Ainda sobressaltada, Garnet não sabia se conseguia assimilar tudo que aquele jovem, seu suposto irmão, estava dizendo. Seu olhar permanecia fixo em um único ponto enquanto falava, como se estivesse contando a história mais para si mesmo do que para ela. Aproveitava essa distração para analisá-lo: aqueles olhos que transpareciam ora tristeza, ora revolta, adquiriram novamente aquele tom acolhedor quando este virou para si.

-Ah! Perdão, imagino que também deva ser difícil para você ouvir essas coisas...

-Não, não-disse Garnet- Fico grata por saber mais sobre você...além disso, jamais encontrei alguém que pudesse contar o que houve em Madain Sari por ter sobrevivido...

-Hum...-assentiu Lark, desviando seu olhar mais uma vez para algo que só ele parecia captar e mergulhando novamente em seu passado.

\"Eu não conseguia crer no que via naquele momento. Até instantes atrás, o céu estava azul e era um dia lindo, quando tomei o anel do Errow e levei uma bronca da mamãe....não me lembro com clareza do que houve depois, mas pessoas esbarravam umas nas outras, descontroladas, e Eidolons cruzavam os céus numa tentativa inútil de conter o invasor.Havia também criaturas estranhas que pareciam surgir do nada. Muito fogo...e sangue.Me perdi dos nossos pais naquele meio, tentei procurá-los mas mal pude me mexer, minhas pernas já não me obedeciam. Pouco depois, um raio derrubou parte dum rochedo atrás de mim...seria realmente aquele o destino reservado para mim?...\"

-Lark!- gritou uma jovem mulher,de longos cabelos azuis, conseguindo tirar o garoto dali a tempo

-Elma...-suspirou Lark

-Você vai ficar bem...Mog, pode nos guiar até os pais dele?

-Kupo!- exclamou um minúsculo moogle no ombro da moça.

-O que é tudo isso?- perguntou o garoto, amedrontado.

-Vamos sair daqui, Lark! Não se preocupe, estou certa de que nossos pais estão em segurança.

Mog conduziu os dois à pequena doca do vilarejo, onde estavam, além de seus pais e sua irmã, Errow e seu pai, Melron.

-Meu filho!- exclamou Jane, desesperada, ao vê-lo entrar com Elma- Por que ficou lá parado!? Não ouviu quantas vezes eu gritei por você!?

O menino, no entanto, permanecia em silêncio.

-Lark...-disse seu pai, aproximando-se- Não volte a nos apavorar dessa forma, procurei você por toda a parte e sempre que ouvia alguém gritando, pensava que pudesse ser você, meu filho.

-Não sejam tão severos- repreendeu-lhes o ancião- Se para nós já foi algo aterrorizante, para uma criança como ele deve ter sido ainda mais.

-Elma, aonde vai?-perguntou Errow

-Meus pais ainda não chegaram!

-Mas é perigoso...

Porém, logo foram novamente surpreendidos pelo fogo que se alastrava e as criaturas desconhecidas que, agora, já haviam alcançado a doca.

- EARTHEN WALL!

- DIAMOND DUST!

- JUDGEMENT BOLT!

Utilizando os Eidolons para detê-los, todos formaram uma barreira adiante de Jane, da pequena Sarah e de Lark que, apesar de tudo, permanecia ainda imóvel.

-Jane! Depressa, vá para o barco com Lark e Sarah e salvem-se!

-Mas...

Sem saber ao certo o que fazer, a mulher foi levada por Elma até perto de onde havia uma pequena embarcação. As criaturas desconhecidas agora surgiam de toda parte, como se nascidas das próprias chamas ao redor de todos.

-O que está esperando, Lark!? Vá com sua mãe!-gritou seu pai, quando percebeu que o garotinho não se movera um milímetro sequer.

-Lark, vá logo!-insistiu também Errow.

Alguns segundos depois, Lark finalmente rompeu seu silêncio, olhando sua mãe e sua irmã pela última vez e exclamando:

-MAMÃE! SARAH! POR FAVOR, NÃO MORRAM!

Em seguida, investiu contra os monstros que enfrentavam seu pai e os outros.

-O que pensa que está fazendo!?- protestou seu pai, que obviamente reprovava sua decisão.

-Eu vou ficar aqui, pai! Não me peça para fugir...-explicou o garoto, ao mesmo tempo em que o barco preparava-se para deixar o local junto com suas fugitivas.

Incapaz de fazer algo por eles, Jane apenas observava enquanto seu filho e seu marido ficavam mais e mais distantes, rezando não só pela segurança deles como pela dela própria, pois estava com Sarah em seus braços. A pequena, ao vê-la, começou a sorrir inocentemente, sem condições de imaginar o que estava acontecendo.

Notando a longa pausa que Lark fizera na narrativa, Garnet arriscou uma pergunta:

-E o que houve com o seu...o nosso pai?

Lark a olhou com um pouco de reprovação, como se julgasse tal pergunta desnecessária, mas logo compreendeu o que sua irmã queria, de fato, saber:

-Ele sacrificou-se para me salvar...e também a Melron, Errow e Elma.

Garnet assentiu baixando a cabeça. A partir daí, começou a se perguntar que tipo de vida Lark poderia ter tido depois da morte do pai e destruição de Madain Sari. Entretanto, esses pensamentos logo foram interrompidos por outra coisa que lhe veio à mente:

-Isso significa que essas pessoas eram...

-Os pais e o avô de Eiko.- respondeu Lark, imaginando o que ela havia deduzido, e logo voltando a lançar seu olhar para o infinito, relembrando os fatos.

Os Eidolons foram contidos pelos poderes misteriosos das criaturas, o que obrigou Errow e os demais a lutarem contra elas. Esquivando-se dum Abadon que tentava atacá-lo com suas garras, Errow e o pai de Lark aproveitaram para saltar sobre seu corpo e atingirem o Mistodon que se aproximava ao mesmo tempo que Elma disparava-lhe um poderoso Holy. O gigantesco inseto ameaçava demolir a estrutura com um grande Thundaga, mas foi silenciado a tempo por Melron enquanto Errow aproximava-se ligeiramente e e cravava sua espada em suas costas. Descontrolado, o monstro investiu contra todos, mas Lark não conseguiu se esquivar.

-LARK!-gritou seu pai, correndo.

-AAAAAAAAHHHH!

-NÃO!- exclamou Melron

Todos se precipitaram depois que a criatura atacou Lark, e isso se tornara um desespero quando perceberam o sangue que escorria por suas garras mas, ao verem uma espada pressionada junto ao corpo do monstro e Lark ajoelhado e aparentemente ileso mais à frente, só descobriram o que realmente aconteceu depois que este se manifestou:

-PAPAI! PAPAI, NÃO MORRA!

Ao lado do homem que jazia ferido no chão, Lark chorava e gritava, suplicando para que resistisse, enquanto os demais não sabiam ao certo o que fazer perante àquela situação.

-Lark...-murmurou, esforçando-se para tomar-lhe a mão- Precisa ser forte, filho...você terá muitas provações, mas peço que seja forte...

-Papai, não fale mais nada, eu vou levar você daqui!

-Não...Lark, ouça...de agora em diante você não deve olhar para trás...trabalhe muito em prol do bem deste mundo...só você pode...

Ao dizer isso, suas mãos, repentinamente, deslizaram pelas de Lark e caíram. Vendo a triste cena, Melron e os outros fecharam os olhos em respeito ao companheiro.

Porém, alguns minutos depois, quando tentavam consolar o garoto, a criatura despertou mais uma vez e, assim como antes, atacou-os com hostilidade.

-Cuidado, é ele de novo!!!- exclamou Elma

Dessa vez, no entanto, Lark foi envolvido por uma luz cegante e misteriosa, e imediatamente investiu contra a criatura, bradando:

- HOLY JUDGEMENT SWORD!

O Abadon desapareceu num imenso raio de luz que propagou-se pela até o vilarejo, destruindo parte da estrutura da doca e contendo parte do incêndio, indo de encontro à montanha.
Assim que testemunharam, incrédulos, a destruição feita por Lark, os outros notaram que estava desmaiado próximo ao corpo do pai.

-O que foi isso?...- perguntou-se Errow

-Jamais vi nada igual...

Foi Elma quem notou quando o céu havia voltado ao normal, minutos depois de Lark ter desmaiado.

-Será que já acabou?- perguntou Melron

-Vou averiguar como está a vila- disse Elma, se afastando

-Eu vou junto- disse Errow, seguindo-a

-Tenham cuidado!-advertiu Melron

Pouco depois, os dois voltaram apressadamente com uma notícia:

-Desapareceu...-informou Elma- Aquele olho gigante desapareceu e os outros monstros também.

-Olha só, começou a chover- observou Errow- Isso deve ajudar a conter o incêndio.

-Bem...-disse o ancião, após refletir um pouco- Então temos que verificar se não há sobreviventes...e também um lugar para nos abrigarmos.

-...será que meus pais conseguiram escapar?-perguntou Elma, preocupada

-...eu não sei, querida...

-Eu levo o Lark...-disse Errow, após uma tentativa fracassada de consolá-la

- E o ataque parou de repente?- perguntou Garnet

- Bom, não tenho muita certeza do que se passou depois que desmaiei, mas foi assim que me contaram- explicou Lark

- Acho que o único lugar que não foi tão afetado era a casa de Eiko...-lembrou-se a rainha

-Sim, foi para lá que fui levado mas, logo que despertei, minha única preocupação era encontrar a mamãe e você.

-...você deixou Madain Sari para nos seguir?- perguntou

-Isso só aconteceu uns dez ou onze anos depois...quando deixei a vila, Eiko, que tinha cerca de dois anos, estava sob os cuidados de Melron, além daquela colônia de moogles que foram morar por lá.

-E os pais dela?

- Depois de um tempo, eles partiram numa jornada para procurar você e a mamãe. Quis ir junto, mas não deixaram. Nunca mais soubemos deles; só fui reencontrá-los anos depois, na mesma ocasião em que morreram. A pobre Elma ficou muito abalada com a morte dos pais...

-Entendo...

- Eu estava com uns 15 anos quando fui embora...-disse Lark, novamente perdido em seus próprios pensamentos, a lembrar os fatos.

-Você está indo, então?- perguntou Melron, vendo Lark juntar algumas coisas em sua bagagem, entre elas, um belo quadro que havia sido pintado pouco depois do nascimento de sua irmã.

-Sim, respondeu, sem interromper o que fazia- Não posso mais ficar aqui parado. Eu sei que a minha mãe e a minha irmã estão vivas em algum lugar e vou encontrá-las, e também vou procurar o Errow e a Elma.

-Lark...-disse o velho, aproximando-se- Não posso impedir que vá. Você está certo, deve seguir o seu coração. Se alguém pode reencontrar Sarah e os outros, esse alguém é você.

-Prometo que não morrerei enquanto não achá-los-disse Lark, abraçando-o e preparando-se para partir.

-Sentirei sua falta...cuide bem de Eiko...-pediu o jovem

-Não se preocupe, filho, e leve isto com você, era do seu pai- disse Melron, lhe entregando uma espada.

-Sei que não devo pedir ajuda aos Eidolons quando sair daqui. Com certeza, ela me ajudará muito.

-Há mais uma coisa que preciso lhe entregar- informou o velho, mostrando uma bela joia avermelhada dentro duma pequena caixa.

-Mas isso é...- exclamou Lark, surpreso com o que via.

-É uma das joias sagradas. Quero que a leve consigo.

-Mas...

-Por favor-insistiu.- Deixarei a minha como herança para Eiko. Quanto às outras duas, uma está com sua mãe e, a outra, em algum lugar do Mist Continent. Aceite esta, você a merece.

-É uma honra...está bem, eu a protegerei custe o que custar-disse Lark, aceitando o presente- É até bom porque, dessa forma, o maldito do Garland só poderá ter todas se primeiro me matar.

-Cuide-se Lark...-despediu-se Melron

E assim, dando adeus a Melron e à jovem Eiko, Lark partiu numa jornada para reaver parte daquilo que o destino lhe tomara há cerca de dez anos atrás. Ainda sem saber ao certo para onde estava indo, andava pelo caminho ao pé da montanha, que o conduziria ao outro lado do continente, que ele pouco conhecia devido às normas dos Summoners de jamais estabelecerem contato com outros povos. Também ignorava totalmente que parte daquele caminho entre colinas rochosas fora provocada por seu poder, há muito tempo.

-Quanto tempo faz desde que você deixou o vilarejo?- perguntou Garnet, cada vez mais interessada em desvendar o passado do irmão.

-Uns sete anos...-respondeu Lark, da mesma forma aérea, sem sequer olhar para ela

-E por onde você andou nesse tempo todo?

-Viajei pelo mundo , na esperança de te reencontrar algum dia. Fiz isso junto de outra pessoa.

-Quem?- perguntou, curiosa

-Fratley-disse Lark- Fratley da Cauda de Ferro...

-O amigo de Freya?-surpreendeu-se Garnet- Mas como se conheceram?

-Deixemos isso para depois, Sarah- disse Lark, levantando-se e, finalmente, olhando-a de frente- Foram muitas revelações para um único dia...além disso, temos outros assuntos mais importantes a tratar. Você também deve me revelar algumas coisas...

Pela primeira vez desde que estivera naquela saleta escura, Garnet se lembrou de que foi Lark o responsável por todo o caos provocado por Alexander.

-Você está se referindo a...

-Sarah-interrompeu-a, e já não tinha mais aquele tom brando na voz com o qual se dirigira a ela desde então- Eu preciso saber onde esconderam a pedra de Ark.

-E para que você a quer, afinal?- perguntou Garnet

-Como para que?- perguntou o Summoner, aparentemente indignado com a pergunta- Por acaso já se esqueceu de tudo que houve nos últimos anos? Esqueceu que esse mundo quase caminhou para sua destruição? Esqueceu quantas vezes sua vida esteve em risco por causa de sua raça?

-Se está falando de Terra, aquele planeta não existe mais...

-O planeta não existe mais, mas ainda há vermes rastejando por aí. Aqueles Genomes malditos estão se escondendo em algum lugar...além disso, Sarah, não pense que Terra era a única ameaça, existem outros mundos por aí e não se sabe ao certo o que há neles.

-Você não se preocupou com a vida de todos em Alexandria nem com os amigos de Vivi.- disse Garnet, ignorando suas palavras- Não acredito que seja a melhor pessoa para controlar o poder dos dois Eidolons.

-E VOCÊ ESPERA GANHAR UMA GUERRA SEM QUE NINGUÉM SAIA FERIDO!?-protestou, nervoso.- Quanto àqueles bonecos sem vida, eles foram criados para servirem aos propósitos de Terra no final das contas, assim como aquela maldita árvore!

-Eles não tinham culpa de nada! Eram seres vivos como qualquer outro e inocentes, assim como os Genomes.

-Infelizmente eu já esperava essa sua reação-disse Lark- Pois bem Sarah, encontrarei o Pumice com ou sem a sua cooperação.

-O que você vai fazer?- perguntou Garnet, vendo-o deixar a sala após pegar uma pequena caixa sobre a mesa que até então não havia notado.

Saindo de seu esconderijo, Lark caminhou um pouco por entre um estreito desfiladeiro e, por fim, parou e abriu a caixa:

-Tragam-me o Pumice a todo custo! Eliminem todos que ficarem no seu caminho.

Lentamente, seis pequenos objetos brilhantes ergueram-se da caixa e uma luz saiu de cada um deles, espalhando-se em direções opostas.

Ao retornar, Garnet o esperava com uma pergunta:

-O que você fez?

- As mulheres são tão diretas...-debochou Lark- Apenas tomei uma pequena providência para recuperar aquela pedra.

-Ninguém vai entregá-la a você-replicou Garnet

-Eu já sei- assentiu Lark- Por isso dei ordens aos meus Eidolons para matá-los caso não aceitem pacificamente.

-Você não pode usar os Eidolons dessa maneira, Lark!- protestou, conturbada com a notícia

-Sarah, você está muito longe de compreender a verdade...aquele Genome se encarregou de cobrir seus olhos com um véu.

-É você que não entende...

-Por isso me vi obrigado a retirar o dom que lhe foi dado. Mas não se preocupe, assim que você passar a entender melhor as coisas, devolverei a você.

-Do que está falando?

-Eu extraí os seus Eidolons enquanto você estava desacordada- revelou- Sei que isso não lhe traz boas recordações, mas acredite, foi necessário.

-O que!?- perguntou Garnet, não acreditando no que ouvira- Você pode extrair Eidolons? Mas como isso é possível?

-O que o poder da negociação não faz...Foram aqueles gêmeos malucos que me deram essa habilidade em troca por eu ter salvo suas vidas depois daquela batalha no vulcão.

-Zorn e Thorn!?- espantou-se novamente- Então foi você quem os ajudou...você estava lá...

-Cedo ou tarde, Eiko se tornaria o novo alvo de Kuja...- disse Lark, seguindo novamente para a porta- Mais tarde eu volto para saber se precisa de algo. Até lá, pense muito bem, Sarah. Só nós dois podemos fazer tudo voltar a ser como deveria.

-Espere...- disse a jovem, tentando impedi-lo mas ele já havia saído e deixara a porta trancada- Lark! Me deixe sair daqui!

-Sarah...-murmurou Lark, seguindo pelo corredor da estranha estrutura onde se encontravam, e mais uma vez perdido em seus pensamentos- Não fique contra mim...aeu sei o que estou fazendo. Algum dia, nós vamos recuperar tudo que perdemos...tudo...

***IX***

No próximo capítulo: Todos se culpam pelo que aconteceu. O que fazer agora? Qual a melhor decisão a tomar? Enquanto isso, Raphael recebe uma nova proposta.