Notas iniciais
Bom, blecaute é o termo em português para blackout, então tirem suas conclusões e continuem dizendo o que acham nos reviews. Esse capítulo tem 2000 palavras (pedido de iGabriela Nocera) porque compensa o outro, e a maioria dos capítulos vai ter essa quantidade de palavras. Saibam que a fic é MUITO GRANDE.

Passei o resto dos meus dias faltando aulas e compromissos do colégio, porque realmente pensei que poderia resolver aquele grande problema sozinha, mas não podia. Carly estava definitivamente desaparecida desde quase duas semanas atrás e eu não fazia ideia de como continuar a viver tranquilamente. Freddie me fez prometê-lo que não iria faltar mais aulas e que acima de tudo me preocuparia também comigo e com a minha saúde, mas eu, sinceramente, disse que não cumpriria metade dessas promessas idiotas... Era uma vida em jogo, a vida de uma pessoa que com certeza se importaria caso o mesmo acontecesse comigo.

Mas ele me ajudou em parte das "buscas", a princípio. Nós dois saíamos e passávamos quase o dia inteiro distribuindo um tipo de panfleto às pessoas que esbarravam em nós, nas ruas de Seattle, informando do tal desaparecimento. A maioria dizia não tê-la visto nos últimos dias, o que me deixava quase sem esperança para continuar a procura, mas continuávamos até certo tempo. Eu não me importava mais comigo mesma ou com a minha alimentação, quase não parava em casa para descansar, e tudo que queria era salvá-la de quem quer que fosse e trazê-la de volta. Mas nada poderia trazer a Carly Shay que eu conheci outra vez — nada nem ninguém.

E doía muito saber que uma pessoa tão pura como ela estava no meio de toda essa gente do mundo, de pessoas que com certeza não aliviariam nem se soubessem da pior das coisas; eles nunca tiveram pena de ninguém e com certeza não teriam dela. E ela devia estar sofrendo, amargurada, encarando a própria solidão de bem perto sem nada fazer. Quando eu olhava para Carly era possível ver a inocência que ela transparecia de bem longe. Nunca havia se preocupado em me perguntar do meu passado e, quando me via chorar sem motivo, uma simples desculpa era o bastante. Ela nunca entendeu o que é, de verdade, um sofrimento, e dessa vez ele seria nada mais que obrigatório.

[...]

— Samantha Puckett! — o professor de algo como inglês esbravejou enquanto anotava coisas que, para mim, mais pareciam grego na lousa.

— O que é? — perguntei.

— Por que não presta atenção, mocinha? Esses pensamentos aleatórios podem comprometer parte do seu ano escolar!

— Sabe, eu tenho uma amiga que foi sequestrada e uma vida meio que turbulenta. O que eu fiz para o Universo ainda me dar um professor que não é capaz de entender os meus problemas que, acima de tudo, são bem maiores que orações? — despejei tudo e saí da sala às pressas, recebendo olhares assustados de quase todos no corredor.

Mas, eu não ligava, porque era a verdade. E eu não ligava se me expulsassem ou me esquartejasse, me prendessem ou se fizessem qualquer tipo de tortura comigo, porque com certeza não seria nada perto de tudo que eu estava sentindo. Nada mesmo.

Dei um jeito de sair daquele hospício ambulante o quanto antes e voltei a espalhar os panfletos sobre o desaparecimento de Carly nas ruas.

Inesperadamente, encontrei uma mulher na fachada duma pequena casa de alvenaria que logo acenou para mim. Eu retribuí a saudação e andei até perto dela, me lançou olhares duvidosos e perguntou se eu queria entrar. Eu não iria corresponder aquele olhar e muito menos me mostrar gentil o suficiente para aceitar um convite até o "interior" do que para mim era uma casa um tanto suspeita, mas o aroma de brownies logo me fez mudar de ideia... e eu resolvi entrar. Logo ela me ofereceu os bolinhos que pareciam convidativos naquela bandeja um pouco grande, e eu a agradeci, comendo-os com todo o prazer que podia depois de uma longa caminhada.

— Desculpe se te deixei confusa, mas é que eu conheço essa menina do panfleto. — Ela apontou para o papel que eu havia entregado.

Meus olhos brilharam e eu quase podia ter certeza de que tudo estava começando a se ajeitar na minha vida.

— Você... sabe onde ela está? De onde a conhece? — perguntei com esperança.

— Não, não falei com ela nas últimas semanas — a senhora respondeu, deixando que uma parte de mim morresse por dentro.

Não acredito! Então por que ela me levaria até aquela espelunca de casa? Só pra oferecer brownies e dar adeus, assim, tão depressa?

— Mas então o que você quer comigo?

— É que... bom...

Ela estava nervosa. Tão nervosa quanto eu. Mas continuou:

— É difícil falar sobre isso. Há alguns meses o meu filho terminou a escola e agora cursa uma universidade longe daqui.

— E o que isso tem a ver?

— Foi nesse período, em que ele vivia comigo, que conheceu essa menina. Eles dois eram muito... próximos.

— Mas... No que isso pode ajudar?

— Eu lembro de toda a fisionomia dela e agora, de repente, ela desaparece... Como é que isso aconteceu?

— Eu juro que não sei. Mas como é esse seu filho? Eu o conheço? Se ele era próximo de Carly, quer dizer que eu devo conhecê-lo de alguma forma. Faz uns meses que nós...

— É... Se preocupa se não falarmos sobre isso?

Silêncio.

Eu só devorei o resto dos brownies e tomei a decisão de pôr um fim naquele diálogo sem fundamento com uma mulher que eu nunca tinha visto antes.

— Tudo bem, mas eu preciso ir.

Isso tinha sido no mínimo estranho. Ela me convida pra entrar, me trata bem e não quer dar detalhes do assunto principal... Mas o Universo nunca foi incerto. Ou ele age para o mal, ou ele age para o bem. Eu ia descobrir qual era o seu propósito cedo ou tarde.

[...]

No fim do dia, tudo que me restou foi ir ao cemitério sem o aparecimento da Carly e mais nada que eu esperava.

— Me abraça — disse entrando no "cômodo" de Freddie.

— Boa noite pra você também — ele respondeu e logo se levantou para me abraçar.

Soava anormal para alguém como eu, mas gostava muito de abraçá-lo — diferentemente de quando se tratava de qualquer outra pessoa — e acho que a opinião dele a respeito não era diferente.

— O que deu em você, hein?

— Por quê? Pareço diferente? Eu só estava com saudade e quero que você toque pra mim.

— Geralmente você não entra aqui pedindo abraços ou que eu toque pra você. Na realidade, você já prefere atirar pedras.

— Eu não sei... — disse enquanto mexia no cabelo dele. — Acho que isso tudo de finalmente me preocupar com alguém está me afetando... Mas nada de perguntas, Benson! Seja um pianista menos chato, por favor.

— Tudo bem, eu amo suas visitas, Sam, e também amo tocar pra você. Mas eu garanto que a Carly vai aparecer cedo ou tarde... até porque eu também espero por isso.

Fiquei defronte com o piano prateado e pensei em uma possibilidade absurda do pianista ter conhecido a Carly antes, de alguma maneira. A forma como ele dizia estar preocupado... Não parecia mentira. Ele não estava fazendo aquilo só para me confortar. Mas, ainda assim, a ideia parecia absurda demais.

[...]

E em todos esses dias em que tenho visto a cama dela vazia, parece que sinto uma falha no meu coração, cérebro, ou sei lá. Ela era uma boa pessoa, acima de todas as outras coisas que me faziam odiá-la. Eu fui mais que uma péssima nova amiga ou péssima possível nova amiga pra ela, e sinto que tudo o que falta, o que deixa essa falha, vem de mim mesma.

Tarde demais. Era tarde demais.

Algumas semanas depois, todos nós de Seattle e talvez de toda a América soubemos da mais recente vítima de violência sexual em um esconderijo nas ruas mais povoadas da cidade. Eu tentei não acreditar que ela havia sido estuprada, mas era a verdade nua e crua e, além disso, mais que cruel. Poderia não ser tão cruel aos meus olhos, mas garanto que era tão cruel quanto um planejamento de assassinato perfeito ou como um filme de terror inspirado em fatos reais para ela. E é sempre tão difícil se colocar no lugar de outras pessoas e tentar imaginar o quão mal e diferente de nós se sentem, mas deve ser feito em algum dos momentos da vida. O meu momento era esse. O meu primeiro momento, a primeira vez em que eu me preocupava de verdade com a saúde mental de alguém.

Eu não conseguia parar de chorar quando a via cheia de aparelhos médicos e provavelmente acidentada, pensava em tudo que decerto haviam feito com o corpo dela, como deveriam tê-lo usado sem pedir sequer permissão. Carly era tão nova e bonita, tão saudável e tão "normal", e agora a normalidade dela havia ido por água a baixo. Porque, de certa forma, ela descobriu o quão mau o mundo pode se mostrar.

— Carly, você pode me ouvir? — Silêncio.

E lá estava ela. Os lábios pálidos e uma feição nada boa, cortes em algumas partes do corpo. Uma má situação hospitalar em volta da maca.

As enfermeiras olhavam de relance e eu tentava me concentrar apenas na minha dor, na minha falha. Porque era tão estranho não vê-la bem e não vê-la sorrindo...

— Carly, eu... Me desculpa mesmo. Eu sei que eu fui egoísta com você, sei que o mundo sempre é egoísta comigo, mas eu sou capaz de entender basicamente o que você sente. Claro, se puder sentir alguma coisa enquanto está desacordada. Eu não sei o que é estar internada em um hospital por dias e ser assunto em toda cidade, mas eu sei o que é se sentir pior e se sentir mal, se sentir como num vão ou em uma escuridão sem saída. Eu sei o que é se sentir presa e oprimida pelos próprios medos, sei que é ruim e incomparável. Sei o que é perceber que ninguém está ao meu lado e que parece ser o fim dos tempos. Eu tenho muitos traumas e aprendi a conviver com um deles, que é o Universo, mas sei que você é forte o bastante para exterminar o que te faz mal. E, quando você acordar daí, sei que vai estar sã e salva.

Eu me levantei da posição em que fiquei para observar seu estado e andei até a recepção. Freddie estava lá, um pouco inquieto, esperando alguma novidade ou reação de Carly.

E as notícias eram sempre essas:

— Nada.

— Talvez ela possa... — Era sempre esse talvez que me fazia enlouquecer de raiva.

— Não percebe que ela não vai melhorar tão rápido? Ela pode MORRER, Freddie, MORRER.

E não era só ela que estava à beira da morte.

— ELA NÃO VAI MORRER, SAM!

— Mas ela... Ela... Ela...

— Ela o quê? Ela é sua amiga, Sam! Você tem que confiar e tudo vai ficar bem.

— Mas ela foi estuprada, Freddie, ela está ferida. Você não sabe o que é sofrer com um trauma, como é saber que a sua vida pode...

Eu já ia prosseguir a discussão, mas tudo ficou escuro. Era um possível blecaute, ou melhor, era um blecaute. Um sinal foi dado para que os funcionários, médicos e enfermeiros deixassem o local, mas não consegui ver a saída.

Que ótimo!

— Precisamos sair do hospital ou... Sam, cadê você?

— Tô aqui.

— Eu não estou te vendo.

— E eu também não.

— Mas eu posso te ouvir.

— E eu também posso.

— Onde estamos?

Éramos os únicos naquele hospital além dos pacientes, por fim.

— Isso tudo é sua culpa, e culpa desse Universo também.

— Ah, Sam, não vamos brigar no escuro, ou vamos?

— Não seria uma boa ideia, mas, pensando bem, a culpa é toda sua.

— Argh! Sabe do que você precisa? De um pouco de otimismo.

Como ele poderia exigir que eu fosse otimista num blecaute? Estava exigindo demais da minha paciência, e ninguém exige da minha paciência.

Senti uma porta de vidro se chocar com o meu braço e alguém esbarrar no meu corpo, até que nós dois caíssemos no chão. E agora tudo estava claro, literalmente, porque a luz que vinha de algum lugar estava iluminando tudo. E a boca dele estava tão próxima da minha que... Que eu acho que não poderia continuar brava com toda aquela ideia. Eu estava mesmo sendo pessimista quanto a tudo e... O que mais pensar? Eu só fiz o que queria fazer desde o primeiro momento.

Notas finais
Recado: precisam se preparar física e emocionalmente para o próximo capítulo. *risada maligna*