Fire Keeper
24 Capitulo 23 - Cursed
Notas iniciais

Regina observou as próprias mãos, sentindo as fagulhas de magia querendo escapar por seus dedos. Seria fácil demais levar Branca de Neve até seu castelo para que ela tivesse seu casamento realizado, o que a fez se perguntar, por que não?
A princesa a olhou esperançosa, provando que mesmo com todas suas desavenças ao longo dos anos, ainda guardava esperança em seu coração.
Esperança quanto a Regina.
Fazer aquele ato mágico, embora simples, seria grandemente significativo.
Afinal, Regina passou os últimos anos tentando acabar com qualquer possibilidade de Branca ter um final feliz, ajuda-la agora seria o extremo contrário de tudo que costumava acreditar.
A ideia chegava a fazer seus pelos eriçarem com o arrepio que percorria seu corpo ao entrar em contradição.
Não.
Não era uma contradição, por que ela não queria mais agir daquela maneira. Essa era quem ela deveria ser agora.
Regina sabia que se Branca não fosse boa ela seria, no mínimo, banida da Floresta Encantada por tudo que já tinha feito de ruim.
Regina conseguia reconhecer que a devia de alguma forma e esse sentimento fez sua cabeça girar.
–Regina? — Ela ouviu Robin a chamar delicadamente, penetrando entre perturbação de sua mente como um clarão.
–É melhor irmos antes que fique atrasada demais.
–Você vai me ajudar? — Branca a olhou com seus olhos brilhantes, inclinando sua cabeça levemente para o lado, exatamente como costumava fazer quando era uma criança.
Regina se sentiu nostálgica. Quando parava para pensar, era difícil acreditar que tinha passado tanto tempo.
Difícil acreditar que tinha visto aquela garotinha se tornar uma mulher. Difícil acreditar que tinha perdido tantos anos de sua vida lutando por uma causa perdida.
O que teria acontecido se tivesse encontrado Robin a alguns anos atrás?
Ela poderia estar sentindo o amor a consumindo a muito tempo, junto com a felicidade, e a esperança de dias cada vez melhores.
Ou talvez, as coisas aconteciam em seu tempo, ela pensou calmamente. Se tivesse conhecido Robin antes, ele não teria se casado com Marian e Roland não existiria.
Regina decidiu que seria capaz de passar por tudo novamente se isso significasse ter Roland em sua vida.
A maneira como o simples sorriso da criança a deixava maravilhada era algo que ela nunca trocaria em sua vida e a consciência de que logo, não teria apenas uma, mas duas crianças, para encher seu mundo de tonalidades diferentes e brilhantes fez seus olhos arderem.
Ela piscou as lágrimas para dentro, evitando que elas rolassem por sua face, temendo que Branca as interpretasse de forma errada se as visse.
–Esse é o seu final feliz? — Regina perguntou com a voz baixa, sem olhar para Branca.
–Me casar com Charming? — A princesa quis saber, surpresa pela pergunta de Regina. — Não, não completamente.
–Não? — Regina soou mais incrédula do que queria parecer, mas não pode evitar. Ela levantou os olhos, encarando a figura fantasmagórica que Branca parecia sob a luz do amanhecer, indagando-a com o olhar. — Qual é o seu final feliz?
–Liberdade. — Ela disse, convicta, encarando sua madrasta nos olhos. — Se me casar com Charming fosse meu final feliz, eu não teria vindo falar com você para resolvermos o que temos. Ele faz parte de minha felicidade, mas isso não é tudo. Eu não poderia ser plenamente feliz sem estar finalmente livre para isso. Eu quero ter a liberdade de ser quem eu quiser, levar a vida que me faz bem, estar em qualquer lugar que me seja especial, amar e ser amada por qualquer pessoa nesse reino, sem que corram perigo... Liberdade para me casar com quem eu amo e construir uma família, sem me preocupar se existe alguém lá fora tentando tirar isso de mim. Liberdade para simplesmente viver, Regina... Coisa que tem me sido negada por muito tempo.
Regina estudou o rosto sereno de Branca por alguns instantes, sentindo os borrões que estiveram por tanto tempo nublando sua mente finalmente se tornarem figuras sólidas, quais ela conseguiria ler e interpretar facilmente.
No fim, ela e Branca tinham muito em comum. Ou melhor, Branca e uma figura mais jovem de Regina, que ansiava por liberdade acima de todas as coisas. Em um passado onde seu coração era envolvido por amor, sem nenhuma sombra de amargura. Os dias, embora distantes, continuavam vívidos na mente de Regina, e as memórias embalavam seu corpo em um balanço singular por ondas de tristeza, que, embora fossem dolorosas, não eram turbulentas.
Pensar em seu passado já não era o maior sofrimento que Regina poderia ter. A morte de Daniel estava guardada em um canto escuro e tenebroso de seu coração, mas era tenro.
Os espinhos que envolviam a ferida já não eram tão afiados e o seu peito já não era tão frágil.
Agora, o futuro a preocupava muito mais. A possibilidade de não permanecer ao lado de Robin, Roland, Henry e o bebê a caminho, a fazia sofrer mais do que qualquer memória de seu passado nebuloso.
Branca de Neve nunca mais seria sua maior preocupação e, enquanto seu corpo era deixado pela maresia de memórias antigas e acolhido pela areia fofa da praia, com grãos amarelos que brilhavam como cada nova memória adquirida por Regina nos últimos meses, ela se deu conta que tinha perdoado a princesa.
Perdoado Branca por um erro que ela jamais cometera.
–Agora eu consigo ver que sua liberdade é a minha própria. — Regina disse suavemente, apertando os olhos com força, mas sem sucesso em conter as lágrimas dessa vez. — Todos os anos que passei lhe perseguindo e ameaçando, não impediu somente a você de viver, mas a mim também. Eu construí muros acima de muros em meu coração e a acorrentei junto a mim, Branca. Você era só uma criança quando minha mãe cruzou nossos destinos de maneira absurda e cruel. Sinto muito por ter te culpado e martirizado por algo que você não tinha intenção de causar.
–Você não era muito mais velha que eu e foi tão inocente quanto. Mesmo que todas as consequências posteriores tenham sido causadas por nada mais que nossos corações armagurados, eu nos perdôo. Não desejo nada além de nossa felicidade.
Regina respirou profundamente, ignorando a dor que sentia em seus olhos por fazer tanto esforço em conter as lágrimas silenciosas que desciam por seu rosto. A quentura que envolveu sua pele era reconfortante e a paz que acalmou sua mente era indescritível.
Sua alma parecia estar mais leve e repentinamente renovada. O sentimento a fez sorrir em meio as lágrimas e, embora estivesse com os olhos bem fechados, sabia que Branca estava sorrindo também.
Dedos delgados e frios escorreram por seus braços e envolveram suas duas mãos e ela abriu os olhos, para encontrar Branca a olhando com olhos brilhantes e marejados, um sorriso vermelho harmonizando seu rosto perfeito. Ela resistiu a vontade de fugir do toque que por tanto tempo foi enojado.
–Eu te perdôo, Regina. — A princesa disse as palavras, ainda com um sorriso na boca. As palavras soavam carinhosas e graciosas em seu voz de soprano. — Mas o mais importante é você se perdoar. Redenção é algo que fazemos por nos mesmos e não pelos outros. Se permita, Regina... Se permita, assim como está me permitindo. Se liberte.
Regina apertou levemente as mãos de Branca, sentindo a maciez agradável e entendendo o que ela queria dizer. Não sabia se a princesa estava apenas supondo que ela vivia com culpa e arrependimento em seu coração ou se a conhecia o suficiente para saber como estava se sentindo nos últimos dias, mas de toda forma, as palavras eram como uma carícia na alma machucada da Rainha, que se lembrava do que pensou de si mesma depois do massacre em seu castelo, quando ela pensou não merecer a vida que carregava em seu ventre.
Na verdade, ainda não sentia que merecia, mas agora estava disposta a mudar esse fato. Não pensava que todos os seus maus feitos poderiam ser perdoados, mas suas ações futuras poderiam ser diferentes.
Ela queria se sentir digna de felicidade, sentir que seria uma boa mãe para aquele bebê e que merecia o milagre de gerar uma vida em seu ventre amaldiçoado. Regina achava incrível como a criatura que não tinha nem mesmo nascido pudesse se tornar tão importante em sua vida e constante em seus pensamentos.
Regina lançou um olhar complacente para Branca e desvencilhou suas mãos, ainda sorrindo. Ela limpou as lágrimas de seu rosto e olhou para Robin serenamente, querendo que ele se sentisse confortável, mesmo não fazendo parte da conversa, ele era a causa de tudo aquilo.
Se Robin não tivesse aparecido em sua vida e a tratado com tanto amor, ela não estaria em uma situação como essa agora, por que a felicidade nunca teria a atingido. Regina finalmente foi capaz de ver como uma simples ação poderia causar consequências inimagináveis e a voz de Rumplestiltiskin tamborilou em sua cabeça.
Isso muda tudo. Ele tinha dito sobre a gravidez, e a rainha soube que ele estava completamente certo, porém as consequências futuras lhe eram desconhecidas.
Que grande mal faria não desejar mais a morte de Branca? Que consequência viria se não sua felicidade ao lado de Robin?
O futuro era cheio de incertezas, mas a única certeza que Regina precisava no momento era que Robin Hood a amava.
Regina sorriu genuinamente para Robin e ele lhe devolveu o gesto.
–Seu casamento. — A rainha falou, voltando a encarar Branca. -Todos devem estar loucos atrás de você.
–Eu não duvido. — Branca sorriu, um pouco envergonhada.
–Eu vou te levar, embora não tenha sido convidada... O que é um completo e absurdo ultraje. — Regina comentou, seu imbatível senso de humor fazendo sua língua queimar enquanto ela olhava para Branca com as sobrancelhas arqueadas.
–Me desculpe pela indelicadeza, mas temia ser transformada em parte da decoração ou pior, caso comparecesse. — Branca lhe devolveu o olhar desafiador, mas um sorriso brincava em seus lábios.
–Garanto que seria o pior.
–--
Quando a nuvem espessa de magia negra se dissipou, deixando rainha e princesa em um luxuoso quarto do castelo dos George, ambas se sentiam estranhamente tontas. Regina tentava ignorar o fato de sua magia estar mais forte e mais escura desde o motim em seu castelo, mas estava se tornando impossível. Ela agradeceu aos deuses por Robin não ter a deixado curar Roland no dia passado, pois se com um simples teletransporte a magia estava causando tal má sensação, usa-la para curar alguém poderia ter consequências bem ruins.
Ela não tivera tempo para pensar nisso e seu instrutor de magia não era alguém confiável no momento, por isso, teria que descobrir outrora, e por si só, como reverter aquela situação.
Branca de Neve se recuperou rapidamente e correu pelo quarto para verificar seu vestido e jóias, antes de começar a encher uma banheira de mármore com água quente, ignorando a presença de Regina por alguns minutos, preocupada com seu atraso para o casamento.
Regina se apoiou em uma penteadeira de ferro, esperando a tontura passar, mas sua visão só parecia ficar cada vez mais escura, dominando completamente seus sentidos.
–Regina? Regina, você está bem? — Branca perguntou suavemente, vindo até ela.
–Um pouco tonta, mas ficarei bem. — Regina tentou olhar para cima, mas seu estômago revirando a fez voltar novamente para baixo.
–Você não parece bem. — A princesa tocou seu ombro e Regina instintivamente recuou ao toque, mal acostumada com a afeição de Branca de Neve.
–Estou bem. — Ela mentiu duramente, sentindo sua respiração falhar. Tenho que estar bem.
Regina apertou os olhos e os abriu abruptamente, balançando a cabeça em uma leve negação. Tenho que estar bem. Ela repetiu mentalmente, mal tendo tempo para pensar antes de uma dor aguda a atingir no ventre, fazendo-a perder o breve equilíbrio que tinha conseguido na penteadeira de ferro frio. Regina não conseguiu controlar o grito que nasceu em sua garganta.
–Você não está bem, Regina! — Branca exasperou. — Eu irei procurar ajuda...Fique aqui.
–Não! Branca, não. Não seja tola, garota! Quem nesse reino iria me ajudar a não ser você, com seu coração puro, e as pessoas que me amam, que estão longe daqui? Eu não posso ficar! Do jeito que estou, seria um alvo fácil. — Regina sibilou, com uma careta de dor. Ela tocou sua barriga, acima de seu útero, tentando se certificar de que seu bebê estava bem.
–Não, irão te ajudar! Se eu pedir, eles irão.
–Branca...Não seja inocente. Pensei que sua vida na floresta tivesse te ensinado melhor que isso. Ninguém irá me ajudar...Ainda mais depois do que houve, a rebelião, os montes que matei. Esqueça isso. Eu só preciso voltar para casa. E você, se casar. -Ela exasperou, deixando as lágrimas de desespero salpicarem para fora de seus olhos. A tontura, o mal estar, a dor em seu ventre,-que vinha rápida e cortante, como facadas, pulsando em seu útero...-a criança. Seu bebê. Regina olhou para baixo, sua mão estava espalmada em seu ventre, apertando com tanta força que fazia as pontas de seus dedos ficarem brancos; mas não foi isso que a preocupou, algo estava errado. Ela usou sua mão livre para levantar a saia longa de seu vestido, revelando suas pernas nuas. O olhar de Branca seguiu o seu rapidamente e a princesa ignorou a objeção que Regina tinha ao seu toque dessa vez, e a segurou pela cintura, ajudando-a se manter de pé.
–Regina... Você está sangrando.
Branca indicou o óbvio, porque Regina já tinha visto, mas suas palavras a fizeram se encolher, de todo jeito. O filete de sangue escorrendo por uma de suas pernas não era o sangue normal que deveria vir todo mês, Regina sabia. Parte por que, desde que tomara a poção que deveria a fazer infértil, seu período não era a coisa mais ajustada e certa do mundo, e parte por que, grávida, ela não deveria sangrar. Ela não estava mesmo sangrando a duas luas, coisa que ela não tinha parado para pensar antes da velha Grace a alertar sobre a gravidez, e mesmo quando pensou, não fez caso disso, já acostumada com seu útero louco e amaldiçoado. Mas, desde que estava grávida e, uma coisa certa parecia ter finalmente ocorrido em seu corpo, não conseguia considerar aquilo normal. Principalmente quando uma dor tão forte parecia rasgar seu corpo ao meio.
–O bebê...-Ela sussurrou, se lembrando das palavras assombrosas que ela lera enquanto fazia uma poção que deveria tirar dela a capacidade natural de gerar um ser humano.
"Amaldiçoo com a morte seu dom de dar a vida. Arranco-lhe o broto antes que seja demasiado forte para vingar em um fruto. Agora e sempre, seco e infértil..."
–Bebê? Você está grávida? Deuses, Regina! Você precisa de um médico... Espere, eu vou chamar alguém.
Arranco-lhe o broto antes que seja demasiado forte para vingar em um fruto.
Ela não estava livre da maldição, afinal. A poção ainda estava lá, silenciosa e incurável, matando seu bebê. Arrancando seu pequeno milagre, o impedindo de crescer e nascer.
–Não chame ninguém. Se arrume para seu casamento, eu vou ir embora. Nenhum médico será capaz de me ajudar, nem mesmo se quisesse. Eu preciso de outra coisa... Outra pessoa. Vou ficar bem. — Ela se esforçou para dizer, sentindo que iria desmaiar a qualquer momento, porém, relutante em deixar isso acontecer.
–Não posso deixar que vá dessa maneira! Você veio até aqui por mim, isso foi para que eu chegasse a tempo...
–Então faça valer! — Regina reuniu a pouca força que tinha, ansiosa para se afastar de Branca de Neve e sua ajuda inútil. Aliança nenhuma seria capaz de a ajudar agora, nem mesmo uma tão significativa como a dela. Quem ela precisava estava do outro lado da história, vivendo em um castelo escuro e frio, -provavelmente tramando sua desgraça,- e ela nunca saberia quando chama-lo de amigo ou quando chama-lo de inimigo. Rumplestiltiskin não gostava de sua gravidez, provavelmente porque atrapalhava algum plano futuro que ele tinha de destruir a vida dela, mas Regina sabia que ele não negaria ajuda se ela tivesse uma boa barganha. E ela tinha.
Tinha. Belle, sua prisioneira desaparecida, estava sendo guardada para uma ocasião especial e Regina nunca tinha encontrado algo que valesse tanto para barganha como agora.
Seu bebê.
Uma vida pela outra.
O problema era que a princesa estava desaparecida. Não importava, não mesmo. Rumple era completamente louco pela garota e iria prestar atenção em quaisquer palavras que Regina lhe dissesse, ou, assim ela esperava.
Ela inventaria alguma história. Ela daria um jeito.
–Faça isso valer. -Ela pediu mais uma vez para Branca, percebendo que a dor já não era tão forte como antes, e isso, em vez de a tranquilizar, a deixou ainda mais desesperada. Será que estava feito? Ela tinha perdido sua criança?
O medo a deu impulso suficiente para conseguir um salto com magia, do castelo do rei George, no litoral, até o castelo de Rumplestiltiskin, nas montanhas geladas do outro lado do reino.
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