Fire Keeper
6 Capitulo 6 - Fire Feelings
Notas iniciais

Regina não era uma pessoa bondosa. Depois de muito tempo, ela conseguia admitir para si mesma, sem se sentir horrível por isso. Ela aprendeu a conviver com sua maldade, a fazer da "Rainha Má" uma cruel verdade. Ela matava pessoas, destruía seus sonhos, e, percebeu que isso a deixava estranhamente calma, como uma terapia. Parecia justo tirar o final feliz de todos, já que ela nunca poderia ter o seu. Mas também culpava Branca de Neve, esperando que ela soubesse que toda a dor e sofrimento, eram causados pelo erro que a muito ela tinha cometido.
Sabendo do quanto poderia parecer terrível– Não que ela se importasse. -, Regina estava muito surpresa por Roland estar a seguindo como se fosse a coisa mais divertida do mundo.
Começou quando ela saiu de seu quarto pela manhã, ainda em sua camisola longa de seda cor de pérola e seus cabelos soltos descendo em ondas até o fim de suas costas, ela bufou irritada ao sentir fome e se lembrar de que tinha matado o seu quinteto de cozinheiros. Sem delongas, Regina se levantou e fez seu caminho para a cozinha, antes passando pelo quarto que reservara para Robin e seu filho na noite passada, quando tinha dito ao ladrão que ele seria seu servo. Ela abriu a porta gentilmente e se sentiu aliviada ao ver que ainda estavam lá, dormindo em cima do que deveria ser a cama mais confortável que já deitaram na vida. Regina sabia que não tinha condições de Robin fugir, com seu filho doente e todo o reino tomado por neve, mas também não conseguia acreditar que ele simplesmente ficaria ali; que ele aceitaria ser seu servo sem se opor radicalmente. Regina balançou a cabeça, para se livrar dos pensamentos sobre Robin, e fechou a porta, seguindo em direção a cozinha outra vez.
Não foi um longo tempo até que ela escutasse passos leves pelo chão e se virar rapidamente para trás, podendo ver bem quando Roland se escondeu atrás de um enorme arranjo de rosas vermelhas, soltando uma risadinha. Regina deixou escapar um sorriso ao perceber que o menino estava brincando, e voltou a andar como se não tivesse o visto, alimentando a brincadeira. Ela ouviu uma tosse abafada e mais passos, antes de se virar o corredor a esquerda, esperando que ele a alcançasse para o surpreender.
–Peguei você. — Ela disse suavemente quando Roland apareceu em sua frente. O pequeno pulou de susto e soltou um gritinho, antes de cair na gargalhada.
–Eu que te peguei! — Ele gritou ao se recuperar do susto, e se jogou para frente, abraçando as pernas da rainha; o que fez ela cambalear um pouco.
Regina olhou atentamente para baixo, vendo Roland sorrir para ela, e apertar cada vez mais os bracinhos ao redor de suas pernas, enquanto sentia um calor tomando conta de seu peito. Ela sorriu, de maneira pura e genuína. Ela conhecia aquele sentimento, embora sentisse raramente. Era felicidade. Ela ignorou seu instinto de fugir de momentos que a fazia se esquecer qual era o objetivo de sua vida, e apertou gentilmente o nariz de Roland.
–Você é o primeiro a conseguir pegar a Rainha! Merece um prêmio. Que tal chocolate? — Ela disse suavemente, e pegou a mãozinha do menino. — Vamos até a cozinha, lá tem muito chocolate.
–Chocolate! Eu amo chocolate. — Roland cantarolou e deu alguns pulinhos, antes de acompanhar Regina até a cozinha do palácio.
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Robin sonhava com uma floresta de pinheiros dominada por chamas. Embora pudesse sentir seu corpo queimando, ele permanecia calmo, deitado no colo de uma sorridente Regina, como se essa pudesse o proteger do caos que se instalava na floresta. Robin sorriu de volta para a Rainha vestida de branco e tocou-lhe o rosto, admirado pela beleza de seus olhos. Ele sussurrou um terno "Obrigado" enquanto sentia seu corpo ficar cada vez mais frio, controvérsia as chamas que o tomavam.
O ladrão acordou em um rompante. Sentindo como se tivesse realmente vivido aquele sonho, o que o causou uma sensação estranhamente agradável. Ele se permitiu sorrir e olhar distraidamente para o teto, mas se sabia que a realidade não era nem um pouco parecida com seu sonho. Principalmente porque nunca vira Regina sorrir de maneira tão pura e talvez nunca fosse sorrir. Ele acreditava que sonhos significavam alguma coisa, mas pensou que esse provavelmente era por estar pensando tanto na Rainha ultimamente, e tentou tirar aquele bonito rosto de seus pensamentos. Gradativamente, ele se lembrou do motivo de estar deitado naquela cama em um dos quartos do palácio da Rainha Má.
Sua primeira preocupação, foi seu filho. Ele se lembrava perfeitamente de Roland estar deitado do seu lado antes de cair em um sono profundo. Mas ao olhar ao seu redor, era evidente que ele não estava na cama e nem em outro qualquer lugar do quarto. Robin se levantou com um longo suspiro. Seu filho costumava levantar cedo, mas nunca saia de seu lado não importa o que acontecesse. Ele decidiu ir em primeiro lugar ao quarto da Rainha para começar a procurar. Vendo que este também estava vazio, ele contava com a possibilidade de os dois estarem juntos, ficando assim menos preocupado, mas continuava tentando encontrar o filho. O castelo era enorme, mas Robin tentou ir nos lugares que conhecia primeiro: O quarto da Rainha, os corredores que levavam até a escada e o grande hall que vinha após essa, e, por último, a cozinha.
O clima na cozinha era agradavelmente quente. Robin podia sentir cheiro de maçã, o que só o fez perceber o quanto estava com fome. Não foi difícil ver Roland, que estava sentado em cima da mesma mesa que a umas noites atrás Robin tinha deitado Regina. O ladrão observou quieto seu filho se lambuzando com um bocado de chocolate e sorriu. Regina também estava lá, e para a surpresa de Robin, cozinhando. Ela e seu filho não podiam o ver por estarem de costas para ele, então Robin aproveitou para permanecer calado, não querendo estragar a paz que a cena estava o causando.
O ladrão atreveu-se a olhar atencioso para a Rainha, percebendo que seu corpo estava coberto por uma camisola branca perolada, que o lembrava a roupa que Regina estava em seu sonho. E também tinha os cabelos da morena, que estavam completamente soltos pelas costas. Era ficava muito parecida com uma Regina -a Regina de seu sonho. — dessa maneira, ele pensou, não com uma "Rainha Má". Para desgosto de Robin, o silêncio que se instalava na cozinha foi interrompido rapidamente.
–Quando eu ficava doente, meu pai fazia este chá de gengibre e maçã pra mim. Vai ajudar a sua garganta a melhorar, está bem? Tem que beber enquanto ainda está quente. — Robin ouviu Regina dizer suavemente para seu filho, enquanto se virava para ele. Ela entregou uma xícara para Roland, antes de levantar o olhar para ver o ladrão. A rainha apertou os lábios em uma linha fina e depois deu mais um de seus sorrisos debochados. — Você está horrível. — Ela comentou, fazendo Roland olhar na mesma direção que ela. O menino deu um grande sorriso ao ver o pai.
–Eu não duvido disso. — Ele respondeu, sem se importar com o que ela tinha dito. Regina pareceu pensar um pouco e depois agitou uma de suas mãos no ar, como quem afasta um mosquito. Robin fechou os olhos ao perceber uma breve fumaça roxa o envolvendo até que ele parecia fazer parte dela, e depois sumir tão rapidamente quanto veio, deixando em seu lugar novas mudas de roupa idênticas a que ele usava antes e um frescor que cheirava a menta.
–De nada. Não aguentava mais te ver naqueles trapos imundos. — Regina suspirou, e então voltou sua atenção para Roland outra vez. Robin abriu seus olhos a tempo de ver a Rainha sorrindo abertamente para seu filho, enquanto o incentivava a terminar seu chá. Ele perdeu o ar com a cena, ou talvez fosse a magia ainda fazendo efeito em seu corpo, ele pensava. Mas nada o impediu de caminhar até que estivesse perto o suficiente para parecer um intruso em meio ao seu filho e Regina, ele sentia como se tivesse perdido algo.
–Papa, Regina me deu um monte de chocolate porque eu a peguei! — Seu filho disse -Sem parecer estranhar a magia de Regina. -, dando um sorriso cheio de covinhas. Robin achou melhor dar-lhe um sermão mais tarde, seduzido pela vozinha inocente do garoto e aliviado que ele estava bem.
–Você a pegou? — Robin sorriu para o garoto e esperou que ele tomasse mais um gole do chá.
–Pegou sim. — Regina disse, enquanto batia levemente o dedo na ponta do nariz da criança. Ela sorria radiante, o que fez Robin a olhar curioso.
–Eu não sabia que a Rainha tinha gosto por crianças. Nem que cozinhava. — Ele comentou. Os dois permaneciam muito próximos enquanto tentavam manter a atenção de Roland, que continuava sentado em cima da mesa. Regina estava prestes a dar uma má resposta, mas mordeu ao língua se lembrando de que poderia assustar Roland.
–Terminei. — Roland disse, entregando a xícara para Regina.
–Sua tosse logo vai passar. — Ela disse, tentando acreditar nisso também. A verdade é que não sabia bem o motivo dele estar doente e a única experiência que tinha com crianças, era fingir que gostava muito de Branca quando ela era menor.
–Posso comer mais chocolate? Por favor... — Roland olhava timidamente para Regina, fazendo biquinho. Robin sabia bem que o garoto só fazia isso para conseguir algo, e talvez Regina também soubesse, mas pareceu não se importar. A rainha apenas riu e fez mais bombons aparecerem no colo do menino magicamente. Robin sentiu fagulhas brincarem em seu estomago ao ouvir a risada da mulher, e se perguntou o que diabos estava acontecendo com ele. Mas não conseguia evitar de a olhar maravilhado.
–Para sua informação, Robin Hood, qualquer pessoa com o mínimo de senso deveria aprender a cozinhar. Sendo da realeza ou não. — Regina disse, se afastando de Roland para buscar biscoitos que estavam em potes de vidro do outro lado da cozinha. — Mas, só estou aqui devido a falta de cozinheiros. Assim que a neve estiver menos densa, irei a cidade para procurar novos criados. Enquanto isso, você me ajuda a cuidar dos castelo. Há muito para se fazer...
–O que aconteceu com as pessoas que trabalhavam aqui no castelo? — Robin perguntou, ele não tinha visto muitas pessoas por aqui, mas do jeito que Regina falava, era como se não tivesse mais ninguém.
–Não eram dignos de minha confiança.
–Tudo bem... Então, o que eu faço?
–Primeiro, coma. — Regina caminhou até a frente do ladrão e lhe entregou o pote de biscoitos que tinha pegado. Robin a olhou por um instante, reparando na cicatriz em seu lábio que ficava mais evidente sem o vibrante batom vermelho que ela costumava usar. Por fim, ele sorriu.
–Eu acho que deveria saber, que fica muito mais adorável sem os vestidos chamativos e escuros. — Ele se inclinou para frente, sussurrando baixo o suficiente para apenas a Rainha ouvir. — Eu estava tendo uma bela visão de você antes de tacarem fogo em mim aquele dia... Era um belo vestido azul. — Regina escutou as palavras atentamente, percebendo sua respiração se intensificar por causa da proximidade do ladrão. Ela tinha escolhido aquele vestido por causa dele, por causa dos olhos dele.
–E eu acho que deveria saber... que é bem atrevido. — Regina sussurrou tonta. Ela teve vontade de choramingar ao perceber o efeito que Robin poderia ter sobre ela, e o pior, é que seu corpo parecia gostar daquilo. Era uma terrível verdade. Ela sabia que isso poderia acontecer, mas se negava a abrir mão de Robin ou se entregar para ele, sabendo que os dois atos teriam suas devidas consequências. Regina deu um longo suspiro, antes de criar coragem para olhar nos olhos azuis do ladrão outra vez. Ela percebeu que ele se sentia tão confuso quanto ela. -Robin, eu preciso ir.
–Regina, me deixe te entender. — Robin disse seu nome suavemente. Ele não sabia direito o que fazia, apenas sentia a desesperadora vontade de poder ver o sorriso bonito da Rainha mais vezes.
–Porque apenas não aceita minha maldade como todos os outros? É só isso que tem para entender. — Ela respondeu calma.Vencida pela olhar de Robin, a Rainha apenas relaxou seu corpo.
–Não acredito nisso... Antes de vir até aqui, antes de invadir seu castelo, eu passei duas semanas inteiras te estudando. Escutando historias, teorias, pessoas falando de você como se fosse o próprio demônio. Mas eu não consigo mais acreditar nisso...
–Tudo o que dizem sobre mim é verdade. — Regina sorriu amarga, ela ainda não tinha se acostumado com a presença de Robin tão perto de si, mas sua vontade de ficar ali era tão grande quanto a vontade de sair.
–Como pode ser verdade? Eu, um ladrão que tentou te roubar e fugir, fui digno de sua misericórdia... Regina, eu não sou burro como pareço ser. Sei que não me deixaria ficar aqui por nada, que não cuidaria de meu filho por nada.
–Não te deixei ficar por nada, te fiz meu prisioneiro. — Ela respondeu rapidamente, tentando mudar o foco da conversa. Regina sabia o motivo de tratar Robin diferente, mas não chegou a perceber que isso ficava tão evidente para ele.
–Não acredito que seja apenas por isso... E nem vou fingir que acredito. — Robin disse firme. Ele tinha plena certeza não apenas de sentir uma ligação com a Rainha, mas também de se sentir maravilhado sobre ela. Ela tinha entrado em seus pensamentos de maneira irreversível. — Eu não sou de fazer joguinhos. Não vou fingir que não tem nada acontecendo aqui, sendo você a Rainha ou não.
–Boa sorte com isso. — Regina bufou um pouco irritada, por sentir que ele estava certo. Por querer deixar que ele a conhecesse. Por querer fazer com que ele sumisse. "Eu faço meu próprio destino." parecia uma frase difícil de se dizer agora. Robin Hood era sua alma gêmea, era o homem para quem ela estava destinada. Regina percebeu que fora tola. Ela não conseguiria fugir daquilo, muito menos agora. Talvez, se tivesse mandado Robin ir embora...
–Tenho uma eternidade para conseguir o que quero. Sou seu prisioneiro, não é? — Robin disse, interrompendo-a de seus pensamentos.
Uma eternidade. Regina quase sorriu perante a ironia, afinal aquele era o tempo que o próprio destino deveria ter reservado para os dois: a eternidade. Mas era um tempo inválido também, ela sabia. A eternidade poderia durar anos, ou talvez, só um inverno.
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