Filhos das sombras
7 Revolta
Notas iniciais
POV Luce
Não. Não sou filha de Hades. O senhor da Rússia, que me fez passar por isso. Tenho vontade de arrancar a espada das mãos de algum campista, e cortar a cabeça de todos que estão se curvando.
- Parem. Levantem! – Não consigo me conter, acabo gritando, e quebrando o silencio mortal.
Algumas pessoas ficam confusas, outras parecem nem ter me escutado. Quiron caminha até o meio das pessoas e diz:
— Rayder, cade você? – diz ele.
As pessoas abrem caminho, e um menino surge entre a multidão. O mesmo menino que eu estava observando ontem. Cara fechada, alto e forte, com a pele tão pálida quanto a minha e de minha irmã. Cabelos muito pretos, sedosos, um pouco compridos e desgrenhados. Suas íris são também pretas, e tenho vontade de desvia-los no momento em que nossos olhos se encontram, mais o encaro duramente, e me surpreendo quando ele desvia o olhar.
Ele usa uma camisa cinza, e jeans pretos. Certa nevoa parece contorná-lo, e sinto o mesmo cheiro que senti em Megera. De morte. Passamos alguns segundos em silencio, quando ele diz algo.
— Olá irmãs. Sou Rayder, filho de Hades. É muito bom finalmente ter alguém. Sejam bem-vindas. – Ele abre um sorriso, o que por algum motivo, me surpreende – Quiron, temos permissão para escaparmos das nossas atividades matinais, para que eu as acomode no nosso chalé?
— Claro garoto. – o restante das pessoas observa em silencio, e algumas garotas suspiram ao olhar para Rayder – Vocês não, podem voltar para a sua rotina. – Ele indica o restante dos campistas, mais faz um sinal para Thiana. – Thiana, se importa em ir com elas pegar as coisas que elas deixaram no 11?
— Claro que não! – responde ela, empolgada e sorrindo – Vamos Luce! – ela pega a minha mão e me puxa, com Emma correndo atrás.
— Esperem meninas! – Rayder diz, mais acredito que ele possa nos alcançar com facilidade.
— Calma nada seu lerdo. Anda logo! – Thiana grita. Ela parece ser a única que não sente medo mortal, ou paixão enorme por ele. Ela o trata como qualquer outra pessoa. Sinceramente, Thiana foi a melhor pessoa que conheci no acampamento até agora.
Chegamos ao chalé, e ela nos convida para entrar. Rayder observa os pertences jogados pelo chão, e eu acompanho Thiana até o beliche em que havíamos dormido noite passada. Ela pega os pacotes, e me entrega.
— Boa sorte com ele. – ela indica o meu suposto irmão com a cabeça. – Não sei como ele vai tratar vocês, ele praticamente não fala com ninguém, mais as meninas vivem seguindo ele. Provavelmente, você e Emma logo vão estar cheias de meninos correndo atrás de vocês como cachorrinhos. Como se serem lindas não fosse o suficiente – Ela abre um sorriso, e sei que ela está sendo sincera. Dou uma risada, e Rayder me chama:
— Vamos... Lucy, temos que ir. – diz ele, já saindo do chalé.
— É Luce. E já estou indo Rayder. – falo, de má vontade.
— Bom, acho que nos vemos mais tarde... tenho que ir, beijo! – Ela corre para fora do chalé, Emma e Rayder já esperando na porta.
Em silencio, entrego o pacote para Emma, e encaro meu irmão por um minuto. Ele desvia o olhar de novo, e nos guia até o chalé de Hades.
— Bem vindas a sua nova casa. – Diz ele, animado.
— Nossa, é lindo! — Diz Emma, passando a mão na parede encrustada com pedras preciosas em tons escuros. – Quero aquela cama! – Diz ela, e se atira em uma cama do lado da janela.
— Como assim nova casa? Não vamos voltar a ver nossa mãe? – pergunto, assustada.
— Olha, eu não sei menina, você precisa falar com o Quiron. – Diz Rayder – E Emma, cuidado pra não cortar as mãos na parede!
— Eu tenho um nome tá? – digo, estressada – E Emma, para com isso.
— Calma Luce! Nossa, você estava com um humor ótimo até hoje de manhã. – diz Emma.
— É por que hoje de manhã, eu não sabia quem era o meu pai. – digo, irritada.
— Como assim? – Rayder se mete.
— Como assim? Como assim? – praticamente grito. – O que tem de bom em ser filha de um cara, que destrói famílias só por que teve uma briguinha com o irmão? Fala sério, você sabe quantas crianças americanas morreram torturadas na Russia? Desde que cheguei a única coisa que eu queria era não ser filha dele. Sem falar que foi uma irresponsabilidade ele ter tido filhas, ainda mais com uma americana! E além de tudo, ele fez minha mãe sofrer, nos arrancou da nossa família de uma hora pra outra e... Você espera que eu o adore? – Uso um tom de provocação, mais estou a beira das lagrimas.
— Vê como fala comigo menina, não sou nenhum dos seus amiguinhos para você usar esse tom comigo! – Diz Rayder.
Me irrito com ele. Quem pensa que é? Meu pai agora? “olha como fala comigo”. Ah, fala sério.
— Primeiro, eu não tenho amigos ok? E não lhe devo respeito nenhum. Você é como qualquer outra pessoa dentro desse acampamento, e eu uso o tom de voz que eu quero com você seu convencido. – Grito na cara dele, e passamos um tempo só nos encarando. Realmente, se é assim que eu encaro as pessoas, entendo por que elas desviam. Mais eu nem pisco, só olho nos olhos dele.
- Olha menina, se você acha que... – ele diz.
- Luce! – Emma o corta, antes que ele possa dizer algo. – Fala sério, você nunca foi assim! Olha como fala com o Rayder, ele merece sim o nosso respeito, a mamãe nos educou bem, não vai dar uma de metida e falar assim agora!
— Metida? Metida? — digo, agora realmente segurando as lagrimas – E você vai defender ele? Vai nessa retardada, até por que, ele e o seu papai Hades sempre estiveram lá te ajudando, te dando comida, te defendendo. O senhor dos deuses, não tem nem tempo pra ajudar a nossa mãe a nos alimentar, e você vai ficar do lado dele? – grito com ela. — Me poupe Emma, que coisa ridícula. Vão vocês dois então desfilar para o acampamento, os filhinhos do papai. Ele até tudo bem, mais você descobriu quem era teu pai não faz nem uma hora, e já está trocando a mim e a mamãe? Arg.
— Ah, é assim Luce? Nossa, eu que sou a ridícula? Você que é uma bebezona, fica ai chorando e resmungando, reclamando de tudo! Não podemos mudar o nosso DNA garota, e Hades não tem culpa, ele não pode interferir na vida dos semideuses!
— Garota? Ah, vai lá mulherzona, defende o senhor do universo que não pode mandar uma carta. – lágrimas começam a brotar.
— CHEGA! As duas parem com isso! – Rayder para entre nós duas, que estamos prestes a voar uma na outra – Fala sério, as duas! Emma, vai realente discutir com ela sobre isso?
— O que quer dizer com “ela”? EU SOU A IRMÃ GÊMEA DELA! QUAL O SEU PROBLEMA? – Grito o mais alto que posso – Então fiquem os dois ai. Vai dormir na tua caminha Emma, e passar a mão na parede de rubis. – fuzilo Rayder com o olhar – E você, boa sorte com ela. Deve ser mais fácil passar a semana com a filha mais mimada de Afrodite do que com ela.
Não olho para mais nenhum dos dois. Apenas corro para fora do chalé, com lagrimas nos olhos. Saio atropelando qualquer um que esteja no meu caminho, até alcançar o bosque. Sei que fui instruída a não ir para o bosque sozinha, pego uma adaga qualquer, e me enfio entre as árvores altas. Posso ouvir barulhos vindo de todos os lados, mais já estou me acabando em lágrimas.
Já estou bem dentro da floresta, então não me preocupo muito com barulho, embora eu devesse me preocupar ainda mais. Grito, soco e choro tanto quanto posso. Xingo Hades de tudo que me vem a cabeça, sem me preocupar com o que ele vai fazer comigo. Pego a espada, e começo a golpear um salgueiro, quando uma menina com um rosto travesso, um vestido verde e orelhas puxadas aparece.
— Deuses! – grito, quando ela literalmente surge entre as árvores.
— Heey, calma! Diz ela. Posso saber por que está agredindo essa arvore? – diz ela, meio irritada. Por um instante, penso que é uma pegadinha, mais então percebo que ela é uma das ninfas que vi no café.
— Oh... – exclamo – Desculpe, eu...
— Eu não te conheço... Você é a garota nova? Filha de Hades? – ela pergunta, curiosa, porem um tanto assustada.
— Sou, mais... – digo, mas sou interrompida.
— OH! Me... me desculpe senhorita, não quis ser grossa com você... senhorita, eu só...
— Para! – digo, e ela se cala – Não... não me trata assim, por favor. Sou só mais uma campista tá? E desculpe pela árvore, é que eu briguei com a minha irmã e... – lagrimas voltam a escorrer pela minha face, e a ninfa me observa.
— Não chora, aposto que você fica muito mais bonita sorrindo. – diz ela, calmamente – Pode me chamar de Sal, e se quiser, pode me contar o que aconteceu querida.
Conto tudo a ela. Eu preciso muito desabafar, então digo tudo que penso, e tudo que aconteceu desde a colheita.
- Olha, você realmente não deveria ter gritado com o Rayder, ele é uma boa pessoa. Quanto a sua irmã... O que ela te disse, provavelmente me deixaria mal, mais pensou no que você disse a ela? – ela fala, e sinto o peso de vinte elefantes sobre mim. O que eu disse, realmente foi bem ruim, e não penso isso dela.
- Oh, a Emma, ela... – digo, mais sou interrompida por gritos não muito distantes.
- Luce! Luce! – Eram vozes que eu não conhecia, berrando meu nome.
— Acho que eles vieram te procurar, já é quase hora do jantar querida. – Sal diz.
- Como assim? Mas eu cheguei aqui e ainda nem tinha almoçado... não se passou tanto tempo assim! – exclamo.
- Bom, aqui na floresta o tempo passa mais devagar Luce.
- Luce! – Ouço uma voz, agora muito mais perto, e infelizmente eu a conheço.
- Ah! Eu sabia que você iria estar aqui. Posso te sentir de longe – Diz Rayder, sorrindo, satisfeito.
- Oi. – digo, com raiva. – Como assim pode me sentir?
- Eu meio que posso sentir a morte em você, e... – ele diz,mas o interrompo.
- E Emma? Ela não sente? – digo.
- Bem, ela preferiu ir com Quiron para o outro lado. – diz ele, e desvia o olhar para Sal – Vai até eles, e fala que eu a achei. – ele diz para ela.
- Não Sal, fica aqui. E desculpa pela árvore tá? Nós mesmos vamos avisar eles. – dou-lhe um beijo de despedida, e agarro Rayder pelo braço.
- Mas... – ele diz.
- Quem você pensa que é pra falar com ela assim? – respiro fundo, para evitar outra briga. – Olha, você não pode sair dando ordens desse jeito.
- Desculpa garo... Luce. É que eu e uns outros semideuses estamos te procurando faz um tempão, e Quíron também foi chamado pra te procurar. Alguns filhos de Hermes e Ares estão apostando se você já morreu.
- Luce! — Ouço uma voz feminina atrás de nós, e assim que viro Thiana se atira sobre mim.
- O que ta fazendo aqui menina? — pergunta Rayder, nervoso – Achei que tinha ficado no chalé.
- Você realmente acreditou? To te seguindo desde que você resolveu andar sozinho. Como se o Quiron fosse realmente conseguir achar ela, tá. – Thiana diz.
- Que bom que tá aqui Thiana! — abraço-a, e faço uma careta para Rayder. – Sabe pra onde eles foram?
Ela faz que sim com a cabeça, e nos guia por um longo caminha pela floresta, até encontrarmos Quiron com Emma nas costas. Ela está segurando lágrimas.
- Emma! – Chama Rayder – Achei ela.
- LUCE! – grita ela, e se joga das costas de Quiron, caindo fortemente no chão. – Hum, ai. Você me assustou Rayder... Bom que achou ela. Já podemos ir jantar agora. – Diz ela friamente, e sobe em Quiron.
- Que bom que está bem querida. – diz Quiron. – Quer uma carona?
- Não, obrigado. – recuso.
- Eu aceito! Diz meu irmão, e sobe nas costas de Quiron.
— Cabe mais uma né? – Diz Thiana, que na verdade, já está praticamente em cima dele.
- Claro, claro. – diz Quiron, e galopa pela floresta. Vou caminhando alguns passos atrás dele, até sairmos perto da quadra de vôlei. Ele toca uma espécie de concha, que faz um barulho enorme, e aos poucos alguns semideuses vão saindo da floresta.
- Rayder, se importa de avisar aos conselheiros para se prepararem para o jantar? Daqui a meia hora, quero todos aqui. – Diz ele, sem folego.
- Claro que não.
- Vou junto! – Grita Emma, e praticamente se atira em cima de Rayder, que sorri para ela. Os dois começam a correr em direção aos chalés.
- Quiron, não estou com fome. Vou pra cama, posso? – digo.
- Você não deveria comer antes? – fala ele, cruzando os braços.
- Não estou com fome. – olho pro chão.
- Tudo bem, eu aviso aos seus irmãos. – Quíron fala.
- Obrigado. – digo, me virando em direção ao meu chalé.
Corro até o meu chalé, antes que Emma e Rayder possam ver, tiro as roupas deslizo para dentro das cobertas só com as roupas de baixo. “dane-se”, penso, então durmo quase automaticamente.
Em meu sonho, estou com os olhos vendados, e não vejo nada além da escuridão. Sinto o chão frio nas minhas pernas, pois estou jogada no chão de joelhos. Sinto uma presença na minha frente, e essa sim, cheira a morte. É como se ele fosse a própria morte.
- Luce, filha... – diz a sombra, que parece ser um homem.
- Não me chame de filha! – grito, pois sei quem fala – Não quero ser sua filha! Eu odeio você!
- Olha querida, entendo que você esteja com raiva, mais, eu não tenho culpa. Eu não tinha como te ajudar, mesmo. O que pude, eu fiz. Sua mãe não quis te enviar para o acampamento quando você e sua irmã eram pequenas então fizemos um acordo: Quando chegasse a hora, vocês seriam escolhidas para a colheita e trazidas para o acampamento. – Diz ele, como se esperasse que isso fosse mudar totalmente minha visão sobre ele.
- E quem disse que me refiro só a minha mãe e minha irmã Hades? Estou falando de tudo. Além de tudo que você fez eu, Emma e minha mãe passarmos, você já pensou nas famílias destruídas quando você as trouxe para serem torturadas aqui na Rússia? Pensou no sofrimento, não só das crianças, mais dos pais e da família? – E realmente, não sinto raiva dele só por mim, mais por todas as outras famílias que sofreram por ele.
- Olha filha... – diz Hades.
- Não me chama de filha! – grito.
- Luce. Olha Luce, você não sabe, mais eu tenho motivos pra isso. Essas pessoas todas merecem ser torturadas. Apolo escolhe exatamente as crianças que irão fazer mal para serem mortas, portanto... – ele diz, mas eu o interrompo.
- Me poupe! Primeiro, que elas ainda nem fizeram nada para serem castigadas, e segundo, a família deles Hades. O que eles fizeram para que merecessem ver os seus filhos torturados até a morte?
- Olha querida... – ele fala.
- LUCE! – grito, mais uma vez.
- Olha Luce – vejo seu tom de voz um pouco mais alto – Eu e Zeus fizemos um juramento sobre o estige, e isso é uma coisa que nem mesmo eu posso mudar.
- Ah, ótimo, isso diminuiu meu ódio por você.
- Luce, eu não tenho escolha menina! – Ele já está quase gritando. Estou irritando ele. “ah, ótimo”, penso, satisfeita – Se você visse o que Zeus faria com o mundo se perdessemos, desejaria mais mil Rússias.
- Mas ele não ganhou.
- Por favor Luce, pare com isso. Por que não é como seus irmãos? Eles entendem como é para mim ter que destruir uma família todo ano e...
- Não quero ser como eles. Você não merece o meu respeito, eu odeio você.
- Que assim seja então. Odeie-me a vontade garota, mais isso não muda nada. Você ainda é minha filha. – diz ele triunfante, como uma criancinha ganhando uma discussão na primeira série.
- Vou odiar mesmo. – assim que as palavras saem da minha boca, o sonho muda completamente. Estou em casa, com minha mãe, e Hades está lá. Na verdade, ainda estou de olhos vendados, mais sei que são eles ali, e sei que estão sobre a mesa.
-Ela não entende... Eu... Eu tentei querida, fazer com que ela visse que faço isso por elas mais... – Hades está falando com minha mãe.
- Tudo bem meu amor, Luce é bem mais teimosa que Emma. Sempre foi. – ouço a voz de minha mãe, e me sinto muito mais calma que há alguns segundos.
- Se eu pudesse falar para ela... – Hades diz, pensativo.
- Não, ela não está preparada. E mesmo que você diga, ela nunca vai acreditar em você.
- Mas em você sim Haya.
Acordo com um pulo, e com Rayder me observando da sua cama. Estou toda suada, e grudenta, ainda só com as roupas de baixo.
- Tudo bem Luce? – pergunta ele, com um tom preocupado.
- Sim. Foi só um pesadelo. Onde fica o banheiro?
- Olha Luce, me desculpa pelo que eu disse. Eu realmente não...
- Claro, não foi nada. Onde é o banheiro? – pergunto de novo, e ele aponta para uma pequena porta branca no canto do chalé. – obrigado. – digo, enquanto me enrolo no cobertor, pego o pijama e vou tomar um banho. Sinto a água escorrendo pelo meu corpo, e isso me acalma muito.
Quando saio do banho, já é quase de manhã, então resolvo por uma roupa mesmo, e saio, sem ruído algum. Não sei se é permitido, mais sinceramente, estou pouco me lixando pra isso. Corro um pouco, e me sento atrás do chalé, sozinha. Vejo o sol nascer, e acabo dormindo ali mesmo, ali atrás.
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