Fim Dos Tempos
1 Capítulo 1 Encontro
Notas iniciais
Daryl só precisa se sentir amado e acho que Katie pode quebrar aquela casca e quem sabe fazer os encantadores olhos azuis brilharem mesmo em meio ao caos.
Eu caminhava devagar, mesmo que quisesse ou precisasse correr seria impossível, ouvia atenta meus próprios passos sobre o terreno acidentado, os gravetos se quebrando sob minhas botas pesadas, estava esgotada no limite de minhas forças, mais uma vez. Aquela não era a primeira vez que me sentia assim, desde que tudo começara eu caminhava e caminhava, às vezes corria, mas na maior parte do tempo eu simplesmente caminhava, sem plano ou perspectiva, apenas me escondendo e esperando.
Nunca soube pelo que esperava se a cura ou a morte, no começo as minhas esperanças estavam na cura, mas agora um ano depois, elas se encontravam todas na morte, não eu não ia me render, lutaria até o limite de minhas forças, afinal eu havia prometido isso para o meu pai no nosso último dia juntos.
−Prometa que aconteça o que acontecer você não vai se render, vai lutar! Ele tinha as duas mãos espalmadas sobre minha face, os olhos estavam fixos nos meus, eu apenas afirmei com a cabeça, tentando acalmá-lo – Você não pode querida, deve isso a mim e a sua mãe!
−Não vou pai, prometo! Meus olhos estavam marejados, ele me puxou para um abraço, o último abraço.
Eu parei para respirar e secar o rosto, apesar do frio eu suava, só então me dei conta que chorava, aqueles primeiros dias estavam vivos em minha mente, embora os outros fossem um emaranhado confuso de pânico e correria, aqueles primeiros dias não saiam da minha mente.
“Fim dos tempos!” Eu me lembro perfeitamente da primeira chamada que ouvimos na tevê, a repórter falava sobre um vírus que parecia ter surgido, e fazia com que os mortos se erguessem em busca de carne humana. Papai riu despreocupado, achando tudo aquilo uma grande tolice.
Não dormi naquela noite, e nos três dias seguintes todas as notícias assustadoras e desencontradas nos trazia desespero e confusão. Minha mãe continuava como os dois últimos anos, deitada, inerte, padecendo e esperando, vivia sob efeito de morfina e o médico havia deixado claro, ela não tinha mais que algumas semanas de vida.
Então os avisos se espalhavam por todos os meios de comunicação, internet, rádio e tevê todos deveriam abandonar suas casas e seguir para as grandes cidades onde estavam sendo preparados os centros de refugiados.
Éramos apenas eu, meu pai, e minha mãe e ela não tinha a menor possibilidade de deixar aquela cama, depois de muitas discussões meu pai concordou que eu ficasse com eles, eles eram tudo que eu tinha e eu não os deixaria para trás.
Nossa pequena cidade estava um caos, na manhã do quarto dia meu pai saiu cedo para fazer compras, uma tolice já que as lojas estavam sendo saqueadas, mas ele nos deixou trancadas eu me sentei do lado de minha mãe, cheguei a invejá-la, ali inerte, alheia a tudo.
Meu pai só voltou no fim da tarde os olhos estavam repletos de segredos, ele me entregou uma mochila grande.
−Aqui está Katie! Ele me disse me sentando a seu lado em nossa sala pequena e aconchegante – Isso foi tudo que consegui, duas pistolas – ele me entregava tudo enquanto eu apenas o observava atônita – Uma com silenciador, talvez seja preciso, seis caixas de munição, comida enlatada, os mercados estão sendo saqueados e logo nada vai ser seguro.
−Pai eu... eu nunca vou conseguir usar isso! Meu olhos estavam arregalados e eu tremia – E essas facas? Perguntei vendo o cinto de caça com seis facas – Acha que vou ser capaz de...
Ele me olhou nos olhos espalmou as mãos no meu rosto e me fez prometer que lutaria, eu prometi, mas não sabia o que estava prometendo, guardei tudo na mochila e levei para meu quarto, então voltei para sala. Há semanas minha mãe estava dormindo em uma cama hospitalar na antiga sala de jantar que agora era seu quarto, passei por lá e apenas observei de longe, ela estava deitada e quieta, pálida como de costume, fui ao encontro do meu pai na sala e me sentei com ele que tentava inutilmente sintonizar uma rádio.
Ficamos assim por um tempo, não sei quanto, mas a tarde começava a cair quando tudo aconteceu. Eu estava na sala sentada mexendo no rádio, meu pai tinha saído por alguns minutos, acho que estava no quarto, então ela entrou, caminhava lentamente, eu sorri, em meio a todo aquele caos um milagre havia acontecido, minha mãe estava de pé e caminhava para mim, andava lentamente, fazia sons estranhos e ergue os braços como que me convidando, sorri contente e dei um passo em sua direção.
Meu pai se adiantou, acho que ele disse algo, não tenho certeza, depois disso tudo foi lento e distante, ele a amparou e num movimento ela o mordeu na altura do pescoço, gritei e tentei me aproximar, meu pai me impedia.
−Fuja Katie! Ele pedia empurrando minha mãe, estavam no chão e ela o mordia puxando sua carne – Corra! Meu pai pedia e eu obedeci cega de medo subi as escadas e me tranquei no quarto empurrando uma cômoda tentando impedir minha mãe de entrar.
O barulho sessou e eu me encolhi em meus soluços mudos, a noite caiu sinistra e me engoliu, não conseguia me mexer, não acendi a luz, ouvi gritos distantes, tiros nada me fazia sair do transe, já amanhecia quando ela começou arranhar a porta, ouvia os grunhidos.
−Me deixa em paz! Consegui gritar.
Ela continuou ali, o dia amanheceu e eu sabia que precisava ir, juntei forças e olhei pela janela algumas daquelas coisas caminhava pela rua, vi um homem ser atacado e sai da janela, eu nunca conseguiria.
Fui até o guarda roupa, vesti calça jeans, camiseta e calcei minhas botas de caça, depois recolhi algumas roupas e coloquei na mochila que meu pai preparara, encontrei remédios e a morfina que costumávamos dar para minha mãe, ele tinha pensado em tudo, preparei a arma, não podia deixa-la daquela maneira, era minha mãe, minhas mãos tremiam, mas precisava ser forte com um movimento abri a porta e dei um passo para traz, então atirei em sua cabeça como meu pai havia me ensinado.
Não esperei para vê-la cair fechei de novo a porta e fui para janela passei para o telhado e me esgueirei pelo canto onde podia ver a calha, eu era leve podia descer por ela e correr, alguns deles caminhavam e um me viu ou ouviu o tiro, veio em direção a casa, mas um tiro o derrubou.
−Corra para escola, eu te dou cobertura! Gritou o senhor Adams de seu telhado, eu obedeci.
Corria pelas ruas assustada desviei de alguns mortos-vivos, mas antes que pudesse alcançar o portão os gritos que vinham da escola me fizeram recuar e eu soube que lá não era mais seguro, então continuei a correr, queria sair dali achar abrigo, ajuda, segui em direção a rodovia um carro com algumas jovens parou, elas me mandaram entrar e eu apenas obedeci.
Minhas memorias tiveram de ser deixadas para depois, finalmente o rio que eu procurava, caminhei lentamente até ele, a água devia estar gelada considerando que o inverno começava, eu fiquei algum tempo paralisada ouvindo, apenas silencio então me despi, precisava de um banho, sabia que a agua gelada me faria despertar e o frio me manteria ligada por mais algum tempo, ainda não tinha um abrigo para passar a noite e eu sabia que não resistiria a mais uma noite sem dormir.
Meus pés estavam feridos e sangrando, dois dias caminhando sem parar por mais que dez ou quinze minutos, peguei meu shampoo, sim eu tinha um shampoo, gostava de sentir o perfume dos cabelos limpos escondendo ainda que um pouco o cheiro de morte que me perseguia a um ano.
Lavei minhas roupas e me banhei rapidamente o frio me fazia bater o queixo e meus lábios, eu sabia, deviam estar roxos, sai da água, antes que pudesse procurar roupas limpas ouvi um barulho – Errantes! – Sussurrei sabendo que precisava ser rápida, vesti as roupas molhadas e calcei as botas em menos de um minuto, juntei minhas coisas e sai rapidamente no sentido contrário ao som de passos arrastados.
O tempo me ensinara a reconhecer pegadas e o medo me deixara mais sensível ao barulho, como cegos que desenvolvem outros sentidos para compensar a falta de visão eu tinha todos os meus sentidos desenvolvidos.
Caminhei apressada, tremia descontroladamente, estava no limite quando avistei uma cabana, me aproximei com o coração aos pulos como sempre ficava quando precisava entrar numa casa, estava trancada por fora, isso era bom, se aquele cadeado estava ali possivelmente ela estava vazia eu circundei a casa e vi uma janela aberta no andar superior, escalei apressada, olhei para dentro, era um quarto amplo e vazio, saltei para o desconhecido silenciosa como sempre fora, o quarto cheirava a madeira molhada, agucei os ouvidos, nada, abri a porta e desci as escadas, havia uma sala pequena e uma cozinha ainda menor, limpei a dispensa quando tive certeza de que estava sozinha, algumas poucas latas de frutas secas e bolachas vencidas, pela poeira o lugar estava vazio a bastante tempo, fui para sala e me sentei no chão diante da porta encolhida num canto da parede perto da escada, se precisasse poderia correr para o quarto e pular a janela.
Eu não quis comer, precisava dormir um pouco, peguei a pistola na mão, desde que tudo começara eu só a havia usado uma vez para pôr fim a agonia de minha mãe.
Estava quase adormecendo quando ouvi o barulho de passos, não eram errantes eu sabia, isso chegava a me assustar ainda mais, sabia do que sobreviventes eram capazes, pensei em correr, mas meu corpo não aguentava mais, meus ossos doíam pelo frio e o cansaço, minha mente estava nebulosa, como se estivesse num sonho, apontei a arma para porta sabendo que jamais teria coragem de disparar.
Um estrondo e ela estava aberta, um homem com uma besta apontada para mim entrou seguido por outro com uma pistola, depois um menino também armado e um asiático, todos apontavam suas armas para mim.
−Abaixe a arma! Um deles me disse, eu obedeci, não estava com medo, meu cansaço me impedia de sentir qualquer coisa, aquele era meu fim, então depois de tudo não seria como um errante que eu acabaria isso era bom, pensei me encolhendo.
O homem com a besta ficou ali me apontando a arma enquanto os outros, eu acho, faziam uma busca pela casa, depois voltaram a se reunir na sala.
−Está limpa! Um deles disse e um assobio na porta chamou outros, me espantei quando vi um grupo de pessoas entrando, um velho, uma adolescente, uma mulher de cabelos curtos, mais um homem, negro e grande e uma mulher gravida, aquilo me espantou.
Todos os olhares estavam sobre mim, eu podia sentir, mas só o homem com a besta me ameaçava com sua arma apontada e seu olhar penetrante eu o olhei cansada.
−Não tem nada aqui pai, nenhuma comida! O menino que não tinha mais do que doze anos disse se juntando aos outros, a aparência deles era de cansaço, olhei para mulher gravida e para o garoto, senti pena e enfiei a mão na mochila.
No mesmo instante todas as armas apontavam para minha cabeça eu tirei o saco com a comida que tinha e empurrei na direção do menino, as armas foram abaixadas, menos a besta, essa parecia sentir sede de mim.
O menino foi rápido em receber o presente, tirei as vitaminas que carregava comigo a semanas, vitaminas para gravidas que pegara numa farmácia junto com tudo que encontrara, entreguei para a mulher gravida, sim eu estava desistindo se eles não me matassem outros fariam, eu não tinha mais forças para continuar, me encolhi mais e não vi o sorriso de gratidão no rosto da mulher gravida, alguém tossiu.
−Tenho mais remédios! Sussurrei esgotada e empurrei o saco então fechei meus olhos depois de olhar para aquele belo rosto que me apontava a besta. – Perdão papai! – Disse mentalmente, eu não suportava mais, deixei o sono me dominar e me entreguei a inconsciência.
Fale com o autor