Fire Keeper
2 Capítulo 2 - Fire Eyes
Notas iniciais

Em algum momento da madrugada eu entrei em meu aposento e passei a observar Robin Hood dormindo. Os acontecimentos do dia passado entraram em minha mente de maneira que não consegui nem mesmo dormir. Eu me lembrava de cada segundo do dia anterior e quase não me sentia eu mesma. Eu tinha salvo a vida de uma pessoa e isso causava um conflito dentro de mim. Minha mente estava confusa, o muro que me separa da velha Regina para Rainha Má parecia estar tremulo.
Pena... eu tinha sentido pena de Robin Hood. A quanto tempo não sinto esse tipo de sentimento por outra pessoa? Eu simplesmente não sabia o que pensar.
Mas eu estava ali, o observando em seu sono, estudando seus traços e memorizando cada detalhe de sua tatuagem — Que era o único motivo para eu ter o salvado. Mesmo confusa, eu não estava arrependida.
Enquanto eu ainda o observava, Robin abriu seus olhos e soltou um bocejo. Seu olhar assustado correu por todo o cômodo até parar em mim, que estava sentada na mesma cama que ele -a uma distancia segura. Parte de mim estava aliviada que ele tinha finalmente acordado. Quando uma ruga de curiosidade se formou em sua testa, eu sabia o que viria a seguir, sua boca iria se abrir e despejar em mim perguntas que nem eu mesma saberia responder. Melhorei minha postura e o encarei com interesse disfarçado.
—Você me salvou. Eu não consigo entender... — O ladrão se pôs para fora da cama, sua cabeça se agitando levemente em negação. — O que isso significa?
—Significa que você tem sorte. — Meus olhos seguiam seus passos descalços pelo chão, me lembrar de como ele perdeu os sapatos fez um arrepio percorrer meu corpo. Apertei os lençois de seda negra que estavam sob a cama com os dedos rígidos ao perceber que seus passos se aproximavam de mim. Robin tinha dado uma volta ao redor da cama e parou a minha frente.
—Não é apenas isso... — Me levantei para ficar a altura dele e o olhei desafiante, não era inteligente contestar o que eu digo. — Eu ouvi muitas histórias sobre a terrível Rainha Má, mas ontem, quando você me salvou... Eu nem tinha nem notado que não estava mais no fogo, até que abri os meus olhos e vi você me olhando, tão preocupada... Tão desesperada. Você parecia qualquer coisa, menos má. Eu sinto que te subestimei, Vossa Majestade, em todos os sentidos. — Minha respiração se tornou pesada. Robin Hood estava próximo demais, dizendo coisas demais. — Eu não sou tolo como pensa, aquilo foi...
—Basta! — gritei me afastando de Robin. — Você já parece estar bem o suficiente para voltar a masmorra.
—Não importa o que diga... Não importa o que faça, não sou o tipo de pessoa que vai esquecer o fez por mim. Posso ser um ladrão, mas mantenho minha honra. Você salvou minha vida. Obrigado, Milady. — Robin Hood desfez sua postura confiante em um pequeno gesto de reverência a mim, seu corpo levemente inclinado para baixo mas seus olhos se eram fixos aos meus.
—Seu crime não foi absolvido, ladrão, não fique tão agradecido. Você ainda é meu prisioneiro. — Eu tinha de admitir, suas palavras me impressionaram, mas me mantive firme embora não soubesse se o manter como prisioneiro era mesmo uma escolha inteligente.
Eu estava confusa sobre o que fazer com ele, e me sentia fora de mim, como se eu fosse uma marionete nas mãos do destino e, ah, como ele ria de mim enquanto tentava tirar meu foco do caminho que escolhi seguir oficialmente no dia que dei as costas aquela maldita taberna. Um caminho de vingança! Um caminho que definitivamente não incluía Robin Hood. Mas três coisas me deixavam desesperada:
Se eu mantivesse Robin Hood, ele não iria sair de minha cabeça.
Se eu deixasse Robin Hood, ele não iria sair de minha cabeça.
Matar Robin Hood estava longe de ser uma opção.
Um gemido de desespero baixo saiu de minha garganta. Eu pensava no que faria com ele enquanto ainda olhava seus olhos azuis, que teimavam em me trazer lembranças da infância - Minha grande cama que fora cuidadosamente moldada em ferro, onde todas as noites eu esperava ansiosa por um chocolate e um beijo de 'boa noite' vindos de meu pai—. A memória passou diante de meus olhos como se eu estivesse a vivendo naquele exato momento, eu quase podia sentir o chocolate derretendo em minha boca em um sabor que eu, quando criança, jurava ser o melhor do mundo inteiro.
Outro gemido, eu estava frustrada. Fechei os olhos e suspirei, tentando livrar minha mente das distrações. Robin Hood conseguiu em apenas um dia, causar-me mais desespero que Branca de Neve em 10 anos. Isso porque sobre ele eu não tinha nenhuma certeza, sobre Branca de Neve eu sabia o que eu queria. Robin era como uma carta branca em meu baralho.
Por agora, ele seria meu prisioneiro. Assim que isso conclui, minha magia fez Robin se romper em fumaça na minha frente, o transportando em segundos para sua cela nas masmorras.
Pelo menos a presença do ladrão me fizera pensar em meu pai, a algum tempo eu não via. A dois anos ele decidiu deixar o castelo, apesar de eu não gostar da ideia, decidi o deixar ir, porque eu via em seus olhos a dor que eu o causava. Mesmo longe, meu pai não deixava de ser a pessoa mais importante em minha vida. Nos momentos difíceis, só ele me ajudava, isso desde meus tempos de menina. Um sorriso genuíno apareceu em meu rosto. Saí de minha posição que permanecia petrificada desde que mandei Robin Hood para a cela e caminhei apressada para frente de um dos vários espelhos espalhados por meu quarto.
—Sidney. — Falei calmamente, sabendo que não iria precisar gritar para que meu espelho me ouvisse. — Avise ao cocheiro para preparar a carruagem, irei sair após o almoço.
—Claro. — ele respondeu prontamente, sua cabeça flutuante em fumaça azulada fez um gesto de concordância. — Onde vai, minha Rainha?
—Irei ver meu pai. — Dei de ombros indiferente a sua pergunta, mas a ideia de ver meu pai me deixava feliz e meu sorriso continuava teimoso em meu rosto. — Ah, e diga também aos guardas para alimentarem meu prisioneiro, Robin Hood. — Falei com uma careta.
—Sim, majestade. — Dito isso, Sidney desapareceu tão rapidamente quanto apareceu.
Graças aos vários espelhos espalhados pelo castelo, ele podia estar presente em qualquer e eu abusava disso, o usava tanto para dar recados como para espionar. Suspirei ao ver meu reflexo no espelho que a segundos atrás abrigava Sidney. Meu pai era o único que poderia me ajudar em relação a Robin Hood, ou pelo menos assim eu esperava.
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Os primeiros sinais do inverno começavam a aparecer, não faltava muito para a neve começar a cair. Desci da carruagem e envolvi meu corpo em uma capa preta pesada e macia, para proteger meu corpo do vento forte enquanto eu fazia um breve caminho pela grama baixa e um pouco molhada a frente de minha antiga casa.
Papai vivia sozinho e eu pensava que ele não conseguiria realizar todas as tarefas para se manter, mas a casa parecia bem cuidada. O jardim, mesmo com o frio do inverno cada vez mais próximo, estava florido e limpo. Admirei por pouco tempo as rosas vermelhas que se espalhavam com abundancia por todo terreno e apressei-me para a porta, entrando sem mesmo bater, afinal também era minha casa, mas meu pai já estava em pé perto do hall.
—Previ que os ventos me trariam você. — Ele disse sorridente, seus braços se abriram esperando um abraço. — Você nunca gostou do frio. Sempre corria para mim quando tempestades de neve se aproximavam, teimava até que eu dormisse com você em seu quarto. Se lembra disso?
—Realmente, não sou chegada em neve. — Fiz um breve trocadilho e revirei os olhos ao me lembrar de minha enteada. — Papai, eu senti sua falta. — Me joguei em seus braços abertos, onde fui recebida de bom grado, e o apertei contra meu corpo. Me desliguei de tudo e senti apenas meu pai, quente e com cheiro de menta e de chocolate.
—Sinto muito ter ficado tanto tempo sem te visitar, Regina. — Meu pai afastou seu corpo do meu e seus olhos me encaravam pedindo desculpas. — Já não tenho a mesma força de antes e nem mesmo uma carruagem ao meu dispor.
—Está tudo bem, não se desculpe! Eu quem deveria ter te visitado... Eu estou um pouco ocupada, você sabe. Mas os últimos dias foram terríveis e eu precisava te ver. — Disse sincera, sabendo que em meu pai eu poderia confiar todo o meu desespero.
—Não vamos ficar aqui parados, minha filha. Vamos a sala e conversamos com mais calma.
Assenti e segui meu pai no breve caminho até a sala. Os passos lentos e a respiração pesada dele me deixavam preocupada, talvez não fosse uma ideia tão boa o deixar sozinho nesta casa.
Me sentei ao lado de meu pai no sofá e inspirei profundamente o cheiro de minha casa, um cheiro único que apenas aquele lugar tinha. Um misto de amor, felicidade e muita dor. Aquele lugar era um poço de recordações, inundado de todos os tipos de sentimentos.
—O que aconteceu de tão terrível? — Ele perguntou claramente preocupado.
Suspirei pesadamente e fechei os meus olhos, tentando encontrar um jeito de resumir a história.
—A alguns anos atrás eu conheci uma fada, que disse poder encontrar minha outra alma-gêmea. No começo, não acreditei, afinal nunca pensei que poderia amar outro homem que não fosse Daniel, mas concordei com seu plano. — Falei controlando a tristeza que me tomava ao lembrar de Daniel. — Então uma noite, seguimos o rastro do Pó de Fada até uma taberna, onde estava o homem que eu estava destinada a ficar... Quando eu abri aquela porta e o vi, eu senti que não conseguiria seguir adiante. Eu tive medo... medo de abandonar a única coisa que me movia e que ainda me move; minha vingança contra Branca de Neve. Então eu simplesmente deixei a taberna... correndo, com medo, como um cervo foge de um leão. — Sorri amarga. -E que ironia, a única coisa que me lembrava daquele homem era a tatuagem de leão que ele ostentava em seu pulso direito.
—Você se arrepende dessa escolha? — Meu pai perguntou simplesmente. Eu gostava do jeito quieto dele, nunca fazia muitas perguntas e nem julgava as escolhas dos outros, sempre via a vida além de si próprio, tentando se por no lugar de alguém antes de incriminá-lo. Por isso eu sabia, ele estava impressionado, mas não queria me aborrecer falando muito sobre o assunto.
—Eu não sei, papa... As vezes eu penso que sim, mas por outro lado não conseguiria viver sem carregar o ódio por Branca de Neve. Vingar a morte de Daniel é toda motivação que tenho. Mas a história não termina aí, deixe-me continuar. — Disse, sentindo as mãos de meu pai apertando confortavelmente as minhas. — O verdadeiro problema é que, a um dia atrás meu castelo foi invadido. Se fosse pelos meus estúpidos cavaleiros eu acabaria tendo uma grande quantia de jóias roubadas, mas, por sorte, eu tinha voltado mais cedo de uma reunião com o Conselho e cheguei a tempo de pegar o ladrão quase em seu escape. — Narrei os fatos rapidamente, ansiosa para terminar logo. — No dia seguinte, o jurei de morte e descobri que ele era Robin Hood.
—O rei dos ladrões! Já ouvi sobre ele, pensei que nunca seria capturado. — Meu pai observou um pouco distraído.
—Mas então, papai, na hora de sua execução eu percebi em seu pulso uma tatuagem... uma tatuagem de leão. Idêntica ao do homem na taberna! Mas o fogo... o fogo que o mataria já subia por suas pernas quando um desespero me atingiu e de repente, tudo o que eu queria era tirá-lo de lá. Eu o salvei, pai.
—Se ele é mesmo o homem da taberna, você ter o salvo é algo bom, não é? Não entendo seu desespero, minha filha.
—Como não entende, papai? Eu não sei o que fazer sobre ele.
—Talvez você devesse dar uma chance, quem sabe...
—Não posso "dar uma chance", para ele eu sou a Rainha Má... ele não sabe que é.. argh, minha alma-gêmea. E nem se soubesse, eu não sinto nada por ele. — Exasperei, soltando as mãos de meu pai, começando a ficar inquieta. — Eu nunca pensei que fosse o encontrar de novo, embora eu sempre imaginasse como série minha vida se eu tivesse falado com ele aquele dia na taberna.
—Por isso disse para dar uma chance. O conheça, veja como ele é... se o Pó de Fada disse que ele é sua alma-gêmea, que mal teria?
Suspirei pesadamente. Eu devia ter previsto que qualquer conselho que meu pai me daria seria algo como "Que tal ficar com Robin Hood e esquecer de Branca para sempre?", mas depois de conversar com ele eu me sentia mais calma.
—Ele cometeu um crime, é justo que continue preso. — Dei de ombros, mas sabia que era hipocrisia de minha parte, e orgulho também, eu não o deixaria me afrontar e sair livremente só porque era o homem da taberna... Na verdade, também não queria o deixar ir justamente por ele ser o homem da taberna, mas guardei o pensamento para mim.
O vento soprou mais forte fora da casa.
—Papai, acho melhor eu ir. Não quero ter que passar por essa tempestade que está chegando. — Me levantei, acompanhada de meu pai, o sorriso dele tinha diminuído um pouco. — Ah, eu volto para lhe visitar logo e o senhor sabe, quando quiser me ver, pode me chamar por um espelho.
—Tudo bem, minha filha. Eu te espero, é sempre bom a ver. Abracei o corpo rechonchudo de meu pai e depositei um beijo na parte calva de sua cabeça, dando 'tchau' a ele e aos sentimentos bons que sua presença me causava.
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Chegando ao castelo, gotas grossas de chuva já caíam pela minha capa. O vento soprava fortemente e eu já sentia que a noite séria difícil. Eu odiava chuva, odiava frio, desde pequena, odiava tudo que me impedisse de dar uma boa volta a cavalo. Fiz meu caminho para dentro do castelo rapidamente, não querendo acabar me molhando ainda mais pela chuva. Assim que entrei no castelo senti algo estranho no lugar. Graças a minha magia, eu conseguia ser mais sensitiva do que a maioria das pessoas. Respirei pesadamente desejando ter um momento de paz, e segui meu instinto que me guiava para onde havia algo de errado. Sem nenhuma surpresa, percebi que estava sendo guiada em direção as masmorras. Robin Hood, com certeza, estava aprontando alguma coisa.
—Você tem mesmo coragem, ladrão. — Sussurrei para o nada e apressei meus passos, não alertei a nenhum guarda, queria dar conta do que quer que fosse sozinha.
Mas antes mesmo de conseguir chegar onde queria, uma dor trucidante tomou partida em minha coxa e se espalhou por todo corpo. Minhas pernas vacilaram e eu caí com os joelhos dobrados ao chão, uma flecha de ferro negro atravessava minha cocha, espalhando uma mancha vermelha no tecido ao seu redor. Um grito de ódio saiu por minha garganta, seguido de completa escuridão.
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