Fire Keeper
18 Capitulo 17 - Keeping A Heart
Notas iniciais

Branca de Neve estava acordada. Ela sentiu o sopro fresco e revigorante da floresta entrar por suas narinas como uma promessa de que tudo ficaria bem. Seu olhar se direcionou a Charming, abrindo um sorriso junto ao homem que a tinha livrado do sono eterno.
–Você... Você me encontrou. — Ela sussurrou com certa dificuldade; enquanto seu peito ia para cima e para baixo de maneira contínua e Branca se perguntou se seu coração poderia explodir dentro de seu peito.
–Eu disse que sempre vou te encontrar... — Charming sussurrou, acariciando o rosto de sua amada e logo a puxou para outro beijo.
–Por quanto tempo eu...? — Branca mordeu os lábios, temendo sua resposta.
–Pouco. Muito pouco. Mas não se preocupe com isso agora... Vai ficar tudo bem.
Branca acreditou e aninhou-se em seu peito, até se dar conta de que estavam sendo assistidos por um bando de anões com olhos marejados. Ela se separou de Charming, e deu um pequeno pulo descer de sua redoma de vidro. Ela foi recebida por muitos abraços.
Charming estava certo. Tudo iria ficar bem.
–O que faremos agora? — Zangado deixou escapar, sabendo que a luta ainda não tinha terminado.
–Vamos tomar o reino. — Branca o respondeu com naturalidade.
–--
Algum tempo depois.
Regina acordou indisposta. Embora as noites com Robin Hood fossem as melhores de sua vida, ela sentia um vazio a preencher todas as manhãs. Como se algo muito importante estivesse sendo esquecido. Ela se sentou na beira da cama de dossel, sentindo seu mundo girar com o movimento e levou a mão a boca, para conter a ânsia que subiu por sua garganta. Essas coisas estavam virando costume e a deixavam irritada, mas ela estava cansada demais até para reclamar.
Seu corpo estava nu, como de costume – já que Robin gostava tanto de lhe arrancar a roupa, e um raio tímido de sol esquentou sua pele. A neve lá fora já estava derretida, e os dias dourados e férteis estavam voltando. Ela fez uma careta e se pôs de pé, para ir até a janela grande observar o céu azul-claroque faziam seus olhos reclamarem. Era bonito, mas a fez suspirar de frustração.
O vazio a incomodava o suficiente para a impedir de aproveitar o dia quente que ela tanto esperava. Demorou para perceber que estava daquela maneira porque não tinha mais Neve. Branca estava morta e logo seria esquecida, assim como a água gelada que molhava seus jardins, que um dia fora gelo poderoso e impetuoso.
O sol tinha chegado, mas para surpresa de Regina, ela não estava nem um pouco feliz.
–Eu desejo acordar com essa visão todos os dias. — Regina escutou uma voz sonolenta dizer e conseguiu sorrir um pouco.
–O desejo será concedido.
–Estou ficando mal acostumado. — Robin disse, em meio a um bocejo. — Acordava antes dos pássaros e agora não consigo sair da cama.
–No meu ponto de vista, isso é ficar bem acostumado. — Regina o respondeu, sem desviar seu olhar para a janela. Por mais que quisesse ir até ele e beijá-lo, seu corpo era com uma grande geleia difícil de se movimentar e ela estava perdida de mais em seus pensamentos.
Por muito tempo ela imaginou como séria sua vida depois que Branca estivesse finalmente morta e para seu desgosto nada de extraordinário havia acontecido desde então. Ela tinha Robin, Roland e seu pai; mas seu coração continuava tão negro quanto sempre fora. A alegria nunca era plena, já que algo sempre parecia faltar em sua vida; como se tivesse perdido seu rumo, já que sua única preocupação antes era terminar com a vida de Branca. Ela suspirou pesadamente.
–Hey, está tudo bem? — Robin forçou-se a levantar, ansioso por ter Regina em seus braços.
–Eu não sei... — Ela suspirou novamente, olhando para Robin pela primeira vez. Os traços do ladrão demonstravam preocupação, ao mesmo tempo que seus olhos a encaravam cheio de amor; Regina não conseguiu conter um sorriso.
Ela não o merecia. Tinha mais certeza disso a cada dia que se passava. Ela não merecia a sua preocupação, muito menos seu amor. Não merecia Roland e nem mesmo seu pai, Henry. Ela pensava em como fora egoísta por tanto tempo, com pessoas ao seu lado dispostos a fazê-la feliz, enquanto ela esteve tão cega em sua vingança. E mesmo agora que Branca estava morta, Regina não conseguia ser feliz ao lado deles.
–Regina, você esteve assim por dias... Não tem se alimentado direito e mal fala comigo. Está acontecendo algo que eu não saiba?
–Eu sinto falta dela. Bem, não sei se é isso... Talvez eu só sinta falta de ter alguém para destruir ou talvez o infeliz destino de Branca de Neve não fosse meu final feliz. Eu queria ser feliz ao seu lado, mas eu sei que você não me merece... Eu sou vazia, Robin... seca, como uma árvore sem frutos. — Ela libertou as palavras que estiveram presas em sua garganta durante tanto tempo, sentindo que a cada letra o peso de seu corpo diminuía. — O que eu posso trazer pra você além de infelicidade? O que será de Roland?... Nunca irão querer chegar perto de uma criança protegida pela Rainha Má. Depois do que fiz a Branca, eu percebi que esse é meu destino. Ser infeliz. Já que nem mesmo a morte de minha pior inimiga foi capaz de me trazer a felicidade…
–Regina... O que exatamente você fez com Branca?
–Maldição do sono. Não é bem uma morte... Talvez seja pior que isso... Ela está presa em seu próprio corpo, em um sono profundo e eterno... Ou não. Na verdade, existe um modo de quebrar a maldição. Mas duvido que Charming consiga sair da Floresta Perdida algum dia. — Regina o olhou de soslaio, tentando ignorar o temor que subitamente surgiu no olhar do ladrão.
Regina percebeu que nunca tinha dito a Robin o que tinha feito. Mas agora ela tinha vontade de contar cada detalhe, a fim de livrar seu corpo do peso extra que toda aquela bagagem de sentimentos causava. Ficar tanto tempo na companhia dele e seu filho, tinha a feito sentir a dimensão de todos os seus feitos anteriores, principalmente quando tinha de mentir para Roland, para ocultar alguma maldade de seu passado. Agora ela sabia que não poderia levar uma vida ao lado dos dois daquela maneira. Robin precisava saber a verdade, precisava vê-la e assim, somente assim, ele poderia tomar uma decisão certa sobre o que sentia por ela. Quem sabe assim aquele sentimento de vazio que se instalava em seu peito não sumisse definitivamente?
–Shh... Eu preciso te mostrar uma coisa. — Regina cobriu os lábios do ladrão com a mão, quando Robin fez a menção de dizer algo. — Talvez você queira se vestir primeiro. — Ela sugeriu, apontando para o corpo nu de Robin. Rapidamente, ela vestiu a si mesma com um robe de cor vermelha como o sangue. Robin apenas vestiu uma calça e se mostrou pronto para acompanhar Regina.
O lugar que ela queria o mostrar, na verdade estava naquele mesmo quarto. Ela mal se lembrava da última vez que entrará ali, visto que nos últimos meses estava preocupada demais dando atenção a seus dois protegidos para se lembrar de visitar aquele lugar fúnebre.
Regina guiou Robin para uma porta qual sempre permanecia fechada. Robin nunca tinha sequer reparado na madeira tingida de negro e na rosa pequena e branca moldada em ferro que enfeitava a porta. Ele olhou para Regina buscando uma resposta para aquilo.
–Talvez esse seja o lugar mais importante desse castelo... E também a maior prova de que eu fui e sempre serei a pior rainha que já existiu. Literalmente uma rainha má.
Regina abriu a porta lentamente, revelando para Robin todo o interior do compartimento. Era um cômodo grande, um pouco menor que o quarto principal e o closet, mas ainda sim, maior do qualquer casa que Robin tenha tido em seus tempos de ladrão. As paredes eram cobertas do que pareciam ser ladrilhos em formatos de cubos de cor dourada, mas após olhar com atenção, Robin percebeu que tratavam-se de pequenos compartimentos ligados as paredes. Eram tantos cubos que ele mau podia contar! O silêncio entre os dois permitiu que um baixo, porém constante, barulho fosse ouvido. O ladrão aguçou seus sentidos, tentando descobrir a origem do som.
–Regina, esse som se parece com... — Ele tentou dizer, mas se calou. Ele se lembrou do que ouvirá nos primeiros dias em que se arriscará a andar pelas terras da benevolente Rainha Regina, os boatos sobre ela ser tão má a ponto de arrancar corações e colecioná-los apenas por prazer ou para obter controle sobre o corpo de alguém. E de fato, o som era idêntico a batimentos cardíacos. Não de apenas um só coração, mas de vários. Robin teve se apoiar a parede para manter o equilíbrio, aquilo era demais até mesmo para ele. Ele já tinha ouvido as histórias de Regina, mas nunca julgou ser possível arrancar o coração de uma pessoa e simplesmente o colocar em uma caixa.
–Coração. Eu tenho vários... Eles estão nessas caixas que eu mandei criar especialmente para guardá-los. — Regina o explicou, caminhou em direção a uma das paredes de pequenas caixas, e abriu uma delas, tirando de lá um coração com um tom de vermelho intenso. — Eu nem me lembro mais a quem pertence cada um deles ou até mesmo o motivo de eu ter os arrancados.
–Regina, como você fez uma coisa dessas? — Robin perguntou atônito e alarmado. A ver falar de vidas daquela maneira tão simplória lhe deixou espantado.
–Na verdade, é um processo bem simples... Qualquer um consegue, se tentar com veemência! — Ela mordeu o lábio inferior e colocou o coração de dono desconhecido de volta na caixa. Depois, levou sua mão ao seu próprio peito esquerdo e usou magia para tirar o seu coração delicadamente, demonstrando a Robin como conseguia tal feito.
–Eu não perguntei como você tira os corações... Eu queria saber como teve a coragem de fazer isso com pessoas inocentes. — O olhar de descrença deixava Regina temerosa, mas ela não previa outra reação que não fosse essa. Embora sempre tivesse deixado claro para Robin de sua natureza, ele nunca tinha visto uma prova com seus próprios olhos. Ele vivia com sua mente na falsa ideia de que ela fosse boa, por ter o salvo de uma morte — morte essa que ela mesma planejará. A Rainha colocou seu coração de volta em seu lugar, sentindo a vergonha e tristeza tomarem sua consciência rapidamente. Ela não queria que Robin a abandonasse, mas sabia que não era certo que eles vivessem juntos sem ele saber exatamente todas as coisas que ela tinha feito.
–A maioria deles ajudavam Branca de Neve...A verdade é que nenhum motivo que eu diga vai ser o suficiente para abolir minha culpa. Mas, se lembra do que eu lhe disse? Que você e Roland são minhas prioridades. Eu sei que devo isso a vocês; a verdade. E que nunca vou merecer o amor que vocês me dão. E se eu sinto algum arrependimento em minha vida, é porque nunca vou ser boa o suficiente pra vocês dois. Depois do que fiz a Branca, eu continuo me sentindo incompleta. E por dias tenho pensado em tudo o que fiz até agora...
–Por isso tem agido de maneira tão estranha... Regina, eu... Me desculpe, mas eu preciso de um tempo.
–Eu compreendo, só peço que...
–Papa! — A voz do pequeno Roland os interrompeu, junto de fracas batidas na porta do quarto, causadas pelas mãos pequeninas do garoto.
Robin se apressou para atender o filho, imaginando que já devia ser quase fim da manhã e o pequeno ficara impaciente por lhe esperar em seu próprio aposento. Ao contrário de Robin, Regina permaneceu onde estava, respirando pesadamente. Ela não queria ver Roland no momento, pois não conseguiria fingir que estava tudo bem. Com magia, ela fez a porta de seu cofre fechar assim que Robin Hood passou por ela.
–Onde esta Gina? — Roland perguntou a seu pai, olhando para os lados, ao tentar encontrar a Rainha no quarto.
–Creio que não é uma boa hora para vê-la, Roland... Que tal tomar café antes, uhm?
Robin pegou Roland pela mão, tentando lhe forçar um sorriso. Não queria que o pequeno percebesse que algo estava errado, mas era difícil manter sua concentração quando tantos pensamentos invadiam sua mente. Ele já estava arrependido de ter deixado Regina sozinha, mas também estava magoado e surpreso, e preferia pensar sobre o assunto antes de ter que falar sobre ele. Afinal, Regina já estava acostumada com sua realidade, enquanto para ele, era uma tremenda novidade.
Robin suspirou pesadamente ao lembrar de todas as vezes em que ela o advertiu sobre as coisas sombrias que já tinha feito.
–--
Depois de algumas horas desde sua conversa com Robin, Regina tentou se recompor. Ela tomou um banho quente e vestiu uma de roupas de cavalgada, embora quisesse sair de casa o mais rápido possível, ela se lembrou de que não tinha comido nada durante o dia e teve de fazer uma breve visita à cozinha do palácio, onde foi servida prontamente pelos criados com vinho e carne. Porém mesmo que soubesse que devia se alimentar bem, ela não conseguiu comer mais do que poucas garfadas antes de seu estômago começar a doer. Decidiu que aquilo bastaria e voltou para seu aposento.
Regina decidiu que queria ver Branca de Neve. Ela sabia que os anões tinham conservado seu corpo em uma redoma de vidro em alguma floresta fora dos limites reais, mas apenas isso. Ela queria conferir se o corpo estava sendo vigiado por alguém e sua localização exata, antes de sair. Para isso, tentou fazer com que Sidney a encontrasse.
–Espelho, espelho meu... Mostre-me Branca de Neve.
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Branca queria se casar o mais rápido possível. Desde que acordara de seu sono profundo, sentia como se algo ou alguém em algum lugar a tinha dado uma segunda chance; e ela não tinha intenção de desperdiçá-la. Ela tinha uma enorme pressa de viver.
Ela ainda pensava muito em Regina, embora esta não tivesse aparecido desde a última vez que se viram, no túmulo de Daniel. Branca sequer sabia se Regina perceberá que ela tinha acordado. Presumiu que não, já que não tinha dado as caras. Mas uma hora ela descobriria, já que Branca anunciaria a todos os cidadães do reino dentro de dois que estava viva e tinha tomado o castelo de Rei Leopold,- que nunca fora um bom rei para seus súditos- e assim destronaria Regina, tomando posse de suas terras. Era mais fácil agora que ela tinha todo um exército a sua disposição, já que quando tomara o castelo, os guardas de Leopold se renderam a sua autonomia.
Ao mesmo tempo em que planejava estratégias de batalhas e magias de proteção, Branca finaliza os detalhes de sua cerimônia, que estava marcada para uma semana a partir daquele dia. Não seria uma cerimônia tão grande quanto os antigos e tradicionais casamentos que costumava ir quando criança, mas ela estava feliz da mesma maneira.
–Está ficando maravilhoso! — A princesa suspirou ao lado de Granny, vendo-a costurar seu vestido de noiva. Ela se dividia em olhar os detalhes da costura e fazer comentários na reunião que os sete anões realizavam com Charming para discutir o posicionamento do exército nas barragens do castelo.
–O castelo é uma fortaleza, justamente por estar no mar! A maneira mais fácil de entrar é pela ponte da frente e ela está fortemente guardada! — Um dos anões protestava.
–Regina não precisa de uma ponte para fazer caminho pela água. Ela é uma bruxa... Poderia aparecer aqui a qualquer momento apenas com um estalar de dedos. — Branca contestou.
–Temos de pensar nos cavaleiros negros também. Se ela fosse os trazer, eles teriam de entrar da maneira convencional. — A Fada Azul disse. — Regina não teria força o suficiente para trazer um exército inteiro para dentro usando magia, isso consumiria energia demais e ela poderia ficar inconsciente por dias. Tenho certeza que ela é esperta o bastante para saber disso.
–Devíamos considerar colocar grupos em volta do castelo? Podemos os deixar em pequenos barcos, só para garantir. — Branca opinou.
–É uma boa ideia. Mal posso esperar para ter a cabeça da Rainha em uma bandeja. — Zangado falou, mal humorado como sempre foi.
–Zangado! Não iremos matá-la. Aliás, evitaremos qualquer morte. Peço que instruam os soldados de que ofereçam a condição de rendição aos cavaleiros negros.
–Oh, meus deuses! Ela lhe deu uma maçã envenenada. Não irá descansar até lhe ter morta. — O bravo anão reclamou, revirando os olhos.
–Nós iremos puni-la, mas não a matar. Isso apenas nos tornaria piores do que ela... Além disso, eu acredito que há uma chance de redenção para Regina. — Branca sorriu, lembrando-se de Robin Hood. — Eu acredito que ela possa encontrar o amor.
–Ela não precisa de amor, e sim de uma espada enfiada em suas entranhas.
–Sinto muito decepcioná-lo, mas nada mais justo que eu decida o futuro dela. Isso tudo começou entre nós duas, então é assim que deve terminar.
–Você disse a mesma coisa antes de sair por ai e aceitar uma maçã envenenada dada por ela. — O anão zombou, mas desistiu de tentar convencer Branca a mudar de ideia.
Em outro reino, por meio de um espelho, Regina assistia a pequena reunião de Branca de Neve, sentindo seu coração quase saltar pela boca. Branca de Neve estava acordada e esperando que ela atacasse! Um misto de emoções a deixou sem ar; ao mesmo tempo em que ela tentava responder as perguntas que fazia a si mesma. Afinal, como Charming conseguira sair de Floresta Perdida? Como ela mesma nunca perceberá que Branca de Neve já tinha se livrado se de infeliz destino a muito tempo?
A Rainha se levantou da cadeira de madeira estofada bruscamente, se arrependendo no mesmo instante. Ela pensou que a falta de alimentação estava finalmente fazendo efeito em seu corpo, pois uma tontura logo a assolou. Ela tentou inutilmente se segurar no móvel a sua frente para manter o equilíbrio, mas não conseguiu lutar contra a escuridão que tomou seus olhos.
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