Fim dos tempos 2
36 Capítulo 36 - Começo e Fim
Notas iniciais
Pov – Nick
Mary tem dificuldade de andar o que significa que está mais perto do que parece, claro que a tensão adiantou as coisas, eu a ajudo a chegar em casa, vou tentando acalma-la no caminho.
─Vamos ficar tranquilos está bem Mary, tudo vai ficar bem, eu vou ajudar você.
─Ai Nick! – Ela geme já na porta, a mão que se apoiava no meu ombro parece querer me esmagar, me contorço um pouco, faço careta e Amy apoia Mary para juntos subirmos os pequenos degraus, então entramos, Matt e Judy nos olham assustados, as coisas estão desesperadoras, aquela bruxa assassina de porquinhos está lá fora, parece decidida a acabar com tudo, sei que não vai fazer nada enquanto meus pais e Rick não estiverem aqui e rezo para demorarem mais na rua.
Mary solta um grito alto, se dobra de dor, deve ter assustado todo mundo lá fora, eu olho para Amy que chorava, segurando Mary ao meu lado.
─Deita Mary, como se sentir mais confortável – Eu a ajudo quando chegamos perto do sofá no meio da sala sobre o tapete – Não dá para chegarmos lá em cima.
─Meu Deus Nick, o que vamos fazer? – Ela chorava, soluçava e gemia, estava completamente assustada e isso só prejudicava o nascimento do bebê.
─Matt e Judy, você dois vão subir e ficar no quarto, não desçam até eu chamar! – Ele se olham – Vão! – Exijo e eles obedecem, sobem correndo.
─Nick! – Mary geme assustada, os olhos arregalados, eu olho para ela, li sobre isso, muitas vezes, li sobre tudo, também conversei com Bob, com Lauren, posso fazer, na teoria eu sei que posso, na prática não tenho certeza, mas Mary não precisa saber disso, ela não tem mais ninguém, estão todos lá fora, só pode contar comigo, é meu priminho quem está ali, o filho do Jimmy, aquele cara faria qualquer coisa por mim e meus irmãos, não vou deixa-lo na mão, ele deve estar nesse minuto pensando em como sou inteligente, ele sempre diz isso, vai pensar que vou dar meu máximo e é isso que vou fazer.
─Amy, me ajuda, vai lá em cima, pega toalhas e lençóis, e a tesoura na cozinha, pega vela também, acha um barbante.
─Vela para que Nick? – Mary pergunta apertando a mão de Amy sem deixa-la sair do seu lado.
─Para esterilizar a tesoura, agora solta ela Mary.
Mary solta, mas então uma nova contração a atinge com força total e ela aperta a mão de Amy gemendo, respiro fundo me acalmando, olho de uma para outra, Amy chorava, aquelas duas sempre souberam que mulheres chorando definitivamente me tiravam do sério.
─Vai Amy! – Insisto, ela obedece assustada, então vou para o lado de Mary, ela segura minha mão.
─Tem ideia do que... Ai – A dor volta.
─Me escuta Mary, eu li sobre parto natural, estava ficando comum antes do mundo acabar, sem anestesia, ajuda, apenas deixar a mãe e o bebê fazerem tudo sozinhos, só que precisa ficar calma, se não a dor vai ficar muito forte, sabe aquela respiração que mulher faz?
─Sei! – Ela diz se dobrando.
─Vai fazer ela, e não é para prender a respiração quando a dor vier e eu preciso que fique confortável, na posição que quiser e que me deixe olhar se o bebê está vindo, tem que tirar a parte de baixo da roupa está bem?
─Nick você é só um menino!
─É só que tem agora, eu e os livros que li, as conversas que tive, então aceite e vamos trabalhar juntos.
─Não tem nove meses ainda! – Mary me lembra.
─Melhor, assim ele passa mais fácil! – Ela tenta sorrir, fecha os olhos em meio a dor – Está com um bom tamanho Mary, eu li, oito meses não é uma grande diferença, ele está pronto, só precisava ganhar peso, pode fazer isso do lado de fora.
Beijo a mão de Mary, ela é minha família, cuidou muitas vezes de mim, ela sorri assustada, está bem pálida, eu devo estar também.
─Aqui ratinho! – Amy volta correndo, me estende tudo que pedi, aquela conversa lá fora não acaba nunca?
─Agora me ajuda a tirar as roupas da Mary.
Fazemos isso com a ajuda de Mary e da tesoura, depois ela tenta deitar a dor fica mais forte e Mary volta a se encostar no sofá, eu a cubro com um lençol, para se sentir mais confortável.
─Mary fica como achar melhor, agora eu preciso fazer uma coisa, tenho que... Que olhar a dilatação!
─O que? – Ela diz apertando a mão de Amy, o rosto coberto de lágrimas e tremendo – Você?
─Confia nele mãe, o ratinho é muito esperto! – Amy me apoia.
─Eu vou...
Paro de falar, e me coloco em posição, a dilatação estava como achei que estaria, a cabeça do bebê começava a aparecer e aquilo me deixa tenso e ansioso.
─Amy está perto! – Meu coração dispara.
─Ai meu Deus! – Ela diz apertando a mão da mãe.
─Estou enjoada, e com muito frio! – Mary diz com a respiração entrecortada, o rosto molhado e corado pelo esforço.
─É tudo normal, estava escrito, enjoo e calafrios, é por causa da tensão, relaxa, quando sentir vontade de fazer força, faça e vou pegar o bebê quando sair, é só isso, depois seu corpo expulsa a placenta, e fica tudo bem.
Ela geme, a dor vem forte, estou com sangue nas mãos e nervoso como nunca fiquei, preferia me lambuzar de zumbi e passar no meio de uma horda de novo, então ela volta a sentir dor e pego uma toalha, preciso evitar que o bebê se machuque ou se contamine com alguma sujeira, me coloco em posição porque ele começa a sair.
─Eu que vou escolher o nome! – digo para acalma-la – Afinal sou seu médico agora!
Ela ri e então grita de dor, faz muita força e a criança começa a sair em minhas mãos, primeiro a cabeça, rezo para o cordão não estar enrolado no pescoço, depois, ele vem saindo, o obro direito, depois o esquerdo, eu ajudo um pouco sei que não devo puxa-lo, que isso é com a mãe e o bebê, então o resto vem de uma vez com um grito de Mary e o choro dele e de Amy, é um menino como Matt queria que fosse, tem todos os membros, parece perfeito e chora nos meus braços, as duas choram também e então Matt e Judy estavam lá.
─Meu bebê! – Mary diz soluçando e agora rindo.
─É menino Mary! – Matt diz parado ao meu lado.
─Me ajuda Amy, o barbante que pedi.
─Achei só essa linha grossa! – Ela diz me trazendo a corda fina, vai ter que servir.
─Consegue segurar o bebê? – Eu peço ela pega o irmão e eu então faço como li, amarro o fio no cordão a cinco e depois dez centímetros, depois pego a tesoura, passo bastante pelo fogo, fico pensando se isso dói, ninguém nunca fala sobre isso, mas não tem outra coisa a fazer se não cortar e depois de respirar fundo e tomar coragem eu corto, tudo parece normal e pego o bebê de volta, entregava a Mary quando todos entram correndo, Beth, Megan e Jimmy, não sei o que aconteceu lá fora, mas aqui dentro acabamos de presenciar um milagre, Jimmy se ajoelha do lado de Mary, beija sua testa e toca o bebê.
─Um menino Jimmy, um menino que seu irmão trouxe ao mundo – Ela me olha sorrindo – Obrigada Nick, amo você.
Queria que o mundo não tivesse acabado, queria fazer aquilo para sempre, cuidar dos doentes, trazer crianças ao mundo, queria cuidar da vida e não me cercar da morte.
─Você que fez tudo, foi muito corajosa, e a Amy também! – Eu e Amy nos olhamos, ela vem até mim, me beija, Amy me beija na frente de todos, não no rosto como sempre fazemos, mas um beijo leve nos lábios, só um toque suave e isso já me deixa com a maior cara de idiota do mundo.
─Ei mocinha! – Jimmy brinca – Deixa o garoto me pedir primeiro, espero por isso há anos! – Ela dá de ombros.
─Foi só um agradecimento, não vai acontecer de novo! – Os olhos dela brilham.
─Não? – Pergunto decepcionado.
Beth pega o bebê dos braços da mãe.
─Precisa limpar o bebê Beth, as vias respiratórias, os olhos, mas com material esterilizado.
─Sim doutor, farei isso! – Ela diz se afastando.
Megan beija Mary e depois se ergue, pega sua arma e sai da casa, eu a sigo.
─Megan!
─Vou para o portão, aquela vaca levou a Liv e a Lauren, Carl foi atrás com a Maggie e o Glenn, cuida das coisas aqui Nick, eu cuido das coisas lá.
Quando foi que crescemos? Me pergunto com um aperto no peito, com saudade de ser só o ratinho do meu pai, de correr atrás de um coelho e esperar que voltem para casa com suprimentos, balanço a cabeça concordando, um nó na garganta me impedindo de falar.
Pov – Liv
Estávamos distraídas colhendo as mudas que Lauren queria, eu a ajudava com os pensamentos distantes, rezando para Tommy estar bem, ele e Lauren tinha se tornado em pouco tempo minha família, ou o mais perto disse que podia se ter num mundo como esse.
Tommy era gentil, não era fácil para ele ser assim com a gente, mas ele tentava, quando decidiu fazer aquela pequena viagem me fez mil recomendações e me senti querida, tive que segurar as lagrimas quando ele me mandou juntar umas coisas minhas e ir ficar com a Lauren por que não me queria sozinha e desprotegida, quis abraça-lo como faria uma filha, mas não fiz e fico pensando que se ele morresse eu passaria o resto da vida me recriminando por isso.
─Olha só se não é a minha garotinha! – Sinto a arma gelada encostar em meu pescoço junto com a voz fria e conhecida de Tom, minhas pernas ficam bambas, ele aperta meu braço, vejo os olhos apavorados de Lauren, ela não consegue reagir, logo outro homem a rendia.
Tom me faz virar para encara-lo e lá está Katrina, ela me dá tanto medo quanto Tom, olho para Lauren, o homem a amarrava com as mãos nas costas, pega suas armas e as minhas, depois nos coloca diante de uma mulher.
Sempre soube que seria uma mulher, mas não esperava por um rosto como aquele, comum, quase simpático, mas com um olhar duro agora, frio como gelo, um certo desdém no modo que me encara, como se eu não tivesse importância, ela nos olha de cima a baixo, nos investiga.
─Como eu queria, ninguém muito importante para o grupo ao ponto de os enlouquecer, mas ao mesmo tempo alguém que mereça a compaixão de todos, ninguém conhece aquelas pessoas mais do que eu, elas servem.
Ela olha para sua direita em direção ao portão, um zumbi se aproxima de mim, está preso por uma coisa em seu pescoço, me encolho, fecho os olhos e todos riem.
─Calma Liv, não vou deixar que te morda! – Tom diz a um centímetro do meu ouvido, lambe meu pescoço, a mulher faz cara de nojo para ele.
─Temos um acordo Tom! – Ela diz a ele – Perdoei seu deslize, mas chega! – Ela o encara e ele se afasta um pouco de mim, engulo em seco.
─Achou mesmo que podiam me fazer de boba e ficar por isso mesmo sua tola? – Katrina diz séria – Eu sabia que cedo ou tarde acharia vocês, aquele idiota te trouxe com ele, mas não vai te manter viva, pode apostar nisso, quero pegar Tommy e Gina e eles vão aprender a não brincar comigo.
─Gina morreu! – Lauren avisa e eles riem, se olham e depois começam a nos levar para o portão, quando nos aproximamos vejo o quanto a imagem daquela mulher perturba Glenn e Maggie, eles paralisam um segundo, não sei se a conhecem, mas parece que sim.
─Carol! – Maggie diz e então ela percebe que estamos de refém, os dois trocam um olhar alarmado.
─Eu mesma, aposto que estavam contando com minha morte não é, acho que há anos não pensam em mim!
─Carol nós...
─Nem tente Glenn, apenas abram a porcaria do portão antes que as duas terminem o dia devoradas! – Ela mostra os zumbis, eles olham para mim e Lauren, meu olhar implora por ajuda, sou fraca, sempre vou ser, queria dizer para não abrirem, queria dar minha vida pelo grupo, mas estou com medo, tanto que me calo, eles obedecem, Carol passa com a gente, Glenn sai gritando e então todos estão aparecendo.
Eles discutem, Carol no fundo fica decepcionada por não encontrar quem ela queria, Katrina também, e depois de tudo somos arrastadas junto com ela, meu coração dói, não queria que fosse assim, penso em como Carl e Megan foram corajosos e decido que se tivesse uma chance de viver nunca mais me esconderia assustada, passamos pelos portões.
─Tom, pegue Taylor e leve-as para mais longe, mate as duas e deixe os corpos a vista, depois siga para Horizonte.
─Achei que elas iriam conosco! – Tom rebate e ganha um olhar furioso.
─Está me questionando Tom? Não se divertiu o bastante com a garota? – Carol o encara e Katrina se posiciona a seu lado, dá para ver o quanto é fiel, sempre achei que seria.
─Não Carol claro que não!
─Ótimo, então faça o que Carol mandou logo! ─ Katrina diz impaciente – Sou sua rainha não? – Ela ri com gosto, olho para Lauren, então era isso, Deus que coisa assustadora, tremo, felizmente os zumbis tinham sido abatidos e se iria morrer seria com um tiro, uma facada, não devorada, as lágrimas escorriam.
─Entenda Tom, aqueles idiotas fazem todo tipo de tolices para parecerem heróis, vão se unir e tentar resgatar essas duas, não os quero fazendo tolices, quero que fiquem aqui, decididos a lutar contra mim, preciso que vejam que não estou brincando, então mate as duas e venha para Horizonte, vou na frente com Katrina.
Elas dão as costas e somem em direção a estrada.
─Agora é com a gente garotinha, ninguém disse que não posso brincar um pouco, acho que mereço uma despedida.
Ele passa a língua por meu pescoço, eu tento me libertar de seus braços.
─Larga ela seu porco! – Lauren grita, estamos longe da prisão, ninguém vai me ouvir, me ver, vamos morrer e antes ele vai fazer o que sempre fez, e vou rezar para me matar de uma vez, e dessa vez é isso mesmo que vai acontecer – Não toca nela! – Lauren se debate, mas está amarrada, o outro homem, Taylor, a segura firme, Tom me segura com um braço só, com o outro pega a faca que trazia no cinto, enfia num único movimento inesperado na barriga de Lauren, seus olhos se arregalam, sinto sua dor, vejo perplexa ele girar a faca dentro dela, os olhos fixos em seu rosto, meio fora de orbita, completamente maluco, eu o empurro quando ele retirava a faca de Lauren, com o movimento a faca voa para longe.
─Idiota! – Ele me dá um tapa no rosto, cambaleio e ele mesmo me apoia, Lauren cai se contorcendo.
─Muito barulho Tom! – O companheiro reclama.
─Vá dar uma olhada por ai, só quero uns minutinhos para me despedir.
O cara não parece concordar com aquilo, mas se recusa a enfrenta-lo, se afasta com a arma na mão, olhando por entre as arvores e plantas a nossa volta, ainda estamos nos terrenos da vila, longe dos portões, mas ainda é um lugar que podem me encontrar, me debato, luto em desespero quando com uma rasteira caio ao chão.
─Seja boazinha! É pelos velhos tempos, se lembra não é você ficava caladinha, vai dizer que não gostava? – Ele começa a rasgar minhas roupas, olho para Lauren ela me encarava silenciosa, paro de me debater quando assisto seus olhos perderem o brilho, a respiração some e fico ali, imóvel, olhando para a morte de Lauren, desejando me encontrar logo com ela enquanto Tom faz o que está acostumado a fazer, depois vai ser minha vez de fazer aquele caminho sem volta.
─Vamos Tom, vem vindo gente! – Taylor vem correndo, puxa Tom de cima de mim pela camisa – Vai logo!
Tom se ergue, me olha uma última vez, ergue a pistola.
─Está maluco? – Taylor o impede – vai atrair todos, vem! – Ele o arrasta e Tom obedece, fico ali, viva quando queria estar morta, olho para Lauren, tento arrumar um pouco minhas roupas, não consigo me cobrir muito, está tudo rasgado, não me importo, ninguém se importa, algo brilha próximo, a faca que Tom deixou cair, sigo até ela, Lauren ainda está amarrada, os olhos abertos, a boca tem um ferimento leve e a palidez vai ganhando o tom cinza que a morte gosta de colorir, vi tantos assim, metade da minha família, Gina, Lauren, qualquer um que goste de mim acaba assim, mas eu não, eu sempre continuo, é como um castigo.
Algo quente escorre por meu rosto, lágrimas, de que adiantam, eu tento seca-las, elas continuam correndo, então sinto um leve movimento de Lauren, um gemido vindo do fundo da garganta, penso no que fizemos para merecer isso, a boca, abre e fecha, os olhos ganham o tom da fome, é a primeira vez que assisto a transformação, é lenta, será que resta alguma memória, alguma dor, é só fome? Talvez um dia eu descubra, mas não hoje, fico de joelhos e acerto sua têmpora.
─Obrigada por tudo Lauren, sinto muito! – Solto a faca ao lado do corpo de mais alguém que aprendi a amar e me deixou.
─Liv! – Ele grita meu nome, mas agora é tarde, Lauren se foi, assim como Gina, de novo perdemos.
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