Fire Scars
23 Despedida - Parte I
Notas iniciais
Capítulo XXII — Despedida — Parte I
"Estou sempre fugindo de alguma coisa
Eu a empurro para longe, mas ela continua voltando
E ser esperta nunca me levou muito longe
Porque está tudo na minha cabeça
E você é muito sensível, eles dizem
Eu disse, tudo bem, mas vamos discutir isso no hospital"
Free – Florence + The Machine
✻
Krósvia – 1995
Meu coração estava acelerado e eu ainda sentia a adrenalina de ter conhecido a minha irmã mais nova fazer minhas mãos e pernas tremerem. Tudo havia sido muito mais intenso do que eu poderia imaginar.
Eu me sentia estranhamente deprimido por ter que deixar Ally para trás e por ter a certeza de seu sofrimento enquanto crescesse. Por outro lado, eu também estava eufórico com a possibilidade de Krósvia se tornar um lugar melhor. Eu estava diante de uma esperança da qual nunca fui capaz de sentir antes em toda a minha vida.
— Como foi? — questiona Johnny, enquanto andávamos apressados pelos túneis. — Como foi conhecer a princesa Allycia?
— Foi... surreal — confesso. — Ela era tão pequena e linda... e forte... e... incrível. Eu queria tanto poder vê-la crescer e se tornar uma mulher incrível. E me sinto furioso ao pensar no quanto ela vai sofrer nas mãos dos reis e que não estarei aqui para protegê-la.
Johnny me encara pelo canto do olho por alguns minutos, antes de voltar sua atenção para o caminho que fazemos, como estivesse ponderando sobre a melhor forma de me aconselhar.
— A melhor forma de você proteger sua irmã é garantir que ela tenha todo o suporte do mundo para lutar contra seu pai. Não sabemos como será o mundo que a cercará quando ela tiver idade suficiente para assumir o trono, mas podemos ir nos adaptando ao longo desses dezoito anos para protegê-la e tornar todo o processo mais simples para a princesa.
As palavras do homem vieram repleta de esperança e determinação. Mais do que nunca, Johnny acreditava que os esforços da Resistência trariam bons resultados para Ally. E de certa forma, vendo essa confiança do rapaz, eu também me sentia esperançoso.
— Eu... quero me juntar a Resistência. Não sei qual será a opinião de Manu e Tyler, mas acredito que no momento, estar com vocês será mais seguro para nós. Além de ser uma chance para me tornar alguém digno para ajudar e proteger a minha irmã.
— Levando em consideração o quanto eles são leais a você, não acho que a escolha deles seja diferente da sua — afirma Johnny.
— Você não parece surpreso com a minha decisão.
— Isso é pelo fato de saber que uma hora ou outra vocês iriam acabar pedindo a minha ajuda, assim que chegassem em Boise.
Johnny me puxa para trás pelo braço e nesse momento, noto que eu estava prestes a pisar em uma das armadilhas que ele havia me alertado quando estávamos vindo. Ele me lança um olhar repreendedor e eu acabo me desculpando, envergonhado.
— Apesar de serem habilidosos, vocês são apenas crianças. Sobreviver sozinhos em um país novo, onde não conhecem a cultura ou pessoas que podem dar suporte. Nem mesmo sabem fazer algo além de lutar, já que viveram a vida inteira sendo protegidos e nunca precisaram trabalhar para conseguirem dinheiro — explica Johnny, finalmente me soltando.
— Bem... — resmungo, procurando argumentos.
— Vocês não têm dinheiro, lugar para ficar, profissão ou conhecimento. Sendo menores de idade, os empregos que vocês podem conseguir para ter dinheiro seria em lugares perigosos e irregulares. Não conseguiriam treinar e conseguir equipamentos de defesa seria praticamente impossível. Não acho que o rei Lester vai desistir totalmente de te encontrar e estando em Boise, as chances de vocês serem pegos sobe consideravelmente. Então, analisando essa situação, é muito mais seguro e inteligente permanecerem na Resistência até terem idade suficiente para conseguirem se virar sozinhos.
— Por que não nos falou sobre isso antes?
— Porque vocês são três adolescentes irritantes que acreditam fielmente que são maduros o bastante para sobreviver sozinhos no mundo. Ainda que eu dissesse, vocês surgiriam com argumentos idiotas de que eu estou tentando controlar vocês e que eu não tenho o direito de mandar em suas vidas.
Eu me calo diante de suas palavras, porque tinha consciência que as chances de Manu ou Tyler darem esse tipo de resposta seriam muito altas. E eu tinha que dar o braço a torcer sobre o fato de que não havia pensado nesses detalhes apontados por Johnny.
Com o que Manu, Tyler e eu seríamos capazes de trabalhar? Provavelmente com trabalho braçal. Boise não é muito conhecido pela agricultura, então mesmo que Johnny tivesse nos ensinado a plantar, não seria muito útil essa habilidade em um país movido pela tecnologia e pelo comércio marítimo. E sendo menores de idade, nenhum lugar descente nos daria a chance de trabalhar.
Procurar um orfanato poderia ser arriscado para nós, já que meu pai definitivamente não vai desistir de acabar com todas as ameaças que o rondam e, nesse momento, eu sou um dos seus maiores inimigos, já que possuo o direito ao trono e poderia assumi-lo em menos de dois anos se quisesse. Unido forças com as pessoas certas, não seria impossível derrubá-lo do reinado de Krósvia.
Não temos dinheiro. Pelo menos, não o suficiente para três adolescentes sobreviverem sozinhos em um país diferente, caro e sem conhecer ninguém. Até agora, Johnny tem sido a pessoa que tem nos sustentado, enquanto estivemos morando com ele em Lofoten. Ele ainda havia nos dado algum dinheiro e é por causa disso que não estávamos totalmente indefesos, mas não seria o bastante para durar mais do que umas duas semanas em Boise e isso sem contar o preço que precisaríamos pagar por uma estadia.
— Aliás, como nós iremos para Boise sem sermos reconhecidos pela guarda de Krósvia? Eu tenho certeza de que meu pai já moveu toda a inteligência do país para impedir que a gente escape. Tivemos sorte até agora, mas como vamos garantir que chegaremos de forma segura em Boise?
— Sorte? — repete Johnny com ironia. — Esse tipo de coisa não combina comigo. Sobrevivemos, porque eu fui mais esperto que os homens do rei Lester. E é assim que continuaremos até a coroação da princesa como rainha. Iremos para Boise com um submarino para impedir sermos pegos pelos soldados krosvianos e ainda conseguiremos chegar mais rápido.
— Iremos de submarino? — murmuro, surpreso. — Isso é incrível e muito caro. Como conseguiu tanto dinheiro ao ponto de tornar-se possível usar um submarino para nossa fuga?
— Pessoas muito ricas apoiam a Resistência — responde Johnny de maneira enigmática. — Agora, apresse o passo. Sua namorada é muito impaciente e tenho certeza de que ela pode entrar aqui a qualquer momento se não chegarmos em cinco minutos.
— Manu não é a minha namorada — retruco, envergonhado.
Johnny me lança um olhar irônico, mas não fala mais nada. Era como se ele quisesse dizer que eu estava apenas negando um fato. Bufo, mas também não insisto mais no assunto. Ele pode estar errado sobre minha relação com Manu, mas ela seria realmente capaz de entrar no túnel, se não chegássemos dentro do tempo.
Felizmente, o local por onde entramos não estava longe. Em pouco tempo, fomos capazes de abrir a porta secreta pela qual entramos e pudemos ver as expressões de alívios dos meus amigos, que esperavam por nós — sem capacete na cabeça, deixando Johnny bastante irritado.
— Qual foi a parte do “fiquem com a droga dos seus capacetes na cabeça para evitar serem reconhecidos” vocês não entenderam? — repreende Johnny, sendo o primeiro a sair da passagem secreta. — Se vocês querem morrer, me avisem que eu atiro agora mesmo em vocês!
Ignorando a fúria do homem, Tyler abraça o rapaz com força, assim como sempre fazia quando Tony e Henry retornavam de alguma batalha. Apesar de todas as reclamações que ele fazia sobre Johnny, eu sabia que no fundo, ele o enxerga como um irmão e se preocupava com ele.
— Estamos felizes que estão de volta — afirma Tyler, soltando um Johnny, constrangido com a demonstração de afeto.
— Me abraçar não muda o fato de que vocês poderiam ter se machucado. Fiquem com a droga do capacete para se protegerem.
Johnny se afasta de Tyler, ainda encabulado, e pega o capacete no banco da moto. Encarando-o com repreensão, o loiro coloca o capacete na cabeça de Tyler, demonstrando que também se preocupava com a gente. Do jeito bruto dele, é claro.
Pelo pouco que conseguimos observar de Johnny é que ele não era bom com contato físico. Por causa disso, ele nunca sabia como reagir quando era abraçado ou recebia algum carinho, algo que era feito com frequência por Manu, que adorava provocar o rapaz e deixá-lo sem graça.
Deixo o túnel aos risos, mas logo sou surpreendido pelo abraço apertado de Manu, que assim como Tyler, parecia genuinamente feliz por nosso retorno. Um pouco envergonhado, correspondo ao abraço, aliviado por saber que ela e Tyler não tiveram problemas enquanto estivemos fora.
— Vocês estão bem? Se machucaram? — questiona Manu, vistoriando-me com preocupação.
Acabo rindo de sua reação exagerada e nego, bagunçando seus cabelos, assim como eu sabia que ela odiava. Manu resmunga e tenta arrumar os longos cabelos castanhos, encarando-me com repreensão. Pego o capacete na mão de Johnny e coloco de volta na cabeça da garota.
— Estamos bem. E por que estavam sem capacete? Johnny tem razão...
— É claro que eu tenho!
— De qualquer forma, vocês poderiam ter se ferido fatalmente. Estamos no meio da Floresta Negra. Vocês sabem melhor do que ninguém o quanto esse lugar é perigoso e está repleto de inimigos — repreendo meus amigos, fazendo Manu suspirar.
— A gente sabe, mas estávamos ficando sufocados com o capacete e a demora de vocês estava me deixando nervosa — resmunga Manu, impaciente.
Ela remexe no capacete, parecendo procurar uma posição mais confortável, mas é impedida por Johnny, que a vira e ajeita a peça, encarando-a com repreensão.
— Sabe o que iria sufocar vocês ainda mais? Um tiro na cabeça! — responde Johnny, dando um sorriso sarcástico. — Fica com a merda do capacete e sobe na moto. Está na hora de irmos. Um submarino espera por nós.
— Um submarino? — questiona Tyler, surpreso.
Meu melhor amigo levanta a viseira do capacete e me encara em choque. Ter um submarino sempre foi um daqueles sonhos malucos de criança que o Tyler tinha. Saber que iria andar em um pela primeira vez havia deixado o rapaz extremamente animado.
— Isso é verdade?
— Sim. É verdade. Então vamos logo, pois já perdemos muito tempo aqui — responde Johnny, abaixando a viseira de Tyler antes de seguir para a moto.
Sorrio e assinto para meu amigo, que comemora e corre para a moto onde Johnny estava. Suspiro, buscando coragem para darmos o próximo passo e estendo a mão para Manu, que rapidamente a pega e me permite conduzi-la até a moto que usaríamos.
Subo em nossa moto, coloco meu capacete e ajudo Manu a se sentar atrás de mim. Assim que garanto que ela está segura, segurando firme em minha cintura, ligo a moto e passo a seguir Johnny, provavelmente, em direção a costa da floresta, onde devemos encontrar o tal submarino.
O caminho era bastante sinuoso e irregular, além de bastante escuro, o que dificultava o percurso. Felizmente, não demora muito para que eu começasse a ver os primeiros sinais da costa. Respiro fundo e acelero a moto, ansioso para entrar em um submarino pela primeira vez.
Antes que alcançássemos a praia, Johnny para sua moto e desce junto com Tyler. Estaciono a minha moto ao seu lado e ajudo Manu a descer. Desligo o veículo e desço também, curioso para entender o motivo de estarmos parados tão distantes.
— Por que paramos aqui? — questiona Manu.
— Precisamos esconder as motos antes de seguirmos viagem. O submarino é bastante compacto. Não tem espaço para nós e mais veículos. Seguiremos à pé daqui até a costa, onde pegaremos o submarino — explica Johnny, pegando duas redes camufladas para esconder os veículos. Ele me entrega uma. — Algum membro da Resistência deve vir buscá-las mais tarde. Então vamos apenas deixá-las camufladas e vamos seguir para a praia.
— Tudo bem — concordo.
— Lembrem-se que precisamos ser bastante silenciosos daqui para frente, já que sem as árvores, ficaremos mais expostos. Mesmo que ainda seja madrugada e não tenha claridade, ainda existe uma chance de um soldado krosviano nos encontrar.
— Seremos cuidadosos — garante Tyler.
Johnny assente.
Com a ajuda de Tyler e Manu, guardamos os capacetes dentro das motos e as escondemos entre as inúmeras árvores que nos cercavam. Em seguida, Johnny passa a nos guiar em direção ao cais discreto que havia na praia.
Quando chegamos na plataforma de madeira, o rapaz liga e desliga sua lanterna três vezes, emitindo o sinal para informar aos seus aliados que havíamos chegado.
Não demora muito para que o submarino começasse a emergir em meio a escuridão. Manu, Tyler e eu arfamos e arregalamos os olhos diante do navio submersível. Era ainda mais impressionante do que eu poderia ter imaginado.
— Vamos.
Johnny pula sobre a carcaça do submarino de forma confiante, como se tivesse feito aquilo diversas vezes. Três homens e duas mulheres saem da vela do submarino e cumprimentam o loiro como se ele fosse alguém realmente importante. Eles passam a conversar em russo com Johnny que prontamente os responde e aponta para nós três.
— Que língua é essa que eles estão falando? — pergunta Manu com curiosidade.
— Provavelmente russo — respondo, incerto.
— O que será que eles estão dizendo? — questiona Tyler.
— Pelo pouco que eu sei de russo, eu tenho quase certeza de que eles estão perguntando se nós vamos mesmo acompanhá-los e se somos confiáveis. Acho que eles me reconheceram — comento, pensativo. — Eu... estou pensando em entrar para a Resistência.
— Você tem certeza disso, Prince?
— Sim, Manu. Eu... eu encontrei a minha irmãzinha e sinceramente, eu não posso ignorar a existência dela. Além disso, não conseguiremos sobreviver sozinhos em Boise. Meu pai ainda está me procurando e iremos para um país vizinho. Para meu pai me encontrar, não será necessário muito esforço. Não temos dinheiro e a única coisa que sabemos fazer é lutar. Somos menores de idade e não temos documentos. Será praticamente impossível encontrar um emprego descente. Não temos condições ainda de sobrevivermos sozinhos.
— Mas... nós podemos confiar neles?
Encaro Tyler.
Era compreensível seu receio. Depois de termos sido traídos por Taynara e Gavin, não podíamos continuar a acreditar tão facilmente nas pessoas. Mesmo assim, eu sentia que podia confiar em Johnny. Ainda mais depois do meu encontro com minha irmã. Eu não poderia ignorar meus instintos que gritavam tão fervorosamente.
— Eu acredito no Johnny. Não teríamos sobrevivido durante esse tempo se não fosse pela ajuda dele. Não sei como são os outros membros da Resistência, mas, por enquanto, talvez o mais seguro para nós é darmos nosso voto de confiança. Com eles, poderemos treinar, estudar e nos preparar para nossa vingança — respondo.
Manu e Tyler trocam olhares e parecem ponderar sobre minhas palavras.
Eu não queria forçar meus amigos a irem comigo, mas eu sabia que no momento não temos muitas opções. E eu também torcia para não me arrepender de confiar em Johnny. Mesmo dizendo que acredito em Johnny, ainda existe uma parte inseguro dentro de mim, que desconfia do que pode acontecer com a gente assim que deixarmos Füssen.
— Nós prometemos que sempre estaríamos juntos. Somos a família que nos restou. Se você acha que essa é a nossa melhor opção, então vamos nos juntar a Resistência — responde Manu, dando um sorriso confiante.
Sorrio agradecido.
— Obrigado, pessoal — respondo, emocionado.
— Não precisa agradecer. Estamos com você, cara. Você é o meu irmão de coração. Estamos com você para o que der e vier — garante Tyler, dando tapinhas em meu ombro.
— Ei, vocês! Venham! — grita Johnny. — Precisamos partir.
— Vamos lá, rapazes. Está na hora de iniciarmos mais um desafio — comenta Manu, dando um sorriso animado.
Respiro fundo e assinto. Estava na hora de partir e eu apenas esperava que nossa mais nova aventura tenha finalmente um final feliz.
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