Fire

3 Capítulo 2


A casa dos Maddox não era como eu esperava. Imaginei uma casa simples, de fazenda, com vacas e galinhas correndo pelo quintal, exatamente como se esperava de uma casa rural, porém, ao invés disso, encontrei um enorme casarão, com uma fachada incrível e um jardim tão bem cuidado que nunca poderia ser visto no mundo inferior.

O cheiro das flores voltou a embrulhar meu estômago e eu segurei a bile que insistia em subir na minha garganta.

– Derek deve estar em casa — a mundana irritante comentou. — Ele é meu marido. Tente parecer normal na frente dele.

Contentei-me em rolar os olhos para ela.

– Apenas lidere o caminho, humana.

Ela estancou no lugar, encarando-me.

– Não me chame assim — disse, — meu nome é...

Fuzilei-a com o olhar.

– Tenho conhecimento de seu nome, Catherine Maddox — estiquei a mão e agarrei-a pelo pescoço, meu autocontrole indo para o espaço. Seus grandes olhos castanhos arregalaram-se e eu fiz careta com sua baixa temperatura corporal em contraste com a minha. — Eu lhe disse para não falar comigo. É estúpida?

A humana balançou sua cabeça, negando. Medo nadava em seus olhos como peixes em água cristalina.

– Desculpe — ela pediu. Sua voz saindo falha por conta de meu aperto.

– Não tente me comandar, humana tola — continuei. — Sei exatamente como devo agir ou deixar de agir na frente de seres inferiores como você. Garanto que agirei da melhor forma com seus familiares, agora pare de me incomodar.

Larguei seu pescoço, bruscamente.

Catherine ofegou, tropeçando e buscando o ar que eu havia lhe privado.

– Você é quente — ela acusou. Sua voz ainda em seu pior estado.

Não lhe dei qualquer tipo de resposta, contentando-me apenas em voltar a caminhar e esperar que ela me seguisse.

A humana me ultrapassou, indo até a porta de entrada de sua casa e a destrancando.

Fiquei exatamente ao seu lado, seu pescoço ameaçando despontar marcas vermelhas onde eu havia encostado.

– Solte seu cabelo — mandei, antes que ela pudesse dar um passo para dentro de seu lar.

Eu não queria nenhuma pergunta inapropriada acerca da vermelhidão de seu pescoço. Seria frustrante manter-me em um lugar em que teria de compelir todos para esquecer até detalhes pequenos como este. Além de me causar esforço desnecessário.

Catherine Maddox me olhou interrogativamente, mas não disse nada enquanto fazia o que eu havia lhe ordenado.

– Cat? — alguém chamou de dentro da casa.

Uma voz nitidamente masculina, então suspeitei que fosse do marido que a humana havia citado.

Ela me lançou um último olhar, no qual não pude detectar a emoção exata que ela queria me passar — raiva? Súplica? Talvez um pouco de ambos — e entrou na casa.

– Sou eu — ela anunciou para o marido.

– Conseguiu achar Loki? — ele perguntou, falando alto como se estivesse em um cômodo afastado da casa.

Segui Catherine, checando rapidamente aquilo que os humanos chamavam de “casa bem decorada”. Eu teria que dar um jeito nos vasos de flores com cheiro enjoativo em cada canto se eu quisesse passar ao menos uma noite naquele lugar.

– Ainda não — a mundana continuou falando com o marido, — mas tenho certeza de que ele vai voltar alguma hora.

Ouvi barulho de louças tilintando e soube que o homem estava na cozinha. Ele disse algo para a humana, mas eu fiz questão de ignorar. Virei para a porta pelo o qual eu havia acabado de passar e a toquei com o dedo indicador, usando um pouco de magia elementar, queimei o trajeto que meu dedo fazia, forjando uma runa de proteção na madeira.

Aquilo me manteria oculta de qualquer ser infernal enquanto estivesse dentro da casa.

– O que você está fazendo? — Catherine sibilou para mim, olhando para o desenho irregular talhado em sua porta — Você queimou a minha casa! — acusou, tentando manter sua voz baixa, para que o outro humano na casa não ouvisse.

Tornei a rolar os olhos para ela.

– Como se eu precisasse lhe dar explicações — ironizei.

O barulho de louças cessou na cozinha e pude ouvir nitidamente os passos que se aproximavam daquele cômodo.

Derek, o marido da humana, apareceu diante de mim, vindo de um dos corredores que levava à sala de entrada.

Ele tinha uma aparência miseravelmente comum. Olhos escuros. Cabelo escuro. Nenhum traço marcante. Parecia exatamente o tipo de pessoa que não nos sentimos mal por não nos lembrar do rosto, o tipo que se perde facilmente na menor das multidões. Ele também tinha uma mente demasiado fraca, porque no momento em que coloquei os olhos nele, toda sua vida e emoções me bombardearam.

Derek Baker. 32 anos. Médico...

Parei o fluxo de pensamentos, franzindo a testa. Obviamente minha conexão emotiva estava em perfeito estado, não duvidava que pudesse compeli-lo sem ao menos olhá-lo duas vezes.

Então porque com Catherine eu precisei de contato visual direto e mais esforço?

Ótimo, Blair, me parabenizei, não podia ter conseguido uma serva humana mais problemática.

– Quem é essa? — Derek perguntou. Seu olhar me seguindo de cima a baixo.

Podia praticamente sentir no ar sua curiosidade e seu incômodo pelo estado de minhas roupas e a desordem geral em que eu me encontrava.

– Essa é Blair, querido — Catherine se pronunciou. — Blair... — ela pausou — Thorne. Essa é Blair Thorne — anunciou, dando-me, finalmente, um sobrenome humano.

Olhei-a rapidamente, esperando que ela visse a satisfação em meus olhos. Aquele me parecia um sobrenome apropriado.

Os olhos do homem voltaram a pairar sobre mim, analisando-me minuciosamente como se meu nome abrisse portas para mais características visuais.

Quase bufei. Todos os humanos eram tolos?

– Eu esbarrei com ela quando estava procurando Loki — Catherine continuou. — É uma velha amiga que não vejo faz um tempo, e ela passou por uns maus bocados — disse gesticulando para o estado de meu vestido, como se isso explicasse tudo. — Então falei pra ela que podia passar um tempo aqui até achar outro lugar — ela se virou para mim com um sorriso forçado. — Esse é Derek Baker, meu marido — me informou, — lembra que lhe contei sobre ele?

Acenei para ele por pura educação.

O olhar avaliativo que ele me lançava se aprofundou. Ele não parecia estar engolindo aquela história.

– Bem louco você achar uma velha amiga assim, do nada — ele comentou.

– Não é? — ela concordou — Quem poderia imaginar?

Derek tirou os olhos de mim por um segundo, apenas para medir as palavras da esposa, que estava se mostrando uma terrível mentirosa.

– E onde a encontrou? — questionou.

Vi alívio nos olhos de Catherine.

– Na floresta — respondeu de pronto, aparentemente feliz por essa não ser uma mentira.

– E de onde a conhece? — Derek continuou.

Ele obviamente era contra trazer estranhos para dentro de casa, principalmente por motivos suspeitos.

Catherine abriu a boca, provavelmente para mentir melhor, mas aquela situação estava me irritando.

Alcancei facilmente uma conexão com o humano e lancei-lhe uma quantidade quase ridícula de compulsão.

– Não me encare — comandei. — E chega de perguntas. É irritante. Volte para o que estava fazendo e esqueça o estado em que me encontro nesse momento. Sou apenas uma amiga de sua esposa que veio passar um tempo em sua casa. Não tem nada interessante sobre mim e você me achou uma pessoa extremamente agradável nesse primeiro encontro.

Seus olhos se fecharam enquanto eu abandonava a conexão e quando voltaram a se abrir, havia uma gentileza cega ali.

– Foi um prazer conhecê-la, Srtª Thorne — ele disse sorrindo. — Espero que goste do tempo que vai passar aqui.

– Chame-me de Blair.

Ele assentiu firmemente, quase feliz com meu consentimento.

– Claro, Blair — sorriu. — Se precisarem de mim, estarei lavando louças.

Então deu meia volta e caminhou para a cozinha onde estava momentos antes.

Catherine virou-se para mim com um olhar acusatório.

– Você enfeitiçou meu marido!

Não pude conter a risada que escapou por entre meus lábios.

– Enfeiticei? — repeti, divertida — Está deduzindo que sou alguma espécie de bruxa?

– Eu não sei o que você é! — ela retrucou.

A diversão não se dissipou e eu lhe lancei um sorriso irônico.

– Garanto que não sou uma bruxa, mas se eu fosse talvez você devesse implorar por uma poção para melhorar a personalidade dele — divaguei. — Seu marido é irritante, entendo agora por que decidiu manter seu nome de solteira.

Ela trancou a mandíbula e ao invés de dizer algo, ela caminhou na direção das escadas.

Rolei os olhos, deixando de lado seu silêncio e a segui.

De alguma forma a humana havia conseguido colocar arranjos de flores em pontos estratégicos da escada também, e eu tive que conter outra careta por conta do cheiro. Como alguém podia gostar tanto de espalhar algo tão mal cheiroso por toda parte?

Nós terminamos de subir o lance de escadas, o que nos levou para um amplo corredor cheio de portas — o que fez eu me perguntar quantas pessoas vivia naquele lugar. — Catherine entrou em uma das últimas portas, permitindo que eu entrasse logo depois dela. Era apenas um quarto. Um grande a aparentemente abandonado quarto que, pela cara que a humana fez ao entrar nele, não era apenas de visitas.

Alguém havia vivido ali, eu podia sentir. E havia uma história trágica envolvida.

Catherine Maddox caminhou até o grande guarda-roupa, tirando roupas e toalha do mesmo.

– Aqui — ela disse jogando tudo em meus braços. — Espero que sirva.

Olhei rapidamente para as roupas, sem realmente vê-las.

– São suas? — perguntei, apesar de saber que não eram.

A mandíbula dela travou, outra emoção que eu não pude reconhecer passou por seus olhos.

– Não — respondeu. — Duvido que as minhas sirvam em você.

A emoção, eu sabia, não era por conta de seu peso físico. Havia algo com aquele quarto e aquelas roupas que minha curiosidade imortal não me deixaria descansar sem saber.

Porém isso poderia esperar um pouco.

– Onde posso me lavar? — perguntei, ansiando por um banho quente.

A humana apontou para uma das portas acopladas ao quarto.

– Pode usar aquele banheiro — respondeu.

Assenti, virando de costas para ela e entrando onde ela havia apontado. Pude ouvir nitidamente quando Catherine respondeu um “de nada” baixo e irônico para minhas costas.

Quase sorri.

O banheiro, apesar de aparentemente limpo e grande como o resto da casa, tinha o mesmo aspecto do quarto. Parecia vazio, como se a alma do lugar houvesse evaporado. Aqueles eram os únicos cômodos da casa que eu havia gostado até aquele momento.

Pendurei a toalha no gancho da parede e examinei as roupas que Catherine havia me entregado. Um vestido e — adivinhem? — ele era florido. Quase o queimei ali mesmo, porém eu precisava parecer-me com uma humana se quisesse permanecer escondida e longe do Inferno, por isso me obriguei a pendurar o vestido ao lado da toalha, intacto, da forma como me foi entregue.

Fiz notas mentais para conseguir roupas melhores o mais rápido possível.

Retirei cuidadosamente meu vestido de pele de cães infernais, lamentando o que já foi um dia belo, e que agora estava arruinado. O pendurei também, com a esperança de que com uns ajustes ele pudesse ser salvo. Abaixei os olhos, examinando as feridas superficiais que antes estavam espalhadas pelas minhas mãos e pelas minhas pernas. A maioria já estava curada e eu podia ver claramente que os cortes maiores estavam se fechando. Só precisava de um demorado banho quente e eu estaria nova em folha.

Fui até a banheira, ignorando o chuveiro, liguei a torneira de água quente e esperei pacientemente até que ela enchesse.

Um movimento capturou minha visão em meu lado esquerdo, aproximei-me para ver melhor e percebi que era um espelho. Odiei a figura pequena e frágil que me encarou de volta. Meus olhos, antes vermelho fogo para retratar minha verdadeira natureza, agora estavam em um simples e comum tom de castanho escuro. Meu cabelo parecia uma medíocre correnteza de fios negros sem meus adoráveis chifres para ornamentá-los. Minha pele parecia pálida demais. Macia demais. Eu parecia até menor, em meus 1,60 de altura.

Eu estava longe de ser frágil, mas minha aparência dizia ao contrário. Senti-me um dragão preso em pele de porcelana.

Havia perdido tudo que eu gostava em mim porque meu corpo, minha pele, tudo o que me tornava quem eu era, se adaptou ao mundo dos homens.

Notas finais
Obs: Não haverá notas iniciais e finais nos demais capítulos, pois quero que tenham a experiencia de uma leitura de livro real, porém caso tenham perguntas ou comentários, ou queiram conversar comigo, venham através dos próprios comentários ou das mensagens e responderei todos vocês. XOXO Nana