Fire & Desires

6 Safe and Sound


Notas iniciais
Bom, esse capítulo é menor que os outros, e essa organização foi necessária. Logo vocês entenderão :)

Carly estava em perigo. De acordo com os registros do prédio, ela não havia saído durante toda a manhã, mas quando, casualmente, uma das funcionárias verificou o apartamento destrancado, não a encontrou — a mesma que me comunicou do fato. Metade de suas roupas estava esparramada pela cama e a outra metade havia sumido, o que os levou a pensar que ela poderia ter saído de lá por vontade própria ou forçada a deixar o apartamento. De todo jeito, eu tinha quase certeza de que, se ela houvesse saído, deixaria algum tipo de aviso para mim, nem que fosse da maneira mais desconfiável possível. As coisas não estavam como deveriam estar.

Eu só me desesperei ao procurar uma forma de dizer a Freddie que precisávamos sair dali o quanto antes, mas logo ele percebeu a tensão em que eu estava. Era meio que fácil demais perceber a minha aflição, por mais que eu considerasse Carly apenas como uma "companheira de apartamento" que sumiu misteriosamente enquanto eu saía com um cara que supostamente tocava um piano sinistro e que eu estranhamente havia conhecido num cemitério. Tudo isso, na minha mente, era cada vez maior e mais complexo.

Então, ele aceitou correr comigo. Correr? Sim, correr, porque estávamos longe demais de onde deveríamos estar e obviamente passaríamos o resto do dia procurando a "fugitiva". E no meio dessa correria infernal, aconteceu mais um daqueles acasos estúpidos e dolorosos: meu tornozelo resolveu atrapalhar os meus planos.

Cair da escada propositalmente para não seguir a fazer um teste parece eficaz, mas é errado pensar que não gera consequências. Uma delas é conseguir um tornozelo machucado e, dias depois, torcer o infeliz outra vez! Ah, a maneira mais fácil pode se tornar difícil... Lá estava eu, me movimentando com dificuldade e perdendo todo o tempo que tinha pra alcançar minha colega ou sequer fazer o que eu achava certo. As consequências param por aí? Com certeza não: as consequências acabam quando você percebe que não pode andar sem a ajuda de outra pessoa.

Isso mesmo, eu não tive outra escolha senão "ser carregada" pelo resto do caminho. Não era tão ruim, mas eu estava com vergonha, porque não é todo dia que... Que um pianista resolve te levar em casa. E, aliás, não é todo dia que um pianista acaba te levando pra casa dele, ou seja, pro cemitério em que ele mora. E, claro, não é todo dia que alguém resolve cuidar de você.

— Está doendo muito, Sam?

— Não, eu só... Só torci, ué. Não era pra estar doendo tanto, ou era? — É, estava doendo pra caramba.

— Não precisa esconder a dor, Sam.

Isso soou mais poético do que deveria.

— Quero dizer, eu sei que está doendo tanto quanto dói em mim. — Eu o encarei mais uma vez... O que ele estava querendo dizer?

— O que está querendo dizer?

— Sam, sei que está muito mais preocupada com a sua amiga do que com o seu tornozelo.

— Não... eu só... só estou... preocupada... ela pode... ter sido... Eu não sei.

— É a primeira vez em que se preocupa com alguém?

Teoricamente, era. Na verdade, depois de acontecer tudo que tinha acontecido, eu não me preocupava nem com meu próprio ser. Então, de repente, fico sabendo do "sequestro relâmpago" de Carly e me vejo tão... envolvida. Quer dizer, mesmo que ela tenha apenas saído e esquecido de trancar o apartamento, eu estava mesmo preocupada por não voltar da Ridgeway na hora e descobrir qual era o propóstio disso tudo. Eu me sentia culpada.

— Tente ser sincera. Não vou espalhar isso pro mundo inteiro, se confiar em mim.

— É... talvez eu esteja mesmo me preocupando com alguém pela... primeira vez. Eu acho que já me preocupei antes, mas não é certo.

Silêncio.

— Eu... adoro cuidar de você, e adoro que esteja sendo tão sincera comigo — ele dizia enquanto terminava de ajeitar o curativo no meu tornozelo.

— Parece que você é o único que diz isso... — hesitei, ouvindo um barulho irritante ecoar da pequena janela do cômodo. — Essa não!

Eu podia ver as gotas pingando lentamente do céu... Elas não podiam significar outra coisa.

— O que foi?

— Está chovendo. Ou melhor, relampejando. Ou melhor... Essa tempestade vai foder com tudo! Como ela pode ter feito isso, Freddie? Me responde!

— Eu sei que ela pode ser louca, mas não mais louca que nós dois que estamos num cemitério, não acha?

— Como vamos sair daqui? Como vamos procurá-la?

— Não vamos sair daqui agora. Não podemos.

— Mas ela está mal! Eu me sinto... culpada.

— Por quê?

— Porque estou aqui, com você, quando deveria estar...

— Se acalma. Vai ficar tudo bem. Eu só não quero que acabe estragando o resto por causa de uma coisa só.

Eu acho que com isso ele quis dizer "fica quieta e pense no agora", porque minha cabeça estava viajando mais do que costumava viajar.

— Mas eu não posso ficar aqui, eu só preciso saber como ela está, Freddie.

[...]

Passei o resto da tarde com ele e depois me acompanhou até o apartamento, que estava todo remexido... A situação parecia cada vez mais trágica para mim. Não poderia viver tranquila sabendo que algo muito ruim poderia estar acontecendo com Carly.

— Você me promete que vai ficar bem?

— Eu não posso prometer o que não vou cumprir.

— Mas eu posso prometer que ela vai estar sã e salva em pouco tempo.

— Me desculpa.

— Por?

— Por te fazer pensar que ia ter uma manhã divertida quando, na verdade, teve uma manhã mais agitada do que nunca. — Ele me encarava com aqueles olhos que, de certa forma, estavam respondendo por ele. Mas eu continuei:

— E por te fazer passar várias horas me ouvindo surtar por algo que... Por algo que você nunca vai entender.

— Sam... eu sei que você precisa de alguém. De alguém que alivie o que você sente. — Eu ia me afastar mas logo ele me puxou de volta. — E, eu não acabei. Eu sei que você está sofrendo por isso. Sei que tem medo que algo aconteça com ela, porque sempre vai ter medo de quase tudo.

E eu nunca iria admitir parte dos meus medos.

Notas finais
O que acharam? Chato? Curto? Odiaram? Querem me atirar pedras? Querem me vaiar? QUERO SINCERIDADE.