Finaly Freedom
6 Capítulo 6
Notas iniciais
No domingo acordei pouco antes do meio dia, apesar de só ter conseguido dormir quase quatro horas da madrugada. Fiquei muito tempo pensando no que havia acontecido, o álcool foi sendo curado, o organismo absorvendo-o, e aos poucos, tudo parecia cada vez mais irreal. Tanto que cheguei a duvidar se tinha realmente acontecido. Teria eu ficado tão bêbada a ponto de fantasiar uns pegas no professor que até o ultimo dia de aula, eu odiava? Quase cogitei a hipótese de ligar pra Jacob e perguntar alguns detalhes da noite, mas por três motivos (principalmente) não o fiz. Primeiro: Mais de três horas da madrugada, Segundo: Ele devia estar no bem bom com John, e terceiro: caso ele não tivesse notado que pintou um clima entre nós (o que é pouco provável, já que estava muito na cara) eu não queria ter que ficar explicando e dando detalhes sobre o ocorrido. Além do mais, em algum dos estatutos da universidade há um artigo apenas sobre relações afetivas entre professor-aluno, onde era expressamente proibido que viesse a acontecer. Sim, eu pesquisei esse estatuto na internet antes de dormir para me certificar.
“Art. 97. O desrespeito às autoridades universitárias, o desatendimento ou transgressão dos atos que delas emanarem constituem falta disciplinar, e a relação afetiva entre professor-aluno que fuja das demandas acadêmicas são puníveis na forma prescrita no Regimento Geral da Universidade.”
Devido a todos os motivos citados acima, decidi que jamais contaria a ninguém sobre acontecido, nem mesmo Aurora e Cecília, e se Jake ou John me perguntassem se rolou alguma coisa, usaria da famosa “amnesia alcoólica” e negaria até a morte qualquer envolvimento com o Sr. Jones. Eu jamais me permitiria ser expulsa da faculdade que tanto amo fazer por causa de um único beijo, mesmo sendo fora do campus, fora do horário das aulas e em circunstancias que nem nos lembrávamos que éramos professor e aluna. O assunto se dá por encerrado.
— Bom dia, meninas – digo, com uma leve enxaqueca assim que entro na cozinha e as vejo sentadas na sala vendo o noticiário local. – tudo bem com vocês?
— Olá, Elena. Você parece feliz – Cecília ressalta – algum motivo especial?
— Na verdade não, inclusive estou até indisposta. A enxaqueca me pegou.
— Ouvi alguns barulhos nessa madrugada, pensei que você tivesse chego bêbada em casa. Pelo visto não errei.
— Eu não diria bêbada, Aurora. Apenas misturei bebidas demais. E isso me faz mal.
Peguei o leite na geladeira e o aqueci no micro-ondas, depois acrescentei bastante achocolatado, servi algumas torradinhas light com geleia de morango e me sentei com elas na sala pra por a fofoca em dia.
— E quanto à sua saída, como foi? – perguntei curiosa à Cecília – nem vi você chegar. Você chegou antes que eu?
Aurora riu debochada, e Cissa cutucou-a com o cotovelo, só fazendo-a rir mais.
— Cissa chegou agora de manhã, Elena. A safada não quer saber de enrolação. Sem essa de sexo apenas depois do terceiro encontro. – e pôs-se a rir ainda mais. Agora juntamente comigo.
— Ah, parem de se fazer de rogadas, meninas. Qual o problema de transar? Além do mais o cara nem era tudo isso. – Cissa cruzou os braços e começou uma breve lamentação. – Ele é tão gostoso e inteligente, mas não sabe o que fazer. Fiquei lá essa noite só porque estava frio demais pra sair na rua de madrugada.
— E por que não pediu pra ele te trazer em casa, então? – Indagou Aurora.
— Eis outro problema. O cara mal gozou, saiu de cima de mim, virou pro lado e dormiu. Sem condição. Mas hoje de manhã saí antes dele acordar e não deixei recado. Inclusive bloqueei ele em todos os possíveis meios dele me encontrar online. Agora basta rezar pra gente não se cruzar pela cidade.
— Credo, Cecília. Nem tudo é sexo nessa vida. E você disse que o cara é gostoso e inteligente. Você sabe quando a gente encontra um cara desses na rua? Uma vez na vida, ou duas se você tiver sorte – pensei então que provavelmente já encontrei o gostoso e inteligente da minha vida. Mas aí lembrei que tecnicamente ainda tenho que fingir que não suporto ele e que nada aconteceu, então ignorei o pensamento apenas rindo com elas.
— Não quero falar de mim, não. Fale você Elena, como foi o encontro com o boy misterioso? – por sorte eu tinha acabado de por uma torradinha na boca, então teria tempo pra pensar na estorinha que eu contaria.
— Bléér, um saco, vocês nem imaginam. Sorte que Jake e John estavam lá. Nem dei muita bola pro cara. Que aliás, se incomodou com meu estado etílico e foi embora cedo. – falei isso depressa pra não dar chance de perguntas. E tinha que torcer para que os meninos não encontrassem com elas e desmentissem a estória.
Ficamos conversando sobre assuntos fúteis, entre outros mais sérios até a fome apertar. Então optamos por pedir uma pizza, já que nenhuma de nós estava afim de cozinhar.
♥
— Preciso contar algo pra vocês – falou Aurora entre uma mordida e outra da pizza metade calabresa, metade quatro queijos. – vocês não vão acreditar.
— Ihhhh. Que foi, amiga?
— É o Albert. Ele me ligou ontem. Queria falar comigo pessoalmente. – ela parecia aflita.
— Ele tá ligado que você não tá mais em Londres ou não?
— Sim, eu falei pra ele antes de vir.
— Isso quer dizer que ele vai vir pra Dublin só pra falar com você, Aurora? – meu queixo estava no chão.
— Não sei se é exclusivamente pra me ver, mas ele disse que ainda essa semana vai estar aqui, quer sair pra caminhar e depois vai me levar pra jantar. Isso me deixou meio abalada. Meio não, muito.
— Poxa amiga, nem sei o que te dizer – saí da minha banqueta, fui até ela e abracei – espero que fique tudo bem. Você ainda gosta dele?
— Não sei, Estou confusa. Não quero falar sobre isso agora. Vou ir falar com ele totalmente sem expectativa. Não quero me decepcionar. Apenas precisava contar isso pra vocês.
♥
Tenho que confessar, fui pra faculdade um pouco nervosa na segunda-feira. Ao chegar na sala, felizmente o professor Jones ainda não havia chegado, então sentei-me mais ao fundo da sala, atrás de Cecília, que por ser mais alta, podia me esconder.
Ele chegou alguns poucos minutos mais tarde, bem humorado e feliz, aparentemente. Tentei não sorrir, mas a ideia de que ele estava feliz pelo acontecido no sábado não me deixou manter a expressão séria e fria.
— Bom dia a todos! Como foi o fim de semana? – disse ao pendurar a jaqueta na cadeira e depositar a bolsa na mesa.
Quando sentou, saiu do meu campo de visão, então não pude mais apreciar sua face. Mesmo assim, mantive-me no mesmo lugar. Ele só percebeu que eu estava presente após receber de volta a folha de presença.
— Elena Eisenhauer assinou o nome aqui, mas não posso vê-la.
— Estou aqui, Sr. Jones – levantei o braço e me esquivei para o lado, para poder ser vista. Poucos segundos depois, retornei à minha posição e me mantive assim o restante da aula.
Na hora do intervalo, fui uma das primeiras a sair da sala, e minhas amigas notaram, já que nunca tenho pressa. Mas foi só dizer que eu precisava fazer xixi que elas aceitaram de boas.
Depois de sairmos no banheiro e sentarmos num banco no meio do campus, Cissa parecia intrigada com alguma coisa.
— O que foi, amiga, você parece distante? – indaguei pra quebrar o silencio.
— Eu estava pensando aqui, e até que faz sentido. Mas por favor, não façam alarde.
— Oxe, mulher, o que é? – agora foi a vez de Aurora perguntar.
— É o professor Jones. Notei que ele passou a aula toda olhando pro meu lado hoje. Quando eu correspondia o olhar, ele virava a cara. E isso me fez pensar que sempre que estamos juntas, ele está olhando pra mim. Também teve aquele episódio em que eu mandei ele transar. Será que ele é pervertido e tem alguma obsessão por alunas?
Eu soltei um risinho ao lembrar do fim de semana. Mas depois fiquei levemente irritada. Talvez bastante irritada. É isso, então? Ele dá em cima de todas as alunas que passam pela sala dele? Será que não tem sequer a decência de lembrar que somos amigas e poderíamos por acaso comentar sobre ele?
Todo o encanto pela noite incrível com muitas risadas, bebidas e finalmente um beijo foi para o saco. Mesmo assim tive que manter a passividade. Não posso deixar transparecer que isso me irritou, pode ocasionar vários fatos até que elas descubram o que realmente aconteceu.
Cissa e Aurora começaram a debater esse assunto, mas então o intervalo acabou, e voltei o quanto antes pra sala. Mas dessa vez ele também foi rápido, e estávamos só nós quatro na porta da sala, enquanto ele girava a chave para abri-la.
— Parece que as meninas estão com vontade de estudar hoje, não é mesmo? – sorriu lascivamente olhando pra mim, a princípio, mas devido à minha cara de poucos amigos, ele direcionou o olhar pra Aurora e Cecília também.
Me limitei a dar um sorrisinho amarelo e aguardar enquanto a porta era liberada. Assim que ele entrou, o segui e sentei-me no meu lugar, permanecendo praticamente imóvel e muda até o final da tarde.
♥
— Amiga, o que há com você hoje? – perguntou Aurora, que já havia percebido meu mau-humor.
— Apenas estou com cólica – mentira – acho que vou sair pra correr um pouco assim que chegarmos. Tudo bem pra vocês?
— Por mim sim.
— Ok, podemos assistir um filme só nós duas então, Cissa?
— Claro, vai ser ótimo.
Voltei silenciosa até em casa, cheguei e coloquei uma roupa adequada para correr e saí. Não sei nem porque fiquei tão irritada. Não tenho absolutamente nenhum compromisso com ele, e nem se eu quisesse, poderia. E além do mais, foi só um beijo, não tem nada a ver, inclusive, agora me parece natural ele querer ficar com suas aluninhas pra se divertir. Só não acho justo que ele faça isso com Cecília. Vai que ela se envolve e quebra a cara? Estou irritada não por mim, mas por ela.
Ok, quem eu quero enganar? Na verdade estou irritada por mim mesmo. Eca.
Pelo menos correr me deixou mais leve, e ao final da corrida parei em uma lanchonete qualquer pra comer um hambúrguer. Muita lógica né. Corrida de 2km e depois um lanchinho cheio de queijo, carne processada, batata frita e Coca-Cola.
Enquanto eu comia, comecei a sentir aquela famosa sensação de estar sendo observada. Me senti sufocada, e desconfiada. Olhei pra todos os lugares, mas todas as pessoas pareciam amigáveis, inofensivas e totalmente desconhecidas. Paguei a conta e voltei caminhando pra casa, há umas duas quadras dali. E no caminho todo continuei com a sensação de perseguição. Finalmente entrei no prédio e subi rápido, pela escada mesmo. Tomei um banho e fui pro quarto de Cissa, pra terminar de ver o filme com elas.
♥
No dia seguinte, ao me juntar com as meninas na mesa para o café da manhã, Aurora me entregou um envelope.
— Correio pra você, Elena. – disse ela naturalmente.
Estranhei a carta, não esperava isso de ninguém. Em tempos de e-mails e mídias sociais, quem ainda manda carta. E não pude saber mesmo, o remetente era anônimo. O que só aumentou a minha curiosidade. Ao abrir, mais uma estranheza.
“Talvez tenham algumas coisas sobre a sua família que você não saiba, Elena. Mas estou disposto a te ajudar com isso.”
MAS QUE CARALHA É ESSA???? Alguém deve estar de brincadeira com a minha cara.
— Muito bem, qual de vocês que deixou isso pra mim? – falei tentando ser o mais amistosa possível, mas era perceptível o nervosismo e a insegurança na minha voz.
Elas não entenderam minha pergunta, e juraram que não tinham nada a ver com aquilo, e eu só ficava mais aflita e louca. Que porra é essa? Algo sobre a minha família que eu não saiba? Mil coisas vieram à minha cabeça. Pensei na morte do meu pai, Friedrich, minha mãe, minhas tias asquerosas. A quem essa carta se referia? O pior é que eu não tinha como retornar a carta. Havia apenas de esperar, pois na carta o remetente dizia-se disposto à ajudar.
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