seu tom de voz. Lester olha com frieza para a mulher, que se encolhe um pouco, mas não deixa de enfrentar o marido. – O nosso reino está em crise. Não estamos preparados para começar uma guerra. Você sabe que não devemos subestimar Edgar, então, se quer mesmo acabar com ele, precisamos estar preparados para o pior.
– Ele não a ouvirá, mãe. – Diz Phillip, com desdém. – Tudo o que ele pensa é em si mesmo. Um rei egoísta e sem compaixão nenhuma. Tem certeza que você é humano?
Lester dá um sorriso irônico e soca o rosto do filho. Phillip é jogado para trás e por muito pouco não bate a cabeça da cômoda ao lado da cama, no entanto, o som de objetos caindo e se quebrando mostra que ele ainda assim havia se chocado com o móvel. Assustada, levo a mão à boca, impedindo que um grito saísse. Penny, corre de encontro ao filho e o ajuda a levantar. O nariz de Phillip volta a sangrar, manchando seu rosto mais uma vez.
– Você é um fraco, Phillip. – Fala Lester, cruelmente, enquanto olha com repulsa para o filho. – Acredita mesmo que conseguirá se tornar rei sem matar ou trapacear? Não seja ingênuo. Não estamos em um conto de fadas. Você vai matar. Ou mata ou eu tranco você no calabouço por um ano, vivendo somente de água e migalhas de pão. – Lester pega no cabelo do filho e o puxa para cima, obrigando-o a olhar para si. – Não ouse me desobedecer. Você sabe que as consequências serão maiores do que você será capaz de aguentar.
Phillip permanece calado, enquanto encara o pai com ódio. O rei observa o príncipe por mais um tempo, o solta e, após fazer sinal para a mulher o seguir, deixa o quarto. Penny olha penalizada para Phillip e suspira, antes de sair.
– Eles já foram. Você já pode sair. – Avisa Phillip, após alguns instantes de silêncio.
Cautelosamente, abro a porta do banheiro por completo. Ao longe, vejo Phillip sentando no chão, com a cabeça abaixada. Sua roupa estava manchada de sangue e olhando mais de perto, pude ver que seu braço havia sido cortado. Corro de encontro ao garoto.
– O que foi aquilo? – Questiono, desesperada, enquanto ajudo Phillip a se levantar. O príncipe continuava a olhar para baixo e seu olhar parecia distante. – Precisamos cuidar desses machucados.
Corro até o banheiro e pego mais uma toalha, molho-a e levo à Phillip. Como o rapaz ainda parecia em choque, começo a limpar seu rosto e o braço. Eu não sabia o que falar. Ele parecia frágil e sem forças para fazer qualquer coisa. Suspiro e continuo a limpar seus ferimentos, até que Phillip pega em minhas mãos e as afastam.
– É melhor você ir embora. Alguém pode encontra-la aqui. – Diz, calmamente, enquanto parecia se recuperar. No entanto, eu sentia que ele ainda estava muito mal.
– E os seus ferimentos? Você tem a um encontro importante em poucas horas. Como você irá explicar isso? – Questiono, olhando com preocupação para o príncipe.
– Isso não importa mais. – Fala Phillip, enquanto se levanta, caminhando até a janela de seu quarto. – Eu não poderei comparecer ao encontro mesmo. Tenho que me preparar.
– Se preparar para o que? – Pergunto, levantando-me da cama e o encarando com preocupação.
– Matar. – Responde Phillip, apertando os punhos.
– Príncipe Phillip... – Sussurro, entristecida. O garoto poderia ser um príncipe mimado e irritante, mas era notável a sua indignação por ter que realizar a ordem do pai.
– Pode me chamar de Prince. – Fala, virando-se para mim, com um sorriso gentil. Pela primeira vez, desde que o conheci, o rapaz parecia estar sendo verdadeiro.
– Por que Prince? Quer dizer, seu nome é Phillip, geralmente o seu apelido seria Phil, mas por que Prince? – Pergunto, curiosa, fazendo o príncipe ri.
– Na verdade, eu não sei muito bem. Desde que nasci, a senhora Rachel e o senhor Vincent me chamam de Prince. Acho que era só a maneira mais fácil de me chamar de príncipe. Não sei explicar. Apenas gosto do nome. – Diz, caminhando até a cama, onde se joga. Seu rosto se retrai, sentindo dor. – Droga. – Sussurra, analisando o corte em seu braço.
– Eu já volto. – Digo, preocupada com os ferimentos.
– Aonde você vai? – Questiona, mas ao invés de responde-lo, corro para fora do quarto.
Quando estou no corredor, começo a andar, cuidadosamente. O lugar era incrivelmente silencioso e sombrio. Eu sentia como se a qualquer momento alguém apareceria e eu estaria muito enrascada.
Por sorte, consigo chegar ao térreo sem esbarrar com nenhum serviçal ou os membros da família real. Sorrio para algumas garotas que trabalhavam na limpeza do castelo e sigo para a cozinha, torcendo para que a bondosa governanta pudesse me ajudar.
– Senhora Rachel? – Chamo, contendo certo desespero em minha voz, assim que encontro a mulher separando os caroços de feijão.
– Algum problema, querida? – Questiona, preocupada, enquanto coloca a peneira sobre a mesa da cozinha.
Aproximo-me da mulher, imediatamente. Olho para todos os lados, a procura de alguém que pudesse escutar nossa conversa e suspiro, aliviada, ao notar que estávamos sozinhas. Rachel observava-me com atenção, esperando paciente que eu lhe contasse o ocorrido.
– O rei feriu o príncipe. O nariz dele não para de sangrar e o seu braço está cortado. – Sussurro, imaginando que a mulher se surpreenderia tanto quanto eu, mas, ao contrário do que eu pensei, Rachel suspirou, balançando a cabeça, tristemente.
– Eu já esperava por isso. – Fala, caminhando até o armário da cozinha e tirando de dentro uma caixa feita de capins secos. – Simon me informou que Edgar foi avistado próximo as fronteiras de Krósvia. O rei deve estar fora de si. Com certeza, ele iria descontar a raiva em seu filho.
A mulher me entrega a caixa e sorri, carinhosamente. Percebendo a minha surpresa enquanto eu pegava a caixa que me era estendida, Rachel acaricia minha cabeça e, com carinho, aperta levemente meu queixo.
– Por mais difícil que possa ser, permaneça ao lado de Prince. Ele não tem muito contato com outras crianças. Talvez, você seja a única pessoa com quem ele possa ter oportunidade de aprender sentimentos que raramente são destinados a ele. – Explica Rachel, olhando em meus olhos. Eu balanço a cabeça, concordando com o seu pedido e ela sorri, carinhosa. – Ótimo. Agora vá cuidar dos ferimentos de Prince.
Suspiro e sorrio, agradecida a mulher. Novamente, tomando cuidado para não levantar suspeitas, volto a ir para o quarto de Prince. No quarto andar, Penny e Lester discutiam veementemente. Controlando a minha vontade de descobrir o que estava acontecendo, ignoro os reis e sigo para o último andar, preocupada com o príncipe.
– Estou de volta. – Anuncio, após entrar no quarto e fechar a porta.
Phillip continuava deitado da mesma maneira de quando eu havia saído. Seu olhar estava distante, triste, exatamente igual a vez que eu o observei na janela. De alguma forma, a expressão em seus belos olhos me incomodava.
– Prince? – Chamo, aproximando-me do rapaz.
O príncipe me olha assustado e sorri, fracamente. Ele se senta em sua cama e faz sinal para que eu fizesse o mesmo. Sento-me ao seu lado e coloco a caixa sobre meu colo. Seu nariz estava inchado, assim com o olho esquerdo que também estava roxo.
– Obrigado. – Agradece, abrindo a caixa, enquanto procurava alguns curativos.
– Quer que eu te ajude? – Ofereço, timidamente.
– Não precisa. Eu já estou acostumado com isso. – Responde, dando de ombro, enquanto procurava mais coisas que pudesse ajudar nos curativos.
A tristeza nos olhos do jovem príncipe era tocante. Ele pega o algodão, coloca um pouco de produto, que supus ser antisséptico, e começou a cuidar do corte no braço. Angustiada por apenas observar a cena, tomo o algodão de sua mão e começo a limpar o corte em seu lugar.
– Deixa que eu cuido disso. – Respondo, sorrindo para o garoto, ao notar a sua surpresa.
– Por que está fazendo isso? – Pergunta Prince, fazendo careta pela ardência do produto. Assopro, suavemente, para que a dor passasse e continuo a limpar.
– Eu não sei. – Digo, dando de ombros, levantando os olhos do machucado para observá-lo.
Volto a cuidar do ferimento. Prince não disse mais nada, apenas me observava com atenção. Seu olhar sobre mim incomodava, mas eu estava feliz por ajuda-lo de alguma forma. Ao lembrar do tratamento que o rei com seu próprio filho me fez ver o quanto eu deveria ser grata pela minha família. Não éramos perfeitos e muito menos ricos, mas tínhamos muito amor e cuidado uns com os outros.
Assim que termino de limpar o ferimento, começo a fazer o curativo. Em seguida, passo a procurar algum remédio que pudesse diminuir o inchaço de seu olho e nariz. Pego o antisséptico e aproximo-me para limpar o pequeno corte em seu supercílio.
– Au. – Reclama, afastando-se.
– Sinto muito. – Sorrio sem graça.
– Tudo bem. – Diz, suspirando, voltando a se aproximar.
Continuo a limpar o ferimento, tomando mais cuidado para não doer ainda mais que o normal. Prince encara as próprias mãos e suspira, após algum tempo. Paro a limpeza do pequeno machucado e o encaro, curiosa.
– Algum problema? – Pergunto, passando o remédio ao redor de seu olho para diminuir o inchaço.
– Escute, Manu, agora que você sabe o que acontece aqui, precisa manter segredo e ficar longe. – Diz, com seriedade.
– Por que está me dizendo isso? – Questiono, surpresa. – Seus pais não me viram e as únicas pessoas que realmente sabem que eu estive aqui são Rachel e Vincent.
– Eu não estou preocupado com o que aconteceu, Manu. – Explica, pegando em meu pulso e tirando minha mão de seu rosto. Ainda que não conhecesse Prince há tanto tempo, seus olhos expressavam uma seriedade que nunca vi antes. – Minha vida é muito mais perigosa do que você imagina. O que você viu e ouvi aqui agora há pouco não é nem metade do que envolve a minha família.
– O que você quer dizer com isso? – Pergunto, sem saber o que dizer.
Prince suspira e se afasta de mim. Ele levanta seu olhar para o quadro da família que estava exposta em uma parede de seu quarto e aponta para a figura. Observo com atenção a imagem e o que eu via não parecia nada com a cena que eu presenciei pouco tempo atrás.
– Desde que nasci, eu não lembro de nenhum momento em que fomos uma família de verdade. Meus pais não sabem nada sobre mim e nem se esforçam para isso. – Fala Phillip, com a voz repleta de mágoa.
Olho para o príncipe, sentindo-me penalizada. Mesmo sem uma mãe e com um pai ausente, Anthony, Henrique e Tyler sempre fizeram o máximo que podiam para que eu não me sentisse solitária. Principalmente, meu irmão mais velho, que se abdicou de sua adolescência para criar três crianças. No fim, mesmo com todos os problemas, sempre fomos uma família feliz.
– Eu sinto muito. – Sussurro, abaixando o olhar para minhas mãos, que ainda seguravam o algodão.
Prince aquiesce, cansado. Observo-o, discretamente. Seus olhos brilhavam com tristeza. As marcas em seu rosto não combinavam nada com os traços bonitos que ele possuía.
– Eu preciso me preparar. – Fala baixinho, levantando-se da cama, caminhando até a janela do quarto, mais uma vez. – Edgar deve estar prestes a chegar. – Com o olhar distante, Prince encarava a paisagem com melancolia. – Quem será que realmente é o monstro? – Sussurra para si mesmo.
A sentença de Phillip era repleta de amargura. Ele suspira e balança a cabeça, parecendo espantar algum pensamento que o perturbava. Lançando um breve olhar significativo, o príncipe entra dentro do banheiro de seu quarto. Suspiro e arrumo a caixa de primeiros-socorros de Rachel. Não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Noto os objetos quebrados ao lado da cama de Prince e me abaixo para recolher os cacos de vidro espalhados. Descuidada, acabo cortando o dedo. Praguejo por meu desastre e levo o dedo a minha boca. Após alguns segundos, volto a encarar o corte e o carmim intenso traz as lembranças da guerra à tona.
Ignorando as recordações de um tempo que eu detestava lembrar, termino de recolher os cacos e saio do quarto, levando comigo a caixa de medicamentos. Tomando cuidado para não ser vista, sigo em direção a cozinha, mais uma vez.
O cômodo estava fazia. Rachel provavelmente estaria cuidando do jardim. Guardo a caixa, jogo os cacos de vidro na lixeira e sento-me a mesa, perdida em pensamentos. Tento entender o que de tão ruim a família de Prince havia feito para que evolver-se com ele fosse algo perigoso.
– Manu? – A voz delicada de Lianna desperta-me de minhas indagações internas. Olho para a mulher e sorrio, notando a barriga de sete meses que a ruiva exibia.
– Oi Lia. – Cumprimento, observando a mulher se sentar de frente para mim. — Como você e April estão?
– Estamos bem. – Fala a mulher, acariciando a barriga, exibindo um sorriso doce em seus lábios. – Não vejo a hora de ver seu rostinho. – Admite, com um ar sonhador.
– Eu também estou louca para conhecê-la. – Digo, sorrindo feliz.
Lianna era a mais velha das filhas de Rachel e Vincent. Eu a conheço desde que nasci e mesmo com a gritante diferença de idade, a mulher sempre foi como uma irmã para mim. Eu a adorava.
– Sabe, eu estava lembrando que seu aniversário está próximo. – Comenta, com animação. – Já sabe o que vai querer de presente?
Surpreendo-me com o comentário de Lianna. Com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, acabei me esquecendo de meu próprio aniversário. Sorrio sem graça e começo a pensar em algo que eu realmente quisesse.
– Não faço ideia do que quero. – Confesso, após algum tempo. Lianna me analisa, como se não acreditasse em minhas palavras. – Estou falando sério!
– Tudo bem. – Fala, rindo. – Como a aniversariante não quer ajudar, terei que procurar um presente por mim mesma.
Sorri, agradecida, para Lianna. Desvio o olhar da mulher para a janela da casa, observando a neve que caia elegantemente. Mesmo com o clima aconchegante do palácio, eu não conseguia parar de pensar o quanto os moradores da região estariam sofrendo nesse momento.
– Algum problema, Manu? – Questiona Lianna, preocupada.
– Lia, será que um dia Krósvia terá paz? – Pergunto, pensativa, ainda observando a neve.
– Claro que terá, querida. – Responde Lianna, sorrindo gentilmente. – Precisamos pensar positivo.
– Você realmente acredita nisso? – Indago a mulher, encarando seus olhos esmeraldas.
– Eu tenho que acreditar nisso. – Fala a ruiva, dando um sorriso triste. – Eu estou grávida, Manu. Em breve, minha filha nascerá e viverá nesse mundo caótico. Preciso acreditar que, um dia, ela será capaz de presenciar algo que nunca tive a chance. Preciso acreditar que April não sofrerá o mesmo que sofremos dia após dia em Krósvia.
Analiso Lianna e balanço a cabeça, concordando. Tínhamos que acreditar em um futuro melhor, mas isso se tornava tão difícil ao ver tantas pessoas morrerem de fome, de frio ou por serem krosvianos.
– Manu, você viu seu irmão? – Pergunta Matthew, marido de Lianna, entrando na cozinha. O moreno sorri, ao ver a esposa e se aproxima da mesma, abraçando-a por trás e beijando sua testa. – A senhorita não deveria estar em casa? – Pergunta a Lianna, com um sorriso carinhoso.
– Como se eu conseguisse fazer isso. – Retruca Lianna, levantando-se da cadeira e abraçando o marido. – Estou cansada de ficar em casa sozinha e sem nada para fazer.
O homem ri, balançando lentamente a cabeça e beija de leve os lábios da esposa. Assim que se separa de Lianna, Matthew suspira e acaricia com cuidado a barriga da ruiva, como se estivesse tocando em uma boneca de porcelana.
– Só prometa que não irá se esforçar demais. – Pede o homem, olhando com preocupação para Lianna. A mulher revira os olhos e suspira, concordando. Por fim, Matthew se vira para mim e bagunça meu cabelo, sorrindo.
– Por que todo mundo insiste em bagunçar meu cabelo? – Questiono, ranzinza. – Vocês sabiam que dá trabalho para arrumá-lo? – Digo, afastando as mãos de Matthew e começando a arrumar meu longo cabelo.
– Você sabe onde Tony está? – Pergunta, ignorando a minha bronca.
– Eu não faço ideia. – Admito, dando de ombros. – Por que? Pensei que ele estivesse treinando com você.
Anthony e Matthew são melhores amigos desde que eram crianças, por isso, eu o via como meu terceiro irmão mais velho. Quando ainda estava em treinamento, assim como Tony, Matt estava sempre em minha casa, brincando comigo e meus irmãos ou ajudando em diversas tarefas.
– Estávamos treinando, mas após um chamado do rei, Tony, Henry e o tio Stefan tiveram que sair. Já faz algum tempo que eles foram se encontrar com Vossa Majestade e estou começando a me preocupar que tenha acontecido algo grave. – Sussurra, preocupado com que mais alguém do castelo ouvisse nossa conversa.
A preocupação começa a voltar para mim com intensidade. As lembranças da discussão de Prince e seus pais invadem minha mente. Algo dentro de mim me dizia que o chamado do rei e sua imensa vontade de matar Edgar estavam interligados.
– Eu...eu não sei. – Digo, assustada. – Acha que está tudo bem com eles?
– Talvez. – Responde Matthew, inseguro. – Mason parecia muito apreensivo quando veio chamá-los, por isso estou tão preocupado.
– Às vezes o rei tem alguma notícia sobre os vilarejos próximos de Füssen. Mensageiros não param de chegar anunciando a calamidade que o país se tornou. – Sugere Lianna, seriamente.
– Talvez, mas acho que não foi isso. – Falo, caminhando até a janela da cozinha, tentando ver algo além da neve que caia.
– O que você acha que é.... – Antes que Matthew termine sua sentença, uma grande explosão ocorre próximo ao castelo.
– O que foi isso? – Grito, assustada, enquanto me abaixava, junto com Lianna e Matthew.
– Eu não sei, mas irei descobrir. – Fala Matt, olhando para mim. – Lia, Manu, procurem Rachel e Vincent, eles as levaram para um lugar seguro. Não saiam de lá até que eu volte para dizer que está tudo bem.
– Matthew, tome cuidado, por favor. – Implora Lianna, olhando desesperada para o marido.
– Não se preocupe. Eu vou ficar bem. – Diz o moreno, acariciando a face da esposa. Ele deposita um selo casto nos lábios de Lianna e sorri docemente, enquanto leva a mão a barriga da mulher. – Eu tenho dois grandes motivos para voltar. Só prometa que ficará em um lugar seguro.
– Eu prometo. – Responde, encostando sua testa na do marido. – Eu te amo.
– Eu amo vocês. – Fala Matthew, beijando, mais uma vez Lianna. Eles se separam e o homem beija a barriga da mulher. – Manu, cuide delas por mim, por favor.
– Não vou deixar que nada aconteça a elas. – Prometo, sorrindo confiante.
– Obrigado. — O homem sorri e beija minha testa, antes de correr em direção ao local de onde havia vindo o som da explosão.
– Vamos. – Digo, puxando Lianna para irmos para a sala do castelo. – Rachel, Vincent? Onde vocês estão? – Grito, olhando em volta do lugar.
– Mãe? Pai? Apareçam, por favor. – Grita Lianna, esboçando uma grande preocupação, enquanto acaricia sua barriga.
Inúmeros empregados da casa corriam, desesperados. O som de luta vinda do lado de fora do castelo demonstra que a coisa estava mais perigosa do que imaginávamos. Puxo Lianna para subirmos as escadas.
– Eles podem estar no segundo andar. – Digo, vendo a confusão nos olhos da mulher.
Lianna balança a cabeça, concordando e começa a subir com pressa as escadas. Tento parar alguns empregados da casa, mas todos estavam mais preocupados em salvar suas vidas do que parar para nos informar sobre o paradeiro de Rachel e Vincent.
– Mãe? Pai? – Grita Lianna, mais uma vez, assim que chegamos ao segundo andar.
– Lia! – Grita Rachel, em resposta, enquanto corria em nossa direção. – Oh Deus! O que você está fazendo aqui? Deveria estar em casa, em um lugar seguro.
– Eu não queria ficar sozinha em casa. – Responde Lianna, abraçando a mãe. – Onde está o papai?
– Está ajudando o rei. – Explica Rachel, com pesar em sua voz. – Edgar resolveu aparecer no momento em que Krósvia menos poderia aguentar um confronto direto.
– Matthew pediu para que nos juntássemos com a senhora e o senhor Vincent. Que deveríamos ir para um lugar seguro e aguardar até que tudo tenha acabado. – Digo, lembrando-as, que não tínhamos muito tempo. Com a luta se aproximando da entrada principal do castelo, não demoraria muito para que os homens de Edgar invadissem o palácio.
– Manu tem razão. – Concorda Rachel, olhando com seriedade para a filha. – Venham comigo.
Rachel pega na mão da filha e começa a nos guiar para o andar superior. O barulho de tiros e outras explosões era audível mesmo a metros de distância. Pelas janelas víamos o cenário caótico que a cidade havia se tornado. Inúmeros homens lutavam, havia vários cavalos espalhados pelo lugar e muitas pessoas corriam em busca de abrigo.
Meu peito se apertava ao notar que meus irmãos e pai poderiam estar no meio daquela guerra. Eu me perguntava se Tyler e Taynara ficariam bem, mesmo estando distantes dos confrontos. Eu só rezava para que tudo acabasse logo.
Não demoramos a chegar ao quinto andar. Lianna, Rachel e eu respirávamos com dificuldade. Em tempos normais, seria quase suicídio ir para o andar reservado para a família real, mas, agora, aquele era o lugar mais seguro do castelo.
Repleta de passagens secretas destinadas a garantir a segurança dos reis e príncipes, o último andar do castelo possuía inúmeras portas e armadilhas. Rachel, sendo uma das poucas pessoas que poderia ter acesso ao andar, conhecia o castelo melhor do que ninguém, assim como seus segredos. Ela analisava o corredor com atenção, como se pensasse qual era a nossa melhor alternativa.
– Rachel, Lianna. – Chama Prince, saindo de seu quarto, surpreso. Ele vestia uma roupa de batalha e carregava uma grande espada em sua mão, em posição de ataque. Provavelmente, imaginou que éramos inimigos.
– Prince, você irá lutar? – Questiona Rachel, preocupada.
– Eu preciso lutar. – Responde, olhando diretamente para mim.
– Tome cuidado, por favor. – Pede a senhora, analisando o garoto com tristeza. – As coisas estão perigosas por toda a cidade.
– Eu sei. – Fala Phillip, suspirando em seguida. – Mas o meu povo precisa de mim. Irei protegê-los, não importa o que aconteça.
– Boa sorte, Prince. – Deseja Lianna, sorrindo com preocupação para o garoto. – Estaremos torcendo por sua vitória.
– Obrigado. – Agradece, sorrindo confiante. – Agora se escondam. Não sabemos o que pode acontecer de agora em diante.
Prince começa a caminhar na direção oposta à nossa, mas, por impulso, seguro o seu pulso, preocupada. O rapaz para de andar e me olha, confuso, aguardando que eu dissesse o que eu queria.
– Espere. – Digo, reunindo toda a coragem que eu tinha para continuar. – Eu vou com você.
– O que? – Pergunta o príncipe, surpreso.
– Manu, você não pode ir. – Repreende Lianna, preocupada. – Um campo de batalha pode ser muito mais perigoso do que você imagina.
– Eu sei. – Concordo, ainda sem me deixar abalar. – Mas não irei conseguir ficar aqui, esperando notícias. Eu vou enlouquecer.
– Você ainda é uma criança, Manu. – Fala Rachel, tentando me convencer. – Não pode ir para a guerra. Seu pai e irmãos nos matariam se soubessem que você foi para o meio dos confrontos.
– Você deveria ouvi-las. – Responde Prince, olhando-me com seriedade.
– Eu sei, mas não irei. – Digo, olhando com determinação para Prince. – Por favor, me deixe ir com você.
– Você ao menos sabe os riscos que irá correr se for comigo? – Questiona Prince, parecendo hesitar em permitir que eu fosse consigo.
– Prince, por favor. Por favor. Eu estou te implorando. – Meu desespero era evidente em minha voz. Eu não conseguiria ficar escondida, sabendo que minha família inteira estava correndo perigo.
Phillip me encara com intensidade. Seus belos olhos exibiam emoções difíceis de identificar. Por fim, ele suspira e puxa seu pulso de volta, no qual eu não havia notado que ainda segurava. Prince me estende a mão e eu a encaro sem entender.
– O que está esperando para me dar sua mão? – Pergunta o rapaz, impaciente.
Desconfiada, estendo minha mão. Prince me entrega sua espada e me olha em desafio. Encaro-o, sem entender aonde ele queria chegar. Notando a minha confusão, o príncipe revira os olhos e suspira, parecendo cansado.
– Caso ainda não tenha entendido, eu estou te dando uma arma. Ou pretendia ir para a guerra sem nenhum equipamento? – Fala, seriamente. Envergonho-me, por não ter pensado nisso. – Como eu imaginei. Se você não for capaz de se defender será somente um peso morto para mim.
– Eu já entendi. – Digo, arisca, sentindo meu rosto corar levemente.
– Já estava na hora. – Ironiza, começando a caminhar. Vendo que eu ainda estava parada no mesmo lugar, observando sua espada, o rapaz suspira alto, demonstrando sua irritação. – O que você está esperando, Emanuelle?
– Mimado irritante. – Sussurro, tentando controlar a minha vontade de estrangular o futuro rei de Krósvia.
– Eu ouvi isso. – Fala Prince, sem olhar para trás, enquanto seguia para a escada que levava ao andar inferior.
– Que ótimo. – Grito, ironizando. Viro-me para Lianna e Rachel que nos encaravam com divertimento. Olho desconfiada para as duas e as mesmas apenas riem e dão de ombros. Ignoro. – Por favor, fiquem bem.
– Não se preocupe conosco. – Afirma Lianna, com um sorriso gentil. – Tome muito cuidado, querida. Não importa o que aconteça, não saia de perto de Prince. Apesar de tudo, tenho certeza que ele não permitirá que ninguém te machuque.
– Eu estou indo. – Digo, sorrindo, enquanto respiro fundo, na tentativa de controlar o meu nervosismo.
Aceno para as mulheres e corro o máximo que posso para alcançar Prince. Quando finalmente consigo avistá-lo, novamente, ele já estava com uma espada em sua cintura e uma arma em mãos. Aproximo-me do rapaz, ofegante.
– Por que demorou tanto? – Pergunta o rapaz, encarando-me com intensidade.
– Pare de reclamar e vamos logo. – Respondo, tentando passar por Prince, mas sou impedida por seu braço. – O que?
Phillip pega um capacete, que estava sobre uma mesa lateral que havia no corredor que levava ao lado de fora do castelo, e me estende. Coloco a peça protetora de cor vermelha e balanço a cabeça, afirmando que eu estava pronta.
Antes que déssemos o primeiro passo para fora da fortaleza, uma granada é jogada no jardim do castelo que estava próximo de nós. Prince se joga a minha frente, abraçando-me e, segundos depois, a espessa camada de neve se torna em apenas pedaços de flores, água, terra e restos dos corpos dos guardas que estavam no local no momento da explosão.
– Você está bem? – Pergunta Prince, soltando-me aos poucos, no entanto, continuava próximo de mim. Meu ouvido latejava e meu coração parecia prestes a explodir. Balanço a cabeça, concordando, ainda que estivesse muito assustada. — Certeza?
– Sim. – Afirmo, meio rouca. — Vamos? – Digo, tentando ignorar o medo que voltava a gritar dentro de mim.
Começo a andar, mais uma vez, cuidadosamente, temendo que outra granada fosse jogada. Minhas botas afundavam no fofo piso de neve e, apesar da baixa temperatura que fazia, a adrenalina em meu corpo impedia que eu sentisse frio.
A cena era assustadora. Mais de vinte homens haviam morrido na explosão e por muito pouco Prince e eu não fomos atingidos. Meu estômago se revira, ao ver braços, pernas e outras partes de corpos jogados pelo jardim do palácio.
– Manu. – Chama Prince. Paro de andar e me viro para o príncipe, segurando com força a espada em minha cintura que ele havia me dado, enquanto observo-o se aproximar de mim. Quando estava a poucos centímetros de distância, Phillip tira a armadura que havia em seu tronco e me entrega. – Coloque isso.
– Você pode se ferir se não usar isso. – Digo, sem acreditar na ação do rapaz. – Por favor, volte a colocar a armadura.
Phillip me encarava seriamente. Seu olhar começava a me incomodar, no entanto, não desvio meus olhos dos seus. O rapaz suspira e balança a cabeça, negando.
– Coloque essa armadura imediatamente, Emanuelle. Isso é uma ordem. – Ordena o príncipe, assumindo uma postura rígida e típica de um aristocrata.
– Por que quer tanto me proteger? Você é o primeiro na linha de sucessão do trono. O povo espera pelo seu legado. Você precisa sobreviver a guerra, não eu. A minha morte não mudaria em nada neste país, mas a sua...
– A sua morte mudaria a minha vida. – Confessa, me surpreendendo. – Você é a pessoa mais próxima que tenho de uma amiga. Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse a você, além disso, seus irmãos me matariam se soubessem que eu estou levando você para um campo de batalha, totalmente desprotegida. Então, por favor, coloque essa armadura.
Olho surpresa para o garoto, sem saber o que falar. A minha falta de resposta parece afetar Prince a ponto de lembrar de suas palavras. Vejo suas bochechas corarem um pouco e ele virar a cara para qualquer outro ponto, menos o meu rosto.
– Obrigada, Prince. De verdade. – Agradeço, pegando a armadura, sorrindo. Talvez, eu estivesse errado sobre o rapaz. Visto a armadura e pego minha espada com a mão direita e com a esquerda pego na mão do príncipe. – Agora, nós precisamos ir. Uma batalha importante nos espera.
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