Fire Scars
8 Equipe Invencível
Notas iniciais
Capítulo VII — Equipe Invencível
"As coisas não são fáceisEntão apenas acredite em mim agoraSe você não manter a calma agoraVocê nunca vai conseguir."Hear Me Now — Alok
Krósvia – 1995
O silêncio voltou a pairar pela floresta após a explosão. Com dificuldade, levanto-me do chão e me arrasto na direção onde estava o corpo de Taynara. Minhas lágrimas desciam intensamente. Eu sentia um forte aperto em meu coração e a culpa por não ter a impedido de ir ao encontro das barracas com materiais inflamáveis.
O lugar estava completamente destruído. Haviam corpos e restos de membros de soldados espalhados por todo lugar. As chamas consumiam com intensidade o restante de matéria que ainda havia resistido a explosão e atingia até mesmo algumas árvores que estavam próximas.
Pela localização, eu sabia que o acesso não seria tão fácil dos soldados inimigos ao quartel general, mas isso não significava que tínhamos muito tempo. Com toda a região em guerra poderia ter diversos homens espalhados pelas redondezas e que não demorariam tanto para aparecer a procura de respostas para o que havia acontecido com o quartel general deles no país inimigo. No entanto, eu nem mesmo estava me importando com esse detalhe. Todos estávamos abalados e ansiavam por notícias da garota que ainda não havia se movido nem um milímetro desde o ocorrido.
A criança que ela havia salvo, chorava assustada. O garoto franzino de cabelos dourados não deveria ter mais do que cinco anos de idade. Ele não aparentava estar machucado. Mesmo que tenha ficado com a perna presa, milagrosamente, o garotinho havia conseguido escapar ileso da forte explosão.
Gavin é o primeiro a alcançar Taynara. Com cuidado, ele vira a garota para si e retira o menino de seus braços, que olhava a sua volta, transtornado com a série de eventos que havia presenciado. Tyler o pega, tentando acalmá-lo, enquanto observa Gavin aplicar os primeiros socorros em Taynara.
O loiro examina com atenção cada parte do corpo de Taynara e a cada instante que passava, menos me agradava a sua expressão. Tento apressar meus passos, mas acabo tropeçando com a quantidade de neve que havia no lugar e por muito pouco não acabo indo ao chão. Ainda que o fogo esquentasse a região em que estávamos, nada era capaz derreter por completo o gelo do inverno intenso em Krósvia.
Prince se aproxima de mim e me ajuda a chegar mais perto de minha amiga. A neve caia junto as fagulhas que vinham das barracas e dos trailers que foram explodidos. Minhas lágrimas se intensificam ainda mais ao notar o quão machucada Taynara estava. Seu corpo estava cheio de ferimentos e queimaduras, em sua cabeça havia um corte, aparentemente, profundo, sendo esse o provável responsável pela inconsciência da garota.
— Gavin... ela... – Tento dizer algo, mas as palavras morrem em minha garganta. Eu me sentia tão culpada.
— Ela está viva. Mas, esse corte em sua cabeça me preocupa. – Admite Gavin, usando a manga de sua blusa para estancar o sangramento. – Ela precisa ser levada imediatamente para um hospital.
— E o que faremos com essa criança? – Pergunta Tyler, balançando o garoto de um lado para o outro. Ele parecia assustado e segurava com firmeza o pescoço de meu primo.
— Por enquanto, vamos levar Taynara para o centro da cidade e procurar por ajuda. Depois vemos o que fazemos com esse garoto. – Responde Prince, assumindo a sua postura como líder.
Olho para o céu e observo as nuvens. Não havia dúvidas de que uma tempestade de neve muito mais intensa do que a que pegamos anteriormente estava por vir. Carregar Taynara no colo parecia ser perigoso para a garota, levando em consideração seu estado atual.
Procuro ao meu redor, algo que pudesse servir como um transporte mais seguro para Taynara e me surpreendo ao encontrar alguns panos, cordas e madeiras próximas das barracas em chama. Pego na mão de Prince e puxo levemente para que ele me seguisse.
— O que foi? – Questiona o príncipe, visivelmente confuso.
— Podemos usar aqueles materiais para construir uma maca para levar Taynara em segurança. Henry sempre me diz que quando alguém se machuca gravemente, devemos tomar cuidado ao movê-la. Não sabemos se ela fraturou algum osso ou possui alguma lesão em algum órgão do corpo. Qualquer movimento errado pode ser fatal. – Conto a Phillip, relembrando dos ensinamentos medicinais de meu irmão mais velho. O rapaz concorda com a minha afirmação e se apressa para pegar as madeiras, cordas e panos que ainda não haviam sido pegos pelas chamas.
— É uma boa ideia. – Afirma o futuro rei de Krósvia, encarando-me com esperança.
— Vamos construir uma maca. – Grito para Gavin e Tyler. Eles acenam, demonstrando concordarem com a ideia.
Desajeitados, Prince e eu organizamos duas madeiras paralelamente e amarramos o pano mais grosso que encontramos com as cordas para garantir que não se soltariam enquanto seguíamos para o centro da cidade. Assim que terminamos, relinchos de cavalos ecoam pela floresta. Aquele era um sinal de que deveríamos nos apressar. Ainda que a neve se tornasse a nossa maior aliada nesse momento, a cavalo nossos inimigos não demorariam muito para nos alcançar e não temos condições nenhuma de lutar.
Corremos até onde estavam nossos amigos e, com cautela, Prince e Gavin colocam Taynara na maca. Com muito esforço, consigo pegar o garotinho de Tyler, que recolhe todas as armas que consegue carregar. Apressados, andamos com dificuldade pela neve, tentando nos afastar o máximo possível.
Surpreendentemente, Tyler conhecia aquela floresta como ninguém e conseguiu nos guiar por um caminho diferente ao geralmente usado pelos soldados. Ainda que fosse um percurso mais longo e complicado – o que não era tão difícil assim de acontecer, tendo em vista que estávamos na Colina Negra -, na situação em que estávamos, não poderíamos arriscar um encontro com soldados inimigos.
A noite chega rapidamente e com ela a tempestade que eu havia previsto. Taynara estava com febre ainda mais alta e gemia de dor. Os meninos sentiam dificuldade em controlar a maca, devido ao frio e a camada grossa de neve que havia sobre o chão. O garotinho, que descobri se chamar Sean, estava encolhido em meus braços, coberto por um casaco grosso de um soldado morto que eu havia encontrado enquanto caminhávamos pela floresta.
— Nós estamos próximos de nossa casa. – Avisa Tyler, gritando cansado. Todos nós respirávamos com dificuldade e não conseguíamos ver muito a nossa frente. – Nessas condições, não podemos ir a um hospital, então vamos ter que rezar para que Henry esteja em casa e possa nos socorrer.
— Taynara não vai aguentar por muito tempo. – Complementa Gavin, ajeitando a maca pesada. – Esse Henry pode mesmo salvá-la?
— Não se preocupe. – Responde Prince com confiança. – Ele é o melhor fitoterapeuta de Krósvia. Não há nenhum medicamento que Henry não saiba fazer com suas ervas. Se existe alguém que possa curar Taynara, com certeza é o Henry.
Gavin não volta a nos questionar. Provavelmente decidiu acreditar em meu irmão. Acaricio as costas de Sean e sinto sua respiração bater em meu pescoço. Ele dormia tranquilamente e encolhido em meus braços. Eu caminhava com dificuldade. Apesar de ser magro, o peso de seu casaco, corpo e o frio que fazia tornava a viagem dez vezes mais cansativa que o normal.
Alguns minutos a mais, andando contra a tempestade, suspiro aliviada ao ver minha casa a uns vinte metros de distância. Conforme nos aproximamos, é possível ver as luzes da casa ligadas, o que indicava que ou meus irmãos ou pai estavam em casa.
— Chegamos! – Celebro, quando enfim conseguimos pisar na entrada da casa. Sean se mexe em meus braços, incomodado com a minha agitação. Bato freneticamente na porta a espera de que alguém nos atendesse.
— Rápido, Manu! – Apressa Prince, exausto.
A porta não demora a ser aberta por meu pai, que nos encara assustado. Notando a gravidade da situação, ele abre a porta por completo e dá espaço para que entremos. Tremendo de frio, nós entramos na pequena casa com pressa. Foi inevitável não suspirar aliviada ao sentir o calor agradável do ambiente.
Eu estava completamente molhada e respirava com dificuldade. Sean finalmente acorda e consigo colocá-lo no chão, enquanto recupero meu fôlego. Assim como eu, Tyler se livra de todas as armas que carregava e se senta no chão, exausto. Meu pai ajuda Gavin e Prince a colocar Taynara no sofá e a encara com preocupação.
— Henry! – Grito, torcendo para que meu irmão estivesse em casa. – Ajude-nos, por favor!
No mesmo instante, meus irmãos aparecem na sala, vestidos com roupas grossas. Henry suspira aliviado, mas não demora muito para que entenda o que estava acontecendo. Ele se livra da touca e das luvas e corre até a cozinha para pegar seu kit de primeiros socorros. Tony, por outro lado, aproxima-se de nós e verifica se Taynara estava bem.
Após verificar a pulsação da garota e constatar que ela estava febril, Tony analisa o ferimento em sua cabeça e suspira, insatisfeito. Henry aparece com sua maleta e uma bacia com água e um pano. Meus irmãos se encaram por alguns instantes e o mais velho balança a cabeça, negando, como se dissesse que a situação era pior do que o outro imaginava.
Henry começa a cuidar do corte mais profundo de Taynara, enquanto Tony se aproxima de nós. Meu pai aparece novamente na sala com toalhas e nos entrega. Tyler, Gavin, Prince e eu nos acomodamos da melhor maneira possível naquela pequena sala de estar, enquanto Sean se aproxima e me abraça, sentando em meu colo.
— Onde vocês estavam? – Questiona meu irmão mais velho com repreensão e seriedade. Era nítido que ele estava furioso. – Vocês têm alguma noção do quanto Henry, meu pai e eu ficamos preocupados com vocês?
— Nós não podíamos ficar aqui esperando de braços cruzados, enquanto uma guerra está acontecendo por todo o país. – Respondo, apertando Sean ainda mais contra mim.
— Vocês são crianças, Emanuelle. Crianças! Nós não estamos indo para a guerra porque queremos. O mundo não é um conto de fadas. As pessoas morrem! – Afirma Tony um pouco alterado. Eu nunca tinha visto meu irmão tão transtornado como naquele momento.
— O importante é que eles estão bem, Tony. – Meu pai tenta intervir, mas Tony não abaixa a guarda. Ele lança um olhar severo a meu pai que se cala no mesmo instante.
Anthony dificilmente perdia a paciência. Sendo o mais calmo dos três filhos, meu irmão era responsável e disciplinado. Desejando um dia se tornar um comandante tão habilidoso quanto meu pai, Tony tentava sempre manter a calma para lidar com situações críticas. No entanto, quando ele sai do sério, ninguém se arrisca desafiá-lo. Até mesmo meu pai abaixava a cabeça e ficava calado quando via o primogênito alterado.
— Sabe o quanto fiquei preocupado quando fui buscá-la no castelo e só encontrei centenas de corpos pelo lugar? O caos estava espalhado pela cidade, o príncipe de Krósvia e seu primo convidado, Gavin Darius, estavam desaparecidos, eu não fazia a mínima ideia de onde você estava e Matt... – Meu irmão suspira com tristeza e leva a mão as têmporas, massageando o lugar. Estava sendo difícil para meu irmão lidar com a morte do melhor amigo. Eu sabia que ele estava se fazendo de forte, mas a dor era visível em seus olhos.
— Me desculpa, Tony. A culpa foi minha. – Respondo, começando a chorar com intensidade. Eu me sentia tão culpada que meu peito doía.
— Não chora. – Pede Sean, levando a mão ao meu rosto para limpar as lágrimas.
Todos me encaravam com tristeza e a atitude amável da delicada criança só me faz chorar ainda mais. Até quando nós seriamos obrigados a viver em guerra? Por que as pessoas desejam tanto o caos e a maldade? E mais uma vez começo a pensar em Lianna e April. O que será das duas sem Matt? Elas com certeza vão me odiar, e com razão.
— A culpa não foi sua, Emma. – Afirma Tony, aproximando-se de mim. Assim como Sean, ele limpa as minhas lágrimas e beija minha testa. – Ele foi um soldado que morreu com honra, cumprindo seu maior dever. Os verdadeiros culpados são os soldados de Edgar que o atacaram.
— Mas ele morreu tentando me proteger. – Argumento, chorando com ainda mais intensidade.
Meu irmão pega Sean de meu colo e o entrega a Tyler. Em seguida, ele se aproxima de mim e me obriga a levantar. De joelhos, olhando em meus olhos, Tony limpa meu rosto mais uma vez e o acaricia. Ele me analisa com doçura e me abraça com intensidade. Correspondo ao gesto, sentindo-me acolhida pelos braços de meu irmão mais velho.
Como um pai, ele me consola dando tapinhas em minhas costas. Assim que sente que estou mais calma, Tony se afasta e beija minha testa mais uma vez. Soluço algumas vezes, mas consigo controlar o choro. Respiro fundo para recuperar o fôlego e volto a abraça-lo.
— Nada muda o fato de que ele morreu como um herói. Eu serei eternamente grato a ele por ter salvado você, Emma. Todos nós fomos vítimas dessa maldita guerra. Ninguém acha que você é a culpada, irmãzinha. Nem mesmo Lianna. – Tony me abraça ainda mais apertado e me pega no colo como se eu fosse um bebê. Apesar de odiar quando ele fazia isso, naquele momento, o carinho de meu irmão mais velho era tudo o que eu mais precisava.
— Eu te amo. – Afirmo, apertando o pescoço de Tony, enquanto escondo meu rosto na curvatura de seu pescoço.
— Eu também te amo, irmãzinha. E é por isso que você tem que me prometer que nunca mais vai me dar um susto desses que me deu hoje. – Pede Tony, com um pouco de repreensão em sua voz.
— Tudo bem. Eu prometo que não vou mais te preocupar. – Prometo com seriedade. Tony sorri e finalmente me coloca no chão.
— E poderia me dizer quem é esse garotinho? – Pergunta Tony, acariciando o cabelo loiro de Sean.
— O nome dele é Sean. – Respondo, sorrindo um pouco desanimada para a criança que me encarava com preocupação.
— Taynara o salvou enquanto invadimos o quartel general do exército do rei Edgar. – Completa Tyler, observando Taynara com tristeza. – Foi assim que ela se machucou.
— Espere um pouco. O que você disse? – Pergunta meu pai, surpreso. – Vocês atacaram o quartel general dos homens de Edgar? Uau. Estou bastante impressionado. – Meu pai então leva a mão ao queixo e parece analisar a situação. – Pensando bem, somente agora notei que vocês estão vestidos com o uniforme das tropas de Edgar. Como vocês conseguiram isso?
— Na verdade, não foi tão difícil assim. – Afirma Phillip com sinceridade. – Nós conseguimos os uniformes
— Eu disse antes. Não podíamos esperar de braços cruzados. Uma guerra está acontecendo e nós decidimos arriscar. – Tento explicar a meu pai, ainda que estivesse incerta sobre o que dizer.
A minha relação com meu pai não era algo simples de definir. Apesar de ser muito carinhoso e compreensível quando está por perto, eu não me sentia tão próxima assim dele. Por não ser tão presente, eu o encarava como um homem que devia respeito e obediência. E era em momentos críticos como esse que eu não sabia bem como me dirigir a meu pai.
Enquanto Anthony agiria de maneira sensata, procurando uma forma de resolver o problema, meu pai era uma incógnita para mim. Eu não conseguia sentir a mesma confiança que sinto com meu irmão mais velho. A verdade era que eu acabei transformando Tony em minha figura materna e paterna em casa. Ele havia me educado e participado de todos os momentos em minha vida.
— Eu sinceramente não sei o que fazer com vocês. – Afirma Tony, demonstrando sua frustração. – Eu já estou acostumado com as atitudes impensáveis de Prince e Manu, mas eu esperava que você os impedisse, Tyler.
— Eu sinto muito, Tony. Eu juro que eu tentei, mas eu também estava frustrado com essa situação. – Tyler parecia tão chateado consigo mesmo quanto eu por ter decepcionado Tony.
— Eu também tive uma grande parcela de culpa no que aconteceu. – Admite Gavin, aproximando-se de meu irmão. Ele provavelmente havia entendido que Tony era quem possuía o maior poder em nossa casa. O loiro estende sua mão para meu irmão e faz uma leve reverência. – Eu sou Gavin Darius. Eu e meu pai viemos para Krósvia para ajudar com a guerra. Eu só não podia aceitar ver meu pai lutando e não fazer nada. Eu fui treinado para isso desde que era criança. Eu fui criado para me tornar um soldado. Sinto muito por ter colocado sua família em perigo e não ter sido capaz de proteger Taynara.
— Eu ouvi falar de seus feitos, milorde Darius. É um jovem com grandes habilidades, apesar da pouca idade. – Responde Tony, apertando a mão de Gavin. – Eu sou Anthony Santos, mas pode me chamar de Tony. – Meu irmão suspira e solta a mão do rapaz. – Infelizmente, não posso deixar de dizer que estou desapontado por ter envolvido todos eles em uma guerra. Tyler e Prince possuem experiência em lutas, mas Emanuelle e Taynara são apenas garotas com espíritos fortes. Ainda que eu saiba que são capazes de lutar bravamente, as duas não estavam em condições de invadir o quartel general inimigo.
— Mas nós vencemos, Tony! – Reclamo, insatisfeita com a confissão de meu irmão.
— É verdade! Ainda que ninguém acreditasse, nós conseguimos destruir o quartel general. – Concorda Prince, colocando-se ao meu lado.
— A custo de que? Da vida de sua amiga? – Pergunta Tony, encarando Henry que estava concentrado cuidado dos ferimentos de Taynara. Aquelas palavras foram como facas atravessando meu corpo. – Nem toda vitória terá um gosto bom. Nem todo o “para o bem maior” vale realmente a pena. Vocês podem ter vencido essa batalha, mas colocaram em perigo a vida de vocês sem nem mesmo pensar nas consequências.
— Eu acho que eles já entenderam, Tony. – Afirma meu pai, dando alguns tapas no ombro de meu irmão.
— Tudo bem, pai. – Concorda Anthony, abaixando a cabeça como um sinal de respeito a decisão de meu pai.
— Eu preciso voltar para o castelo. – Avisa o mais velho, dando uma rápida olhada em todos os rostos presentes. – A tempestade parece ter dado trégua e o rei deve estar esperando um relatório do dia. Cuide de seus irmãos e de Taynara. Levarei o príncipe Phillip e o milorde Darius comigo. Seus pais devem estar preocupados.
— Tudo bem. – Concordam Gavin e Prince ao mesmo tempo.
— Eu irei preparar alguns suprimentos para levarem. Esperem um pouco. – Pede Tony, indo em direção a cozinha para pegar as mochilas com alguns itens essenciais para a viagem.
Meu pai vai para seu quarto, restando apenas Tyler, Gavin, Prince, Henry, Taynara e eu na sala. Aproximo-me da garota que ainda estava inconsciente e observo seu rosto sereno. Apesar dos ferimentos, ela já parecia bem melhor. A face, antes pálida, expressava um pouco mais de cor e saúde.
— Os ferimentos dela foram bem profundos. Ela teve sorte de ter sobrevivido. – Afirma Henry, colocando um pouco de polpa de alguma erva sobre as queimaduras nos braços de Taynara. – Se tivessem demorado mais alguns minutos, ela teria morrido.
— Obrigada por cuidar dela, Henry. – Agradeço e meu irmão apenas balança a cabeça, negando qualquer agradecimento. Ele estava concentrado demais no que fazia para demonstrar qualquer emoção, mas eu sabia bem o que se passava em sua cabeça. Ser capaz de salvar uma vida de uma pessoa era o que mantinha vivo o sonho de Henry de se tornar um grande fitoterapeuta, reconhecido mundialmente.
— Vocês nos deram um susto e tanto hoje. – Comenta Henry, preparando um pouco mais da polpa para colocar em outras queimaduras que haviam pelo corpo de Taynara.
— Eu sei. Nós sentimos muito por ter preocupado vocês. – Lamento, sentindo-me mal, mais uma vez, por ter causado tantos problemas aos meus irmãos.
— Deveriam sentir mesmo. Eu nunca vi o Tony tão desesperado como ele ficou quando viu que vocês não estavam em lugar algum. – Afirma meu irmão, olhando brevemente para mim. – Mas estou feliz que estejam bem. Taynara também não deve demorar a se recuperar por completo. Entretanto, ela terá de ficar completamente em repouso.
Suspiro aliviada pela notícia. A minha maior preocupação desde que havíamos saído do quartel general de nossos inimigos era as consequências que o forte impacto da explosão poderia ter sobre o corpo delicado de Taynara. Ela já estava doente quando saímos de casa e esse fato só me deixava ainda mais preocupada.
E se ela piorasse? Eu jamais me perdoaria se ela tivesse sequelas que atrapalhasse para sempre sua vida. Eu realmente estava grata pelas habilidades de meu irmão. Apesar de agir como se não tivesse feito nada demais, eu sabia que havia sido um caso extremamente delicado. A maneira como Henry reagiu era a prova viva de que por muito pouco Taynara não morreu.
— Não se preocupe. Eu vou cuidar dela como ninguém. – Respondo com sinceridade. Meu irmão ri e assente.
— Eu sei que vai. – Concorda Henry, dando uma piscadela.
— Aqui está. – Tony aparece na sala com três mochilas, entregando duas a Prince e uma a Gavin. – Coloquei lanternas, cordas, alguns agasalhos, água e comida. Apesar da viagem não ser tão longa, o caminho está coberto de neve e repleto de armadilhas. Tomem cuidado.
— Pode deixar. – Responde Prince, sorrindo discreto para meu irmão.
— Certo. – Tony sorri e bagunça um pouco o cabelo de Prince como um verdadeiro irmão mais velho. Ele faz uma breve reverência a Gavin e sorri, transmitindo um pouco de apoio ao rapaz. Por fim, meu irmão se vira para Tyler, que segurava Sean no colo, e estende seus braços. – Por que não vem comigo, Sean? Eu vou fazer um delicioso chocolate quente e te darei saborosos biscoitos. O que você acha?
— Biscoitos de chocolate? – Questiona Sean, arrancando risos divertidos de meus irmãos.
— Tudo bem. Biscoitos de chocolate. – Concorda Tony e no mesmo instante Sean vai para seu colo. Não consigo evitar não ri do comportamento do adorável garotinho. Apesar de tudo o que passou, ele se mantinha firme e parecia inocente a guerra que ocorria ao seu redor.
Após Tony ter ido para a cozinha com Sean para preparar um lanche para o garoto, Henry arruma seus medicamentos em sua maleta e vai para o seu quarto. Instantes depois meu pai aparece completamente agasalhado e com alguns casacos, tocas e luvas para entregar aos meninos.
— Agasalhem-se bem. Apesar da tempestade ter passado, o frio continua intenso lá fora. – Avisa meu pai, entregando as roupas para os rapazes. – Enquanto vocês terminam de vestir as roupas, eu irei preparar os cavalos que estão no celeiro. Não demorem.
— Sim, senhor. – Concorda Prince, colocando a touca em sua cabeça.
Gavin balança a cabeça, concordando, e começa a procurar as peças que usaria para a viagem. Meu pai deixa a sala e vai em direção aos fundos da casa, onde estava o nosso celeiro. Enquanto isso, permaneço ao lado de Taynara, observando-a dormi serenamente. Pego um coberto que meu pai havia trago e cubro a garota para que se mantivesse bem aquecida.
— É um alivio saber que ela está bem. – Afirma Prince, observando Taynara com atenção. – Nós levamos um susto e tanto.
— Ela foi muito corajosa em se arriscar para salvar a vida de Sean. – Comenta Gavin, pensativo. – Eu jamais imaginei que ela fosse capaz de fazer algo tão heroico como isso.
— Eu me sinto mal pelo que aconteceu com ela, mas não consigo evitar não me sentir orgulhoso por termos destruído aquele lugar. – Confessa Tyler, relembrando das explosões no galpão de armas e nas barracas de recuperação dos soldados. – Taynara é brilhante. Ainda não acredito que ela conseguiu elaborar um plano tão genial como esse.
— Isso é verdade. – Concorda Prince, terminando de vestir a sua última blusa de frio. – Ela com certeza tem o dom da estratégia. Apesar de só ter treze anos, Taynara parece ter uma experiência absurda com guerras.
— De qualquer forma, o mais importante é que conseguimos acabar com o quartel general dos homens do rei Edgar e sobrevivemos aos conflitos que enfrentamos. – Respondo, observando Taynara se mover, procurando a posição mais confortável para si. – Eu só espero que ela se recupere logo.
— Não se preocupa, Manu. Eu tenho certeza de que ela vai se recuperar logo, logo. – Afirma Tyler, sorrindo com confiança.
— E assim que ela estiver completamente recuperada, eu quero aprender mais sobre táticas de guerra com ela. – Fala Gavin, colocando as luvas em suas mãos. – Eu espero que isso aconteça o mais breve possível.
— Eu não sei vocês, mas eu tenho um pressentimento de que nós ainda vamos nos encontrar muito daqui para frente. – Comenta Prince com um sorriso presunçoso em seu rosto.
— Nós formamos uma boa equipe. — Afirma Gavin, concordando com a observação do príncipe. – Essa foi a primeira vez que trabalhamos juntos e já fomos capazes de destruir uma base militar do soldado inimigos. Imaginem só se treinarmos para agir juntos.
— Nós nos tornaríamos invencíveis. – Complementa Tyler, expondo o pensamento que todos tinham naquele momento.
Uma equipe invencível? Essas palavras não soavam nada mal. De maneira estranha e intrigante, eu me sentia conectada a esse grupo estranho de pessoas completamente estranhas. Mas ainda assim, é como se juntos pudéssemos enfrentar qualquer perigo.
Assim como Prince, eu também sentia que essa aventura que vivemos era apenas o início de nossas histórias. É como se eu pudesse pressentir que uma jornada ainda maior está para acontecer. Eu apenas torço para que qualquer desafio que surja a nossa frente, que sejamos capazes de enfrentar o perigo juntos, como uma verdadeira equipe.
Fale com o autor