Depois de assistirmos ao último filme do Harry Potter, no qual Mirian não parou de falar, nós nos dirigimos a um café que ficava ali perto; enquanto isso ela não parava de falar:

– Sério, por que o Snape tinha que morrer?

Eu suspirei alto e falei, pelo que pareceu a milionésima vez:

– EU. NÃO. SEI. Mirian foi a autora do livro, a J. K. Rowling, quem matou seu personagem favorito, e não eu. Talvez você devesse perguntar isso para ela, e não para mim.

Mirian me olhou de cara feia e disse:

– Estúpida!

Eu olhei para ela, para aquela cara de cachorro que caiu da mudança, e passei a mão no topo de sua cabeça, acariciando- lhe como se ela fosse um cachorrinho. Aparentemente Mirian não gostou muito da idéia, pois ela me deu uns bons dez tapas na mão.

– Vamos!- eu falei.

Mirian abriu a porta do café e ficou segurando- a para mim; não sei por que, mas uma sensação estranha percorreu toda a minha espinha e, subitamente, eu me virei, assustada. Mas não havia nada atrás de mim, apenas algumas pessoas, grande maioria eram adolescentes. Olhei de um lado para o outro mas minha visão continuou a mesma.

– Taylor!- olhei para trás; Mirian me encarava muito séria.- Ta tudo bem?

Eu assenti e virei- me novamente para a rua atrás de mim.

A sensação de que alguma coisa estava extremamente errada ainda me dominava; olhei para os dois lados da rua novamente e nada; então olhei para cima e soltei um grito silencioso. O céu vespertino estava encoberto e grandio-sas nuvens obstruíam a luz do sol, assim como seu calor. Mas, atrás de uma das nuvens, havia uma coisa estranhamente errada; era como a sombra de uma pessoa, uma pessoa com longas asas; tudo bem que poderia ser um pássaro muito grande, um gavião, uma águia, não sei. Mas mesmo assim fiquei horrorizada ao contemplar aquela imagem e instantaneamente eu estava falando com Mirian, assustada.

– Você esta vendo aquilo?

Eu apontei para a nuvem e Mirian olhou naquela direção, para a nuvem. Ela fez cara de confusão e depois olhou para mim com a testa franzida.

– Estou vendo o que? As nuvens?

Eu franzi o cenho e falei para ela:

– Sim, aquela sombra atrás da nuvem!

Ela olhou para cima novamente e, menos de sete segundos depois, tornou a olhar para mim.

– Qual sombra?

– Aquela ali...

Virei- me para mostrar- lhe a nuvem e... nada. A sombra angelical havia desaparecido e a única coisa que se podia ver atrás dela eram os pássaros e a fraca luz solar.

– Mas... estava bem ali. Eu...

–Taylor, você tem certeza de que está tudo bem?

Continuei olhando para a nuvem enquanto respondia.

– Sinceramente... eu não sei mais.

Dentro da cafeteria, eu e Mirian tivemos dificuldades para encontrar uma mesa vazia, havia muitos e muitos clientes ali que, como na rua, eram na maioria adolescentes nerds com seus computadores, livros e cadernos de faculdade. Depois do que pareceu uma era, eu e Mirian encontramos uma mesa em um canto do estabelecimento e pedimos dois expressos. Quando nos sentamos Mirian continuou me olhando com cara de preocupação, então eu sorri para ela e falei:

– Está tudo bem, amiga, sério.

Mas ela não se deu por vencida e, curvando- se sobre a mesa, ela encostou a mão na minha testa.

– Eu não estou com febre, estou bem.

– Será mesmo, na aula do Sr. Sherman você ficou fora do ar, e agora está vendo sombras nas nuvens- Mirian balançou a cabeça negativamente.- Talvez devêssemos ir a um hospital, só para ter certeza de que está tudo bem.

Dessa vez fui eu quem fez que não com a cabeça.

– Não Mirian, eu estou bem, não preciso ir a um hospital.

– Mas, Taylor...

– Sem mas, Mirian, que saco, eu não quero ir ao médico.

Minha melhor amiga fez beicinho,um gesto que eu já havia percebido que era um costume dela para quando estava desgostosa com alguma coisa, e tomou um gole de seu expresso.

Tentei falar com Mirian novamente mas ela nem olhava para mim, então deixei- a sentada na mesa e fui ao banheiro. Ela não iria falar comigo por enquanto, e eu não podia ficar me rebaixando toda vez que ela tinha um de seus ataques de nervos por as pessoas não fazerem as suas vontades; esse era o problema dela, Mirian achava que vivia em um conto de fadas, no qual ela era a princesinha e as pessoas ao seu redor eram seus súditos e criados, servindo- a enquanto ela estava a espera de seu príncipe encantado, o qual nunca viria pois contos de faz não existem. Era ridículo o modo como ela se fascinava com essas coisas de magia, feitiçaria, fadas, duendes, bruxas... Argh.

No banheiro, eu olhei meu reflexo no espelho e suspirei. Meus olhos, verdes como a água do mar, pareciam duas bolas de gude enormes e com imensas olheiras; meus cabelos, pretos como breu, estavam na mesma situação de um ninho de pássaros e minha pele tinha um cor branca extrema, o que não era normal pois, como eu vivia no campus da faculdade, minha pele era levemente bronzeada. Talvez Mirian tivesse razão, talvez eu devesse ir a um médico.

Depois de lavar as mãos no banheiro, eu voltei para a mesa mas parei subitamente quando vi que Mirian não estava sozinha. Ao seu lado, na cadeira onde eu estava sentada, havia outra garota.

Eu nunca a vi antes, mas ela me fazia sentir como se houvesse uma forte ligação entre nós, era como se uma energia desconhecida me fizesse querer chegar mais perto dela.

A desconhecida tinha cabelos dourado reluzente, como se ouro liquido escorresse de sua cabeça, sua pele era muito branca, de modo que era possível entrever suas veias, e os olhos dela eram castanho claro, pareciam duas avelãs em meio ao ouro de seus cabelos e a neve de sua pele. Ela tinha um visual extremamente escurecido, pois vestia uma camisa de mangas compridas, calças jeans e botas de couro alto, tudo preto.

Fui me aproximando da mesa de modo que agora eu podia ver que a garota usava uma corrente de ouro com um pingente em formato de lua crescente em volta do pescoço. Assim como Mirian, ela não tinha nenhum vestígio de maquiagem, o que eu achei curioso pois ela era muito bonita, e a maioria das garotas só ficam bonitas dessa forma com uso constante de base, rímel, batom, etc, etc e etc.

Quando cheguei ao lado da Mirian pude ouvir que elas conversavam so-bre mim.

– Sim, eu conheço Taylor Sulley; ela é minha amiga- disse Mirian.

A garota de cabelos dourados olhou de um lado para o outro e depois perguntou:

– E ela está aqui? Eu preciso muito falar com ela!

Mirian olhou para os dois lados até que enfim me avistou atrás da desconhecida.

– Olha ela ai.

A menina virou- se para mim e falou:

– Você é Taylor Sulley?

Olhei para Mirian transmitindo uma mensagem silenciosa:’’ Quem é ela? ‘’. Mirian deu de ombros e se dirigiu á menina.

– Sim, ela é Taylor Sulley. Taylor esta é Fedra.

Olhei para ao menina, Fedra, e lhe estendi a mão.

– Prazer em conhece- lá.

A menina sorriu.

– Senhorita Sulley, desculpe- me lhe dizer isso mas seu amigo Jack corre grande perigo.

Olhei para Mirian assustada e depois para Fedra novamente.

– Como assim Jack está em perigo?

Fedra olhou para mim e depois para Mirian.

– Ele está desaparecido e ninguém o vê a mais de uma semana.