Filhos da Ordem Chamas da Justiça
1 Capítulo 1
Lá estava ele, no meio da escola de esgrima, onde passara quase toda a sua vida, sem entender como era possível que alguém tivesse feito aquilo, ali viviam os melhores espadachins de todo o continente de Lichimia, e talvez do mundo, aquele lugar antes tão cheio de vida e alegria, agora estava destruído não parecia ser o lugar onde ele cresceu, e viveu a maior parte da sua vida, então começou a procurar por sobreviventes, e tudo que ele via eram amigos, e outros jovens que deveriam ter chegado lá para aprender a fina arte da esgrima, o estilo tido como o mais letal e belo de todos, depois que ele havia partido, além de vários homens mortos, humanos, akaramirans, sokupos, e de varias outras espécies, ate mesmo um filadope, pelos ferimentos nos alunos ele pode deduzir que eram assassinos experientes que tinham atacado o lugar, a maioria deles provavelmente tinha morrido rápido, devido aos cortes na garganta ou golpes na cabeça. Já os invasores, tinham membros amputados, vários deviam ter sangrado até a morte, a única coisa que todos os assassinos tinham em comum era um desenho que era formado por duas letras “V” ligadas, ligação que formava um losango, desenho esse que ficava nas costas de ambas as mãos, ou de uma única mão. E todos usavam um sobretudo marrom.
Já haviam passados algumas horas, quando decidiu ir até o quarto do mestre quando chegou lá, achou um garoto caído na frente da porta do quarto próximo a ele haviam dois corpos e uma poça de sangue, Pryor correu até o garoto, e só então ele notou que ele havia perdido sua perna esquerda. Quando ele virou o garoto viu vários cortes o maior deles ia do ombro direito até o lado esquerdo da base do torso.
Depois de um tempo, ele reconheceu o jovem em seus braços, era uma das crianças que tinham chegado lá poucos meses antes dele ir embora, mas apesar do pouco tempo que tinham convivido eles haviam se tornado grandes amigos, ele chegará a ver naquele menino um irmão mais novo, via ele de forma totalmente diferente dos outros, era quase como se aquele garoto fosse de fato seu irmão, irmão de sangue, lamentando a perda ele foi até os homens caídos, mas estes também estavam mortos como todos os outros, então decidiu fazer como na época em que viveu lá.
Quando alguém morria era feito uma festa, não uma festa para comemorar a morte, mais sim para comemorar a vida, os bons momentos, as boas lembranças, e no fim da noite, queimavam o corpo, e todos os pertences do morto, menos aqueles que tivessem avisado que deixaria para alguém quando morresse.
Ele então juntou no salão de cerimonias todos os corpos que pode, parou já tarde da noite, comeu a pouca carne de coelho que tinha, e bebeu o resto da cerveja que ainda tinha.
Teria que dormir lá mesmo, a cidade mais próxima ficava há quase três dias, depois de jantar procurou por um quarto onde pudesse passar a noite, tentou dormir apesar da tristeza que o consumia, tarefa essa que se mostrou impossível, durante toda a noite lembranças lhe viam fazendo que ele chorasse muito, seu coração agora estava cheio de ódio.
Ainda não sei como mais, vou vingar todos vocês, com certeza vou – Jurou baixinho enxugando as lagrimas que lhe escorriam pelo rosto.
Já era quase manhã, quando ele se levantou e buscou os últimos corpos depois de juntar todos no salão de cerimonias e foi até a dispensa e lá pegou todo o álcool, assim foi boa parte de sua manhã, pegar álcool levar até lá e depois de almoçar ele terminou em, pelos cálculos dele, uma hora e meia, de juntar todo álcool e bebida que pode juntar lá, e jogou até que eles estivessem bem molhados, e então ele incendiou a pilha de corpos, ele havia contado quase oitocentos corpos incluindo os invasores, que eram minoria, sendo quase cento e cinquenta, a julgar pelo estado do corpo não tinham, mas que três dias que eles tinham sido mortos.
Deixou-os lá pegando fogo e foi ate o deposito e juntou toda comida que pode, encheu seu cantil de água, e partiu para Kimuria, depois de algumas horas andando ele começou a ouvir um barulho estranho, então um Jauat apareceu correndo na direção dele, Pryor não pensou duas vezes pós a mão no cabo sua espada pronto para desembainha-la, mais o Jauat passou correndo por ele, como se ele não importasse, ainda que fosse um filhote, era preocupante que ele estivesse fugindo de algo, já que os Jauats eram os maiores predadores da região, eles apenas fugiam de outros Jauats, e mesmo assim era difícil acontecer, ou de grandes grupos de Xutucors, mas algo dizia a ele que era a primeira opção. Ele saiu correndo e se subiu uma arvore próxima e torceu para que ele fosse ignorado, e logo em seguida ele viu a fera de dois metros e meio de altura correndo, apesar de parecer um lobo sem qualquer pelo, tinha pele negra como a noite e dura que servia para proteção, ele tinha dentes enormes, dos quais os quatro caninos chegavam a ficar para fora de sua boca, quando atingia a idade adulta, e tinha sete olhos, um na testa, dois no rosto e quatro na lateral da cabeça, por um momento a fera parou e encarou-o pensando se valia a pena mudar a presa, depois de alguns segundos ele decidiu voltar a correr atrás da presa anterior, e sumiu.
Ele permaneceu ali por algum tempo e só quando julgou seguro desceu da arvore, e continuou seu caminho por mais algumas horas, quando já estava chegando à noite ele começou a procurar por alguma clareira, a noite já havia chegado quando ele finalmente achou uma, próxima a um rio onde decidiu se banhar. Já estava acabando seu banho quando ele viu uma sombra se espreitando.
– Quem está ai? – Pryor perguntou indo com calma ate sua espada, deixando que a luz da lua iluminasse seu corpo cheio de cicatrizes nos braços, pernas e principalmente no tronco, o cabelo ruivo caído sobre o rosto, ele ficou nervoso ao notar que ela observava seu dorso.
A criatura na sombra foi mais rápida que ele, e pegou sua espada – Quem é você? – perguntou a criatura, revelando-se na luz da fogueira que agora queimava mais intensamente, era na verdade uma mulher, com longos cabelos verdes e pele rosa, ele notou que era uma kaugag, suas curvas eram incrivelmente perfeitas, tudo nela era proporcional.
– Sou Pryor, e você é?
– Sou Liana- respondeu a jovem kaugag de pele rosada, característica das fêmeas da espécie, sendo os machos verdes.
Pela forma das pinturas que lhe cobriam quase todo o corpo ele deduziu que ela era de Mostag, era jovem ou pelo menos parecia, devia ter no máximo quarenta anos, provavelmente tinha acabado de entrar na idade adulta de sua espécie.
Curioso pelo fato de ela estar tão longe de casa, ainda mais sendo tão jovem, perguntou-lhe – Você esta sozinha?
– Sim estou minha vila foi atacada, venderam os poucos sobreviventes como escravos, eu consegui fugir e vivo nessa floresta desde então. – respondeu, logo em seguida fez alguns gestos com as mãos.
– Você sabe o que aconteceu com a escola Drognar? – Perguntou.
– Não sei de muita coisa, apenas que estavam procurando uma pessoa especifica, e o mestre Jaugag falou que não sabia quem era a pessoa, eles não acreditaram nele, tentaram fazer ele contar o que queriam, estavam convencidos de que ele sabia onde estava a tal pessoa, e depois de um tempo perderam a paciência e atacaram-o, os alunos não deixaram que ele fosse ferido, e atacaram os homens, foi uma carnificina, uma pena tantas mortes sem sentido, apenas cinco homens sobreviveram ao combate, porem os ferimentos deles eram muito graves, um deles se curou com magia, os outros quatro morreram. – falou observando ele atentamente.
– Como assim com magia? – Pryor estava claramente confuso – Não sobraram muitos magos, e os poucos que ainda vivem são muito velhos, não tem como um deles estarem andando por ai matando espadachins tão bons. Mesmo com magia isso iria precisar de vários magos.
– Ele tinha uma pedra azul, tinha quase o tamanho da mão, ele foi passando pelo corpo.
– Como você sabe tanto? – questionou mostrando raiva pelo fato de a mulher ter ficado apenas observando.
– Os pássaros me contaram, sempre tem muitos deles por lá, os animais são os melhores informantes que alguém pode querer – disse sorrindo.
– Há os Kaugags podem falar com animais, como pude me esquecer disso – Ele pensou observando-a.
Ele então vestiu suas roupas e ofereceu um pedaço de carne, ela recusou explicando que não comia animais apenas plantas, e mesmo assim comia apenas aquilo que era realmente necessário e nada a mais que isso, o que já tinha feito, ele então contou sobre sua vida na escola, e como sempre perdia para os outros por ser extremamente impulsivo, contou também as duas vezes que quase foi morto por Jauats, e começou a chorar e lamentar a morte de seu mestre, a quem ele via como um pai, e de seus amigos que eram como irmãos, sua família tinha sido morta e ele sentia como se tudo que devesse fazer era buscar vingança . Eles conversaram por mais algum tempo, então decidiram ir dormir.
Quando acordaram pouco depois do nascer do sol, havia alguns animais ao redor dela, coisa normal, os kaugags tinham uma ótima relação com a natureza, e costumavam ser vistos como protetores pelos animais do lugar onde vivia então logo ela disse para ele que precisava resolver uma coisa, ele se ofereceu para ajudar, ela aceitou depois dele insistir, tinha tempo para ajudar.
– Além do mais eu sou o melhor espadachim que já foi treinado pelo Mestre, segundo ele talvez o melhor em séculos. – Falou gabando-se com um sorriso que logo sumiu.
Ambos correram até o lago, chegando lá, havia alguns caçadores tentando matar uma Jauat gravida e seus dois filhotes, um deles estava com um corte na pata esquerda da frente.
Eles foram se esgueirando pelo mato, e Liana atacou o que estava mais próximo, com um golpe na cabeça dele, usando uma pedra que tinha achado ali perto, enquanto Pryor avançou com sua espada ainda na bainha, e golpeava com uma estocada o abdômen do homem logo atrás, outros dois tentaram ataca-lo mais ele conseguiu rebater o ataque de um deles sem problema, mais mal conseguiu se esquivar da machadada do outro, girou o corpo ficando de costas para Liana que lutava com o homem.
– Se vocês se renderem agora deixaremos vocês irem, contanto que nunca mais ataquem animais, se não vou mata-los – Liana falou poucos momentos depois da confusão começar, todos viraram para ela, que estava segurando o homem pelo pescoço, pronta para quebra-lo.
Sem que ela percebesse ele levou à mão a faquinha presa em sua perna, segurou-a firme e puxou acertando-a na coxa, ela gritou de dor e chutou ele para longe, quando ele virou para ataca-la, ela já estava a poucos centímetros dele, Pryor jogou para ela sua faca, desembainhou a espada e deu um golpe no homem com o machado, o homem mal teve tempo de começar a levantar seu machado, quando a espada de Pryor o acertou, decapitando o homem com um corte rápido, cabeça e corpo caíram agora sem vida, ele girou o corpo para se defender do outro homem, que atacou o com uma serie de golpes mais para ele não era problema se defender.
Quando o homem parou para tomar folego, dando um salto para trás, mantendo distancia, Pryor passou a espada, agora manchada com sangue, que cobriam as runas ao longo de sua lamina prateada, para a mão direita e avançou com mirando a cabeça do homem que aproveitou a chance para tentar dar uma estocada em sua barriga, por pouco ele não conseguiu acerta-lo em cheio, tendo sua espada levemente desviada pouco antes, mais ainda sim acertando a lateral de sua barriga.
Praguejando o descuido, ele recuou – bem feito, agora pare de se distrair ou ser dominado pelas emoções, guarde o ódio para quando achar o assassino deles – pensou tentando se acalmar, tinha tido sorte, não era nada grave, mais ainda sim teria que tomar cuidado para não deixar que sangrasse muito.
Liana que tinha acabado de conseguir matar o homem, que tinha muito mais habilidade com espada que os outros, ela deduziu que ele já tinha sido, um cavaleiro honrado, e deveria ter tido um posto alto, pela habilidade. Aproximou-se dele, e examinou o ferimento.
– Deixa que eu cuido dele – Liana falou se preparando para atacar.
– Obrigado, mais eu posso cuidar dele – então ele avançou um pouco e parou sentindo dificuldade em se manter em pé.
– Você vai morrer e essa sua amiguinha idiota também, diferente desses idiotas eu envenenei minha espada – falou o homem rindo.
Pryor então caiu a dor ficou forte demais para ele aguentar ficar em pé, Liana se encolheu e avançou na direção do homem tão rápido que nenhum dos dois conseguiu ver ela antes que as facas já estivessem no abdômen dele, só então que eles notaram, que ela estava também com a faca do homem que tinha matado.
– Quero o antidoto ou vou matar você bem devagar – falou soando impetuosa, apesar de aparentar ter um bom coração e ser incapaz de fazer mal a qualquer ser vivo, as palavras dela assustaram o homem, ainda mais com aquela voz tão sincera – não acredita, então olhe para o seu amigo – ela se afastou dele e apontou para o corpo caído do primeiro oponente, cheio de cortes e coberto de sangue, nenhum deles haviam sido cortes tentando matar, com exceção do ultimo, um corte na garganta, deixando a cabeça presa ao corpo pela metade, mais ainda sim eram profundos, ela tinha feito o homem sofrer antes de mata-lo.
– Não tenho, eu juro, olha eu peguei de um animal dessa floresta – ele estava realmente assustado depois de ver o corpo do amigo.
– Têm vários animais venenosos nessa floresta, qual era? – ela já estava perguntou, demonstrando estar furiosa – O que você fez com ele?
– Um réptil amarelo com uma listra preta no meio da cor...
– Mentira, você nunca teria pegado uma Suzukubi.
– Por favor, acredite, era uma pequena, um filhote ainda.
– Onde você achou esse filhote.
– Perto da Sobomoaku
Pryor já estava se contorcendo de dor, então ela pegou a faca dele antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, fez um corte no homem com a própria faca, correu tinha pouco tempo. Eles morreriam logo se ela não conseguisse o antidoto, chegando à Sobomoaku ela viu um filhote de suzukubi subindo uma arvore.
– Por favor, me deixe pegar um pouco da sua saliva – falou tocando o filhote.
– Por que eu deveria? – Questionou o filhote.
– Um amigo foi envenenado, por favor.
– Então pegue saliva com quem envenenou ele, ou esse idiota a matou?
– Não um homem, o envenenou, o facão desse homem estava banhado em veneno de suzukubi, se você não me ajudar ele vai morrer.
– Está bem, mas, eu mesmo vou por minha saliva no corte, me leve até ele.
Lianna então o pegou, e colocou em seu ombro e correu pela floresta até Pryor, chegando lá ela colocou o pequeno animal com aparência de lagarto em cima dele, o suzukibu então colocou sua linga dentro do corte, o que fez com que Pryor gritasse e se encolhesse de dor, ela tentava acalma-lo, mais seu esforço era inútil ele continuava gritando.
– Depois de algum tempo perguntou — Quan... to tempo ainda va... vai demorar? – Estava com dificuldade para falar, por causa da dor, começou a gemer logo em seguida.
– Falta muito – ela quis saber tocando no marrento suzukibu.
– Sim, acabei de sugar o que era possível do veneno, para que ele melhore logo, e por que já havia se espalhado muito, agora vou por saliva – Explicou, então continuou – Se eu sugar mais sangue ele pode não resistir. Avise que a dor vai se tornar constante e muito mais intensa agora.
Assim que ela deu o recado, ele começou a se contorcer de tanta dor, seu corpo logo parou de se mexer, ele mal se mantinha consciente, a sensação de que o fogo estava entrando em seu corpo através da língua do animal era desesperadora, ainda mais por não conseguir se mexer,
Ali do lado deles o homem estava agora morto, com a cara enfiada em vomito e sangue, vendo a imagem do homem ele ficou feliz apesar das dores por ainda estar vivo, a imagem do defunto era horrível, já não tinha mais ideia de quanto tempo estava naquele estado, nem de quanto tempo ainda iria aguentar, tudo que ele queria era que aquilo acabasse de uma vez, tentou mover o corpo mais não adiantou de nada.
Então tudo começou a girar e a se tornar disforme, o mundo foi perdendo a cor pouco a pouco, tudo foi escurecendo, a pele ficando gelada, até que ele finalmente perdeu para a dor, e desmaiou.
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