Fire Keeper
21 Capitulo 20 - Deeply
Notas iniciais

Durante muitos anos, a Floresta Encantada viveu sob a fúria de uma perigosa rainha. O reino de Regina era o maior e mais poderoso, fazendo com que até mesmo outros reis e rainhas tivessem de se curvar ao seu poder. Ela já tinha queimado vilas inteiras porque uma única pessoa a desafiara, já tinha se deliciado ao ver seus cavaleiros quebrarem os ossos e arrancarem os membros de quem ousasse se opor a sua vontade, já tinha arrancado com suas próprias mãos centenas de corações e os feito virar poeira em segundos. Sem pena, sem misericórdia, sem se arrepender.
Agora, ela encarava os rostos furiosos dos que um dia foram lesados pela sua raiva. Regina não se lembrava de nenhum deles, para ela, eram insignificantes. Era como se não fossem pessoas e sim insetos. Vidas descartáveis que apenas atrasariam seus planos por alguns minutos. Seria fácil demais usar magia para destruir todos eles. Seu sorriso ficou maior até se transformar em uma risada e ela apontou debilmente para um homem que bradava uma espada de metal pobre e enferrujado.
–Você realmente pensa que vai me matar com isso? — Ela o perguntou, com a voz divertida. A multidão tinha parado diante da porta de seu quarto, fazendo-a se perguntar como poderiam caber tantas pessoas naquele corredor. O povo se espremia entre si, enquanto gritavam, furiosos, mas não deram nem mais um passo. Eles estavam esperando a reação dela.
–Pela minha espada ou não, você pagará por seus pecados! Bruxa maldita, demônio!
–Monstro! — Outra pessoa o acompanhou.
–Você quem escolhe, Regina. — Um dos camponeses da linha de frente disse, contorcendo seu rosto como se o nome da Rainha fizesse brotar veneno em sua boca. — Pode se entregar de livre e espontânea vontade ou seremos obrigados a forçá-la...
–E se eu não fizer nenhum dos dois? — Ela perguntou, fingindo medo. Ela sempre fora tão teatral, pensou consigo mesma, talvez esse seria seu maior show.
Com suas mãos ainda quentes como tochas, Regina deu um passo para frente. A multidão reagiu instantaneamente, com uma esquivada para trás. Eles ainda a temiam, então porque estavam ali, ela se perguntava. Seria por ordens de Branca de neve? Seria para lutar com o ultimo resquício de dignidade que ainda lhes restavam?
–Regina... — Um sussurro chamou sua atenção. Era Robin. Ela olhou para trás, para os dois garotos que amava.
O ladrão tinha seu rosto vermelho, mas ela não soube dizer se ele estava chorando ou não. Roland estava em seu colo, se espremendo contra seus braços e tentando proteger sua visão apertando os olhos com força. Esse era um hábito de qualquer criança. Fechar os olhos e esperar, como se esse pequeno ato fosse as proteger de qualquer coisa. Regina costumava fazer o mesmo, até mesmo quando não era mais uma criança. Mas agora, ela não acreditava nesse tipo de coisa... Ela sabia que se quisesse proteção, isso viria apenas dela e ela teria que lutar.
–Você não precisa fazer isso... Vamos apenas sair daqui. — Ele suplicou e por um momento, ela considerou. Considerou fugir; conseguiu planejar ela e Robin, montados em um cavalo, subindo as montanhas que levariam até a casa de seu pai. Até a sua casa.
–Chega de conversa, sua puta! — Alguém gritou mais alto do que todas as outras vozes incontroláveis do castelo. Regina desviou a atenção para os rebeldes novamente e encarou o dono da voz. Era uma mulher e ela ergueu uma besta com destreza, atirando uma flecha na direção de Regina. Ela tinha uma mira péssima ou talvez, boa até demais, dependendo de suas intenções... Intenções essas, que Regina não tinha percebido no momento. A flecha atravessou a distância rapidamente, passando pelo ombro de Regina e encontrando algo mais macio para se encravar logo atrás.
Se pedissem para a Rainha descrever o que aconteceu em seguida, ela provavelmente não conseguiria. Sua visão e audição estavam tampados por ódio como nunca estiveram em toda sua vida. Roland estava machucado. Ele estava ferido e tinha muito sangue e isso bastou para Regina. Agora ela conseguia ver que Robin estava mesmo chorando, segurando seu filho em seus braços e gritando como nunca tinha feito antes. A única coisa que ela conseguiu pensar foi em os proteger, fazendo o corpo dos dois serem tomados por uma nuvem negra como piche, que os levaria para o único lugar que ela considerava seguro. Henry iria cuidar bem deles.
Os rebeldes aproveitaram seu momento de distração para avançarem contra ela, mas não conseguiram muita vantagem. Regina estava furiosa e sua magia mais negra do que nunca. Ela iria matá-los. Tinha certeza disso agora. Eram dezenas e ela apenas uma, não se via cavaleiros negros em qualquer canto, mas ainda assim, sem nenhuma ajuda, ela iria matá-los. Ela queria se banhar em sangue, assistir a carne deles se desfazer em suas mãos e um gemido baixo escapou de seus lábios quando ela imaginou o ato. Ela iria matá-los e teria prazer ao fazê-lo.
–Você tem razão... Chega de conversa. — Regina disse lentamente e arremessou a primeira bola de fogo. A adrenalina fazia sua respiração falhar e seu coração bater tão forte que chegava a doer em seu peito.
O fogo que saia de suas mãos não tinha mais a coloração certa. Ele estava escuro e arroxeado, mas ela ainda tinha certeza que era fogo. Quando atingiu os camponeses da linha de frente, o fogo os envolveu como um manto do inferno, os queimando mais rápido que uma labareda normal — uma que não fosse feita de magia negra- teria queimado. Regina conseguia ver a pele se derretendo em volta dos ossos e ouvir os gritos se tornarem cada vez mais ensurdecedores, mas ela não parou.
Um grupo avançou em sua direção e um dos membros conseguiu a acertar no ombro com uma pequena faca, a cravando na carne da rainha com uma facilidade que a fez parecer ser feita de manteiga. Ela recuou com a dor trucidante, mas sabia que se parasse por mais de um segundo, eles iriam conseguir dominá-la. Com magia, Regina os arremessou para o alto, fazendo seus corpos se chocarem violentamente contra o teto abobado cor de salmão e depois caírem de volta ao chão. Estavam mortos, mas ainda tinha outras dezenas de pessoas a sua frente.
As pessoas que ela atacara com fogo agora formavam um bolo de carne queimada no chão, com um cheiro tão horrível que Regina pensou que fosse vomitar assim que o sentiu. O fogo estava controlado em uma determinada área, surpreendentemente ele nem mesmo ameaçara se alastrar, o que fez Regina se convencer de que ele agia de acordo com suas vontades. Era fogo criado de sua magia negra, quase como uma nova propriedade inventada. Ele a obedecia.
Alguns dos rebeldes recuavam enquanto gritavam em desespero. Eles estavam com medo dela, mais do que antes. Os que insistiam em a atacar, ela contornava rapidamente com o uso de magia.
–Agora sou eu quem vai dar as opções. — Ela gritou, convencida. — Vocês podem ficar e morrer, virarem uma mancha de sangue eterna em meu carpete e nada mais que isso... — Ela apontou para os corpos que não tinham mais pulsação ou respiração, que jaziam no chão frio a seus pés. — Ou podem ir embora e eu irei considerar deixá-los em paz.
–Falas vazias que para mim já não fazem mais sentido...Eu posso morrer agora, lutando, ou posso morrer mais tarde, em um incêndio em minha vila. Não importa qual seja a hora ou a opção, a culpada será você. Vamos morrer de todo jeito, porque você irá nos matar! — Uma mulher gritou, com a voz embargada e o rosto tomado por lágrimas. — Você destruiu tudo em nossa vida! Você não tem alma e nem coração... Seu monstro!
As pessoas concordavam com a mulher, dando gritos de euforia. Eles pararam de lutar, para ouvi-la, assim como Regina fez.
–Você destruiu minha casa... Você matou minha família. Meu marido, meu filho...Ele nem sabia o que estava acontecendo, era só uma criança. Você não se importou com isso. Mas agora... Agora eu vou tirar a única coisa que você ainda não tirou de mim. Porque eu não quero te dar o prazer de o fazer...
Era uma mulher loira e muito pequena, com grandes olhos azuis que se destacavam em seu rosto sujo. Ela não parecia se importar com a saliva que escorria de sua boca enquanto seu choro compulsivo fazia seu corpo chacoalhar. Regina segurou seu riso, curiosa para saber o que a mulher faria. A camponesa se abaixou lentamente, e pegou uma arma que já se encontrava sem dono no chão. Uma faca de caça, de tamanho médio, que brilhou sob a luz do fogo negro. Primeiro Regina pensou que a loira fosse lançar a faca em sua direção, mas ela fez exatamente o contrario. A mulher cravou a faca em seu próprio corpo, em sua barriga. Depois a retirou e cravou novamente, em pontos cegos, enquanto o sangue encharcava sua roupa. E ela gritava, com os olhos fechados e sua careta expressando dor.
–Você está completamente doida, querida. — Regina disse com sarcasmo, embora estivesse assustada. Pela primeira vez naquele noite, algo foi capaz de impressioná-la.
Uma pessoa estava tirando sua própria vida apenas para não a dar a chance de o fazer. Uma pessoa qual ela já tinha arrancado as coisas mais importantes... Seu marido e filho. Sua família.
Regina olhou para trás, para seu quarto, onde Robin estava a um tempo atrás, ignorando os gritos que explodiram mais uma vez ensurdecendo todo o castelo. Os rebeldes estavam mais horrorizados do que ela. Mas Regina se permitiu ter um momento. Ela lembrou-se que estava ali apenas para proteger a si mesma e a sua família, a Robin e a Roland e o bebê. Mas que direito tinha ela de ter uma família quando já tinha destruído tantas outras? Ela tocou seu ventre e quis tirar aquela criança dali. Quis arrancá-la e a colocar em outro útero, talvez na barriga estraçalhada da mulher qual ela tinha matado o filho. Essa criança não a merecia como mãe e nem o destino que teria sendo seu filho.
–Eu já dei as opções, qual vai ser a escolha? — Ela perguntou fraca, olhando para as pessoas que restavam.
–Você não merece viver! — Alguém gritou, mas ela não soube quem.
–Não foi isso que perguntei. Bem, eu sugiro que saiam. Esse lugar já está sujo o bastante... Vai demorar dias para tirar esse cheio de merda que vocês exalam daqui. — Ela disse com desdém. Estava cansada, não queria mais lutar. Estava com raiva de si, de Branca e de todos aqueles idiotas que invadiram seu castelo. -Já esta claro o suficiente que vocês não podem... Não conseguem me vencer! Voltem para seus casebres ou buracos de terra, que seja, seus camponeses imundos.
–Você não entende, não é mesmo? Não temos para onde voltar ou uma vida para viver... Você já destruiu tudo.
–Certamente porque mereciam. Agora saiam logo do meu castelo!
– Sua vida deve ser mesmo muito horrível para você gastar seus dias sentindo pena de si mesmo e destruindo a felicidade alheia. Eu irei sair, só por isso. Porque agora vejo como você é digna de pena e mais nada. Eu não preciso te matar porque isso seria bondade minha! Você pode ficar ai com sua vida miserável e suas lamentações... Vai doer muito mais do que ter sua cabeça arrancada por minha espada.
Regina observou o homem partir. Ele apertou os ombros de algumas pessoas e lhe lançou sorrisos antes de sumir de seu campo de visão. Algumas pessoas pareciam concordar com ele e o seguiram pelo corredor ensanguentado.
A rainha finalmente conseguiu olhar a situação por completo. Muitos tinham fugido e muitos se debruçavam sobre corpos arroxeados chorando por suas mortes. O cheiro de carne queimada ainda era forte e fogo ainda brilhava em sua cor sobrenatural. Poças de sangue molhavam o chão, formando um estranho contraste com a cor clara do carpete. As vezes, Regina via algum membro sem dono, extirpado do antigo corpo violentamente. Tufos de cabelo e corpos secos completavam a paisagem grotesca.
Ela tinha feito tudo aquilo, sozinha, e nem se lembrava como. A luta fora um momento de pouca lucidez e muita adrenalina para Regina e agora ela parecia cair em si. Seu ombro doía e ela ergueu a mão para arrancar a faca que tinha sido cravada ali a tempos antes. Um filete de sangue escorreu do local, descendo pelo seu braço como uma fonte vermelha. Era bonito. A cor, a textura, a quentura do líquido. Pelo menos, ela achava. Mas também era aterrorizante. Roland estava sangrando. A flecha lançada pela rebelde acertou as costas do menino em cheio, seu pequeno corpo tremeu e ele gritou até que sua voz sumisse. O sangue encheu sua blusa branca com uma velocidade incrível e isso tinha libertado o ódio de Regina. Ela queria vê-lo, mas estava com medo. Com medo de mover um músculo e acabar machucando mais alguém... Acabar fazendo mais sangue escorrer.
Ela se ficou aliviada por ter enviado Robin e Roland para sua casa antes de começar aquele pequeno massacre. Eles não a perdoariam nunca por aquilo. Eles teriam medo dela se vissem... Roland nunca mais a chamaria de 'Gina.
Regina sentiu aquele sentimento que pensou que nunca fosse sentir. Ele tinha um gosto amargo e fez seu estomago embrulhar. Ela chorou. Lágrimas desceram por seu rosto e caíram salgadas em seus lábios. A rainha ergueu seu olhar, podendo ver um rapaz abraçando ao corpo sem vida de uma mulher mais velha. Ele chorava também, mais ruidosamente que ela. Regina lamentou a morte daquela senhora da mesma forma que seu filho estava fazendo. Ela estava arrependida.
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Robin segurava Roland da melhor maneira que podia, tentando não mover muito o corpo do garoto. Seu filho tinha desmaiado com a viagem que Regina os mandara e o ladrão só conseguia pensar em como tiraria aquela maldita flecha do corpo do filho.
Ele tinha um pouco de conhecimento sobre cuidados médicos mas nada muito certo. Tudo o que sabia aprendera na floresta, usando plantas como remédio e folhas como curativo.
Ele estava em um lugar desconhecido. Um quarto aparentemente feminino se estendia a sua frente, com decoração rústica e ao mesmo tempo delicada. Ele demorou a ver uma pintura sobressalente que estava pendurada em uma parede. Era Regina. Mais nova, com certeza, mas era ela. Montada em um cavalo, com uma grande trança caindo ao lado do corpo. Ela parecia uma amazona vinda de livros de heroínas que ele lera quando era pequeno.
–Ola? Alguém? Eu preciso de ajuda. — Ele gritou, rezando a todos os deuses que conhecia para que seu filho ficasse bem.
Robin colocou o menino deitado de lado na cama alta. A flecha tinha entrado no lado direito das costas do menino e atravessado até o ombro, mas Robin não sabia exatamente que lugares a flecha tinha atingido internamente, por isso era melhor não mexer no corpo, para não piorar a situação.
Robin se amaldiçoou por não conseguir controlar magia, ou nunca teria deixado Regina fazer o que fez. A dele estava um caos, sem saber com o que se preocupar primeiro ou onde buscar ajuda. O ladrão não se incomodou com as lágrimas que enchiam seus olhos e embaralhavam sua visão, não se incomodou em não chorar.
–Regina?! — Ele gritou de novo, mesmo sabendo que a mulher provavelmente não estaria naquele lugar. Ele desejou que estivesse.
Alguns segundos depois que mais pareceram uma eternidade, a porta do quarto se abriu lentamente. Revelando atrás dela um homem velho e desconfiado, que olhava para Robin preocupado.
–Graças aos deuses! É meu filho, ele está machucado, por favor...
–Quem é você? Como entrou aqui? — Henry o perguntou com a voz temerosa. Ele parecia um homem simples, e apesar de ter medo em seu olhar, também tinha compaixão.
–Eu não entrei. Regina me mandou pra cá... Eu sou Robin Hood, um... amigo dela. E você?
–Sou o pai dela. — Ele sorriu um pouco ao ouvir de Robin que era um amigo e se rosto se suavizou. — O que houve com o menino?
Robin suspirou aliviado. Regina não o mandara para um lugar qualquer, ela o mandara para o único lugar que deveria considerar seguro... Sua casa. Robin quase sorriu, teria sorrido se Roland não precisasse desesperadamente de sua ajuda.
–Foi acertado por uma flecha. Pode me ajudar?
–Claro. — Henry sorriu.
Minutos depois, Robin e Henry estavam trabalhando incansavelmente no corpo de Roland. O pequeno teve que ser acordado para facilitar o trabalho e o coração de Robin ficou apertado ao ver seu filho chorar de maneira compulsiva, mas não tinha outro jeito, a flecha tinha de ser retirada.
Cortaram a blusa e examinaram a ferida ensanguentada, teriam de limpar o local e as mãos antes de qualquer coisa.
–É melhor segurá-lo.– Henry sugeriu quando voltou ao quarto com uma bacia de água, toalhas, uma garrafa com álcool e algumas ferramentas que Robin não soube identificar. — Lave suas mãos com água e álcool, eu já fiz o mesmo. Vou limpar a ferida enquanto você termina isso.
Robin seguiu prontamente os conselhos de Henry, lavou suas mãos e se pôs ao lado do filho, para segurá-lo enquanto sussurrava palavras de conforto em seus ouvidos. O pai de Regina ao menos permanecia mais calmo do que ele e o ladrão agradeceu mentalmente por isso, porque apesar de ser uma situação em que seu filho mais precisava de sua ajuda, ele estava desesperado e sem saber o que fazer.
–Quando eu retirar essa flecha, ele vai sentir ainda mais dor. — Henry o avisou, controlando o volume de sua voz para que Roland não o escutasse. — Mas não podemos a deixar aí, de todo jeito.
Quando Henry terminou de limpar a ferida, foi possível ver a pele ao redor da lança pontiaguda. Robin não queria olhar, uma pequena parte dentre dele queria sair daquele quarto e fingir que aquilo nunca tinha acontecido. Ele não conseguia suportar a ideia de perder seu filho e em seu subconsciente, esquecer parecia o melhor remédio. Mas ele ficou ali, segurando as mãozinhas de Roland e beijando seu rosto, enquanto Henry usava uma enorme tesoura de jardinagem para cortar as duas pontas da flecha, para retirá-la com mais facilidade.
–É importante que as pontas fiquem bem aparadas, pra que nenhuma ferpa fique dentro do corpo. — Ele disse suavemente. — Temos sorte de não ser uma flecha de ferro.
–Roland... — Robin o chamou, tentando o confortar. O menino já não se mexia tanto como antes, parecia ter perdido as forças e estar se deixando levar pela dor. Ele ergueu seus olhos avermelhados para olhar para o pai. — Se lembra quando fomos no alto da Montanha dos Sonhos ver as águias brancas? Se lembra da sensação de adrenalina por estar em um lugar tão alto?
Roland apenas piscou para o pai em concordância. Ele se lembrava dos pássaros e da montanha, mas não sabia o que era adrenalina. Ter seu pai conversando com ele parecia o acalmar, pois lentamente suas lágrimas foram se tornando apenas soluços.
Henry já estava preparado para tirar a flecha. Ele segurou o ombro de Roland para o manter firme e pegou uma das extremidades, puxando lentamente, mas de forma contínua.
–Eu fiz isso muitas vezes quando participei da guerra dos ogros. Nunca servi para lutar, preferia ficar ajudando os feridos ou o planejamento de ataque. Isso foi a muito tempo atrás, mas... Ainda recordo de uma coisa ou outra. — Ele terminou de dizer, ao mesmo tempo que terminou de retirar a madeira do corpo do Roland.
–Ele está suando muito e ardendo em febre. — Robin constatou, tocando o rosto do filho.
–Isso é o corpo dele tentando se livrar do intruso. — Ele respondeu naturalmente, erguendo a flecha ensanguentada. — Logo vai passar, mas é melhor darmos algum remédio a ele para prevenir uma infecção. Mas primeiro, precisamos dar um jeito nesse sangramento.
Depois de limparem todo o sangue e encaixarem a pequena curva que era o corpo de Roland, Henry e Robin se sentaram aliviados na beirada da antiga cama de Regina. O remédio que deram a criança acabou sendo um sonífero poderoso, que o levou ao sono em segundos. Robin preferia assim, pelo menos o menino não sentiria as dores por algum tempo.
–Eu nunca negaria ajuda a um bom homem como você parece ser, Robin Hood. Mas não estou muito convencido de que é mesmo amigo de minha filha.
–Eu sei que isso foi estranho para o senhor...
–Henry Mills.
–Isso, Henry. Sei que foi inesperado mas não pude fazer nada contra. Regina simplesmente me mandou para cá com o uso de magia. — Ele tentou explicar.
–Mas porque?
–O castelo dela estava sendo invadido... Um dos invasores acabou acertando Roland e essa foi a última coisa que vi antes de aparecer em sua casa.
–Invadido? Por quem? E Regina, ela está bem? Faz tempo que não da notícias.
–Por rebeldes que são contra o jeito peculiar de Regina. Eu não sei até onde o senhor sabe, mas isso tudo começou com Branca de Neve.
–Oh, sim.
–Eu não sei como Regina está, infelizmente. Atravessaria essas terras e iria até o castelo a procurar se não fosse por meu filho.
–Eu entendo... Mas conhecendo-a, posso dizer que está bem. Regina não se abala por pouco.
–Eu espero que esteja certo. — Robin disse temeroso.
Ele queria amaldiçoar os céus e a terra pelo que tinha acontecido. Seu coração estava divido entre Roland, Regina e o bebê, que nem mesmo tinha nascido mas já estava participando de cenas tão cruéis.
Mesmo com tanto medo dentro de si, Robin finalmente sorriu, ao se lembrar que Regina estava grávida. Ele teria mais um filho e essa notícia enchia seu coração de esperança.
–Qual o motivo desse sorriso? — Henry perguntou pregando a Robin um susto. Ele tinha se esquecido da presença do pai do amor de sua vida. E avô de seu futuro filho.
–Regina. Sendo pai dela, você tem que saber que somos mais que amigos.
–Eu desconfiei não... Mas é uma surpresa e tanto, já que Regina não costuma ter muitos... Relacionamentos afetivos.
–Eu realmente espero que ela esteja bem. — Robin sussurrou. Dada a situação que Regina se encontrava, não seria bom que ela se envolvesse em combate ou a um estresse muito grande. O bebê podia sentir tudo isso e não faria bem. O ladrão se lembrava de quando Marian estava esperando Roland e quase o perdeu por causa de uma queda de cavalo.
Ele não sabia se podia comentar desse detalhe com Henry, então preferiu o ocultar. Seria mesmo melhor se Regina o fizesse, afinal Robin era um estranho para ele.
–Regina não se machuca facilmente, garoto. Daqui a pouco ela entra por essa porta tão benevolente e deslumbrante como sempre.
–Dessa vez era diferente. Ela tem toda a floresta encantada voltada contra ela.
–Nem toda. Nós mesmos estamos aqui a aguardando ansiosamente para um abraço, não é? Agora, que tal tomar um chá enquanto a esperamos?
–Eu... não quero sair do lado de Roland. — Robin disse, olhando de relance para o filho que ainda dormia profundamente.
–Você pode ficar aqui com ele enquanto eu faço nosso chá. Prefere hortelã ou maçã?
–Maçã. — Ele sorriu.
–--
Nada disso teria acontecido se eles não tivessem ido a sua procura. Não era como se Regina fosse passar de aldeia em aldeia os queimando e torturando, pelo menos não mais; assim Regina pensava.
Ela estava prestes a oferecer uma trégua a Branca de Neve. Ela estava prestes a ir contra seu orgulho e colocar sua cara a tapa na frente da pessoa que ela mais odiava, apenas para não ter que passar por isso. Mas eles foram mais rápidos que ela.
Regina se perguntava se ela tinha mesmo culpa por todas as mortas, se de certa forma ela estava apenas se protegendo. Mas de todo jeito, ela se arrependia de não ter escutado Robin, de não ter fugido com ele. Se tivesse o feito, Roland nunca teria se machucado e eles estariam juntos agora.
A cena de destruição não causava mais prazer no corpo de Regina, e sim repulsa. Seu estômago dava voltas enquanto ela se forçava para tirar todo aquele sangue do carpete e das paredes. Ela disse a si mesma que não deixaria o castelo naquele estado, não queria corpos apodrecendo em sua própria casa.
As últimas pessoas que restaram em seu corredor foram enviadas para onde vieram com o uso de magia antes que pudessem dizer qualquer coisa. Eles viram Regina chorar e a olharam com desprezo da mesma forma, talvez não entendessem o que se passava em sua mente no momento.
Tirar os corpos e limpar o sangue acabara funcionando como uma terapia repugnante, mas que a deixara bem mais calma. Fumaça negra cobria todos os lugares que ela tocava, varrendo rapidamente quais quer resquícios de luta.
Toda magia vem com um preço.
E ela se perguntava qual teria que pagar por fazer sumir todo aquele liquido vermelho e espeço.
Quando terminou no corredor, Regina andou lentamente para as outras partes do castelo, temendo encontrar outro grupo de revoltados, mas o lugar estava terrivelmente vazio.
Ela não queria descobrir o que tinha acontecido com todos os servos e cavaleiros, pois algo bom, com certeza, não era.
Seu palácio estava destruído. Não fisicamente, mas, ainda assim, destruído. Do que adiantava o título de rainha, o castelo e todo o poder se não tinha ninguém para quem liderar? Ela não tinha mais um povo e podia finalmente sentir isso vendo os cômodos escuros e abandonados. Ela podia estar viva, mas não tinha mais moral. Fora isso que o homem tinha visto nela, por isso recuou e levou com ele grande parte das pessoas. Eles já tinham a derrotado e nem precisaram feri-la para isso.
A cozinha era o único cômodo que estava bem iluminado e tão arrumado como sempre fora. Regina conseguia sentir o cheiro de canela e damasco que pareciam estar impregnados naquelas paredes desde sempre. Aquilo a confortou um pouco e ela se permitiu um descanso, se sentando na mesa alta de madeira perfeitamente polida.
–Regina, é você? — Um sussurro assustado saiu de algum canto fazendo Regina pular.
–Clare? — Regina sussurrou, olhando em volta para encontrar a cozinheira que ela considerava intrometida.
–Eu estou embaixo da mesa. Eles já foram embora? — Clare perguntou, assustada, o que fez Regina rir e surpreender consigo mesma por isso. Seu senso de humor era inacabável.
–Eles morreram, Clare. Pode sair daí.
–Pensei que a senhora é quem fosse morrer. — Clare disse dando de ombros enquanto se arrastava pelo chão. A empregada se levantou e flexionou as costas, reclamando de dor. — Eu fiquei lá embaixo por muito tempo.
–Porque se escondeu?
–Se você vê um bando de loucos com armas e fogueiras seu primeiro instinto é sair do caminho. A mesa estava próxima, então...
–O problema deles era comigo e não com meus servos.
–Então porque saíram arrastando seus cavaleiros pelo pescoço? Preferi não arriscar. — A mulher se justificou, sorrindo para Regina, que a achava estranha.
–Aposto que todos os outros servos devem ter aproveitado o momento para fugir, entretanto, você continua aqui. Porque?
–Eu não tenho para onde ir. Passei a vida inteira no castelo de George, o servindo... É tudo que sei fazer.
–Sem família? Filhos, pais? Irmãos? — Regina indagou assustada. Era difícil imaginar alguém que não tinha nem mesmo um primo distante para visitar as vezes, embora ela mesma tivesse apenas seu pai e mal se lembrava de visitá-lo.
–Nunca tive filhos e meus pais já morreram a muito tempo. Eu nasci no castelo, como uma serva, e assim devo morrer. — Ela disse por mim, mas não parecia triste. Era como se ela estivesse conformada com sua situação e até gostasse.
–Você não é normal. — Regina observou e riu novamente. — Bem, acho que não irá morrer como uma serva, de toda forma. Não tem mais motivos para permanecer aqui.
–Aposto que depois dessa farra toda a senhora está morrendo de fome. Isso é motivo suficiente para permanecer.
–Não... Eu não vou ficar. Preciso encontrar Roland e Robin, estão precisando de mim.
–Então porque ainda não foi, alteza?
Regina sabia a resposta, mas não queria dizer em voz alta. Ela estava com vergonha de encará-los, pois eles saberiam o que ela tinha feito. A rainha não queria que as únicas pessoas que ela amava sentissem medo dela, por isso ela estava evitando o momento. Ficara horas limpando gota por gota de sangue do andar de superior, quando podia ter feito todas desaparecerem em um instante, apenas para ter mais tempo sozinha para criar coragem de ver Robin.
–Roland está machucado. Eu poderia curá-lo, mas não sei se é uma boa ideia.
–Verdade. Não é uma boa ideia ir cuidar dele quando você mesma está machucada. Olha só esse ombro, está muito inchado. — Clare disse boquiaberta, e logo se recompôs, indo buscar algo na dispensa da cozinha. — Eu vou fazer um curativo nisso e então você poderá ir até os garotos.
–Não precisa de curativo. — Regina suspirou, passando a mão pela ferida exposta e curando-a com magia.
–Então você já pode ir vê-los. — Clare sorriu contente. A mulher era um mistério para Regina, mas ela concordou com sua fala.
–Eu irei... Mas e você? Acho que é a única que resta no castelo.
–Eu vou ficar bem... E não, não sou a única. Tem os prisioneiros do calabouço e o homem louco que fica na torre do castelo. — A cozinheira disse, forçando os olhos. — Ele é doidinho mesmo. Eu vou fui até lá e conversei com ele uma ou duas vezes.
–Na torre? Mas... Eu dei ordens claras de que nunca deveriam subir naquela torre. Ela é protegida por magia! — Regina se exaltou. Há quanto tempo não visitava aquele lugar? Desde que Robin apareceu sua vida virou de cabeça para baixo e ela deixara de fazer coisas que antes considerava essenciais. Mas a única pessoa que estava naquela torre era a princesa que tinha capturado, Belle. -Homem, você disse?
–Sim, um homem. Voz grossa e clara.
–Poderia me mostrá-lo, Clare?
As duas mulheres, rainha e empregada, subiram as longas e estreitas escadas que levavam até a torre leste do castelo. Regina tentava se convencer de que estava tudo bem, que Belle não tinha fugido daquele lugar, mas ela sabia que estava errada. Afinal, era impossível a princesa ter se transformado em um príncipe. Quando chegaram, Regina espiou temerosa pela pequena janela da porta. La dentro, um homem nu estava deitado de bruços na cama, aparentemente dormindo.
–Isso não pode ser sério. — Regina disse, suspirando. Ela usou magia para destrancar a porta pesada e entrou para o quarto em passos firmes. — Idiota! — Ela gritou para que o homem acordasse, mas ele não mexeu um músculo.
Clare se apressou para ajudar, cutucando o ombro nu do antigo cavaleiro da rainha, mas o homem continuava em sua posição inicial. A cozinheira virou-o corpo com delicadeza e colocou a ponta dos dedos na frente do nariz do homem, esperando poder sentir sua respiração fazendo cócegas em seus dedos.
–Ele não está respirando. — Clare disse, assustada. — Acho que morreu.
–Mas morreu de que?
–Olhe isso. — A empregada apontou para uma ferida na cabeça do homem, que tinha uma casca grossa e amarelada, como sangue e pus seco. — Deve ter inflamado ou pegado alguma infecção. A última vez que conversei com ele foi a umas duas semanas... Agora está explicado o porque dele parecer tão doido. Devia delirar por causa da febre... Pobre homem.
–Não era para ele estar aqui. — Regina disse, nervosa.
Belle deveria ter fugido e isso significava ainda mais problemas. Se Rumplestiltiskin a encontrasse, iria querer matar Regina. Ela estremeceu com o pensamento. Não precisava de mais um querendo a matar. Ela precisava encontrar a princesa antes que Rumple o fizesse, se é que já não tinha feito.
–Vamos, Clare. — Regina chamou, dando as costas para o homem morto.
–Vai deixá-lo aqui?
–Sim... Tenho pressa. Nós vamos para a casa de meu pai, nas montanhas. — A rainha se justificou.
Apesar de não ter nenhuma afeição por Clare, ela não iria deixá-la em um imenso castelo com a companhia de nada mais que um cadáver. Antes mesmo que chegassem ao primeiro degrau das escadas, as duas foram transformadas em uma nuvem que as levaram direto para a casa dos Mills.
Regina se sentia péssima, mas teria de fazer isso uma hora. Teria que encarar as pessoas que amava e mostrar a eles a verdade de seu coração. Ele era negro como a noite e tempestuoso como o mar, mas também era profundo. Seus sentimentos eram profundos e avassaladores, muitas vezes isso a fazia perder o controle de suas ações, mas pela primeira vez, ela estava arrependida.
E aquilo a corroía de maneira dolorosa.
Regina tocou seu ventre, sussurrando um pedido de desculpas para seu filho. Ele era o que menos merecia aquilo tudo. Não tinha nascido mas já carregava o fardo de ter como mãe a mulher mais cruel de toda a Floresta Encantada, muito parecido com o fardo que a própria Regina carregava quando era criança.
A rainha suspirou, se convencendo de que teria que lutar muito para merecer o amor de uma criatura tão pura e inocente. Uma criança que a enxergaria como um exemplo a ser seguido e a amaria incondicionalmente.
Mas primeiro, ela teria que resolver problemas que já tinham nascido. Robin e Roland estavam em algum lugar daquela casa esperando por ela e Regina não queria decepcioná-los. Não queria decepcionar sua família.
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