Fim dos tempos 2
15 Capitulo 15 - Despedida
Notas iniciais
Pov – Maggie
“Maggie e Glenn,
Queria ter coragem de dizer essas coisas pessoalmente, mas não tenho, não sou e nem nunca fui corajosa, sempre fui apenas a sombra de Lizzie, nada além disso.
Desde que o mundo começou a dar sinais de que estava com os dias contados me apavorei e me escondi, então vieram as perdas, minha mãe, meu pai, Carol, e então Lizzie, eu sabia que ela era diferente, mas me escondia demais para fazer qualquer coisa, não é culpa de nenhum dos dois, fizeram por nós mais do que podiam, nos deram casa, amor e esperança, acho que nunca agradeci como devia, obrigada, é tudo que posso dizer, não sou boa com as palavras, mas fizeram os dias mais alegres e fáceis ao menos para mim.
Inocente, é como me descrevem, como sempre me descreveram, uma doce menina inocente, não fui talhada para esse mundo.
Quando deixei os pequenos com Lizzie não sabia que ela faria algo tão tenebroso, mas sabia quem ela era e o quanto estava perturbada, fui negligente e o pior aconteceu, fugimos tanto dos mortos, nunca imaginei que minha desgraça estava nas mãos dos vivos, nas minhas próprias mãos, Megan está com as mãos limpas, são as minhas que estão sujas de sangue, o de Andy e o de Lizzie, só posso agradecer por Judy e Matt ainda estarem vivos.
Mas não é a culpa que me leva para onde vou, é o esgotamento, a desesperança, sem Lizzie fico vazia e sem lugar, as coisas estão agora fora do eixo para mim, então fiz uma escolha, não quero magoar nenhum dos dois, são especiais demais para mim, mas eu desisto, apenas não quero mais, sinto muito.
Com amor
Mika.”
Fico olhando um instante para o quarto meticulosamente arrumado, nada fora do lugar, as duas camas feitas, as janelas abertas e um vento leve balançando as costinhas de seda que fizemos juntas numa tarde de garotas.
Olho mais uma vez para o papel em minhas mãos, não quero acreditar no que ele diz, não pode ser verdade, Mika não pode ter feito isso, não depois de tudo, é apenas uma menina assustada e se sentindo culpada, abro as portas dos armários, buscando algo que denunciasse seu paradeiro, algo que negasse o que a carta me fazia acreditar, tudo está lá, como sempre esteve.
Deixo o quarto com os olhos marejados e as mãos tremulas, o dia mal começou, ela não pode ter saído no meio da noite, não pode ter feito...
─Glenn! Eu grito enquanto desço as escadas apressada, talvez ainda dê tempo de fazer algo.
Ele abria a porta da sala e Rick e Daryl surgem diante de mim, os três ficam em silencio, não entendem por que estou correndo na direção deles com um papel na mão e lágrimas nos olhos, sem forças para falar estico a folha com mãos tremulas, Glenn pega o papel confuso, passa os olhos e então me encara abatido.
─O que foi? Rick questiona.
─Ela... – Glenn entrega o papel, Rick e Daryl leem juntos, enquanto torço os dedos nervosa a espera que alguém faça por mim alguma coisa por que dessa vez não me sinto pronta para assumir as responsabilidades.
─Merda! Daryl diz preocupado – Ela fugiu ou... acaba de achar isso? Faço que sim com a cabeça.
─Vamos nos dividir e procurar por ela, dar uma busca pela vila e se não encontrarmos nada vamos lá fora, isso é uma despedida, mas não acho que fugiu, Maggie acho que Mika...
Rick não continua, eu sei o que ele acha, é o mesmo que eu acho, Mika se matou, ou vai tentar fazer isso, não pegou uma mochila e caiu na estrada, ela nunca faria isso.
─Não podemos perder tempo, vamos acionar o resto do grupo! Glenn decide, pegando sua arma, faço o mesmo sem muita esperança.
─Eu vou dar uma volta lá fora, levo Michonne comigo! Daryl diz apressado nos dando as costas.
─Deem uma volta pela vila, vou reunir umas pessoas e fazer perguntas, alguém pode ter visto Lizzie! Rick também nos deixa e continuo paralisada, agora Glenn me olha penalizado, me abraça tentando me dar forças, me recosto em seu ombro e depois de um minuto me sinto mais forte.
─Vamos! Digo sorrindo – Temos que encontrá-la! Finjo uma esperança que não tenho.
Saímos pela rua principal, a vila tem duas ruas, com casas dos dois lados, casas grandes e rodeada por muros e jardins, nenhum sinal de Mika ou qualquer notícia, vejo as pessoas se reunindo em volta de Rick, armadas e tensas, viramos a segunda rua, olhando as casas e as pessoas que agora parecem sentir pena.
Nem sinal de Mika, o que quer que tenha feito foi fora da vila.
─Vamos nos reunir aos outros, melhor sairmos, ela não pode ter ido muito longe! Glenn me diz e então vejo as caixas perto do muro onde a alguns dias Nick passou e encontrou um zumbi preso a cordas, olho para Glenn, uma certeza me invade, Mika saiu por ali, ele me olha.
─Vem! Eu digo decidida.
─Fica aqui, eu vou e se encontrar...
─Não. Eu vou junto! Acho que assim como eu Glenn tem medo do que vamos encontrar do outro lado do muro, mas saltamos os dois.
Ele caminha ao meu lado, são apenas alguns metros até a árvore que encontramos Nick e o zumbi, minhas pernas estão um tanto tremulas, queria gritar por Mika, mas não é um mundo onde gritos são bem vindos.
E lá está a cena que jamais deixaria minha retina não importava quanto tempo se passasse, a primeira coisa que vejo sãos os pés descalços balançando sob a sombra da arvore, ergo meus olhos conduzida pelo som tão especifico dos zumbis, lá está ela, Mika balança na arvore com o pescoço preso as cordas que um dia mantiveram um zumbi preso como um bichinho de estimação, ela estica os braços, balança as cordas em sua sede por nossa carne.
Mika, minha pequena companheira de horas tranquilas e sorrisos fáceis está agora transformada em um zumbi, se enforcou, deu o pior e mais dramático fim que poderia aos dias no apocalipse, se tornou o que Lizzie sempre quis que se tornasse, um zumbi faminto.
Glenn me apoia, acho que minhas pernas fraquejam como não acontecia a muitos anos, talvez desde que vi a espada cortar o ar seguindo em direção ao pescoço do meu pai.
─Não olha Maggie! Glenn tenta me impedir, é tarde, já vi o bastante, empurro sua mão, me desvencilho dele, os olhos grudados naquela cena.
Então Michonne e Daryl surgem caminhando e paralisam, os olhos presos na mesma cena que eu e Glenn, o zumbi continua se debatendo, esticando os braços no alto da árvore, nos quer mais do que tudo.
─Tira ela dali! Eu peço com a voz sumindo – Glenn tira ela...
─Calma, eu vou tirar, não fica aqui, vai para casa eu cuido...
─Não! Grito – Eu faço, eu... apenas tire ela dali! Grito mais uma vez, Michonne puxa a espada, todos damos um passo para trás, ela me olha penalizada, com um único movimento corta a corda e o corpo de Mika desaba sobre o solo levantando poeira partindo meu coração, o zumbi se mexe, tenta se erguer e caminhar em minha direção, cai torta, não para de gemer e de tentar, Glenn ergue a arma, afasto sua mão erguendo minha pistola, sou eu quem deve fazer isso, devo isso a Mika.
Miro sua cabeça com pena de tudo que podíamos ter feito juntas e não vamos fazer, por todos os sorrisos que nunca mais daremos juntas, pelas tardes de garotas e sonhos adolescentes.
─Me desculpe querida! Eu disparo silenciando a vida, nunca acaba, simplesmente nunca acaba.
Dou as costas a todos eles e volto pelo mesmo caminho, agora sim ele pode cuidar de tudo, abrir mais uma cova, não é esse afinal nosso trabalho principal, abrir covas e enterrar os que amamos, e não temos que no fim ser gratos pelos que conseguimos enterrar, já que tantos ficaram apenas pelo caminho sem um momento de despedida digno de uma vida de luta.
Me sento no sofá a espera delas, minhas irmãs e seus abraços carinhosos, não demora muito para que as duas entrem apressadas e chorosas, cada uma de um lado num abraço triplo.
─Deus Maggie que coisa horrível, sinto muito! Beth diz.
─Estamos aqui, não está sozinha, pode desabafar, chorar apenas estamos aqui! Katie me diz apertando firme minha mão.
─Eu sei! Respondo sem pensar muito – Não entendo, simplesmente não entendo o que foi que aconteceu.
─Mika estava...
─Culpada? Eu questiono entregando a carta a elas, Beth lê em voz alta.
─Pobrezinha! Beth comenta ao chegar ao fim – Maggie não é culpa sua, nem do Glenn, ela deixou isso claro.
─É só um desabafo de menina inocente, sim é isso que Mika era como bem disse na carta, inocente demais para este mundo, doce demais para esse lugar tenebroso que lutamos tanto para continuas enfrentando, será que não está certa afinal, será que não está agora mais feliz, em paz?
─Maggie, não podemos pensar assim! Katie me diz assustada com minhas palavras.
─Não tenha medo Katie, não falo sobre mim, nunca faria, mesmo com todas as perdas eu não quero ir a lugar nenhum, não enquanto tiver vocês, eu não poderia, mas ela... Mika, para ela que só tinha Lizzie, que só se permitia ter Lizzie, talvez tenha sido melhor.
Só então consigo me entregar as lágrimas, choro por muito tempo abraça as minhas irmãs, então depois de algum tempo Glenn entra silencioso, fica parado nos olhando.
─Cuidamos de tudo, quando estiver pronta.
─Sim, eu respondo, podem ir na frente, quero apenas uns minutos e logo encontro vocês! Eles se olham preocupados – Estou bem.
Os três deixam a casa e sigo para o quarto das meninas, olho mais uma vez o ambiente não era afinal um lugar alegre como eu idealizei que seria, Lizzie nunca deixou que fosse, era para ser bem honesta um tanto sombrio, eu podia ter feito diferente mas não fiz, fingi que tudo estava bem por que era muito difícil manter esse lugar encontrar comida e segurança e não queria pensar em coisas como as que Lizzie enfrentava, encontro a velha boneca de pano que Mika tinha a muitos anos e que ficava sobre sua cama como a menina doce que era, ela tinha um nome engraçado, não me lembro, é uma pena.
Deixo o quarto carregando a boneca e tenho que ser forte e seguir para o enterro, abro a porta e me assusto com Megan sentada na varanda chorando com o rosto escondido entre os joelhos.
─Megan! Eu a chamo ela ergue o olhar se põe de pé apressada.
─Me perdoa Maggie, queria entrar mas não tive coragem, você me odeia não é, eu causei tudo isso! Ela soluça e olho para ela penalizada, talvez nem desconfie do quanto eu a amo.
Ela olha para a boneca de pano em minha mão, os olhos se enchem de mais dor.
─Griselda! Ela diz se entregando as lágrimas, duo um paço até ela e a envolvo num abraço apertado.
─Obrigada por me lembrar! Digo acariciando seus cabelos.
─Brincamos muito com ela.
─Eu sei querida, sei que gostava de Mika e de modo algum é sua culpa!
─Maggie! Ela geme assustada, soluçando – Sinto muito!
─Não tem culpa, Megan olhe para mim! Ela se afasta e me encara – Não é sua culpa, se carregar isso em você não vai conseguir seguir em frente e viver, precisa entender que não é sua culpa!
─Mas eu matei Lizzie.
─Não, você salvou Matt, e o Nick salvou a Judy, não consegue ver isso? Eu afasto seus cabelos do rosto, volto a abraça-la.
─Não me odeia?
─Não querida, eu te amo, fez muito por mim quando salvou Judy e Matt, eu trouxe a bravinha ao mundo como seu pai diz! Sorrio tentando acalma-la – Foi um dia tortuoso, mas eu fiz, e amo aquela garotinha, se a tivesse perdido nem sei como seria, ver a dor de Beth, então só posso te agradecer e além disso o Matt corria risco, a Megan, não sabe como seu irmão é especial e importante, o quanto ele representa, você se lembra não é da sua mãe gravida, do dia que ele nasceu?
─Como se fosse hoje! Ela me diz entre seus soluços.
─Quando salvou os dois salvou uma lista de pessoas junto, pessoas que não poderiam seguir em frente sem eles.
─Então me perdoa?
─Não me peça perdão querida, Mika deixou uma carta, lá ela deixa claro que suas mãos estão limpas, nem mesmo ela culpava você!
─Ah Maggie, isso é tão importante para mim!
─Sei que sim, agora vamos, temos que enterrar Mika.
─Posso ir? Ela pergunta desconfiada – Não acha errado, queria muito me despedir da Mika, mas se preferir eu não vou.
─Quero que vá, e que fique do meu lado, vamos nos despedir dela juntas e deixar a Griselda com ela, vai ser nossa homenagem.
Megan me abraça mais uma vez e então seguimos de mãos dadas em direção a nosso pequeno cemitério.
As pessoas nos esperavam e Glenn me abraça assim que chego, ficamos juntos um ao lado do outro, procuro a mão de Megan, não quero que sinta culpa, ela tem tanto para construir ainda, é minha sobrinha de coração e eu a amo e quero que seja feliz ou o mais perto disso que o apocalipse permita.
Daryl e Rick colocam o corpo de Mika enrolado em um lençol na cova, depois me solto deles e deixo Griselda sobre o corpo, não consigo mais chorar, são apenas lágrimas mudas que escorrem por meu rosto, ainda não me decidi quanto de culpa devo carregar sobre isso, mas vou deixar isso para mais tarde, agora só quero me despedir de forma digna.
Ficamos todos em silencio, não tem mais discursos de despedida como antes, nem palavras de conforto e esperança, é só um momento de silencio e reflexão e depois a vida segue, foi isso que o apocalipse nos deu, apenas nos acostumamos com a morte.
Depois sigo de volta para casa com Glenn enquanto a vida continua na vila como sempre foi, cada um com seus afazeres, me sento silenciosa no sofá, ele me abraça carinhoso e companheiro como sempre foi, meu marido e seu amor incondicional por mim.
─Eu fingia que elas eram minhas, mas no fundo sabia que não eram, não como Megan e Nick são de Daryl e Katie, não sei se não deixei entrarem ou se não quiseram entrar, mas sei que não eram.
─Maggie você foi incrível com elas, sempre!
─Acho que não nasci para ser mãe, sempre fui no máximo uma tia engraçada, uma boa amiga, nada além disso, acho que o modo como amo você não me deixa espaço para filhos.
─Não é isso, seria uma mãe maravilhosa, tão boa quanto suas irmãs são, mas sabemos que não é um mundo seguro, confiável para isso.
─Não era antes Glenn, e mesmo assim as pessoas tinham seus filhos, não estou cobrando nada, apenas constatando.
─Ainda dá tempo, sabe disso, se decidir eu estou aqui e vamos fazer sempre como você quiser.
─Não quero, agora eu não quero mais, estou feliz com o que temos e apenas queria ter feito alguma coisa para dar esperanças a Mika e deixar que tivesse uma chance, mas é tarde e eu apenas aceito.
─Não temos escolha! Ele me diz e então me recosto em seu ombro fechando os olhos cansada, logo minhas irmãs vão estar de volta, vão falar sem parar até eu ficar tão tonta que vou me esquecer porque estou triste e simplesmente vou voltar a sorrir, somos assim, aprendemos a ser com o mundo de perdas que sempre nos cercou e uniu, só me resta seguir em frente como todos fazer, como Mika devia ter feito.
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