Fire Keeper
20 Capitulo 19 - Burn The Queen
Notas iniciais

Regina esperou Robin durante três dias. Os três dias mais longos de sua vida. Ela se permitiu pensar em apenas si mesma durante todo o tempo. Pensar em toda sua trajetória e o que a levou a estar ali naquele momento. Pensar na criança que carregava em seu ventre e em como aquilo mudava sua vida.
Ela nunca tinha visto uma gravidez de perto. Nunca teve seus olhos cheios de lágrimas pelo amor de uma mãe por seu filho, pelo contrário, ela sempre carregou em seu coração a tristeza de ter um mãe com atitudes duvidosas e amor mais duvidoso ainda. Em sua adolescência, quando Daniel ainda era vivo e tudo que ela gostava de fazer era planejar a vida dos dois, ela pensava que seria uma ótima mãe. Daria a seus filhos tudo o que Cora a negara e claro, seria bem diferente dela. Mas agora, aqueles pareciam dias muito distantes. Ela não era mais a mesma Regina e certamente já era uma pessoa pior que sua mãe. Pelo menos ela sabia reconhecer.
Mesmo tendo tanto ódio e amargura guardando em seu coração, Regina sabia reconhecer o que seria um bom ambiente para uma criança viver e era isso que desejava para sua própria. Ela se assustava consigo mesma, quando, sem mesmo se dar conta do que estava fazendo, acabava por passar horas acariciando sua barriga e pensando no futuro daquela criança.
Quando o pôr do sol estava caindo naquele dia, Robin Hood chegou ao castelo, com Roland montado em suas costas. Era uma visão qual Regina estava acostumada e o tipo de coisa que lhe arrancava um sorriso fácil. Mas assim que viu o olhar em seu rosto, Regina soube que algo não estava certo. Até mesmo Roland parecia apreensivo. O sorriso da Rainha se desfez.
–Você demorou.
–O que ainda está fazendo aqui, Regina? — Robin perguntou preocupado e a abraçou fortemente. Roland escorregou pelas costas do pai e pousou suavemente no chão. -Eu vim o mais rápido que pude, mas pensei que já estaria longe.
–Como assim, Robin? Porque eu sairia daqui? — Regina se afastou do ladrão, apenas o suficiente para ver o terror em seu olhar, mas não se desvencilhou de seu abraço. De certa forma, a confortava.
–Você não sabe? Regina, o exército de Branca de Neve está passando por cada canto desta terra avisando a todos que tomarão o reino... Branca está viva e pretende te destronar.
Branca de Neve! Regina suspirou com a notícia, se perguntando como pode ter se esquecido dos planos de sua enteada. Ela esteve tão distraída pensando em como contaria a Robin sobre a criança que mal se lembrava do que vira no espelho a três dias passados.
–Eu sei que ela está viva... Eu vi.
–Eu só soube porque meus homens me disseram... Você disse que tinha... Eu estou tão feliz que não o fez. — Robin engasgou e a abraçou novamente. — Se lembra do que eu te disse certa vez? Não sou eu quem vou mudar você. É você quem vai fazer isso a si mesma, simplesmente porque vai achar melhor assim. Não matar Branca de Neve, Regina... Isso é um começo.
Regina olhou alarmada para Roland, não queria que o menino escutasse esse tipo de coisa. Não diria a Robin naquele momento que Branca estava viva por questões maiores do que sua vontade, mas que de todo jeito, ela gostara da notícia. Ela não sabia como lidar com isso ainda, mas de certo aprenderia.
–Mas... Porque eu deveria deixar o castelo?
–Regina, você ainda não entendeu? Te destronar significa tirar todo o seu poder e te condenar por seus crimes. Branca de Neve acendeu uma faísca que você não é capaz de controlar, Regina... Ela está encorajando todo o reino a se voltar contra você! Nesse tempo em que estive fora finalmente pude ver como se comportam a respeito de você, eles estão planejando coisas horríveis. Você não é muito querida entre a população. Eles podem estar agora mesmo a caminho do castelo com estacas e tochas, prontos para te espetar e queimar. Eu sinto muito.
–E você acha que fugir é uma melhor escolha? Robin, eles sabem bem com quem estão lidando. Nem mesmo todos eles juntos seriam capazes de lutar contra mim ou já teriam feito isso a muito tempo!
–Agora é diferente... Branca de Neve tem a ajuda de todas as fadas, ela tomou o castelo de Rei George e todos os cavaleiros dele se renderam ao poder dela. Não é só o seu povo, Regina... Não são apenas suas terras. É toda a Floresta Encantada. Todos que de certo modo foram feridos por você, diretamente ou não.
–Não importa, Robin. Eu não sou uma covarde. Quem venha a Floresta Encantada e os sete anões, eu não os temo.
–Então o que ira fazer, Regina? Se entregar? Eles irão condená-la a morte. — Robin disse firme. Ele tinha plena consciência agora do quanto odiavam Regina. Ele ainda acreditava na bondade dela, ele via isso... Mas suas palavras não convenceriam milhares de pessoas sobre a Rainha.
–Não irei me entregar ou entregar meu reino. O título de rainha é meu por direito, já que me casei com Leopold. Branca de Neve só poderia assumir o trono quando eu morresse, se eu não tiver nenhum herdeiro. Caso contrário, ela contínua com o título de princesa e tem poder restrito. Ela pode se casar com Charming e ter as terras de Rei Leopold se quiser... Mas ela não fará o mesmo comigo.
–O que as leis dizem sobre motim? Porque é isso que ela pretende.
–Mesmo em um motim, meu poder passaria para um herdeiro de primeira linhagem... Um filho. Vivemos em uma monarquia, Robin...
–Mas você não tem um filho, Regina. E mesmo se tivesse, ele teria que ter idade suficiente para liderar um reino. Se esse motim acontecer, você não vai ter outra escolha a não ser deixar o reino na autoridade de Branca de Neve.
Regina odiava ter que admitir que ele estava certo. Ela poderia lidar facilmente com o povo, poderia transformar todos em pedra se assim desejasse, mas Branca de Neve ainda teria ajuda das fadas e não era fácil para Regina combater magia branca.
–Regina, você pode deixar tudo isso para trás. — Robin disse suplicante. O ladrão se abaixou para pegar Roland em seu colo. O garoto estava estranhamente calado, o que fez Regina suspeitar que ele sabia da seriedade da conversa, mesmo sendo tão pequeno. — Nós podemos deixar tudo isso para trás. Podemos reconstruir nossa vida, como uma família... Não vai ser em um castelo cheio de servos como esse, mas, ainda assim, será feliz.
–Podemos viver como uma família aqui mesmo, Robin...-Regina se permitiu sorrir e acariciar o rosto do ladrão. Ela ainda não tinha dado a ele a grande notícia.- Eu não irei fugir.
–Então, o que? Você matará cada um que se atrever te enfrentar? — Robin suspirou impaciente. Para ele fora doloroso demais ter que ouvir um bando de desconhecidos planejar terríveis formas de assassinar a mulher que ele amava. Acabara se envolvendo em uma briga em uma taberna com um bêbado estúpido que ousara dizer que foderia Regina até ela sangrar antes de arrancar sua adorável cabeça. Depois dessa briga, ele voltou para o castelo mais rápido que pode e não esconderia de ninguém que estava morrendo de medo. Medo de perdê-la ou que machucassem seu filho.
Agora ele não era apenas um ladrão, mas também um traidor. Deixara claro para todos naquele lugar sua posição sobre Regina e tinha certeza que a essa hora não seria segredo para mais ninguém que os dois eram amantes. O povo viria para a rainha e para quem quer que fosse que estivesse ao seu lado, então ele e Roland estavam em uma situação complicada agora.
–É o que eu tenho feito durante minha vida. — Ela disse fria. — Eles não irão machucá-lo, Robin... Você pode passar despercebido e manter Roland seguro. O problema deles é comigo.
–Não mais. Eles sabem que estou com você, e isso me torna automaticamente um inimigo para eles.
–Como sabem? Eu disse para manter nossa relação em segredo, justamente para casos como esse... — Ela exasperou.
–Eu contei... Gritei, na verdade, para quem quisesse ouvir. Eles estavam fazendo piada de você, Regina. Você não faz ideia de como é lá fora.
–Na verdade, eu sei bem. — Regina disse, se lembrando de quando tinha se disfarçado como uma simples camponesa e visto de perto o que pensavam sobre ela. — Eles me odeiam tanto quanto eu os odeio. Se eles sabem sobre vocês é apenas mais um motivo para ficarmos aqui... Não irei viver como uma fugitiva para o resto da vida, Robin. Roland não merece esse destino. Eu irei ficar e fazer o que for preciso para que nada os machuque. Isso, claro, se você ainda querer ficar comigo...
–Não podemos viver como fugitivos, mas também não podemos viver no meio de uma guerra. Isso tem que ser resolvido sem que mais sangue inocente seja derramado... Eu quero ficar com você, Regina. Eu te amo. O que eu não quero é ter nossas cabeças espetadas em uma estaca.
–Isso não vai acontecer... Não é do feitio de Branca. Ele não irá os machucar. Tenho certeza que qualquer pendência será resolvida apenas comigo.
–Não é de Branca que tenho medo... É dos outros. Branca de Neve pode ter misericórdia, mas o povo não tem, Regina. Eles não pensarão duas vezes se tiverem a oportunidade de te machucar.
–Você tem razão. Então eu tenho que resolver isso com Branca de Neve cara a cara... Assim como da última vez.
–Você não vai...
–Matá-la? Não. Ficou claro o suficiente para mim que vingança não me faz bem. Eu irei propor uma trégua. Irei pessoalmente fazer isso. Eu não posso arriscar minha vida agora... — Regina sorriu, mas sem nenhum humor.
Ela já tinha provado da vingança o suficiente para saber que aquilo não a deixava feliz. Por outro lado, o amor que recebia de Robin e Roland pareciam transformá-la em outra pessoa. Seu orgulho estava terrivelmente ferido, afinal ela não queria admitir que durante todo esse tempo Branca de Neve estava certa em seu discurso sobre o amor. Ela ainda odiava o que Branca tinha lhe feito anos antes, mas agora ela sabia que vingança não mudaria coisa alguma sobre isso.
Além disso, ela não respondia apenas por si mesma agora. Tinha uma vida sendo gerada dentro dela que precisava de um lugar seguro. Regina tocou seu ventre e se permitiu sorrir mais abertamente. Ela precisava contar a Robin.
– Roland dormiu. — Ela observou, apontando para o menino.
–Ele está cansado da viagem... E assustado também. Acho que ele entende o que está acontecendo.
–Melhor o colocar na cama. — Ela sugeriu e Robin prontamente atendeu, ele colocou a criança deitada na grande cama de lençóis sempre negros de Regina. — Tem algo que preciso te contar.
–Bem, isso não está acontecendo do jeito que eu esperava, mas... -Ela continuou, se lembrando que ficara planejando maneiras de dizer a Robin que ele iria ser pai novamente, mas agora que o momento estava se concretizando, ela percebia que nenhum ensaio iria a ajudar. — Acho que não tem uma maneira melhor de dizer isso...
–Você está me deixando mais aflito ainda. — Robin riu, o que fez Regina se sentir melhor instantaneamente. — Tem alguma notícia pior do que ameaças de morte vindas de todo reino?
–Não... Na verdade, é bem contrário a isso. Não tem nada a ver com morte ou guerras... Talvez tenha mais a ver com esperança. Com vida. -Regina disse, se aproximando de Robin até poder pegar suas mãos. — No dia em que você saiu, eu acabei descobrindo um monte de coisas quais eu estava não tinha noção... Primeiro, que Branca de Neve estava viva e depois... Clare, a cozinheira, você a conhece?
–Claro, ela vive mimando Roland com doces. — Robin deu de ombros.
–Bem, parece que apenas eu sou totalmente alheia as coisas que acontecem nesse castelo. — Regina fez uma careta.
–Não perca o foco. — Ele riu, dando-a um soco leve no ombro, de brincadeira. — O que Clare fez?
–Ela me disse... Disse que estou grávida. — Regina falou lentamente, ficando atenta as expressões no rosto de Robin. O ladrão estava tão chocado quanto ela quando descobrira.
–Grávida. — Ele repetiu, com os olhos arregalados.
–Isso. Eu sei que é um pouco cedo pra isso... Nós nem mesmo somos um casal, não oficialmente. E eu juro que estou tão assustada e surpresa quanto você, aliás, acho que estou muito mais. Mesmo assim...
–Grávida!- O rosto de Robin rapidamente se converteu em um sorriso e depois uma feliz risada. -Regina... Isso é incrível! É maravilhoso. Uma criança sempre é um bom presságio. VocÊ está certa, uma criança significa esperança. Oh, m'lady... — Robin suspirou e puxou Regina para um abraço apertado, a rodopiando no ar. — Nada poderia me deixar mais feliz!
–--
Os preparativos para o casamento já haviam se encerrado. Tudo estava em perfeita ordem até que o dia chegasse e Branca esperava ter acalmado os reinos até lá. Mesmo que pretendesse mesmo derrubar Regina, o assunto tinha tomado uma proporção que ela não imaginara. Pessoas de todos os lugares apareciam todos os dias em sua porta, se oferecendo para ser parte do exército que lutaria contra Regina.
–Charming, o reino inteiro já está a par da situação mas Regina ainda não deu um passo. — A princesa comentou com seu futuro marido. — Desde que acordei, ela parece nem mesmo ter consciência disso.
–Quando se trata de Regina temos de esperar sempre o pior. Talvez ela só esteja esperando um momento oportuno para atacar.
–Eu espero que esse momento não seja em nossa cerimonia. Quero ter tudo em ordem até lá. — Branca disse, nervosa. Ela não queria ter o melhor dia de sua vida atrapalhado por sua madrasta. — O problema é que só faltam dois dias. Eu não sei se serei capaz de conter a situação em dois dias.
–Hey... Não precisa ficar assim. Eu não deixarei que nada te aconteça e nada será capaz de arruinar nosso casamento.
–Eu queria poder saber o que ela está fazendo neste exato momento...
–--
Regina deixou uma gargalhada sair de sua garganta quando Robin a rodopiou. A lembrava de quando era pequena e seu pai fazia o mesmo com seu corpo. Era estranho se lembrar de que a uns meses atrás, tudo que ela queria era matar o homem que agora a abraçava amorosamente.
Os perigos poderiam ser muitos, mas Regina não iria deixar que nada atrapalhasse esses momentos. Ela protegeria Robin e Roland, não importa o que fosse preciso para isso. Regina poderia ter decidido não executar sua vingança contra Branca de Neve, mas ela não seria misericordiosa com quem ameaçasse a ela ou a sua família.
–Vossa Majestade! Rainha Regina! Regina! — Gritos estridentes acompanhados de batidas na porta interromperam o pequeno momento de paz do casal e fez Roland acordar assustado.
–Quem ousa... — Regina bufou, antes de se afastar dos braços quentes de Robin. A porta foi aberta antes mesmo que a rainha chegasse até ela, revelando um cavaleiro ofegante e assustado.
–Eles estão aqui! — O cavaleiro gritou mais uma vez, apontando para algo atrás dele.
–Eles quem, seu idiota?!
–Camponeses, soldados, até mesmo trolls... Todo mundo. Não podemos impedi-los, são pessoas demais.
Assim que o cavaleiro negro disse sua última palavra, gritos começaram a explodir por toda parte. O castelo estava sendo tomado e Regina não pode sequer prever aquilo.
–Porque não avisaram antes? — Ela gritou para o homem assustado que se ajoelhou a sua frente enquanto pedia por perdão.
–Não queríamos incomodá-la, minha rainha, por favor...
–Regina, precisamos sair daqui... Agora! — Robin a pegou pelo braço, enquanto segurava Roland com a outra mão.
–Papa! — Roland chorava se agarrando ao pescoço de seu pai e apenas isso fez com que Regina não matasse aquele homem ali mesmo.
As portas abertas davam a Regina uma boa visão do corredor quando um rio de fogo cobriu sua vista. Pessoas saiam de todos os lugares possíveis carregando tochas e gritando ofensas contra Regina, agora, apenas um curto espaço de chão e tempo os separava.
O coração da rainha batia descompassadamente em seu peito e o nervosismo fazia suas mãos ficarem dormentes, mas ela sorriu.
–Feche os olhos, Robin. — Ela disse de forma dura e decidida, enquanto uma bola de fogo se formava em uma de suas mãos. — Isso não será nada bonito.
Fale com o autor