Fim dos tempos 2
16 Capitulo 16 - Uma nova alpinista
Notas iniciais
Pov – Megan
Depois da cerimônia de Mika fico sem saber que rumo tomar, não quero me enfiar na oficina, mas acho que o trabalho pode me ajudar a esquecer um pouco. Saber que Maggie não me culpa já é o bastante, ao menos no momento, eu me culpo, me culpo de um modo que parece rasgar meu coração.
Meus pais sempre me protegeram demais, mesmo no meio de tanta morte e sangue era sempre como se não me dissesse respeito, não era sobre mim, mas agora, não sei se porque cresci ou apenas porque as coisas tomaram uma nova proporção estou mais envolvida e culpada que qualquer coisa, agora tudo que acontece a minha volta diz respeito a mim e isso é difícil de lidar.
A oficina está vazia, Mary ficou tão abalada com os últimos acontecimentos que Jimmy não sai mais do seu lado, me sento no chão, encosto a cabeça na parede e fecho meus olhos buscando alguma tranquilidade, ouço passos e reconheço o som das botas de Carl, sinto ele se sentar ao meu lado e pegar minha mão.
─Sei o que vai dizer! Aviso antes que ele abra a boca, meus olhos ainda estão fechados.
─Mas não é mesmo culpada, isso não é para te acalmar, não é a primeira vez que mata Megan.
─Quando a prisão caiu foi diferente! Eu o lembro — Era uma criança, mal sabia o que estava fazendo e aqueles homens e mulheres queriam nos matar.
─Lizzie queria matar nossos irmãos! Ele rebate.
─Eu sei, conscientemente eu compreendo, mas não se trata disso.
─Linda precisa superar isso, vamos apenas ficar juntos e deixar que as coisas se acomodem. Sempre se acomodam não é?
─Esse lugar é quase sempre tão perfeito que as vezes eu simplesmente me esqueço de onde estamos, fico sentada na minha cama, naquele quarto feminino cercada de maquiagens e perfumes velhos, ouvindo a brisa balançar as cortinas e parece que é um mundo diferente, parece que você vai estacionar seu carro na porta, que vai caminhar despreocupado até minha porta, que meu pai vai abrir e você vai dizer “Boa noite senhor Dixon, vim buscar sua filha para o baile” – Carl me olha sorrindo – É isso, e então eu vou descer as escadas num lindo vestido, meu pai vai me sorrir preocupado e então seguro sua mão “Traga ela em segurança Carl!” Meu pai diria antes de sairmos pela noite ao encontro de um grupo de amigos e quem sabe terminaríamos a noite nos beijando em algum mirante, admirando as estrelas.
─Como nos filmes que víamos antes... – Carl se cala, me encosto nele.
─Sim, e então vem o pesadelo, eu atiro em uma garota, pelas costas, no meio do dia, depois o mais perto que tive de uma amiga se enforca em uma arvore, mas isso nem mesmo é o fim, ela retorna como zumbi, quer assombrar minhas noites, mas espere, não é um pesadelo, essa é nossa realidade, é isso que vivemos.
─Sim linda, é essa nossa realidade e se não podemos fugir dela podemos torna-la ao menos mais aceitável, é apenas isso que podemos fazer, se vivemos na sombra, podemos pelo menos passar por isso juntos, não é fácil para mim também.
─Eu sei que não, de um jeito estranho acabamos mais afetados que os adultos, talvez por que tenha começado cedo para nós, não tem muito para recordar.
─Quase nada! Ele me diz – Lizzie me disse uma vez... Disse que tenho um lado obscuro assim como ela, isso fica martelando na minha cabeça e depois do que ela fez fica ainda mais forte na minha mente suas palavras!
Eu sempre soube como Carl se sente, fiz coisas difíceis, mas ele fez pior, a mãe, a guerra com o governador, a estrada, foi sempre mais difícil para ele.
─Você não é como ela, as coisas que fez, que precisou fazer foram para salvar pessoas, não zumbis, Lizzie era doente, você não.
─Às vezes acho que isso me torna ainda pior do que ela, porque Lizzie não sabia o que estava fazendo, era doente, eu... Eu apenas fiz, quero me arrepender, mas não consigo.
─Nem deve, acho que chega desse assunto, não acha? Eu digo suspirando e passando as mãos pelos cabelos, ele me beija de leve – Estamos muito melancólicos hoje, no fundo acho que é só isso!
─Tem razão! Carl diz tentando sorrir, depois me puxa para seus braços e nos beijamos longamente, gosto quando ficamos assim, gosto do que aqueles beijos provocam no meu corpo, em como tudo isso foi mudando conforme fomos crescendo.
Hoje eu conheço cada uma das sensações que estar com ele me provoca, mas sei que tem muitas coisas novas que não conheço, que vamos descobrir juntos e sei que quero isso, não tenho realmente medo.
─Já anoiteceu.
Constato quando nos afastamos, ele faz uma careta, sabe que temos que nos separar.
─Não queria ter que me afastar de você hoje, queria que pudéssemos apenas dormir juntos, ter você nos meus braços, nada demais!
─Eu sei meu lindo! Eu desvio meu olhar, queria poder dar isso a ele, mas é tão difícil, é um empasse que não sei muito como resolver – Desculpe, deixa essa crise passar, prometo que falo com meu pai depois.
─Depois que essa crise passar virá outra Megan! Carl me ajuda a ficar de pé, eu olho para ele e me sinto culpada, ele não está bravo, apenas triste e isso me deixa ainda pior – Sempre tem uma coisa nova acontecendo.
─Carl...
─Tudo bem! Ele me cala com um beijo – Vamos, posso esperar.
Carl me deixa na porta de casa, depois segue para casa dele, eu fico esperando ele chegar na porta, acenamos um para o outro e eu entro em casa.
Estão todos juntos, sentados na sala, mamãe e papai abraçados, Nick lendo com a cabeça no colo da mamãe e Matt no chão limpando as flechas do papai.
─Como se sente? Mamãe me pergunta, eu caminho até eles, me sento com meu pai, Nick ergue o olhar, o dono do território eu penso, ele volta sua atenção ao livro.
─Bem, foram no Jimmy, como está Mary?
─Melhor, comemos lá, mas eu trouxe comida para você! Minha mãe sorri e aperta meu nariz – Com fome?
─Na verdade não.
─Se não quiser eu como! Nick fecha o livro e se senta – Foi a Mary que fez, não a mamãe! Ele me avisa, ela olha torto para ele.
─Vá comer filha, ao menos um pouco.
Meu pai diz me abraçando, eu me encosto em seu ombro, volto minha atenção para meu silencioso irmão caçula, ele passou por maus bocados, mas parece bem, é tão mais forte que todos nós, tem um espirito forte como minha mãe diz.
─Ei mini ratinho! Eu brinco, ele ergue o olhar – As flechas mais limpas do apocalipse?
─Eu gosto, me acalma! Ele diz nos fazendo rir, é tão Daryl Dixon, como todos dizem.
─Estava nervoso? Eu pergunto e ele solta as flechas e se senta no meu colo.
─A gente mora com o Nick.
─Acho que vocês implicam muito comigo, eu sou o cara mais legal dessa vila, a Amy acha.
─E quando vai tomar coragem e pedir ela em namoro? Pergunto para provocar o cara mais legal da vila.
─Ei ratinha, deixa seu irmão quieto, não dá ideia.
─Papai está certo, ao menos até o bebê nascer, se não o Jimmy morre.
Minha mãe abraça o Nick que faz careta, ele detesta quando falamos que ele quer namorar com a Amy.
─E como vai a escolha do nome do bebê? Papai pergunta, nos olhamos os três, eu, Nick, Matt e Amy vamos escolher o nome, acontece que cada um quer um diferente e brigamos o tempo todo sobre isso.
─Acho que vai ser como o Matt, brigaram meses e só escolheram depois que ele nasceu.
─Me conta como foi papai? Matt pede, meu pai conta essa história sempre, Matt adora ouvir, ficamos ali um pouco rindo e lembrando dos bons tempos da prisão, antes de tudo ruir.
Depois vamos para cama, eu me deito direto no meu quarto, fico olhando para o teto e pensando que na verdade queria estar com o Carl, apenas me deitar em seu peito e ficar ouvindo sua respiração, suspiro pensando que na verdade já passou da hora de resolver isso.
Então me sento na cama, a casa está silenciosa, a vila está silenciosa, eu podia... Será que alguém notaria? Me levanto da cama e sigo até a janela, olho para casa ao lado da minha, posso ver a janela de Carl, está aberta, não seria difícil chegar lá, posso descer por aqui como o Nick fez, e entrar pela janela dele, fazer uma surpresa e depois voltar mais tarde antes que amanheça.
Meu pai me mata se souber, mas nunca faço nenhuma loucura e seria bom ficar com ele, estar em seus braços, mordo o lábio e depois olho para o espelho.
─Que se dane! Digo quando finalmente me decido. Passar para o telhado é bem fácil, descer pela calha também, mamãe sempre nos ensinou a melhor maneira de fazer isso, olho em volta antes de caminhar devagar até a calha da casa de Carl, me sinto meio idiota fazendo isso, mas é emocionante e divertido.
Começo a escalada, evito fazer barulho, estou no meio do caminho, pendurada na parede e então uma flecha passa a meio metro de mim cortando o ar e voando para longe, meu pai, fico paralisada um instante e então desço lentamente, nem olho porque sei o que quanto ele deve estar furioso, na verdade acho que nunca nem mesmo o vi furioso, na verdade já vi isso mil vezes, mas jamais comigo.
Quando meus pés tocam o chão eu fico um instante de costas tomando coragem, respiro fundo e então me viro, lá está ele com sua besta me encarando e não sei se está bravo ou apenas decepcionado.
─Papai, eu.. Bem eu só queria... eu nunca...
─Acha que depois de todos esses anos vivendo no meio de um apocalipse alguém andaria no meu telhado e eu não saberia?
Ele diz com a voz firme, está certo, foi uma tolice, das poucas que cometo.
─Desculpe, foi a primeira vez que fiz isso! Digo sem coragem de olhar para ele.
─Eu sei! Ele me diz e então eu o olho, meus olhos estão marejados.
─Não é como está pensando, na verdade só queria...
─Não estou pensando isso! Ele me diz, procuro por minha mãe, mas ele está sozinho, torço os dedos.
─Eu vou para casa... Para a cama...
Dou as costas a ele, o que fiz não tem muita explicação, e nenhuma defesa, dou meia dúzia de passos e então ele me chama.
─Megan! A voz dele, seu tom e ser chamada de Megan e não ratinha faz meu coração doer, fico com os olhos marejados imediatamente e então me viro.
─Sim!
─Você não precisa pular janelas e escalar telhados, fazemos isso quando estamos atrás de comida e remédios, a casa de Rick tem uma porta, a sua também, pode entrar e sair por elas quando quiser.
─Sinto muito!
─Não sinta, não é preciso, apenas use a porta, quer ficar com seu namorado, vá, mas bata na porta como a filha de Katie que é, sua mãe nunca faria algo assim, ela enfrentaria tudo que fosse preciso para fazer o que quer.
Me espanto, meu pai sempre faz isso, quando acho que vai fazer uma coisa ele faz outra e me deixa confusa, engulo em seco, lá no fundo ainda tenho aquele velho medo de ser deixada de lado, de um dia ser menos importante que meus irmãos e quando ele me diz que posso ir, só quero ficar.
─Não quero! Aviso, ele muda de expressão, acho que a raiva passa e ele sorriria se não tivesse aquela mania de esconder o sorriso que minha mãe sempre diz.
─Quer, e não tem problema querer, não muda nada querer, nem para mim nem para sua mãe.
─Eu...
─Vamos! Me pai acena na direção da casa de Carl, olho para ele espantada, ele caminha para porta e bate, paro a seu lado sem saber muito como agir, fico corada de vergonha, a porta abre muito rápido, Rick nos olha com um ar cínico, meu pai me encara me dizendo sem palavras para fazer algo.
─Posso falar com o Carl? Digo confusa – Subir! Minha voz sai estrangulada.
─Claro! Rick me dá espaço para passar, mas não me movo – Eu estava me decidindo se fingia que não via ou se ia te chamar, mas é bom saber que temos uma nova alpinista! Rick diz a meu pai, acho que estão decididos a me fazer passar a maior vergonha da minha vida, e o idiota do Carl nem para aparecer e me salvar dessa confusão ridícula que me meti.
─Boa noite ratinha! Meu pai me diz agora com a voz carinhosa de sempre, eu o abraço, não consigo evitar e ele me aperta um instante querendo me dizer que tudo bem, passo por eles quase correndo, escuto os dois conversarem um instante baixinho enquanto subia as escadas me sentindo ridícula e então finalmente a porta de Carl, bato de leve.
─Entra! Ele diz e abro apressada, Carl se senta na cama rápido, me olha espantado – O que aconteceu? Pergunta pegando a pistola ao lado da cama.
─Calma! Eu o tranquilizo e ele devolve a arma no lugar – Acabo de passar pela situação mais estúpida da minha vida!
Me sento na beira da cama, agora me sentindo um tanto fora do lugar, fico me recriminando mentalmente, não sou assim, não sou uma garota impulsiva que faz bobagens, porque fui fazer isso?
─O que você fez afinal, o que está acontecendo?
─Vi que queria muito ficar comigo, eu também não queria me despedir hoje então, quando fui dormir pensei em... Pulei a janela e vim te fazer uma surpresa, estava subindo pela sua janela quando meu pai me pegou...
─O que? Ele me olha espantado.
─Ridículo! Eu resmungo – Foi ridículo, ele me trouxe até aqui, me fez bater na porta, na verdade ele bateu e claro seu pai também já tinha percebido minha aventura.
─E onde estão eles agora?
─Espero que dormindo! Reclamo.
─Está me dizendo que seu pai te deixou ficar?
Eu desvio o olhar, me levanto da cama e vou até a janela, não me sinto mais tão à vontade com a ideia, a noite está clara, tem uma linda lua no céu, fecho um instante meus olhos e então sinto os braços de Carl me envolverem, me recosto em seu peito como o coração acelerado.
─Não vai me responder? Ele diz me beijando o pescoço – Está com medo de ficar aqui?
─Não, apenas... Talvez um pouco! Admito por fim.
─Já decidimos sobre isso, vai ser quando estiver tudo certo, quando estivermos na nossa casa!
─E isso não te deixa decepcionado? Pergunto me virando para olhar para ele.
─Nem de longe! Carl me diz acariciando meu rosto, sinto o toque de seus dedos e meu corpo reage imediatamente – Mas podemos apenas ficar juntos, dormir com você assim pertinho de mim, nem sei quantas vezes pensei nisso.
─Foi isso que vim fazer — Aviso a ele – Pretendia chegar e sair antes que alguém acordasse!
Ele me beija, é um beijo diferente dos outros, ou talvez seja apenas o momento que está diferente, passo meus braços por seu ombro, me aproximo mais dele e minhas mãos se perdem nos seus cabelos.
─Amo você, nem acredito que mesmo no meio de tudo isso eu tenho você! Ele me diz enquanto seus lábios desciam por meu pescoço me deixando como de costume com as pernas bambas.
─E eu tenho você! Digo puxando ele para mais um beijos, então nos afastamos, isso está ficando quente demais, os dois sentimos e então ele me puxa pela mão em direção a cama – Acho que estou com um pouco de vergonha.
─Linda, sou eu, namoramos a mais de seis anos, é quase metade da nossa vida.
─Eu sei! Deitamos e ele me envolve, é a melhor sensação do mundo estar ali, acho que simplesmente nasci para ficar em seus braços.
─Gosto de sentir seu perfume.
─Eu nem passei perfume.
Carl me faz olhar para ele, ficamos assim um instante, ele me beija mais uma vez.
─Não estava falando do seu perfume, estou falando do seu cheiro, é o mesmo de sempre, desde quando éramos crianças.
─Eu também conheço seu cheiro sabia? Nos beijamos mais uma vez, me aconchego em seus braços – Mesmo de olhos fechados!
Adoro estar ali, me arrumo e ele acaricia meus cabelos então fecho meus olhos, as batidas do meu coração vão se acertando, o dele também está acelerado, escondo um sorriso, gosto de saber que provoco isso nele, não sei muito essa coisa de sedução.
─Boa noite linda! Ele beija minha testa, me viro para beija-lo nos lábios.
─Boa noite amor! Afasto todos os pensamentos ruins, apenas me deixo ficar ali e é exatamente como queria que fosse, escuto a respiração ritmada de Carl e acabo por adormecer, pela primeira vez na vida nos braços do homem que eu amo.
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