Eu andava pela rua em meio ao nevoeiro quando de longe avistei uma pequena forma humana; não sei dizer se era um homem ou uma mulher, mas a figura me encarava através de uma máscara.

Quando me aproximei, eu vi que era um garoto alto de cabelos pretos arrepiados e olhos verdes esmeralda, a única parte de seu rosto que eu conseguia ver através daquela máscara branca sem expressão. Ele usava um longo sobretudo de lã preto.

– Quem é você?- eu perguntei.

O rapaz olhou por sobre a minha cabeça e começou a andar para trás, olhando para cima, assustado. Segui seu olhar e me virei; atrás de mim havia a grandiosa sombra de um ser de longas asas negras que segurava uma grande espada, também negra. Aquele ser titânico me causava arrepios. Voltei- me novamente para o garoto de olhos verdes que havia se afastado de mim e agora se fundia á escuridão.

– Espere!!!- eu gritei para ele, mas de nada adiantou; o rapaz continuou a andar. Então eu corri atrás dele.

Quando consegui alcançá-lo, toquei seu ombro para pará-lo mas o nevoeiro se tornou mais espesso; minha visão ficou turva e eu despertei de meu sonho, ofegante.

– Ta tudo bem?- perguntou Derick ao meu lado.

Derick era o meu namorado, tinha 22 anos de idade, três anos mais velho que eu. Ele era um cara alto, de cabelos castanhos claros e olhos cor de mel; seu porte físico era alto e musculoso, de modo que ele parecia um lutador de MMA. Pode parecer que ser namorada dele seja uma grande sorte por ele ser um rapaz muito bonito mas na maior parte do tempo era um grande idiota.

Achou estranho eu chamar meu namorado de idiota? Bem é por que nenhum de vocês conhece o lado ciumento dele.

A oito meses atrás, Derick me viu com meu melhor amigo, Jack Brandy, e teve uma crise de ciumes por eu estar perto de outro homem, como se o simples ato de eu ficar perto dele fosse uma traição.

– Ta!- eu respondi.

Me levantei da cama e fui até o rádio que estava na cômoda branca em um canto do quarto; liguei o rádio e então começou a tocar a minha música favorita: Fire and Rain, do James Taylor.

– Eu nunca entendi essa música- falou Derick.- E por que você gosta tanto desse cara? Ele já não morreu?

Eu o encarei bem séria e deixei a pergunta de lado, entrando no banheiro enquanto a música fluía em meus ouvidos. Encarei meu reflexo no espelho e me assustei com o quanto meu rosto estava pálido e sem cor, como se eu fosse uma vítima de afogamento. Derick veio por trás de mim e abraçou minha cintura, deixando seu rosto encaixado na curvatura de minha omoplata. Me desvencilhei de seus braços fortes e voltei para o quarto, onde vesti minha calça jeans e minha blusa de seda verde esmeralda; depois de colocar a jaqueta de couro por cima da blusa, eu comecei a colocar os sapatos de salto alto.

– Por que você usa essas ferramentas de tortura?- perguntou o idiota.

Eu dei um meio sorriso na direção dele e não respondi; me levantei, fui em sua direção falei:

– Eu vou para a faculdade.

– A que horas você volta?- ele perguntou.

Nem um ‘'tudo bem” o “tá legal’; o babaca só queria saber a que horas eu voltaria para saber se não estaria sendo chifrado. Suspirei de modo audível e respondi:

– Eu não sei; vou ir ao cinema com a Mirian e o Alexius.

Na verdade eu iria com Jack, mas não falei nada pois sabia que Derick iria fazer um escândalo; com Alexius ele era mais tolerante pois sabia que meu outro melhor amigo era homossexual e portanto não iria querer nada comigo, uma vez que ele já tinha namorado e, por conta de sua sexualidade, não curtia muito as mulheres.

Derick assentiu na hora em que ouviu o nome de alexius.

– Tá legal!

Me aproximei dele e dei-lhe um beijo na testa antes de me dirigir á porta da frente e sair.

*****

Na faculdade, passei o dia inteiro pensando no sonho com o garoto. Ele tinha algo de assustador que me fazia teme- ló; mas, ao mesmo tempo em que eu o temia, eu tinha curiosidade de saber os mistérios que eram guardados por aqueles intensos olhos de esmeralda. Era como se eu conhecesse aquele garoto mas, ao mesmo tempo em que eu o conhecia, ele era um grande estranho para mim. Nunca conheci alguém com aqueles intensos olhos e muito menos que era perseguido por um anjo feito de sombras como aquele.

O Anjo...

Esse era outro assunto que me preocupava, não por tê-lo visto, mas por ter sentido a que ele era um grande perigo... um grande perigo para o garoto, pois parecia que o Anjo não queria me fazer mal, mas sim ao garoto. As batidas das longas asas dele pareciam me causar sonolência e turvava minha visão. Era como se...

– Taylor!

Olhei para cima e vi o Sr. Sherman, meu professor de história. Ele era um homem alto de cabelos claros, olhos verdes- mar e uma beleza carismática; o Sr. Sherman sempre usava um terno de risca de giz preto e cinza, o que o fazia parecer um advogado. Apesar das roupas sérias ele era um dos meus melhores professores, o mais divertido, mas também o mais responsável e educado.

– Sim, Sr. Sherman?- falei.

Ele me olhou bem sério, depois virou a cabeça de um lado para o outro e fixou o olhar em mim novamente.

– Taylor, a aula acabou a dez minutos... o que ainda está fazendo aqui?

Fiz como ele e olhei de um lado para o outro, só então percebendo que o que o Sr. Sherman falava era verdade. A sala estava vazia, a não ser por nós dois. Voltei meu olhar para o professor e fiz cara de confusa antes de perguntar:

– Que horas são?

O professor me olhou bem sério.

– Já são 17:40 e a aula só vai até 17:30.

Ele me olhou com atesta franzida ao máximo. Eu abri a boca para responder mas no fim acabei dando risada.

– Sim, hã...claro, eu só me desliguei desse mundo- falei brincando.

Meu instrutor de história me olhou bem sério antes de perguntar:

– E se conectou a qual outro mundo?

Pensei um pouco na pergunta antes de responder, também bem séria, mas com ar sonhador.

– No mundos dos meus sonhos.

O Sr. Sherman me olhou sério e então ele desfez o olhar de advogado e deu uma gargalhada.

– Vocês adolescentes...

Me levantei da cadeira, peguei minha bolsa e fui encontrar Jack e Mirian.

No campus da faculdade havia um grande aglomerado de estudantes, todos embrenhados em seus grupos de amigos; a maioria eram garotas patricinhas cujos papais não tinham tempo para elas, então essas piralhas ficavam na faculdade para atormentar a paciência dos coitados dos professores; a outra metade era dos garotos que se achavam a última bolacha do pacote, pensando que todas as meninas da faculdade fossem cair aos seus braços quando olhassem para seus belos olhos que, pelo menos de fachada, eram gentis e amorosos, mas na verdade esses filinhos de papai eram um bando de babacas que acham que qualquer garota que eles queiram irá para a cama com eles sem qualquer problema. E o pior era que a maioria das garotas dessa faculdade iam mesmo. As únicas que nunca caíram nas graças desses palhaços eram eu e Mirian; nós duas até mesmo já fomos chamados de lésbicas pois diziam por ai que nenhuma de nós gostava muito da companhia dos homens, e ajudava o fato de que andávamos com Alexius, que era gay. Tá certo que eu tinha namorado, mas esses palhaços da faculdade não ligavam para esse fato, eles só me viam durante o horário de aulas mesmo, acho que nenhum deles conhecia Derick.

– Onde você estava?

Dei um pulo e me virei para ver uma Mirian com cara de zangada atrás de mim. Ela era uma garota alta de cabelos ruivos, que hoje estava traçados, olhos azuis elétricos e uma pele ainda mais branca que gesso. Ela adorava usar roupas que não mostrassem muito o corpo, o que não mudou para o dia de hoje; ela estava usando uma longa camisa vermelha que não mostrava nada a não ser as mãos, uma calça jeans escura e tênis de corrida pretos. Seu rosto não tinha nem um vestígio de maquiagem a não ser pelos carnudos lábios que eram decorados com batom vermelho, o que atraia muito o sexo oposto.

– Hã...oi.

– Oi, sumida- ela falou com as mãos na cintura com ar de autoritária.

Eu olhei de um lado para o outro e então olhei para Mirian de novo.

– Eu fiquei meio fora de ar na sala de aula; o Sr. Sherman teve que me a-cordar para eu sair de lá.

Mirian revirou os olhos e sorriu. Esse era o bom de ser sua amiga, ela não conseguia ficar zangada comigo por mais do que alguns segundos.

– Tudo bem, eu te perdoo... dessa vez, mas não vai se acostumando- ela sorriu. — Você viu o Jack?

Comprimi os lábios e balancei a cabeça negativamente.

– Não, porque?

– Por que aquele individuo é outro que desapareceu.

Dei de ombros.

– Já tentou ligar para ele?

Ela fez que não e eu revirei os olhos.

– Deixa que eu tento- falei.

Peguei meu celular e apertei o número na discagem rápida. O celular tocou uma, duas, três vezes antes de cair na caixa de mensagem.

– Nada.

– Deixa que eu tento dessa vez.

Eu ia falar que achava a idéia um tanto quanto desnecessária mas ela já estava com o celular no ouvido. Depois de um minuto, ela abaixou o aparelho fazendo beicinho.

– Não!

Dei de ombros mais uma vez e falei:

– Então acho que seremos apenas nós duas.