Fim Dos Tempos
15 Capítulo 15 - Lágrimas
Notas iniciais
Espero que gostem.
Pov – Daryl
Eu não chorava a muito tempo, não chorava desde que era um menino e descobri que chorar não faria com que eles parassem de me machucar, então eu simplesmente não suportei, deixei o choro me dominar, ele era um deles, meu irmão, minha família, Merle estava ali, no chão se alimentando da carne de um homem.
Queria fazer algo, só consigo ficar olhando para ele e chorando enquanto ele caminhava para mim, Katie estava perto, mas ela não faria nada, sabia que era eu quem tinha de terminar com aquilo, ele me olhava com aquele par de olhos amarelos e mortos, gemia e caminhava, não me via, nunca tinha me visto realmente.
Empurro ele, porém ele não para, volta e eu mais uma vez o empurro – Sai daqui! Grito esquecido de tudo, Katie estava comigo e não deixaria que mais deles se aproximassem eu precisava enfrentar aquilo, como ela um dia enfrentara.
Pego minha faca, não usaria a minha besta, ela era para meus inimigos, Merle era meu irmão, quando ele se aproxima eu o golpeio e o derrubo caindo junto com ele, então o golpeio de novo, uma, duas, três, não sei quantas vezes, golpeio o governador, todos os zumbis do mundo, golpeio meu pai, minha mãe, e a minha infância infeliz, golpeio meu irmão e todo ódio que ele tinha do mundo, até ficar sem forças, até me deixar cair ao lado do seu corpo inerte.
Me entrego a minha dor, me deixo mergulhar no poço escuro e profundo em que sempre vivera, chorando todas as lágrimas guardadas, então ela se aproxima, a mão que sempre me tirava da escuridão e que nunca me deixava mergulhar fundo naquele mar escuro que tinha na alma, ela se senta ao meu lado e me abraça.
Também chorava, não por Merle, ninguém, além de mim choraria por ele, ela chorava por mim, pela minha dor, e isso era mais do que eu um dia sonhei encontrar, deixo que me abrace, que cuide de mim, apenas aceito que precisava chorar, e que minha pequena cuidaria de tudo, por um momento eu não precisava ser nada além de alguém que sofre e me entrego, ela não diz nada, não precisava, seu calor dizia tudo, todas as palavras que ninguém nunca me disse.
Pode ter sido só alguns minutos, ou horas, não sei por quanto tempo chorei nos braços de Katie, então elas se foram todas as lágrimas e toda a angustia, ficou a dor da perda, a que todos que ainda caminhavam pela terra carregavam, respiro fundo e me ponho de pé, ela se levanta sempre ao meu lado, queria dar as costas a tudo aquilo e simplesmente voltar para o que ainda enfrentaríamos, mas num mundo como aquele não podíamos nos dar ao luxo de partir sem olhar para trás, então recolhemos nossas armas, minhas flechas em dois zumbis, e para minha surpresa todas as facas de Katie, ela tinha derrubado muitos para que eu pudesse chorar a morte de Merle, depois de recolher nossos pertences eu pego a mão de minha pequena, e caminho para longe, não olho mais para Merle, não era preciso, jamais esqueceria esse dia.
Eu me afasto com Katie segurando minha mão, depois de um tempo quando noto que estávamos distantes o suficiente eu paro e a abraço, queria agradecer, por não ter passado por aquilo sozinho, e penso em como ela era forte, no que teve que fazer sem ninguém para protegê-la.
−Obrigado, por isso, por tudo! Eu a abraço e ela me envolve, ficamos uns minutos assim – Sempre vou agradecer por ser a sua escolha!
−Sempre vai ser a minha escolha! Ela me promete, eu a beijo de leve.
−Merle nunca fez nada assim! Eu lembro.
−Ele nos deu uma chance! Ela segura minha mão – Derrubou muitos dos homens do governador, foi a maneira que ele encontrou de proteger você de dizer que o ama! Ela me olhava com aqueles grandes olhos verdes repletos de carinho, eu toco seu rosto, estávamos de frente um para o outro.
−Jeito estranho de demonstrar! Reclamo, ainda meio inconformado – Jeito Dixon de demonstrar!
−Não, jeito Merle de demonstrar! Ela pega minha mão e me puxa para voltarmos a caminhar, eu apenas a sigo andávamos devagar sem pressa por que de algum jeito sabíamos que o caminho até a prisão era todo tempo que eu tinha para sentir a perda de Merle, depois quando chegássemos tínhamos uma nova batalha e eu deveria estar pronto.
−E como é o jeito Daryl de demonstrar? Pergunto querendo afastar da mente os momentos vividos a pouco.
−Eu adoro o jeito Daryl de demonstrar! Ela beija meus dedos entrelaçados aos seus, continuávamos caminhando – Primeiro arruma um apelido carinhoso, Bravinha, minha pequena! Ela me olha e sorri meio de lado – Mas isso não quer dizer muito considerando que apelidos também são uma maneira Daryl de demonstrar quando está irritado, a última samurai, o novo xerife! Agora seu sorriso é mais largo – O verdadeiro jeito de Daryl demonstrar que ama é caçando para alimentar os seus, enfrentando zumbis, sempre na linha de frente, correndo por ai em busca de leite, carregando sua pequena no colo, antes mesmo de ela ser sua, só por que ela tem bolhas nos pés, e fazendo um esforço gigante para dizer as palavras mesmo quando isso é tão difícil para ele!
Então ela sabia que não tinha sido fácil dizer a ela que a amava, penso em como éramos próximos, como nos conhecíamos, não como Glenn e Maggie, eles eram um casal se amavam e viviam juntos, mas não tinham nem de longe a nossa intimidade, os nossos códigos, eram independentes, olhávamos e víamos duas pessoas, eu e Katie não, nós éramos uma coisa só, interdependentes, nos misturamos desde o início, quando peguei Katie em meus braços e a tirei daquele lugar viramos um só, e eu amava isso.
−Se tudo acabar hoje, foi perfeito! Eu digo a ela, mesmo sabendo o quanto aquilo era angustiante, mas nunca se sabe como vai ser, não sabíamos antes e agora depois que o fim começou tudo é urgente – Como eu jamais pensei que seria, vão dizer que morremos, mas sabemos que nos encontrarmos nos salvou! Era assim que me sentia, ela aperta minha mão com os olhos marejados.
−Sim, se tudo acabar hoje foi perfeito, e acho que isso torna tudo eterno! Ela me diz com a voz embargada e eu paro queria tanto mais um momento como aquele na torre, beijo seus lábios, tomo sua boca e a exploro, ela corresponde inteiramente, tudo era sempre intenso entre nós, só me afasto por que sabia que estávamos cercados de zumbis, e não podíamos baixar a guarda, ela me olha como que decorando meu rosto, faço o mesmo, os olhos verdes, a boca carnuda feita para mim, o nariz delicado e mandão, ela me olha e sorrimos.
−Amo você! Ela me diz firme – Aceito se tudo acabar hoje, mas você não desiste, eu não desisto!
−Nunca! Então seguimos nosso caminho, zumbis se aproximavam dos dois lados e apertamos o passo, acabo tendo que acertar minha besta em dois que caminhavam em nossa direção muito próximos, avisto a prisão e fico feliz por não perceber nenhum movimento, o governador devia estar se preparando e teríamos algum tempo.
Carl abre o portão e todos nos olhavam quando entramos, silenciosos, Michonne estava distante e eles pareciam estar em uma reunião, paramos diante do grupo e eu fico mudo, Katie sabia que eu não conseguiria dizer as palavras então ela conta.
−Merle atacou o governador sozinho, não sei como fez isso, acho que levou zumbis para perto por que tinham muitos por lá, e derrubou alguns homens do tal governador, dava para ver que eram bons soldados.
−E ele? Rick pergunta.
−O governador o acertou, mas não o matou, ele... ele... Daryl teve que terminar com tudo! Ela me olha e pega minha mão, todos ficam silenciosos, noto que estavam tristes, talvez pela minha perda, e um pouco espantados com o que ele havia feito, ao menos uma vez na vida ele tinha feito algo por alguém.
−Sinto muito Daryl! Rick diz e eu apenas aceito com um movimento de cabeça – Vocês tinham razão isso só pode funcionar se decidirmos tudo juntos, não quero ser o governador de vocês, e estamos aqui decidindo se vamos fugir ou lutar! Ele nos olha, eu não sabia o que os outros queriam, mas eu sabia que não tínhamos escolha precisávamos lutar.
−Que adianta fugir, cair na estrada, cedo ou tarde vamos lutar com esse ou com outro governador, deve haver muitos como ele agora, vamos ficar e lutar! Digo determinado.
−Acho que devemos partir, achar um lugar seguro, para Judith! Hershel diz e eu o olho, que lugar ele achava que encontraríamos.
−Não tem lugar seguro Hershel, o mundo acabou! Eu digo meio irritado, não com ele, mas em como ele nunca conseguia enxergar as coisas com olhos racionais – Acha que eu não gostaria de ter um lugar seguro para a bravinha? Ela era linda eu queria protege-la, mas o único jeito era lutando – Esse tempo acabou, mesmo que lutemos hoje e vençamos, ainda assim esse lugar vai ser tão pouco seguro quanto qualquer outro, um dia se tivermos muita sorte, quando ela acordar chorando e dizendo que tem um monstro debaixo da cama quem de nós vai poder dizer que foi só um sonho ruim? Eu queria que ele entendesse – Sabe o que vamos fazer, vamos pegar nossa arma e olhar debaixo da cama com todo cuidado, por que não existe mais segurança, então eu prefiro ficar e lutar, ao menos aqui temos essas grades e elas talvez não sejam seguras para sempre, mas são agora.
−Podemos vencer! Katie diz.
−Eu quero ficar e lutar! Glenn continua – Esse lugar é nosso, não podemos fugir toda vez que alguém nos ameaçar.
No fim todos queriam lutar e armamos nosso plano, tínhamos os corredores escuros da prisão, as tumbas onde eles se perderiam, e zumbis que ao menos uma vez lutariam do nosso lado.
Hershel e Beth seguiriam para floresta com Judith e convencer Carl a ir com eles não foi fácil, mas dizer que ele precisava proteger a irmã o convenceu, não era uma mentira, se eu tivesse que confiar a vida de Katie a alguém confiaria a ele, mesmo sendo ainda um menino ele era corajoso, e protegeria as pessoas que amava com a própria vida e nunca se arrependeria disso.
Maggie e Glenn se esconderiam próximos de onde fazíamos a vigia, todos concordamos que as torres seriam os primeiros alvos do governador e ele tinha um bom arsenal para isso, Eu, Katie e Michonne desceríamos fundo na prisão para esperá-los, Rick iria ligar os alarmes e apagar as luzes quando tudo começasse, Carol iria com ele, caso algo desse errado ela faria o trabalho.
−Vamos dividir as armas e recolher tudo, eles tem de achar que fugimos ou nos escondemos lá em baixo.
Todos saímos para o trabalho, guardar objetos pessoais, talvez de algum jeito nos despedir, ninguém sabia realmente se voltaria, se o plano daria certo, eu e Katie não tínhamos muita coisa e ela arruma tudo, eu preparava as armas e paro para observá-la, ver minha pequena guardando nossas coisas na mesma mala, minhas camisas junto com as dela, isso me enchia de um sentimento bom, confirmando o fato de sermos uma coisa só, ela olha para mim sorrindo, um sorriso melancólico, que eu correspondo da mesma maneira.
Depois quando tudo estava pronto nos reunimos mais uma vez no pátio, colocamos tudo no carro que ficaria com Hershel caso ele tivesse de fugir com os que restassem.
Glenn entra no carro para levá-los e eu assisto Katie se despedir de Beth e da Bravinha, prefiro ficar distante, não sou bom com demonstrações de afeto, Katie era a única que tirava isso de mim com facilidade.
−Quando isso acabar vamos apenas nos sentar em volta de uma fogueira e ouvir você cantar! Katie diz a Beth.
−Amo você como amo Maggie! Beth diz a ela, as duas se abraçam longamente – Não se preocupe com a bravinha, eu vou cuidar dela até estarmos todos juntos de novo.
−Eu sei que sim, vai dar tudo certo! Elas choravam e se abraçam mais uma vez, depois Katie beija a bravinha e se afasta Hershel nos acena com a cabeça, nos deseja boa sorte e eles entram no carro.
Carl tinha um olhar um tanto raivoso, ele nunca perdoaria o pai por não ter acabado com o governador quando teve a chance, eu o entendia, mas acabo com um pouco de medo de que no fim ele ficasse frio demais e eu sabia, mais do que ninguém, que uma vida assim levava a uma solidão dolorida.
Eles partem e seguimos para nossos postos, detesto descer com Katie, sempre me lembrava do horror que senti quando fomos atacados e ela ficou perdida lá dentro sozinha, mas conhecíamos o lugar e ele estava preparado.
Michonne se afasta pela direita com aceno de cabeça e eu e Katie seguimos para esquerda, esperávamos realmente que eles tivessem coragem de descer, entramos numa solitária, eu tinha uma lanterna confirmo que a cela estava limpa e nos fechamos lá.
−Mais uma vezes lutando com sobreviventes! Eu lembro.
−Uma grande estupidez! Ela diz – Acha que ele vem, mesmo depois de todas aquelas perdas?
−Sim pequena, ele é louco e isso não tem nada a ver com os zumbis nem com o fim do mundo, ele é maluco, acho que sempre foi, acho até que gosta de como as coisas são agora!
−Vamos vencer! Ela me diz do nada – É o certo!
−Mortos caminhando não é certo e ai estão eles! Eu respondo sem querer decepciona-la, porém era preciso.
−Acha que isso tem algo a ver com Deus? Ela me pergunta e eu rio, nunca dei a mínima para Ele, nem mesmo acreditava em sua possível existência, não com a vida que sempre tive.
−Não sei, talvez, mas agora não faz diferença, se ele existe meio que nos esqueceu, se seu plano era nos pegar o cara deve estar furioso, por que aqui estamos!
−E vamos vencer! Ela sorri cheia de esperança.
Ficamos em silêncio, ouvindo os sons daquele pequeno inferno, mais de meia hora e nada, então Katie pula para meus braços assustada.
−O que foi? Eu pergunto apertando-a junto a mim, não tinha ouvido nada de diferente.
−Acho que vi um rato! Ela tremia e eu me assusto com sua expressão.
−Pequena, estamos fundo na prisão, acho que deve ter muitos ratos por aqui.
−Muitos, não vou ficar num lugar com ratos! Ela me diz quase no meu colo, não consigo segurar o riso.
−E prefere sair e enfrentar os zumbis?
−Claro! Ela diz – Não vai procurar o rato? Ela estava quase brava comigo e eu olho para ela confuso.
−Quer que procure um rato agora?
−Daryl, não é um caçador? Ela me olha perplexa – O que custa procurar o rato?
−Está certo! Eu digo me afastando ela me aperta junto a ela.
−Onde vai?
−Pequena, decida-se quer que pegue o rato ou a abrace? Eu nem acreditava que a garota que matava zumbis estava tremula de medo de um rato.
−Os dois! Ela me diz me fazendo rir baixo eu olho pelo chão com a lanterna acesa, não via nada, ela me apertava tanto que estava começando a doer então vejo um camundongo no canto de uma parede.
−Achei! Eu sussurro e mostro onde, ela fecha os olhos apertando-os apavorada – Vou pegar ele e jogar lá fora, os zumbis dão conta dele.
−Quando diz pegar, está se referindo às suas mãos?
−Sim? Eu respondo.
−Não pode usar a besta? Ela me pergunta – Por que é bom que saiba que se pegar um rato com essas mãos elas nunca mais vão passear pelo meu corpo! Eu me espanto e armo a besta rezando para o bichinho colaborar.
Felizmente ele colabora e eu o acerto na primeira, nem me atrevo a buscar minha flecha.
−Você nunca tocou num rato, tocou? Ela me pergunta e eu penso que minha pequena, nunca imaginara por que lugares eu já tinha andado, onde já tinha morado, passei boa parte de minha vida dividindo cômodos com ratos e diante da ameaça decido que só restava uma coisa a fazer. Eu minto.
−Claro que não! Aliviada ela me abraça, agora mais tranquila.
−Deixe-me entender, se estiver sozinha e tiver de escolher entre enfrentar um zumbi ou um rato vai preferir o zumbi? Aquilo me assustava.
−Acho que vou tentar convencer o zumbi a pegar o rato, mas se ele me preferir então eu vou matá-lo e fugir do rato, ou deixar os dois e correr o mais rápido que puder!
−Boa escolha! Eu brinco.
−E pensar que já fomos o topo da cadeia alimentar, e agora caímos para mesma posição que os ratos!
−Acho que isso foi o que nos fez cair tão rápido, ninguém estava preparado para algo assim, arrogância humana.
−Pensei que o governo daria um jeito! Ela conta – Achei que ficaria uns dias por ai e depois ouviria alguém anunciar uma vacina ou coisa assim, mas não, caímos em poucas semanas! Ela suspira e volta para meus braços – Acha que tem muitos sobreviventes por ai?
−Não sei, conseguimos chegar até aqui, outros devem ter conseguido também, quem sabe?
−Fico pensando como foi nas grandes metrópoles, Nova York...
−Não chegou em Atlanta não é? Ele me pergunta.
−Não, felizmente eu sempre caminhei para você, tudo seguiu seu curso para que você me encontrasse.
−Destino? Pergunto acariciando seu cabelo.
−Sorte! Ela responde e eu a beijo, um longo beijo, antes que tudo começasse.
Então nos afastamos quando ouvimos o primeiro estrondo, de algum jeito eu sabia que eram as torres sucumbindo ao ataque, me afasto de Katie e ela me olha nos olhos um olhar cheio de amor, mas com medo, meu coração dói e como um covarde rezo para cair antes dela, eu não suportaria perdê-la.
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