Fire Scars

25 Curiosidade


Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Novamente demorei mais do que gostaria, mas aqui estou com mais um capítulo. Muito obrigada VacuumCleaner pelo comentário no capítulo passado. Espero de verdade que goste desse. Boa leitura...

Capítulo XXIV — Curiosidade

"Não se intimide

Você define seus próprios limites

Quando você se intimida

Procurando por esse sentimento

Assim como um: Eu te amo

Que não é dito com palavras

Como uma música que ele escreveu e que nunca foi ouvida"

Shy Away – Twenty-One Pilots

Krósvia – 1995

Levanto-me assustado, após vivenciar um dos pesadelos mais aterrorizantes e reais que eu já tive. Por causa disso, preciso respirar fundo algumas vezes para conseguir diferenciar o sonho da realidade, já que a sensação de ser enterrado vivo continuava forte em meu corpo.

Eu me sentia sufocado.

Abro a fina cortina que trazia a privacidade para a minúscula cama em busca de um pouco de ar.

Durante o sonho, eu não conseguia me mexer, por mais que tentasse. A escuridão me cobria e por mais que eu tentasse gritar, a voz simplesmente não saia. Algo me impedia de gritar e pedir por ajuda. O ar começou a faltar e o desespero me atingiu.

Olho em volta, querendo garantir que tudo estava bem e aquele sonho era apenas o resultado do nervosismo de estar iniciando uma nova aventura, mas me surpreendo ao notar que Manu não se encontrava dormindo em sua “cama” e o local agora era ocupado por Cat, que dormia com a cortina aberta.

A zona habitável do submarino é uma espécie de charuto. É uma parte cilindra arredondada nas pontas. Por isso, não havia muito espaço para a tripulação de dezessete pessoas, então precisávamos reversar as apertadas nove beliches que havia disponíveis para nós.

Irina havia nos explicado que por causa da pouca quantidade de camas, nós deveríamos nos acostumar à prática do "beliche quente”, que basicamente se tratava de se deitar, após o turno de seis horas de trabalho, em uma cama que acabou de ser usada por outra pessoa.

Tomando cuidado para não acordar Tyler, que dormia na cama de baixo da minha, levanto vagarosamente e passo a andar pelo corredor, indo em direção a copa, que também funcionava como sala de reuniões.

Essa era outra regra importante nos submarinos, segundo Irina. Aparentemente, tudo naquele espaço minúsculo possui mais de uma função. Os tubos dos mísseis fazem o papel da geladeira, mantendo geladas as latas de bebidas e comidas que consumimos ao longo da viagem, o banheiro serve de depósito de material de limpeza e a sala de reuniões, também é a sala de estudos e onde as refeições são realizadas.

E conforme me aproximava da sala, acabo esbarrando com Melanie e Maria, que se preparavam para despertar Hugo e Jay, que descansavam naquela hora. Cumprimento as duas mulheres, sendo respondido apenas por Melanie, que me lança um sorriso cansado, mas gentil. Maria apenas ignora a minha existência, mostrando que ela ainda não estava feliz com a minha presença.

Eu sabia que seria praticamente impossível ter o apoio de todos os tripulantes, sendo o filho do inimigo deles. Eu até conseguia entender seus sentimentos. Mas era difícil continuar sendo odiado por algo que nunca foi minha culpa.

Relembro do rosto adorável de minha irmã mais nova e isso é o bastante para consolar meu coração. Eu havia feito uma promessa para ela e faria de tudo para cumpri-la. Não importa quantas pessoas me odeiem, contanto que eu possa proteger e ser de ajuda para Ally, eu não vou hesitar. Seguirei em frente, custe o que custar.

Assim que me aproximo da “sala” de jantar, consigo ouvir a voz de Manu e sua risada melodiosa, o que me desperta curiosidade. Ela não é exatamente o tipo de garota que ri com facilidade e menos ainda com desconhecidos. Quem seria capaz de fazer tal milagre?

Surpreendo-me ao ver que ela conversava de forma animada com Cameron, o oriental simpático que parecia ser um dos poucos que não nos odiava.

— Espera. Então seu aniversário também é hoje? — questiona Cameron, animado.

— Como assim “também”? Você também faz aniversário dia vinte e nove de dezembro? — indaga Manu, surpresa.

Cameron assente, aos risos.

— Mentira! Eu exijo provas!

— Eu juro! — garante o rapaz. — E eu posso provar. Espere um pouco.

Cameron se levanta e vai até uma espécie de armário, onde ele puxa uma mochila. Após vasculhar a mochila, ele finalmente retira algo que parece ser uma carteira. Com um sorriso convencido em seus lábios, o asiático retira uma espécie de identidade do local, estendendo o documento para Manu,

— Veja. Data de nascimento, vinte e nove de novembro de mil novecentos e setenta e oito. Hoje eu estou completando dezessete anos.

— Eu não acredito. Você realmente só é três anos mais velho do que eu — resmunga Manu, dando uma risada anasalada. — Então parabéns para nós.

— Feliz aniversário, Manu — parabeniza Cameron, sorrindo amável.

E somente nesse momento, eu me lembro do fato de nunca ter perguntado a data de aniversário de Manu. Eu estava tão envolvido com nossa situação, que nem mesmo me toquei que há inúmeras coisas sobre a garota que eu não faço ideia, como a sua data de aniversário, sua cor e comida favorita.

— Obrigada. Para você também — murmura a garota, envergonhada.

— Infelizmente, não temos muitos recursos aqui, mas acho que podemos fazer um improviso — comenta Cameron, guardando sua mochila. — Vamos comemorar seu aniversário.

— O quê? Não precisa. O chocolate quente delicioso já foi o bastante. Não precisa se incomodar! Além disso, deveríamos comemorar o seu aniversário. As pessoas daqui nem mesmo gostam de mim — retruca Manu.

Cameron para de andar e se vira na minha direção, revelando o meu não proposital esconderijo. Ele sorri e faz sinal para que eu me aproximasse.

— Prince! Você acordou? — questiona Cameron. — Quer um pouco de chocolate quente?

— Ah, não. Obrigado. Não sou fã de doces, principalmente chocolate — nego, aproximando-me com cautela.

— O quê? Que tipo de ser é você que não gosta de chocolate? — Cameron se faz de ofendido e Manu ri, concordando. — O bom é que sobra mais para gente, Manu.

— Verdade. Eu definitivamente vou pegar mais. Esse é o melhor chocolate quente que eu já bebi em toda a minha vida — garante Manu, enchendo sua xícara com mais chocolate quente que estava na garrafa sobre a mesa. — Você é incrível, Cam!

— Oh, você está exagerando. A única coisa que eu sei fazer na cozinha é o chocolate quente. No restante, eu sou uma negação — afirma Cameron. — Oh, sente-se, Prince! Você gosta de café?

— Sim — concordo, hesitante.

— Ótimo. Eu vou pegar um pouco para você e aproveito para preparar mais chocolate quente. Vou aproveitar e ver se encontro algum bolinho para cantarmos parabéns para Manu.

— Eu já disse que não precisa — resmunga Manu, envergonhada.

— Uma coisa que você vai aprender convivendo com a gente, que eu sou a pessoa que faz o papel de teimoso. Nós definitivamente vamos comemorar seu aniversário de catorze anos — garante Cameron, atravessando o submarino, provavelmente indo para a cozinha.

Quando nos encontramos sozinhos, um silêncio estranho se faz presente.

Eu me sentia envergonhado por não saber que hoje era o aniversário da minha melhor amiga e estava um pouquinho chateado por ver que havia outro cara que era capaz de fazer Manu sorri de forma tão brilhante, quando eu demorei tanto tempo para conseguir tal proeza.

— Então, hoje é seu aniversário?

— Então, você não gosta de chocolate?

Manu e eu falamos ao mesmo tempo, tornando o momento ainda mais constrangedor. Ambos queriam quebrar o clima estranho entre a gente, mas por algum motivo, não estava dando certo.

— Pode falar primeiro — digo, dando uma risada forçada.

— Ah, não. Pode falar — responde Manu, desviando o rosto, parecendo envergonhada.

— Eu... só não me agrada muito o sabor forte do chocolate. Acho muito... doce, eu acho. Consigo comer quando é mais amargo, mas ainda não me agrada tanto — respondo, tentando me recompor. — E... por que não me contou que seu aniversário era hoje?

— Bom, você estava com muita coisa na cabeça por causa da sua irmã e da nossa fuga de Krósvia para Boise. Somente não parecia ser o momento certo para falar de algo tão banal quanto o meu aniversário — explica Manu, dando de ombros.

— Não é algo banal. Seu aniversário é algo importante — afirmo com convicção, colocando a mão sobre a de Manu, que a aperta e abre um lindo sorriso. — Eu sou muito grato por você ter nascido. Parabéns pelo seu dia e espero que no próximo ano a gente possa comemorar de uma maneira mais memorável e especial do que fugindo de Krósvia.

— Obrigada, Prince — Manu agradece, enquanto suas bochechas ficam levemente vermelhas. — E eu acho que esse aniversário tem sido bastante memorável.

— Eu sinto muito por ser um péssimo amigo que nem mesmo se lembrou de perguntar a sua data de aniversário — lamento.

— Está tudo bem. Nem mesmo eu estava me lembrando direito. Só me dei conta que era realmente hoje, porque o Cam me perguntou quando eu fazia aniversário. E é surpreendente que a gente tenha nascido no mesmo dia, só que em anos diferentes — comenta Manu, pensativa.

— Ele... parece ser bem legal — murmuro, afastando minha mão.

Manu me encara com seriedade por alguns instantes e eu não consigo sustentar o olhar. Era como se ela estivesse lendo a minha alma e essa exposição do meu eu interior quando me torno alvo de seus belos e intensos olhos era algo com a qual eu não conseguia me acostumar.

— Acho que sim. Eu não o conheço o suficiente para afirmar se ele é uma boa pessoa ou não, mas foi muito gentil comigo quando eu acordei de um pesadelo e não sabia o que deveria fazer. Aparentemente, é comum ter pesadelos sendo enterrado vivo em um caixão quando se dorme em beliches de um submarino.

Manu estremece, como se a sensação ruim do sonho tivesse voltado para seu corpo.

— Você também teve um pesadelo sendo enterrada viva em um caixão? — questiono, surpreso.

— Sim. Fiquei apavorada e pensei que dar um passeio pelo navio pudesse me acalmar, já que não queria acordar você e Tyler, que dormiam tão profundamente. Maria, Paul e Olga foram as primeiras pessoas a me encontrar e me trataram de forma fria.

— Sinto muito por isso. A culpa é minha — lamento, frustrado.

— Não peça desculpas por algo que não é sua culpa. Essas pessoas estão projetando o ódio delas pelo seu pai em você e isso não é justo. Se eles não são inteligentes o bastante para notarem a pessoa incrível que você, então não preciso ter a simpatia deles. Por mim, eles que se explodam — retruca Manu, cruzando os braços de forma petulante.

Acabo rindo de sua reação e me sinto muito mais aliviado. Mesmo sabendo que ela estava se esforçando para esconder a insegurança dela, eu me sentia muito mais tranquilo recebendo esse apoio de Manu.

— Obrigado — agradeço com sinceridade e ela nega.

— De qualquer forma, Cam me defendeu dos comentários secos deles e me levou para a cozinha, onde me preparou o saboroso chocolate quente e me distraiu com suas histórias divertidas. Isso me acalmou bastante e me fez esquecer o pesadelo — explica Manu.

— Eu fico... feliz que ele tenha te ajudado de alguma forma — respondo, incerto sobre o que dizer. — Está se sentindo melhor?

— Sim. Um delicioso chocolate quente faz milagres — brinca Manu, dando de ombros.

— Eu prefiro um café — retruco e ela ri.

— Péssimo gosto — argumenta a garota. — Por isso você não é confiável.

Acabo rindo e me sinto aliviado pelo clima estranho ter desaparecido. Ainda me sentia um pouco incomodado por Cameron ter sido a pessoa a ajudar Manu, mas eu sabia que estava sendo egoísta. Não é porque ela é minha melhor amiga, que não pode ter outros amigos.

— Falando em quem não é confiável, ele te contou alguma coisa sobre a Resistência? — pergunto.

— Está falando do Cam? — questiona Manu.

Assinto, encarando-a com interesse.

— Não. Ele não me disse nada sobre a Resistência. Está desconfiado das intenções do Johnny? Acha que a Resistência é uma mentira?

— Não. Eu vejo a forma como ele tem falado sobre a Ally ser a esperança de Krósvia desde que ela nasceu. Não acho que o brilho nos olhos dele e a felicidade ao falar dela seja apenas atuação. Mas ainda não sei o que esperar deles — respondo. — Mesmo que ele tenha dito que seremos treinados, eu não consigo deixar de me sentir curioso sobre como eles fundaram a Resistência e as intenções dos membros.

— Eu também não sei bem o que pensar sobre a Resistência — confessa Manu. — Você e Johnny parecem ter uma espécie de ligação, compartilham dos mesmos objetivos. Mas, eu ainda não sei bem como me sinto com isso.

— Oh, isso...

A entrada repentina de Cameron com uma fatia de bolo em mãos com uma vela acessa cantando parabéns para a garota, impede que eu continue minha conversa com Manu, que sorri animada. Ele se aproxima e entrega o prato.

— Feliz aniversário, Manu! — comemora Cameron. — Fecha os olhos, faça um pedido sincero e assopre a vela.

— Certo!

Manu fecha os olhos e parece pensar em seu pedido, antes de abrir os olhos e assoprar a vela. Vejo os olhos da garota brilharem em animação e isso me surpreende, mas também me deixa feliz por ver a felicidade que ela sentia naquele momento, por causa daquele simples bolo.

— Obrigada, Cam. Realmente, não precisava — Manu agradece, dando um bonito sorriso.

— Lamento que seja apenas um pedaço. O pessoal fez um bolo e cantaram parabéns à meia-noite para mim. Se eu soubesse antes que você também estava fazendo aniversário, teria insistido mais em termos um outro bolo. Falei para Rose e Mel que seria legal um bolo de boas-vindas, mas Paul e Maria disseram que seria idiotice e nos proibiram de fazer — explica Cameron, desanimado. — Infelizmente, não podemos ir contra a hierarquia.

— Não se preocupe. Eu amei — garante Manu. — Obrigada.

— Não foi nada. Agora coma o seu bolo. Eu vou trazer as garrafas de café e de chocolate quente. Volto em um minuto — avisa Cameron.

Ele anda com agilidade pelo submarino, mostrando toda a sua adaptação no veículo marítimo estreito. Observo-o até que ele desaparece de meu campo de visão e passo a observa a garota, que encarava o pequeno prato diante de sim com os olhos brilhando em animação.

Manu retira a vela e me oferece um pouco do bolo, mas estremeço ao imaginar o quão doce deveria estar e acabo negando. Ela simplesmente dá de ombros e passa a comer, completamente concentrada na refeição, fazendo questão de suspirar ao saborear o doce.

Cameron não demora a voltar com duas canecas e mais duas garrafas, que imaginei serem o café e o chocolate quente que ele nos prometeu. Ajudo o rapaz a colocar tudo sobre a mesa e volto a me sentar ao lado de Manu, enquanto ele se senta de frente para nós.

— Não sei se é do seu gosto, Prince, mas fiz um pouco mais amargo e forte o café. Aqui tomamos muita cafeína para nos manter em alerta e sendo alguém que não leva tanto jeito para cozinhar, eu só sei fazer o café dessa forma. Espero que goste — explica Cameron, servindo o café em uma das canecas.

— Obrigado, Cam — agradeço, quando ele me estende a caneca e passa a servir Manu com chocolate quente. — Eu prefiro assim também. Johnny sempre preparou o café desse jeito, então acabei me acostumando a tomar desse jeito.

— Sim. Foi com ele que eu aprendi a beber café desse jeito. Eu não bebia café antes, porque achava o gosto amargo, mas com as missões e o treinamento, me tornei um apreciador de uma boa dose de cafeína. Ainda amo chocolate e doces, mas eles não me dão a energia que eu preciso para treinar.

— Aliás, como foi que você conheceu o Johnny e entrou para a Resistência mesmo? — pergunto, após dar um gole no café, que trouxe um pouco da dose de cafeína que eu precisava para me acalmar e me acordar por completo.

Cam bebe um pouco de café e pondera sobre minha pergunta, dando de ombros, como se a informação não fosse tão interessante assim.

— Eu perdi meus pais muito novo e precisei aprender a sobreviver sozinho nas ruas frias dos subúrbios de Zuri. Eu fazia pequenos furtos e em uma dessas vezes, acabei sendo pego tentando roubar a carteira de Johnny. Ao invés de me entregar para a polícia, ele me levou para a Fire Scars e cuidou de mim como um irmão mais velho.

O rapaz dá um fraco sorriso e toma mais um gole do café.

— Eu nunca fui muito habilidoso com lutas e armas, mas sempre tive facilidade em me misturar, fazer contatos e conseguir informações. Eu também sou muito bom abrindo cofres e descobrindo enigmas. Então, fui capaz de superar as minhas fraquezas físicas — esclarece Cam. — Enfim, eu tenho seguido Johnny desde que eu tinha dez anos.

— Você disse que existe uma hierarquia aqui dentro da qual vocês não podem ir contra — relembro, observando-o com atenção. — Qual é a hierarquia?

— Irina não contou para vocês? — questiona Cameron, confuso.

— Não. Ela apenas nos passou as regras gerais do submarino — responde Manu.

— Ela provavelmente deve ter pensado que era melhor contar para vocês quando estivessem mais descansados — pondera o orienta, pensativo. — De qualquer forma, vocês vão entender melhor ao longo desses dez dias, mas acho que não tem problema adiar para vocês como é a nossa dinâmica de equipe aqui.

— Tudo bem — respondo, observando o rapaz com atenção.

— Johnny é o nosso líder, então ele possui a maior autoridade da Resistência. Normalmente, não questionamos suas ordens. Confiamos o bastante nele para acreditar em suas decisões, ainda que vá contra nossas opiniões pessoais. É por isso que quando ele decidiu que vocês embarcariam no submarino e se tornariam membros da Resistência, ninguém questionou sua decisão, apesar de algumas pessoas não estarem tão felizes.

— É. Nós percebemos isso — ironizo, lembrando-me do meu primeiro encontro com Olga. — Então, foi ele quem começou a Resistência e recrutou os membros um mês atrás?

— Um mês atrás? — questiona Cam, confuso. — Não, não. A Resistência existe desde que a rainha descobriu que estava grávida.

— Desde o anúncio? — pergunta Manu.

— Não. Antes disso. Temos membros da Resistência infiltrados no castelo. Quando ela começou a apresentar os sintomas da gravidez, Johnny sentiu que esse era o sinal que ele precisava para decidir o que fazer após sair da Fire Scars. Depois disso, ele passou a recrutar todos aqueles que ele confiava plenamente e acreditava que seriam essenciais para a Resistência.

— Então, vocês simplesmente o seguiram porque acreditavam em Johnny e não na causa? — pergunto.

— Acreditamos na causa. Todos que estão na Resistência estão na esperança de que a princesa Allycia cresça e se torne a líder justa e bondosa que Krósvia merece. O que aconteceu é que Johnny nos deu mais esperanças para acreditar que isso é possível — explica Cam. — Ele tem uma intuição bastante aguçada, que todos já viram em ação diversas vezes. Não temos motivos para não acreditar.

As palavras de Cameron eram proferidas com confiança. Ele estava seguro do que estava falando e acreditava de fato em Johnny. E ver essa lealdade quase cega dos seguidores do rapaz faz com que eu sinta admiração e um pouco de inveja também.

Quando mais novo, eu sonhava em me tornar um líder admirável, que possuía força, coragem e confiança para enfrentar qualquer desafio de cabeça erguida. Naquele tempo, eu ainda acreditava eu me tornaria um rei digno de Krósvia, que traria a glória e liberdade de meu povo. Mas hoje, vejo que jamais conseguiria fazer algo tão complexo.

— Depois de Johnny, quem devemos nos dirigir com mais cuidado? — pergunta Manu.

— Vocês só vão conhecê-la quando chegarmos em Boise, mas o braço direito de Johnny dentro da Resistência é a Mia. Ela é esposa dele — conta Cameron.

— Johnny é casado? — pergunto, surpreso. O rapaz assente e isso me surpreende ainda mais. — Ele nunca nos contou que era casado.

— Ele nunca nos contou nada sobre ele. Não sei o motivo de estar tão surpreso — retruca Manu, dando de ombros.

— Eles cresceram juntos. São o casal perfeito — afirma Cameron, dando um sorriso gentil. — Tenho certeza de que vocês vão amá-la. E ele se torna muito mais amoroso e gentil quando está com ela. Tenho certeza de que vocês vão se surpreender.

— Eu definitivamente não consigo imaginar uma imagem como essa — responde Manu, bebendo o chocolate quente em seguida. — Ele sempre fica travado quando nós o abraçamos.

— Vocês abraçam o Johnny? — indaga Cameron, surpreso. — Como vocês conseguiriam escapar disso sem sequelas? A única pessoa que ele permite abraçá-lo sem quebrar um braço ou uma perna dessa pessoa é a Mia.

— Bom, eu o abracei duas vezes e não sofri qualquer ferimento. Tyler também o abraçou e continua intacto. Acho que ele mudou um pouco — responde a garota de forma pensativa.

— Eles o pegaram de surpresa e estávamos em uma situação de muito aflição — conto.

— Entendo — murmura Cam, como se não acreditasse completamente em minha hipótese. — De qualquer forma, depois de Mia, costumamos ouvir os comandos dos principais líderes de combate, Dimitri e Bóris. Eles possuem tanto conhecimento de luta quanto de estratégia. E então temos Maria, Paul, Jay e Cat. O restante possui praticamente a mesma autoridade.

— Cam... — Manu hesita.

— Sim?

— O que devemos esperar de Boise? — questiona a garota, finalmente expondo seus pensamentos.

Cameron parece ponderar sobre a pergunta da garota e isso também faz com que eu me sinta ansioso para ouvir sua resposta.

Ele se remexe desconfortável sobre o banco onde estava sentado, enquanto desliza o dedo sobre a boca da xícara, enquanto encara o líquido escuro. Por fim, ele suspira e dá um fraco sorriso, como se estivesse tentando ser positivo.

— Não será fácil. Muitas pessoas possui uma visão bastante negativa sobre Phillip Dawson, por isso, vocês enfrentarão muitos desafios. Mesmo assim, eu garanto que se permanecerem firmes e acreditarem em seus objetivos, vocês verão que tudo valerá a pena. Por isso, por mais difícil que seja, não desistam. O futuro da princesa Allycia depende de nós. Então, vamos dar o nosso melhor e garantir que nos tornaremos fortes o bastante para enfrentar o exército krosviano.

Cameron nos encara com seriedade, como se estivesse lendo nossas almas. Apesar de me sentir um pouco incomodado, não desvio o olhar. Eu sabia que ele estava me avaliando e que deveria aproveitar essa oportunidade para conseguir mais um aliado, por isso, assinto e sorrio com confiança.

Encaro Manu e ela parecia estar tão determinada quanto eu. A garota sorri e entrelaça sua mão a minha, mostrando que estava ao meu lado, independentemente de minha resposta.

— Não se preocupe. Não importa o que aconteça, nós jamais desistiremos.