Fire Scars

24 Despedidas - Parte II


Capítulo XXIII — Despedida — Parte II

"Oh, a vida passa

Não desperdice seu tempo

Consigo mesmo

À medida que seu coração se torna maior

E você tenta entender

O que é isso tudo

E sua pele se torna mais grossa

Enquanto você tenta entender

O que é isso tudo "

One Day – Kodaline

Krósvia – 1995

Diante da possibilidade de entrar em um submarino pela primeira vez, Manu sorri animada e apressa os passos em direção a Johnny. Os cinco russos que acompanhavam o loiro, nos observam em completo silêncio, como se buscassem qualquer sinal de ameaça de nossa parte, mas logo suavizam sua expressão ao ouvir algo de Johnny.

— Vamos entrar — informa Johnny, pulando de volta ao cais. — Estamos muito expostos aqui. Assim que estivermos debaixo d’água, eu vou apresentar vocês a nossa tripulação e explicar um pouco de como as coisas vão funcionar por aqui até chegarmos em Boise.

— Certo — concordo.

— Serguei, Bóris e Dimitri, preparem-se para ajudá-los a entrar submarino — avisa o loiro, apontando para os três homens, que assentem e se posicionam sobre a carcaça do submarino.

— Sim, senhor!

— Manu, Tyler e Prince, vocês precisam pegar impulso e pular na direção dos rapazes. Eles vão pegá-los e ajudá-los a entrar. Flexionem um pouco os joelhos para conseguir o impulso necessário para pular. Entendidos?

— Sim — respondemos.

— Quem vai primeiro? — questiona Johnny.

— Eu vou — afirmo, fazendo um sinal discreto para que meus amigos ficassem atentos.

Aquele submarino poderia ser uma armadilha para nós, então precisávamos prestar atenção em qualquer ação suspeita por parte deles, caso estivessem planejando nos machucar. A partir do momento em que estivermos no submarino, não seremos capazes de fugir, então precisávamos ter certeza de que não estávamos indo em direção a nossa morte.

— No três você pula, Prince — pede Johnny.

— Tudo bem — afirmo, um pouco hesitante.

— Um, dois... três!

Assim como orientado por Johnny, flexiono meus joelhos e pulo em direção ao submarino. Dois homens puxam meu braço antes que eu acabasse caindo no mar. Eu não conseguia vez com clareza as características de seu rosto, já que estava bastante escuro, mas noto que eles são bastante altos e fortes. Pude ver também que um era careca e outro usava uma espécie de coque.

— Obrigado — agradeço.

— Não há de quê — responde o homem de coque com um forte sotaque russo. — Fique perto de Irina e Olga para que não caia.

— Tudo bem.

Aproximo-me das garotas e elas me observam em silêncio. Posso notar que Johnny ajudava Tyler e Manu a subirem no submarino sem grandes problemas. Suspiro aliviado e volto minha atenção para as duas russas.

— Olá. Eu sou o...

— Phillip Dawson — responde uma das garotas, também com o sotaque russo. — Sabemos quem é você. Confesso que estou surpresa pelo herdeiro da coroa ter decidido se juntar a nossa causa. Achei que você fugiria como um gatinho assustado.

— Olga! — repreende a outra garota. — Você ouviu o Johnny. Controle-se!

— Eu não disse nada demais — resmunga Olga.

Olga se aproxima de mim e coloca o dedo indicador em meu peito. Noto que ela era bons centímetros mais baixa do que eu, mas nada impedia com que ela me intimidasse com sua postura mandona. Apesar de não a ver tão bem, eu podia sentir que seus olhos me fuzilavam.

— Eu estarei de olho em você. Não pense que receberá tratamento só por ser um príncipe. Atrapalhe os nossos planos e eu não hesitarei em cortar sua cabeça.

A russa se afasta, aproximando-se dos três companheiros que conversavam com Manu e Tyler. Ouço o suspiro da pessoa que imaginei se chamar Irina.

— Eu sinto muito pela Olga. Apesar de ser favorável a princesa Allycia, ela não é muito fã de você e da sua família. Não é nada pessoal. Ela apenas foi mais uma das vítimas dos ataques do rei Lester.

— Eu entendo. Não se preocupe. Meio que já estou acostumado com esse tipo de reação das pessoas que me conhecem — afirmo, dando de ombros. — E você é a Irina, certo?

— Isso. Irina Avilov. Seja bem-vindo a Resistência.

Ela me estende a mão e seu gesto amigável me surpreende. Correspondo ao aperto de mão com hesitação. Depois da reação da amiga dela, pensei que seria menosprezado por toda a tripulação do submarino.

— Obrigado, Irina. Você... não me odeia também? — pergunto, cauteloso.

— Não. Ao contrário da Olga, eu acredito que você é apenas mais uma vítima do rei Lester. Além disso, se você está realmente interessado em se juntar a nossa causa, é bom saber que teremos mais uma força para nos apoiar. A Resistência ainda é pequena. Por isso, quanto mais pessoas dispostas a lutar ao nosso lado, mais forte nos tornaremos — explica Irina.

— É bom saber que não sou odiado por todos — respondo, dando uma risada anasalada. — E eu juro que eu realmente desejo lutar ao lado de vocês para garantir que minha irmã assuma o trono e dê um fim a tirania de meu pai.

— Prince, Irina, vamos entrar. Precisamos partir — informa Johnny.

Irina faz um sinal para que eu fosse na frente e eu acabo acatando seu pedido mudo. Eu estava curioso para conhecer a tripulação e mais ainda para saber como é estar dentro de um submarino.

Seguimos para a vela, onde Johnny nos orienta a descer com cuidado pela escada. A descida é bem longa e a abertura para entrar no submarino é relativamente estreita. Assim que chegamos na proa, podemos ver que o local é bastante apertado e é repleto de canos, equipamentos e outros acessórios que eu não fazia ideia do que se tratava.

Quando todos descem, Johnny fecha a escotilha e informa que já estávamos preparados para submergir e iniciar a viagem.

Tyler, Manu e eu observávamos a tudo com interesse, cientes de que éramos analisados pelos tripulantes do submarino. Além dos cinco russos que nos recepcionaram, ainda havia mais umas quatro ou cinco pessoas no veículo marítimo, que haviam se aproximado com curiosidade e um pouco de insatisfação, como era o caso de Olga e mais alguns membros.

— Certo, pessoal. É bom finalmente estar aqui. Demoramos um pouco mais do que o esperado para formar de fato a Resistência, mas estamos aqui — afirma Johnny e todos aplaudem, animados.

Eu e meus amigos também aplaudimos, sem entender exatamente o que estava acontecendo. No entanto, sabíamos que não era o momento para manifestarmos nossas opiniões ou exigir respostas as nossas inúmeras perguntas.

— E dando continuidade, quero que conheçam Manu, Tyler e Prince — Johnny nos apresenta, apontando para cada um. — Eles serão nossos companheiros de viagem e espero que todos possam ajudá-los a se adaptar a rotina do submarino. Lembrem-se que os três são parte da Resistência agora. Esqueçam o passado deles e foquem no futuro. Passem todas as regras e informações importantes. Precisamos de toda a ajuda disponível e os três possuem bastante potencial, então conto com vocês. Estamos entendidos?

— Sim, senhor!

Apesar do grito alto em concordância, eu conseguia ver que nem todos estavam realmente de acordo com as palavras de Johnny, mas não parecia que questionariam a decisão do homem. E notar isso me leva a crer que o papel de Johnny Relish na Resistência era muito mais importante do que eu imaginava.

— Muito bem. Agora a nossa tripulação vai se apresentar para vocês — informa Johnny, encarando Manu, Tyler e eu. — Prestem muito atenção em seus nomes e funções de cada um deles aqui. Cada um tem um papel importante na Resistência e vocês precisam respeitar isso. Certo?

— Certo — concordamos.

— Pode começar, Irina — pede Johnny.

— Muito bem. Sejam muito bem-vindos, Manu, Tyler e Prince. Eu me chamo Irina Avilov. Eu tenho dezoito anos e apesar de ter nascido em Krósvia, precisei fugir para Rússia com a minha família quando ainda era um bebê. A minha função na Resistência é o de infiltração. Sou responsável por conseguir informações sobre tudo que envolve Krósvia, a princesa Allycia e o que pode ser importante para nós.

Irina se apresenta e posso ver uma certa tristeza em seus olhos ao falar sobre seu passado.

Ela possuía olhos azuis e longos cabelos loiros. Um pouco mais baixa do que eu, Irina parecia ser mais velha do que sua idade real. Ela também possuía uma aparência delicada, com sorriso doce e olhar amigável, mas algo me dizia que não deveríamos desafiá-la.

— Apresente-se Olga.

O pedido de Johnny faz a garota fazer uma careta, mas acaba suspirando ao se dar por vencida.

— Eu me chamo Olga. Tenho dezesseis anos e sou responsável pelo treinamento de combate da Resistência — responde a garota, surpreendendo-me com sua função.

Olga possui cabelos ruivos ondulados e volumosos, presos em um alto rabo de cavalo. Seus olhos são verdes intensos e assustadores. Seu rosto possui muitas sardas e havia uma enorme cicatriz que ia de sua sobrancelha até a boca. Ela é baixinha, mas sua expressão era bastante assustadora. Parece que está pronta para me matar a qualquer momento.

— Olá. Eu me chamo Cameron Lee, mas podem me chamar de Cam. Eu tenho dezessete anos e sou responsável por conseguir contatos que podem ser úteis para a Resistência, como conseguir pessoas para nos patrocinar ou que possam nos fornecer equipamentos. Sejam bem-vindos!

Cameron possuía olhos puxados, deixando claro a sua descendência asiática. Apesar disso, ele é bem alto e musculoso. Seu cabelo possui um topete que passa um ar despojado e ele parecia ser tão amigável quanto Irina.

— Meu nome é Bóris. Eu sou russo, mas sou casado com uma krosviana. Assim como Olga, eu sou responsável pelo treinamento de combate junto com ela e Dimitri.

Bóris era o homem careca, com olhos pretos intensos. Ele era alto e bastante sério. Não parecia hostil, mas eu não tinha certeza se ele estava feliz com a nossa presença. Ele também parecia ser um homem de poucas palavras.

— Sejam bem-vindos. Eu me chamo Dimitri Dubrov e, assim como meu amigo aqui, sou um russo casado com uma krosviana, por isso passei uns bons anos da minha vida morando aqui. Como Bóris disse, eu também sou responsável pelo treinamento de combate. Seremos os professores de vocês, então espero que sejam diligentes durante as nossas aulas.

Dimitri era o homem do coque que havia sido amigável comigo. Ele possuía o cabelo claro, quase loiro, olhos azuis e o corpo cheio de tatuagens, além de ser extremamente alto e musculoso. Algo me dizia que poderia ser bem doloroso levar uma surra dele.

— Eu me chamo Serguei e sou irmão do Dimitri. Minha função na Resistência é construir armas e equipamentos que podem ser úteis para nós. Sejam bem-vindos.

Serguei era fisicamente parecido com o irmão, mas os cabelos claros eram cortados curtinhos e os olhos azuis eram um pouco menos amigáveis. Ele parecia ser mais tímido, mas eu não conseguia sentir nenhuma hostilidade de sua parte.

— Olá. Eu sou a Rose. Rose Cooperman. Tenho trinta e dois anos e sou krosviana. Aqui no submarino, eu sou responsável pelas refeições, mas na Resistência, eu sou a professora de política. Sejam bem-vindos, crianças.

Rose tinha longos cabelos pretos e olhos castanhos calorosos. Parecia ser uma pessoa muito doce e gentil. Era a que parecia mais feliz pela nossa presença.

— Olá, Prince, Manu e Tyler. O meu nome é Melanie, mas podem me chamar de Mel. Eu tenho quarenta e sete anos. Assim como Rose, eu sou krosviana e faço parte da cozinha enquanto estamos no submarino, mas oficialmente eu sou professora de idiomas. Ensinarei vocês diversos idiomas que podem ser úteis. Sejam bem-vindos.

A mulher de cabelos curtinhos grisalhos sorri de forma amigável. Ela era baixa e magra, mas exibia uma elegância inquestionável. Seu olha intenso realmente me lembrava a minha professora de linguística quando eu ainda recebia aulas no castelo.

— O meu nome é Maria e serei a professora de geografia de vocês.

A mulher de cabelos longos ondulados, não parecia muito feliz em estar se apresentando para nós. Maria era alta e possuía olhos azuis gélidos. Pela forma como havia falado, ela deveria ser krosviana e mais uma das pessoas que odeia a minha família.

— Eu me chamo Paul. Eu nasci em Krósvia, mas tenho vivido em Boise há vinte anos. Eu serei o responsável pelas aulas de estratégia.

Paul era negro, alto, careca e possuía olhos pretos intensos. Ele também não parecia feliz com a nossa presença, mas esboçava menos do que Olga e Maria. O homem também possuía diversas tatuagens pelos braços.

— Olá, crianças. Eu sou a Catarina, mas podem me chamar de Cat. Eu tenho trinta e cinco anos, sou a irmã mais velha do Paul, esposa do Jay e mamãe da Ava, que deve nascer muito em breve. Minha função na Resistência é ensinar matemática, química e física para vocês. Sou a mulher dos números! Sejam muito bem-vindos e obrigada pela ajuda. É ótimo ter mais pessoas em nosso grupo.

Catarina era uma mulher muito bonita e parecida com o irmão. Sua barriga estava grande, levando-me a crer que ela deveria estar grávida de seis ou sete meses. Negra, de olhos pretos, longos cabelos cacheados e volumosos, Cat passava a energia de ser alguém muito extrovertida e amigável.

— Olá. Eu sou o James Conway, marido da Cat. Podem me chamar de Jay. Eu tenho trinta e oito anos e sou responsável por dirigir os veículos da Resistência e o professor de direção. Piloto veículos aéreos, aquáticos e terrestres. Sejam bem-vindos.

James também parecia ser amigável. Ele era pardo, tinha cabelos encaracolados e olhos castanhos. Ele não é tão alto, mas é bastante magricela. Usava óculos grossos de grau e parecia ser bastante inteligente.

— Eu sou o Hugo Barker. Professor de oratória e ajudo a Mel com todas as questões linguísticas. Sejam bem-vindos. Espero que possam aprender bastante e entender a importância das palavras em nossas vidas.

Hugo era um homem de meia-idade, pardos de olhos castanhos, bastante sério. Pela sua postura rígida e ereta, eu conseguia imaginar que ele era um homem rigoroso. Eu não sabia identificar também se ele estava de acordo com a nossa presença ou se aquele olhar intenso era sua forma de nos dizer que não estava feliz com a nossa presença.

— E por fim, eu me chamo Johnny Relish e sou o líder da Resistência.

A informação não me surpreende realmente. A forma com a qual todos o tratavam já me fez suspeitar de sua função na Resistência, mas parece que Manu e Tyler ainda não havia suspeitado e por isso o encaravam em choque.

— A partir de agora, seguiremos viagem em direção a Most, uma cidade que fica no interior de Boise, onde se encontra o nosso QG. A viagem deve demorar cerca de dez dias. Enquanto estiverem aqui, vocês deverão ajudar com as tarefas e iniciarão suas aulas. Cam e Irina irão ajudar vocês com a adaptação. Até chegarmos em Boise, decidiremos quais serão suas funções dentro da Resistência.

— Tudo bem. Obrigado, Johnny — agradeço.

— Certo. Vocês devem estar cansados. Vão se deitar e dormir um pouco. Quando acordarem, responderei as perguntas de vocês — orienta Johnny. Assinto, aliviado. — Irina, mostre as camas e apresente o submarino para eles. O restante de vocês, sentem-se na mesa. Iremos começar a nossa primeira reunião.

— Sim, senhor!

— Vamos pessoal. Eu vou mostrar tudo para vocês — informa Irina, fazendo sinal para que a seguíssemos.

Consigo sentir o olhar mortal de Olga para mim, mas resolvo ignorar enquanto passo a seguir Irina e Tyler, que estava na minha frente, pelo apertado submarino. Manu vem logo atrás de mim, curiosa sobre o restante do pessoal que havia se acomodado na mesa do local onde estávamos, para iniciar a reunião solicitada por Johnny.

Respiro fundo, tentando controlar a minha ansiedade. Sinto alguém pegar na minha mão e eu me surpreendo ao ver que se tratava de Manu. Ela sorri amável e assente.

— Eu sei que está nervoso, mas vamos ficar bem — afirma Manu, parecendo ter lido a minha mente. — Estamos finalmente deixando Krósvia. Estamos livres e longe do seu pai. Se tudo der certo, só voltaremos aqui quando formos capazes de conquistar a nossa vingança.

— Sim — concordo, entrelaçando meus dedos aos de Manu. Trocamos um sorriso confiante. — Um dia, seremos fortes o bastante para pisar orgulhosamente em Krósvia e nos vingar de todos aqueles que destruiu a nossa família e se aproveitou de nós. Até lá, vamos dar o nosso melhor.

Manu sorri e assente.

Aquela era a nossa despedida de Krósvia. O nosso doloroso e amargurado “até logo” para o país que um dia chamamos de lar e agora se tornou apenas um lugar que traz muitas lembranças dolorosas. Mas mesmo diante do medo e da ansiedade pelo futuro, eu sentia que a Resistência era o lugar certo onde devemos estar.