Filhos das sombras
4 Partida
Notas iniciais
Narração: Emma
Apenas ouço a apresentadora dizer “Família Lee”. Depois disso, tudo a minha volta parou, e eu não ouvi nem senti mais nada. Estou muito atordoada, isso não pode ser verdade. Eu e Luce seremos obrigadas a nos separar da nossa mãe, seremos levadas para outro lugar, e seremos torturadas publicamente.
Desabo no chão. Vejo minha irmã correr para amparar mamãe, caso ela desmaie. Bem devagar, eu me levanto, e olho para minha mãe . Ela está muito pálida, e tremendo. Luce, com os olhos já inchados de tanto chorar, diz:
– Emma, me ajuda com a mamãe. – ela está com as mãos no ombro de mamãe, que não consegue andar ou falar alguma coisa.
Me levanto e cambaleio até elas, para ajudar Luce. Saímos de perto do palco, e caminhamos até a nossa casa, que não é tão longe.
– Não pode ser... Ele me prometeu... – mamãe sussurra com esforço no caminho
Ele... Bom, eu não faço ideia de quem é. Olho para Luce, que também parece estar pensando no que mamãe dissera. Com um olhar apenas, entendo o que ela quer dizer “Também não faço a mínima ideia”.
Chegamos em casa. Vamos até o quarto de mamãe e a deitamos. Eu lhe digo:
– Mamãe, durma e amanhã nós conversamos. – dou-lhe um beijo na testa e fecho a porta.
Encontro Luce em nosso quarto, sentada em sua cama com o rosto enterrado em suas mãos, soluçando de uma maneira que acho que a qualquer momento ela vai se engasgar com suas lagrimas. Praticamente me arrasto até ela, a abraço, e enquanto Luce seca o rosto, ela grita:
– Eles virão nos buscar... Eu não quero ir! Não quero me separar da minha mãe! Eles não tem o direito de fazer isso!
– E você acha que eu quero? Olhe Luce, a única coisa que podemos fazer é passar essa noite com nossa mãe e aproveitar. – choramingo.
– Emma... E se fugíssemos? – pergunta Luce, tensa, mas percebo um leve brilho em seus olhos.
– Não adiantaria. Apenas os atrasaríamos, e eles iriam nos procurar. Além disso, os castigos só seriam piores, e provavelmente, eles também levariam mamãe para ser torturada– respondo.
Luce chora ainda mais. Digo a ela para se deitar e dormir um pouco. Enquanto ela se acaba de chorar, pego o meu livro para ver se me distraio, e tiro pelo menos por um tempo da minha cabeça tudo que está acontecendo. A casa está silenciosa, e então posso ler meu livro em paz. Acabo que adormecendo, e então outro sonho vem me atormentar.
Estou em um avião, com Luce sentada ao meu lado, quando o avião pousa. Chegamos ao nosso destino. Policiais aparecem dentro do avião e nos escoltaam por uma floresta. Caminhamos devagar, com os policiais atrás de nós. O caminho se abre, e eu posso ver uma multidão gritando empolgadamente e um palco de madeira. Tem dois bancos ali. Enquanto andamos entre a multidão, jogam coisas em nós, como latas de refrigerante, restos de comida, pacotes e lixo em geral. Eu e Luce somos obrigadas a subir no palco, e um dos policiais me joga no chão. Acordo.
Luce olha pra mim curiosamente. Ela está assustada, como se tivesse tido um sonho... ou talvez um pesadelo. Um pesadelo... Sento-me na cama e pergunto:
– Luce, não me diga que você... – não digo mais nada. Ela me entendeu, nem sempre precisamos acabar as frases para nos entendermos, é como se pudéssemos nos comunicar sem uma palavra se quer.
– A gente estava sendo levada pras maquinas de tortura, e daí um dos policiais te jogou no chão, e você desmaiou. Depois disso, eu... eu não sei, a multidão meio que ficou apavorada de repente... Não me lembro direito, acordei logo em seguida.
– Sim... – não me lembro da parte das pessoas assustadas, mais ainda assim, o restante fora igual. — E no seu sonho, fomos vaiadas por uma multidão?
– Emma... Sonhamos a mesma coisa novamente. Acha que isso... acha que pode ser... –ela treme
– Tomara que não Luce. Torça para que isso não seja real, caso contrário, seremos mortas naquela droga de palco.
– Mais Emma, nunca tínhamos tido sonhos iguais, até a noite anterior a colheita, e quando tivemos, a coisa aconteceu. Estou... com medo mana.
Fico em silencio, pois ela tinha pensado a mesma coisa que eu. Não, não é verdade. Não pode ser. Nós vamos realmente morrer lá? Será que o que assustou a multidão... Poderia nos salvar? Claro que não. Iriamos sim morrer lá, na droga do palco.
Passamos o resto da noite lendo em nosso quarto, porque mamãe ainda dormia. Fico pensando em como mamãe vai ficar depois que nos levarem para a Rússia. A única coisa que quero agora, é que minha mãe fique bem. Vou até a cozinha, preparar alguma coisa para mim e Luce. Faço uma coisa bem básica para jantarmos, apenas alguns ovos de pato, e o que sobrou de arroz do almoço. Nós comemos em silencio, quando mamãe sai do escuro. Ela não está em seu melhor estado, mas parece ter feito um grande esforço para conseguir ao menos parar de chorar. Seus olhos estão vermelhos e inchados, duvido que ela tenha realmente dormido.
– Mamãe, senta aqui. Preparei o jantar para nós. – ela se senta, e come devagar.
O jantar é bem silencioso. Às vezes eu e Luce trocamos olhares, como quem pergunta “silencio né?”. Comemos sem dizer nada, quando mamãe termia seu prato e se dirige ao seu quarto. Luce finalmente dis alguma coisa:
– O que ela tem? Desde que chegamos em casa ela está muito estranha.
– Ela está abatida né Luce, imagine o que é para uma mãe ser separada das únicas companheiras que tem? –digo
Luce volta a chorar, como se estivesse tentando esquecer o que estava acontecendo, e eu tivesse refrescado tudo em sua memória. Vou até ela, a abraço, e tento me manter calma. Assim como ela havia se controlado quando fomos escolhidas, eu estava tentando me controlar agora mesmo sabendo que estamos indo ao encontro de nossa morte. Vou até o quarto e volto a ler, deixando Luce na cozinha. Posso ouvir seus soluços, mas acho que entendo o raciocínio dela. Melhor esgotar o estoque da lagrimas em casa, onde ninguém pode ver, do que na Russia, em publico, e estou decidida, a não dar esse gostinho a eles. Por que é isso que eles esperam. Por que é isso que eles querem, querem nos ver sofrendo. Claro que vou sofrer naquele palco, mais em silencio. Assim como Luce provavelmente fará. Pensando assim, me entrego as lagrimas até adormecer.
Quando acordo Luce está sentada em minha cama. Sento-me também
– O que aconteceu? – pergunto assustada. Luce me encarava de uma maneira estranha, e eu não gosto quando ela faz isso.
– Nada. Só estava te olhando... pelo menos você vai estar comigo. – diz.
– Sempre, irmã. – seguro a sua mão. – Agora, tente descansar um pouco, porque essa pode ser a nossa ultima chance de fazer isso.
Ela joga o vestido para o lado, e desliza para baixo das cobertas sem nem mesmo por o seu pijama. Eu também volto a dormir, e nenhum sonho me assombra essa noite. Ótimo, na ultima noite da minha vida, eu não tenho pesadelos. Penso, quando acordo com o barulho de alguns trovoes.
Lembro-me de quando eu e Luce éramos pequenas, quando em dias de tempestade, fazíamos uma cabana com as cobertas e ficávamos ali, contando histórias inventadas de terror uma para a outra. Levanto e me arrasto até a cama de Luce para acordá-la. Ela fica linda dormindo, os cachos sempre grudados em sua face por causa do suor e sua leve respiração. Sacudo-a pelo braço e digo:
– Luce... Acorda, já... Já é tarde. – sussurro.
– Eu não quero levantar Emma. Quero a minha vida normal. Antes de... – sua frase é cortada, por lagrimas que cortam sua face.
– Você sabe que não podemos fazer nada, Luce. – tento parecer calma.
Com o rosto inchado, ela se levanta e vai até o banheiro para se lavar. Troco de roupa e me sento na cama. Sinto o mesmo que Luce, mas quero me manter forte, para ela, assim como ela foi forte no momento em que nossos nomes foram escolhidos. Assim como eu sei que ela vai se manter forte assim que nossa mãe acordar, e assim como ela sempre se manteve forte por mim, quando precisei dela. Acho que pelo menos em casa, ela merece que alguém a proteja...
Luce sai do banheiro para se trocar, e eu apenas lavo o rosto. Posso tomar banho mais tarde. Ouço passos na cozinha. Eram de minha mãe, pois Luce só faz barulho quando quer. Eu devia ter sido mais silenciosa ao acordar. Visto um par de calças jeans, e uma camisa preta. Eu e minha irmã vamos até a cozinha e abraçamos nossa mãe, que se poe a chorar. Nesse momento, um homem bate na nossa porta:
– Estamos aqui para levar... – ele lê com dificuldade um pedaço de papel. – Luce e Emma Lee.
Paraliso. Eles estão adiantados, queria ao menos tomar meu último café da manhã juntamente com minha mãe, ou me despedir direito dela. Minha irmã se segura em minha mãe por um instante, e acho que ela vai chorar, mais então caminha firmemente até a porta.
– Já estamos indo, senhor. Nos dê um minuto para nos despedirmos de nossa mãe. – diz ela tentando parecer calma, mais o tom de raiva em sua voz estava muito claro, pelo menos pra mim
Olho para minha mãe:
– Vamos voltar para você mamãe. Te amamos. – digo, com lagrimas nos olhos, então percebo que provavelmente vou chorar a viajem toda.
– Vocês são especiais, minhas queridas, vão sobreviver. – diz mamãe, com certo brilho nos olhos inchados. – Amo vocês.
Não quero me separar dela, mas o guarda já estava impaciente. Ele nos leva para fora de nossa casa e nós caminhamos lentamente até o avião, que esta pousada no lugar onde fora o Dia da Colheita. Enquanto vamos em direção a ele, olho minha mãe que esta ali, parada na porta, nos olhando.
Eu dei uma boa olhada, por que sem duvida, está será a ultima vez que vou ver a minha casa.
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