Fire Keeper
3 Capítulo 3 - Burning Soul
Notas iniciais

Robin Hood
Eu estava de volta a cela do castelo. O frio não me incomodava enquanto eu andando em círculos no pequeno espaço que me mantinha preso, sabendo que meus pés descalços reclamariam mais tarde, mas no momento, eu não me importava. Minha mente estava dividida entre a floresta e a rainha.
A três dias atrás eu tinha deixado meu acampamento, dizendo aos meus companheiros que se eu não voltasse até a noite do segundo dia, eles poderiam vir atrás de mim. Era simples assim, trabalhávamos em conjunto, um prezando pela vida do outro, mas nunca realmente tínhamos precisado ir resgatar alguém que estava preso, muito menos do castelo de uma pessoa poderosa como a Rainha Má.
Eu tinha estudado todos os movimentos da Rainha antes de invadir o castelo. Eu sabia que no Solstício de Inverno ela iria para uma reunião com o Conselho dos reis e rainhas da Floresta Encantada, previa que ela estivesse longe por tempo suficiente para que eu pudesse entrar e sair de seu castelo sem ser percebido, mas eu estava errado, por algum motivo a Rainha voltou mais cedo do que eu esperava e eu acabei preso... Preso, jurado de morte, quase morto, salvo e então preso de novo, tudo isso vindo da mesma mulher.
Balancei a cabeça tentando afastar meus pensamentos sobre a Rainha e me focar no meu escape daquela prisão. Era o terceiro dia desde minha partida, isso significava que meus homens estavam a caminho, significava que eu teria minha liberdade e meu filho. Mas a Rainha não saía de minha cabeça, eu tinha uma dívida com ela que nunca poderia ser paga a altura, e por isso, eu me sentia preso a ela. Mas não era hora de pensar nisso.
Me concentrei em analisar cada parte da pequena cela, agora que minhas mãos e pés não estavam mais presos era mais fácil encontrar um jeito de sair. A única maneira de destrancar aquele cadeado sem sua própria chave seria encontrando algum pequeno pedaço de arame que pudesse me ajudar a desvendar seu código, destruí-lo era impossível já que eu não tinha nenhuma arma a mão. Apalpei minha própria roupa em busca de de algo que pudesse ajudar, mas me dei conta de que todas as pequenas coisas úteis que eu carregava tinham sidas confiscadas pelos cavaleiros negros. O desespero de não conseguir sair daquele lugar preencheu minha cabeça, tomado pela raiva momentânea aceitei um forte soco de encontro as barras, sem me importar com a dor que isso causara em minha mão.
–Maldição! — Esbravejei, mirando outro soco, mas um chacoalhar de metais me chamou atenção.
–Homem, se tivesse começado a espancar essas grades antes eu já teria te achado a muito tempo! — Little John encurtava a distância entre nós, em uma lenta corrida, com seus passos pesados e sua roupa barulhenta.
–Little John! Deuses, nunca foi tão bom te ver. Onde está Roland? — Minha primeira preocupação sempre seria meu filho, depois que ele perdeu a mãe o garoto só tinha a mim.
–Foi difícil te achar, Robin, essa masmorra é enorme! Corredores e mais corredores! Mas falamos disso depois, temos de encontrar os outros. — Little John rapidamente quebrou as correntes com sua picareta e abriu a porta para que eu saísse. -Alguns homens estão aqui embaixo, mas a maioria está lá em cima vigiando os guardas. E Roland, o deixamos em um lugar seguro com Sebastian, fora do castelo, ele está bem.
–E a Rainha?
–Por sorte, ela não está aqui. Robin, eu te avisei que não era inteligente vir a este castelo... Aquela mulher é uma bruxa, ela é má, como o próprio nome diz.
–Vamos sair daqui. — Me senti tentado a defender a Rainha, mas não podia perder tempo discutindo com Little John agora.
Seguimos o labirinto de corredores de pedra que levariam para fora das masmorras, encontrando Steve, Pietro e Marco no caminho. Nenhum Cavaleiro Negro estava no caminho, a Rainha não tinha muitos homens para a defender, eu pude perceber. A maioria dos cavaleiros do Rei Leopold provavelmente tinha se virado contra ela. Mesmo assim, fizemos passos cuidadosos.
–Espere, estão ouvindo isso? — Pietro disse, parando sua caminha abruptamente. E de certo, eu ouvia o mesmo que ele. Batidas ritmadas contra o chão, um som, até mesmo agradável, que apenas os saltos de uma mulher conseguia causar, e eu tinha ouvido bastante este som nos últimos dias. -Parecem passos!
–É a Rainha. — Claramente não tínhamos nenhuma chance contra ela em um combate, estudei rapidamente o espaço onde nos encontrávamos e não era o melhor lugar para se esconder, mas era nossa única chance. — Se espalhem, se escondam atrás das pilastras! Fiquem quietos e talvez teremos uma chance. — Sussurrei rapidamente, tomando o posto de líder, e corri para trás de uma das enormes pilastras de pedra.
A Rainha surgiu em passos apressados, o barulho de seus sapatos contra o chão se tornando cada vez mais altos. Sua expressão era de alguém que estava completamente focado em algo, com as sobrancelhas franzidas e a boca apertada em uma linha fina, ela parecia focada em algo além de onde estávamos. Percebi que ela não nos veria ali, se ficássemos quietos até ela virar o caminho a direita logo a frente, poderíamos sair sem ser percebidos e com sorte, vivos.
Respirei aliviado e olhei para o lado oposto de onde eu estava, Pietro e Steve se mantinham escondidos atrás de uma mesma pilastra, ambos com armas a punho em posição de ataque. Em menos de um segundo, uma flecha saiu do arco de Pietro e se afundou em uma das coxas da Rainha, a mesma caiu de joelhos ao chão enquanto gritava, olhando para seu ferimento. Steve, aproveitando da distração da Rainha, saiu correndo de trás da pilastra que o mantinha escondido e a acertou na cabeça com o cabo de sua machadinha.
–Parem! — Eu gritei, tarde demais, e saí de meu esconderijo. Sentia as solas de meus pés dormentes por causa do chão frio, enquanto corria em direção ao corpo desacordado da Rainha. — O que vocês dois fizeram? O que somos agora, assassinos?!
–Não temos tempo para isso, Robin, vamos logo! Ela é uma bruxa, vai se curar disso rápido, Steve nem a atingiu tão forte assim. — Little John exasperou ao meu lado, mas eu não o dei ouvidos. Ajoelhei-me do lado da Rainha e tentei mudar a posição estranha que seu corpo se encontrava. A flecha não estava cravada tão profundamente em sua pele, mas o sangue parecia não parar de sair. Em um movimento rápido, retirei a flecha e apertei o local do ferimento para conter o sangue.
–Robin, o que está fazendo? Robin Hood! Seu filho está lá fora a sua espera e você quer ficar aqui cuidando da Rainha Má? Você está doido? — Little John me empurrou pelo ombro exigindo uma resposta.
–Little John, eu preciso que saia daqui. Todos vocês, encontrem um caminho para fora do castelo! Little John, cuide de Roland por mim... Eu logo estarei com vocês, mas agora eu preciso ficar aqui e ajudar essa mulher.
–Porque? Robin, não vale a pena! Ela não merece, temos que sair daqui logo. — Pietro gritou, ainda com o arco em sua mão.
–Saíam daqui logo, antes que os Cavaleiros percebam nossa presença. — Falei tentando controlar minha raiva pelo erro estúpido de Pietro e me concentrar apenas na Rainha. — Eu tenho uma dívida com a Rainha... Não voltem a minha procura, eu logo vou encontrar vocês. Protejam Roland por mim, por favor.
–Tenha cuidado, Robin... — Little John disse pesaroso. Eu sabia que ele não queria ir, mas ele não tinha escolha, isso era algo que eu deveria fazer sozinho, por minha conta e risco. — Vamos lá, homens, vamos sair daqui! — Não tive tempo de assistir meus companheiros deixarem o local, quanto mais tempo passava, mais sangue a Rainha perdia. Me concentrei nela.
Rasguei um pedaço de tecido de minha blusa e amarrei firmemente em volta da coxa da Rainha, eu já tinha sido ferido vezes suficiente para saber o mínimo que deveria fazer em uma situação dessas, o monte de roupas que ela vestia dificultava meu trabalho, mas pude conter um pouco o sangramento. Conferi sua cabeça, para ver se não tinha nenhum ferimento onde ela tinha sido golpeada, e, vendo que não tinha nenhum sinal de sangue, peguei seu corpo adormecido em meus braços e andei o mais rapidamente que conseguia, tentando encontrar um lugar em que pudesse cuidar melhor de seus ferimentos.
Em meus braços, a Rainha era leve e calma. Seu rosto não demonstrava nada, mas eu sabia que logo que ela acordasse sua raiva cairia sobre mim, mesmo assim, esperava que ela acordasse logo. Esperava que ela ficasse bem. Embora eu não entender saber o motivo dela ter me salvado, eu não me perdoaria se não conseguisse retribuir o que ela fez por mim.
O primeiro lugar que encontrei foi a cozinha do castelo, livre de funcionários ou Cavaleiros. Os deuses pareciam estar a meu favor. Coloquei o corpo da Rainha em cima de uma pequena mesa de madeira que ali se encontrava e fiz caminho até a dispensa. Olhei rapidamente as diversas prateleiras e logo encontrei o que procurava: álcool. De volta para onde estava a Rainha, despejei um pouco de líquido na ferida, esperando que aquilo a limpasse.
Como se reagisse ao álcool, a respiração da Rainha vacilou e um tremor se espalhou por seu corpo. Levantei seu torso e o segurei contra mim, olhando esperançoso para seu rosto, eu previa que ela poderia acordar naquele momento.
Lentamente os olhos se abriram, um castanho profundo repleto de confusão me encarou. Eu podia sentir o ar quente que saía de sua boca entreaberta se encontrando com minha pele, de tão próximo que nossos rostos se encontravam. Suor se espalhava pela pele da Rainha e quente como ela estava, só podia ser febre.
–Como se sente, Milady?. — Perguntei, a balançando suavemente. A resposta nunca veio. A Rainha se mexeu desconfortável e trouxe uma de suas mãos para perto de seu próprio rosto, o vermelho rubro do sangue molhava a ponta de seus dedos. Um pequeno gemido saiu de seus lábios e ela levou a mão para o ferimento novamente, provavelmente o curando com magia, assim como fez com minhas queimaduras.
–O que fez comigo, idiota? — A voz da Rainha era sonolenta e arrastada, enquanto ela tentava se levantar sem sucesso. A puxei novamente para meu colo, para impedir que ela se mexesse demais.
–Eu te trouxe aqui e limpei sua ferida. Agora, irei levá-la de volta para seu quarto... Mas preciso de ajuda para chegar até lá. — Senti a já conhecida sensação de, por um segundo, não existir e depois meu corpo tomou forma de novo, já no quarto da Rainha, que continuava em meu colo. — Eu não falava deste tipo de ajuda, me dizer onde ficava o seu quarto já seria o bastante, assim eu poderia a carregar até aqui. Não devia se esforçar tanto, você levou uma bela pancada na cabeça.
–Está doendo. — Ela disse simplesmente, embora soasse um pouco como uma bêbada. -Está frio também...
–Imagino que esteja com febre. Consegue ficar de pé? — De novo, não obtive resposta, ela simplesmente relaxou seu corpo e deitou sua cabeça em meu ombro. — Bem, acho que isso é um "não".
Coloquei a Rainha em cima da cama, que encolheu seu corpo rapidamente, como faz uma criança com frio. Ela vestia uma capa negra pesada por cima da roupa, a desprendi de seus ombros e a retirei, tentando não mover o corpo da Rainha de um jeito que a incomodasse muito, mas ela parecia mal se importar com o que eu estava fazendo.
Um forte trovão rasgou o céu em algum lugar, pela primeira vez me dei conta de que um forte temporal devia estar caindo do lado de fora do castelo. Deuses, que Roland esteja protegido.
–Majestade, pode se mover um pouco para que eu possa a cobrir? O frio deve aumentar cada vez mais durante a noite, e você está doente, precisa estar coberta. — Nenhuma palavra e nenhum movimento. A Rainha estava desacordada outra vez. Suspirei e tentei cobri-la com os cobertores que estavam na cama da melhor maneira que pude.
A Rainha Má dormia profundamente em minha frente. Eu sabia que aquela poderia ser minha única chance de escapar daquele castelo, mas não conseguiria deixá-lo sem saber se a Rainha estava ou não completamente bem. Um arrepio me fez estremecer quando finalmente senti o frio me incomodar, e era apenas o início do inverno na Floresta Encantada, logo a neve caíria tão densa que nem mesmo as carruagens conseguiriam fazer caminho pelas estradas.
Coloquei minha mão sobre o rosto da Rainha, sentindo que sua temperatura ainda estava um pouco alta. Quando Roland sentia febre, eu sabia o que o melhor a fazer era tirar o excesso de roupas que o mesmo vestia e passar algo molhado em sua testa.
–Espero que ela não me mate por isso. — Sussurrei suspirando, enquanto retirava os grossos cobertores que havia posto a pouco tempo em cima dela.
Ela vestia um vestido negro com exageradas ombreiras, que eu imaginei serem desconfortáveis. A saia, tinha uma grande abertura na frente, deixando mostrar uma calça de couro — que agora tinha um pequeno furo onde a flecha a tinha atingido, mas o ferimento já estava curado — que definia suas pernas até os joelhos, até onde ia suas botas de salto alto. Desabotoei desastradamente os vários pequenos botões do vestido e ergui um pouco o corpo da Rainha para que pudesse tirá-lo completamente, assim a deixando-a apenas com as calças de couro e o corset negro que lhe definia a cintura e a cobri novamente.
Observei seu corpo inerte enquanto ela dormia, me perguntando se ela tinha feito o mesmo quando eu estava em seu lugar na cama. Ela parecia frágil como qualquer outra pessoa. Ao contrário do que todos diziam, a Rainha tinha um coração. Mais que um coração, a Rainha tinha uma alma, e eu a tinha visto em seus olhos no momento em que ela me salvou. Eu nunca me esqueceria de seu olhar desesperado enquanto ela curava meus ferimentos com magia, ela parecia com medo por mim. Ela parecia sentir minha dor. Era como se ela me conhecesse...
Enquanto ouvia a respiração profunda e calma da Rainha, um sentimento me assombrou: eu estava ligado a aquela mulher de maneira desconhecida e avassaladora.
Fale com o autor