Filhos das sombras
5 Fuga
Notas iniciais
Seguro as lágrimas. Chorei o dia todo ontem, mas me recuso a chorar aqui, na frente dos russos. Caminho, irritada, até o avião. O avião é exatamente como o do sonho, parece um daqueles transportadores de bagagens, e etc. Olho para Emma, e vejo que ela também reparou nisso, e ela está se esforçando muito para não chorar. Provavelmente, ela também não quer chorar na frente de toda aquela nação que acha que tem qualquer direito sobre nós. Eles não têm. Eles não podem fazer isso. Eles só continuam nos torturando, por que deixamos. E eu, hipocritamente, estou deixando.
Tento tirar isso da cabeça, realmente não há nada que eu possa fazer. Bom, há sim, mais se eu fizer algo errado, quem vai pagar não vou ser eu. Vai ser minha mãe, ou minha irmã, se elas ainda estiverem vivas, e eu não quero que aconteça o que aconteceu daquela vez.
Há alguns anos, uma família de cinco crianças foi sorteada, e o irmão mais velho, tentou fazer que os irmãos ficassem, brigou com os guardas ou algo assim. Seus pais e todos os irmãos foram torturados durante vários meses, na frente dele, até que eles morreram, mas os russos não mataram o menino, eles o deixaram vivo até que ele enlouquecesse, e ele acabou se matando sozinho.
Odeio os russos, eles são muito cruéis. Apenas fico sentada, encarando os guardas que nos esperavam dentro daquele avião. A maioria deles, não olhava nos meus olhos por mais de alguns segundos, mais um dos guardas, não tirou os olhos de mim. O avião começa a decolar e eu sinto um enorme frio na barriga ao ver que estão levando a mim e minha irmã para a morte.
Em certo momento do voo, eu mesma desviei o olhar dele, para poder abraçar Emma. Ela está com a cabeça enfiada nas mãos, e sentando não soluçar. Imagino como Emma se sente, ela sempre foi um pouco mais sensível que eu.
- Não chora Emma, eles não merecem que nós derramemos nem uma lagrima por eles. – digo em voz alta, realmente não estou com medo deles, quero que eles se sintam culpados por isso, por pelo menos um momento. – A menos que esteja chorando pela nossa mãe, pare agora tá?
- Ok Luce, por você e pela mamãe eu vou parar. Mas eles vão sim, ter o que merecem, em pouco tempo. – diz ela com uma voz ameaçadora, que não sei de onde surgiu. No momento que ela diz isso, percebo que ela se arrependeu instantaneamente, e ela me observa como se estivesse tentando descobrir da onde tinha tirado aquilo.
— Pois é meninas, podemos ver como vocês são fortes e ameaçadoras. Realmente, me assustou agora Emu. – diz o homem que estava me encarando alguns minutos atrás. Ele era alto, com um cavanhaque e careca.
- É Emma! – digo nervosa. – Não consegue nem mesmo pronunciar um nome direito?
-Se enxerga garota inútil. – ele me dá um tapa na cara, e Emma grita, com a mão em sua boca. Vejo lágrimas brotando em seus olhos. – Realmente você acha que pode ameaçar alguém com essa carinha de bebê? Vai ser um prazer matar vocês, e vou fazer questão que a morte das duas seja bem lenta e dolorosa, para que sua mamãezinha possa admirar bem.
Minha face lateja de dor. Tenho certeza que está muito vermelha, pois na minha pele clara, qualquer tapinha fica marcado. Tento falar algo em minha defesa, mais as palavras não saem. Minha cara inteira dói, o tapa foi realmente forte. Forte o bastante para me derrubar do banco, e me fazer dar de cabeça no chão.
- Isso, vai lá fortão, espanque meninas de treze anos. – Emma grita, enquanto corre me socorrer.
O homem avança para bater nela, mais outro guarda o segura:
- Deixe elas Jean – diz ele – tem mais espaço, e mais instrumentos lá no palco. Se acalme.
Jean senta-se, resmungando, e Emma me puxa de volta para o meu lugar. Volto a encarar duramente Jean, mesmo com a cara inchada, e permaneço firme, sem desviar os olhos uma só vez até chegarmos á Rússia.
Quando chegamos lá, quase desmaio. É igual ao sonho, tudo. Passamos pela floresta, e saímos entre a multidão, que joga inúmeras coisas na gente. Emma está ficando num tom esverdeado, com certeza ela reparou que é exatamente como o sonho. Não tem como ela não ter reparado. Os guardas me levam até o palco, e Jean olha para mim com um olhar malicioso.
Svetlana aparece, e faz um longo discurso sobre como os EUA trouxeram sofrimento para o planeta durante séculos. Quando o discurso acaba, ela simplesmente fala que, nesse ano, o guarda designado para ser o responsável pelas nossas torturas é Jean, e que ele pode fazer o que quiser com a gente agora.
- E então docinho, pronta para aprender a não ser tão convencidinha? – sussurra ele, com um tom superior. – Pena que você não vai viver o bastante para aproveitar a sua lição.
Ele pega Emma pelo braço, e a joga no chão com tanta força, que ela cai como uma boneca de pano e desmaia, sem nem mesmo ter tido a chance de gritar.
- Emma! – berro, mais eu já estava esperando por isso, assim como estou esperando o que vem a seguir.
Toda a multidão fica subitamente parada, e em silencio. Ouço apenas uma criança do fundo gritar:
- Pônei! – Olhei para a criança. Era uma menininha com cabelos ruivos, aparentemente tinha menos de 5 anos.
E então acontece.
Uma dúzia de cavalos enormes, e com as bocas ensanguentadas se jogam entre todas as pessoas presentes ali. Vejo-os mordendo as pessoas, o caos se instalou no local. Seus dentes cortando a carne humana como manteiga. Não posso entender, cavalos... Comendo carne? Como assim? Não paro para pensar nisso por muito tempo, pois minha irmã ainda está caída no chão. Pego-a pela cintura, e a levanto. Ela não é nada pesada, então a levanto com facilidade.
Vejo um cavalo subindo no palco, e começo a entrar em pânico. E agora? Não posso me salvar, muito menos salvar a minha irmã.
- Mas o que... – ouço alguém dizer, e só então me lembro de que Jean ainda está no palco.
O cavalo o observa, e talvez por ele ser maior, ou simplesmente por que eu e minha irmã estamos em um estado horrível, o animal pula sobre Jean, e lhe arranca a cabeça enquanto ele grita em agonia. Olho para a multidão que estava ali um segundo antes, e vejo que não sobra nada, apenas eu e Emma. Agora, fico realmente apavorada. Talvez eu consiga correr... não, nunca que eu iria correr mais que eles, os vi saltando e correndo atrás das pessoas, não teria chances de fugir deles nem mesmo se Emma estivesse consciente.
Preparo-me para o pior, quando vejo uma mulher muito estranha, com pele enrugada e um casaco de couro. Corra! Sinto vontade de gritar, mais as palavras não saem. Apenas fecho os olhos, quando vejo todos os cavalos correndo para cima dela. Um milésimo de segundo depois sinto mãos finas e enrugadas tocando meus ombros e gritando comigo:
- Ande garota, os cavalos carnívoros não vão te poupar só porque você é magrela desse jeito! – A mulher estranha está do meu lado.
Como... Penso. Mas ela já está me empurrando para o meio da floresta, e de alguma maneira, pegou Emma de meus braços e a carregava no colo. Não me contenho, e disparo a perguntar:
- O que está acontecendo? O que são eles? Nós... Vamos ficar bem? Eles vão vir atrás de n... – sou interrompida.
- Cale a boca! – ela grita. Obedeço.
Chegamos a um tipo de carro no meio da floresta, e ouço os cavalos relichando em protesto atrás de nós. Como conseguimos correr tanto sem eles nos comerem eu não sei. Não faço ideia do que essa mulher louca pode ter feito, mais com certeza, foi eficiente.
- Entre nesse carro. E de isso a sua irmã! – ela grita, me arrastando para dentro do carro, e me jogando uma lancheira colorida. Abro-a. Tem um tipo de bolo lá dentro, e eu o enfio pela boca da minha irmã. A mulher volta a aparecer, e de alguma maneira, os cavalos pararam de me seguir de novo.
- Ponha cinto, e o coloque na Emma também. – Ela fala, enquanto se joga no banco do motorista. Imagino que ela saiba o nome de minha irmã, pela colheita e tudo mais, mas não paro por muito tempo para pensar nisso. Coloco o cinto em mim e em Emma, e a mulher dispara há mais de 100 km por hora.
- Dá pra explicar o que está acontecendo? – Pergunto, desesperada.
- Não. Ainda não. Sem mais perguntas. – ela fala.
Acho melhor obedecê-la. Ela me assusta, mesmo sendo só uma velha magrela... Não, ela não é só uma velha magrela, ela é... Diferente. Sinto algo nela, como um cheiro, ou algo assim. O cheiro de morte. Não sei dizer quanto tempo se passou, quando Emma acorda, e começa a falar.
- O sonho Luce, o sonho... – geme ela.
- Quieta Emma – Indico com a cabeça a mulher que está dirigindo, e ela arregala os olhos, como se também pudesse sentir... a morte nela. Lanço lhe um olhar antes que ela possa dizer algo, e, graças a Deus, ela entende, e fica quieta durante todo o restante da viagem.
Depois do que me pareceram várias horas, a mulher fala conosco:
- Me chamo Megera. Vou deixá-las aqui, não tenho permissão para entrar no acampamento – ela aponta para algumas colinas logo acima – Está vendo aquilo? Uma delas leva para onde vocês tem que chegar. Vocês vão saber qual é, agora desçam. Quando chegarem lá, procurem por Quíron, e não parem até chegarem lá.
- Como vamos saber se... – Emma pergunta, ainda um pouco tonta.
- Sem mais perguntas. – Megera a interrompe – Eles irão lhes explicar tudo quando chegarem lá. Boa sorte meninas, voltaremos a nos ver.
- Mas... – Emma volta a resmungar, e a cutuco antes que ela possa dizer mais alguma coisa.
— Obrigado... Senhorita? – digo, tentando parecer equilibrada. Ela sorri.
- Não há de que querida, vai com cuidado. – ela responde.
Saímos do carro, e quando nos viramos, o carro sumiu, assim como Megera, e aquela presença de morte.
- Luce, o que aconteceu? – Emma pergunta, assustada.
Conto-lhe tudo que houve desde que ela desmaiou.
- Então, vocês foram atacadas por cavalos? Tem certeza que está bem Luce? – Emma fala, como se eu fosse uma louca.
- Isso é sério Emma! – Grito, quase chorando – tem ideia do que pode estar acontecendo na Rússia agora? Do que nossa mãe pode estar pensando? – contenho as lágrimas. Não chorei a viagem toda, não é aqui que vou amarelar.
- Tudo bem, calma. Agora vamos procurar a droga do Acampamento. – contenho um breve sorriso.
- Uma droga de comida cairia bem. – digo, e Emma sorri.
- Uma droga de cama também. – nós duas rimos. Acho que pode ser a tensão, ou simplesmente o medo e cansaço que estamos sentindo, mais continuamos gargalhando por um bom tempo.
- Tudo bem sua idiota – diz Emma, mais posso vê-la lutando contra um sorriso – Podemos achar o acampamento agora?
Aceno com a cabeça. Caminhamos pelas colinas, sem falar muito, quando enxergamos uma colina exatamente como as outras, menos por um tipo de tecido brilhante pendurado numa árvore, e um... Dragão deitado ao seu lado, com uma criança acariciando lhe a cabeça.
- Ai meu deus. Me fale que não estou louca Luce – Emma diz, mais sua voz quase não sai.
Balanço a cabeça, em negativa, e nós duas nos olhamos. A criança que estava lá nos vê, e toca um tipo de apito ou algo assim, e percebo que vamos ter que ir até lá, de um jeito ou de outro. Emma e eu caminhamos colina acima, até chegarmos perto do dragão, mais a criança não está mais lá. Fico com um leve medo, mais o dragão mal me olha. Quando chego ao topo, não posso acreditar no que vejo. É, eu estou louca.
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