Fire

2 Capítulo 1


Eu estava queimando.

Não literalmente, claro, mas era como eu me sentia. Minha pele estava em brasas enquanto meu organismo tentava se adaptar ao ambiente ao meu redor. Meus olhos doíam com a mudança e minha cabeça parecia a ponto de explodir. Meu corpo estava mudando e em poucos segundos eu poderia ser confundida com qualquer desprezível humano.

Nem a dor da mudança havia me feito parar de correr.

Meus pés descalços ardiam cada vez que tocavam o chão. Não me lembrava por quanto tempo estava correndo, ou em que ponto meus sapatos haviam se perdido, apenas sabia que não importava o quanto estivesse cansada, o quanto minha pele queimasse, ou o quanto meus pés doessem, eu deveria continuar correndo.

Eu caí. De novo. E de novo. E de novo. Sempre levantando e recomeçando a correr. Sem nunca perder o ritmo. Sem nunca parar realmente.

A cada passo a paisagem ao meu redor se retorcia, até o ponto de eu não saber onde estava. O cheiro puro e suave das árvores ao meu redor me atordoava. Quando eu respirava, o oxigênio vinha com um detestável odor de natureza e meu estômago revirava.

Prendi a respiração sempre que pude, lamentando a falta de enxofre nessa terra.

Quando desviei de uma última árvore, eu ouvi: a completa ausência de ruídos.

Foi como se o mundo de repente apertasse o botão “mudo”.

Parei de correr, respirando cautelosamente, temendo que se fizesse qualquer movimento brusco o silêncio se romperia. Quase não pude conter um sorriso ao perceber que, finalmente, os latidos haviam ido embora. Eu estava livre.

Para as almas amaldiçoadas, eternamente torturadas, era impossível passar pelos portões. Primeiro porque era imensamente complicado raciocinar com seu corpo queimando pela eternidade, e segundo porque havia um porteiro: Cérbero.

O cão infernal era muito eficiente em manter as almas longe dos portões de saída do inferno, suas três cabeças e suas bocas enormes eram aviso mais do que suficiente para que todas as almas mantivessem distância. Mas Cérbero foi ordenado a reter almas no mundo inferior, e eu não tinha uma alma — o que facilitou extremamente minha fuga.

O problema, é claro, começou quando me esgueirei por detrás do cão infernal e pisei acidentalmente em seu rabo, que, por ironia do acaso, era uma detestável cascavel.

Nunca havia imaginado que um cão poderia correr tão rápido atrás de alguém.

Eu sabia que ele não poderia correr atrás de mim para sempre, afinal os portões não podiam ficar sozinhos, mas aquela perseguição havia durado mais que o esperado.

Olhei para baixo, checando o estado em que eu estava.

– Cachorro estúpido — resmunguei, percebendo que minhas roupas estavam arruinadas.

Meus joelhos sangravam por causa das diversas quedas e a saia do meu vestido estava em frangalhos. Tive medo de checar meus pés, mas sabia que deviam estar em um estado lamentável. Apesar do esgotamento pela mudança, logo meu corpo iniciaria o processo de cura, então evitei me importar realmente com os cortes e a ardência dos machucados superficiais.

Eu nunca tive um plano completo, e a parte que eu tinha já estava concluída: Fugir e correr até despistar Cérbero. Agora precisava pensar rapidamente no restante do plano se eu quisesse sobreviver depois que minha fuga fosse descoberta. Calculei mentalmente o tempo que isso duraria e descobri que provavelmente me restavam menos de uma hora antes que a fúria do mundo inferior caísse sobre mim.

Uma hora para achar um esconderijo melhor que esta fétida floresta.

Voltei a me mexer, escolhendo uma calma caminhada desta vez, já que meus pés e meu corpo se recusavam a recomeçar outra corrida.

– Loki! — uma voz soou a poucos metros de onde eu estava.

Corri para detrás de uma árvore, voltando a causar dor em meus, já maltratados, pés. Mantive-me abaixada e escondida.

Uma mulher apareceu no meu campo de visão, ela virava a cabeça em todos os ângulos possíveis, como se procurasse por algo.

– Loki! — ela gritou novamente.

Analisei a mulher rapidamente. Altura mediana. Cabelos loiros presos em um rabo de cavalo. Olhos castanhos. Uma deprimente roupa de dona de casa. Ela aparentava ser apenas uma humana comum.

Revirei rapidamente meu cérebro, lembrando-me de onde o nome que ela gritava me era familiar. Loki era o deus nórdico da travessura. O que aquela humana fazia no meio da floresta invocando um deus nórdico? A prática de humanos invocando e dando oferendas a deuses imaginários já não havia sido extinta há séculos?

Saí de meu esconderijo, caminhando até a excêntrica humana.

Não sei se meus passos eram silenciosos demais ou se ela estava muito concentrada em achar Loki, mas quando me aproximei e toquei em suas costas, a mulher saltou quase um metro para trás, soltando um grito estridente.

– Ah, meu Deus! — ela exclamou, ainda alto, colocando uma mão sobre o peito para acalmar as batidas erroneas de seu coração, que eu podia ouvir nitidamente. — Você me assustou.

– Onde vive, humana? — perguntei, evitando uma careta por conta de seu grito que havia atingido minha sensível audição.

– O que?

– Onde vive? — repeti, incomodada com sua aparente estupidez — Onde está localizada sua casa?

Ela me olhou clinicamente, parecendo se recuperar do susto.

– Quem é você? — questionou.

Bufei, ignorando sua pergunta e a forma como ela me analisou. Encarando seus olhos, estabeleci uma conexão, deixando várias informações fluírem de seu cérebro para o meu como em uma correnteza.

Seu nome era Catherine Maddox. Tinha 27 anos. Trabalhava como enfermeira no hospital da cidade. Estava na floresta procurando seu cachorro que havia fugido, e não invocando um deus com o mesmo nome como eu havia imaginado. Sua casa era a poucos quilômetros dali.

Um dos cantos de meus lábios se ergueu em um quase sorriso.

– Você vai me levar ao seu lar, humana — comandei, ainda usando a conexão que eu havia feito com ela. — Irá me fornecer abrigo e tudo o que eu lhe disser, até que eu lhe dispense. Fui clara?

Ela assentiu, parecendo desnorteada.

– Se alguém fizer perguntas impertinentes, dirá que sou uma velha conhecida — continuei. — E pare de procurar seu cachorro. É inútil. Ele voltará sozinho em alguns dias.

Eu sabia o quanto animais repudiavam a presença de Cérbero. O cachorro voltaria quando o cheiro do ser infernal desaparecesse da floresta.

Catherine Maddox assentiu novamente.

Desfiz o contato visual, rompendo a conexão.

Normalmente eu não precisaria de contato visual para isso, bastaria olhá-la e eu já saberia tudo o que precisava saber sobre ela, mas, aparentemente, a corrida e a transformação haviam me cansado mais do que eu imaginava.

Ela se virou, esquecendo completamente de seu cachorro, assim como eu havia instruído e começou a caminhar na direção por onde havia vindo. Eu, é claro, a segui.

Não fazia ideia de que lugar era aquele. Os portões nunca abriam para um lugar específico e o mundo inferior estava sempre se deslocando, por isso havia pessoas que diziam: “o inferno está em todo lugar”, mas pela floresta extensa e o barulho de água próxima — talvez de algum lago — era uma cidade rural, provavelmente uma pequena.

Revirei os olhos mentalmente. Sempre detestei cidades pequenas, por isso nunca as visitava. Quando tinha permissão para sair, gostava de ir para Nova York ou as grandes cidades europeias, havia algo de agradável na bagunça em massa de seres humanos e poluição.

Essa cidade parecia tão silenciosa e tinha um cheiro tão puro que me deixava com dor de cabeça.

– Você não é daqui — Catherine comentou, quebrando o silêncio que eu havia estabelecido.

Olhei-a pelo canto dos olhos.

– Não sou — concordei simplesmente.

– De onde você é? — tentou de novo.

– Não vejo como isso possa ser de seu interesse, humana — retruquei.

Sua mandíbula se apertou, como se minha resposta houvesse a irritado.

– O que aconteceu com você? — insistiu. — Do que estava fugindo? O que está vestindo? Por que fica me chamando de humana? O que você... ?

Girei rapidamente, segurando-a pelos ombros e a olhando diretamente nos olhos.

– Não fale comigo — comandei — a menos que seja extremamente necessário.

Ela assentiu, confirmando que havia entendido, mas isso não a impediu de voltar a abrir a boca.

– Você deveria ao menos dizer seu nome — disse.

Revirei os olhos. A curiosidade mundana era uma coisa tão irritante.

– Blair — respondi, apenas para que ela se calasse.

Catherine me encarou, aguardando por mais.

Eu sabia o que ela estava esperando: um sobrenome. Afinal todos tinham um... Menos demônios. Nós não tínhamos sobrenomes. Eu era Blair. Apenas Blair.

Demônios tinham títulos.

Título é o que define um demônio, é como a profissão de um homem orgulhoso. Lúcifer era o Supremo, nosso “imperador das trevas”, aquele que era condicionado pelo orgulho e pela sede de poder. Eu nasci no orgulho. Descendente direta do Supremo, mas nem isso havia me dado direito a um título.

Nunca havia entendido o porquê, até pouco tempo.

– Sem sobrenome? — Catherine insistiu, como se lesse meus pensamentos.

Contive a vontade de rolar os olhos.

– Porque não me dá um sobrenome, humana irritante? — sugeri.

Ela me encarou de novo, dessa vez por muito tempo, quase chegando a parar de andar. Seus olhos voltaram a me analisar clinicamente de cima a baixo.

Não sei exatamente o que ela viu. Uma garota desconhecida, suja, machucada e com as roupas em trapos? Uma louca e desesperada garota mal educada?

– Que tipo de maluca você é? — perguntou.

Grunhi alguma coisa, ficando mais irritada e me recusei a responder, começando a caminhar mais rápido. Se eu não estivesse tão cansada e precisando de um lugar, com certeza teria queimado-a viva.

O barulho de água foi ficando mais alto conforme caminhávamos, as árvores extensas diminuíram e logo eu conseguia avistar um enorme lago e uma placa onde estava escrito “Lago Crawfield” e logo abaixo outra placa anexada pedindo para não poluírem a água. Porém, como era de se esperar da raça humana, a água estava tão suja que eu duvidava que peixes conseguissem sequer sobreviver ali.

– Que lugar é este? — perguntei para a humana.

Ela me encarou.

– Lago Crawfield — disse.

Revirei os olhos.

– Não estou falando dessa lixeira — apontei para a água. — Estou me referindo a cidade.

– Lake Falls — respondeu como se fosse um fato que eu devesse saber. — Condado de Klamath — continuou me encarando. — Oregon — ela parou de andar. — Sério? Você não conhece?

Neguei com a cabeça. Nunca foi de meu interesse aprender cada pequeno estado e cidade do mundo. Eu conhecia o básico, apenas.

– Lar das lendas americanas — ela continuou, como se com detalhes, fosse me fazer lembrar qual era aquele lugar. — A cidade pequena que atrai turistas pelo medo? Dark Week?

Eu não fazia a menor ideia do que era Dark Week, mas havia outra parte do que ela disse no qual eu havia me interessado.

– Lendas? — perguntei.

Ela deu de ombros.

– Depois explico melhor — prometeu. — Não acredito que você não conhece essa cidade — murmurou.

Viramos-nos novamente para as águas poluídas do Lago Crawfield.

A casa de Catherine, eu sabia, era um pouco depois do lago, e de acordo com suas memórias, a única a quilômetros dali. Detestei isso, não apenas porque Catherine havia me deixado irritantemente curiosa, mas porque o lago poluído era um covil perfeito para criaturas. Um ser-vivo normal não poderia viver ali, de forma alguma, mas um ser infernal? Demônios aquáticos amavam a poluição e o fato de as águas escuras serem perfeitas para mantê-los em sigilo. Não que precisassem, já que eram vistos por humanos apenas se fosse a vontade deles.

Havia Nickars naquela água, e eu soube isso antes mesmo dos seres escamosos e grotescos passarem a me encarar avidamente por cima da poluição.

Sempre detestei Nickars. Adoravam brincar com os humanos e foram a raça de demônios que colocaram “sereias” na mitologia mundana. São particularmente inofensivos, apesar de serem extremamente manipuladores e mentirosos. Chegam a matar uns aos outros em troca de alimento.

– Seres desprezíveis — resmunguei para mim mesma, fazendo notas mentais para manter o máximo de distância possível daquelas águas.

Catherine arqueou a sobrancelha para o meu comentário, seguindo rapidamente meu olhar para a água, mas duvidei que ela tivesse visto o mesmo que eu.

Dei meia volta e circulei o lago, ignorando a ponte de madeira velha que havia no meio do mesmo. Eu não era estúpida o bastante para atravessar pelo meio de um lago cheio de seres infernais.

Agora estava começando a entender porque Catherine havia chamado aquela cidade de “lar das lendas americanas”.

Em nenhum momento olhei para trás para ver se era seguida pela humana, meu cérebro funcionando a mil por hora. Eu não fazia ideia de onde Lake Falls ficava exatamente, nem porque os portões abriram nesse lugar, mas o fato de ter Nickars — demônios extremamente raros — exatamente naquelas águas me fez pensar que aquele não era um lugar comum.

Temi ter fugido de um inferno para entrar em outro.