Filhos da Ordem Chamas da Justiça
14 Capítulo 14
Eles corriam tentando não perder Tobiro de vista, ele tinha explicado que os tuneis eram antigos e instáveis, poderiam ceder a qualquer momento, eles correram por alguns minutos e ate que tiveram o primeiro indicio de que o túnel poderia ceder a qualquer momento.
Tobiro gritava apressando eles, a areia caia em suas cabeças e em seus rostos, eles avançavam tão rápido quanto conseguiam, não estava sendo fácil continuar avançando, mas eles finalmente chegaram no local onde todos tinham se refugiado.
Minuli veio correndo recebe-los, Eran estava logo atrás dela, eles estavam bem, fora algumas faixas nos braços de Eran, ver todo mundo ali era bom e reconfortante, mas ao mesmo tempo era revoltante, todos tinham perdido o único lugar que podiam chamar de lar, o único lugar sagrado para eles tinha sido destruído.
Eles conversaram um pouco, e depois foram comer algo, em poucos minutos eles iriam começar os preparativos para partirem, todos concordaram que deveriam atacar Zam e seus homens o mais rápido possível, ninguém faria o que ele fez e continuaria andando livre e sem punição.
Zam tinha declarado guerra a Ordem, agora iria sofrer com a fúria da deles, depois de comerem e descansar, contaram como tinha sido a missão em detalhes. Quando eles acabaram começaram a planejar como fariam para chegar no palácio que Zam tinha tomado para si, e onde iriam se reunir com todos os membros que não estavam.
Todos concordaram que viajar pelo mar era a melhor opção, sendo assim decidiram que encontrariam com os membros no porto da cidade de Sorg, era o melhor lugar para conseguirem um barco que pudesse transportar todos eles, e também era um ótimo local para se conseguir suprimentos e alguém louco o suficiente para viajar de navio ate o extremo norte do continente.
– Ir por barco é melhor que atravessar as florestas de gelo. – tinha dito um dos homens. – já estive na fronteira, e quase fiquei louco, aquele lugar é muito perigoso.
– Devemos evitar perigos desnecessários. – afirmou um outro.
Apesar de alguns falarem coisas muito obvias todos concordaram que ir pelas florestas de gelo era algo que só fariam se não tivesse jeito.
Pryor lembrou de varias historias sobre o lugar, muitos acreditavam que era território de bruxas, outros acham que era de monstros mais antigos que qualquer outra espécie viva, e alguns chegavam a afirmar que eram criaturas da época em que o mundo foi criado, do tempo em que as coisas ainda estavam tomando formas. Ele não acreditava em historias assim, mas também não podia explicar os ferimentos e mordidas nos poucos que conseguiam voltar da floresta.
Eles se prepararam para a viajem e foram dormir, Valq e Minuli ficaram enviando mensagens por meio da magia por horas antes de irem dormir.
Pryor dormiu assim que deitou-se, e era ótimo poder dormir sem ter que se preocupar com a possibilidade de virar a janta de algum animal, acordar capturado, ou coisas assim, mesmo que ainda estivesse dormindo no chão.
Valq e Liana estavam igualmente arrasadas com o estado no qual a Ordem se encontrava, e cansadas, depois de tudo a única coisa que não precisavam era de mais problemas, e dores de cabeça, mas tinham que estar prontas para o que viesse pela frente, todos sabiam bem que tipo de vida aguardava aqueles que entravam na Ordem, das dificuldades, e dos riscos, por isso não reclamaram.
Eles se dividiram em vários pequenos grupos, de seis componentes cada, ao todo tinham quase duzentos membros, os grupos saiam a cada quinze minutos, e seguia para uma direção diferente, que já tinha sido combinada, a ideia era que eles fizessem o maior numero de caminhos diferentes possíveis, então toda a rota de cada um tinha sido estabelecida, de forma que evitasse uma diferença muito grande de tempo entre a chegada de cada grupo.
O ultimo grupo foi o de Pryor, quando eles partiram Minuli usou magia para escondê-los, a viajem foi inicialmente andando, eles pararam próximos a uma cidade, Liana e Tobiro foram ate lá para conseguir alguns suprimentos enquanto os outros tinham ficado em uma floresta nas proximidades da cidade, no dia seguinte eles voltara, e então retomaram a viajem, eles já tinham atravessado quase a metade do caminho ate a segunda cidade, quando conseguiram achar cavalos, o que ajudou muito, como não tinham conseguido comprar cavalos na primeira decidiram que tentariam em cada uma das cidades, porem isso diminuiria muito o tempo que levariam para completar a viajem.
Eles esperavam que os outros tivessem tanta sorte, e que não demorassem muito, boa parte da viagem foi tranquila, o único problema que tiveram foi com um pequeno grupo de ladroes, mas eles conseguiram resolver isso sem problemas.
Resolveram deixar que eles partissem, mas antes fizeram com que prometessem parar de roubar, apesar de duvidarem eles não queriam fazer nada com gente que não tinha nada, a não ser uns aos outros e que ainda tinham quem dependesse deles.
Quando finalmente chegaram na segunda cidade não ficaram mais que algumas horas, a cidade era tão pequena que quase parecia uma vila, eles não perderam tempo e voltaram a viajar, todos estavam ansiosos, não viam a hora de acabarem com isso, para reerguer a ordem, para voltarem a viver normalmente, e tinham que mostrar o que acontecia com quem tentasse atacar a Ordem, para garantir que não teriam um ataque cada vez que fossem atrás de alguém.
Os dias seguintes foram cada vez mais cansativos, eles avançavam cada vez mais, a ansiedade aumentava a cada momento.
– O pior da guerra, são os momentos que antecedem-na, a ansiedade, o nervosismo, e esse tipo de coisa sempre vem, isso é o anuncio de que uma guerra esta por vir. – Pryor lembrou-se de um dos anciãos que eram responsáveis pela academia falando-lhe, sobre a guerra. – Durante as guerras pessoas mudam, amigos morrem, aliados viram inimigos, tudo pode mudar nos tempos de guerra, ate mesmo você mudara, talvez nem seja capaz de se reconhecer caso tenha que lutar em uma.
Pryor não sabia como as coisas iriam ser dali para frente, mais tinha certeza que a ansiedade pré-guerra era insuportável, uma sensação horrível, ele não via a hora para começar a lutar, tinha que fazer algo para se acalmar, mesmo que treinasse todas as noites com Tobiro ou Valq, ele precisava de algo mais, precisava sentir a espada cortar alguma coisa.
A viajem levou quase a metade do tempo que levaria se tivessem ido sem a ajuda dos cavalos, foram os primeiros a chegar, não demorou muito para que outros grupos chegassem, ate os que tinham vindo de missões, depois de quase uma semana a maior parte dos grupos já tinha chegado, e os poucos que faltavam levariam dois ou três dias para chegar.
Durante o tempo em que esteve esperando Pryor treinou com tantas pessoas diferentes quanto conseguiu, ele treinava de forma exaustiva, enquanto Tobiro e alguns outros tentavam conseguir um barco, para transportar todos.
Era difícil achar algum barco livre, a maioria já tinha sido alugada, ou eram pequenos demais, o único barco que acharam livre e que era grande o suficiente, era muito caro, eles não tinham como alugar algo tão caro.
Todos tinham se reunido em um templo próximo a cidade, para poderem discutir como fariam para levantar tanto dinheiro, depois de horas e horas conversando eles chegaram a conclusão de que a melhor chance era propor uma troca que não envolvesse dinheiro diretamente, talvez tivesse algo que o dono do barco quisesse que poderiam conseguir através de magia.
Eles foram nas docas, e conseguiram o endereço do dono do tal barco, e um horário para falarem com ele, tentaram negociar, mais a única coisa que ele queria era quase impossível mesmo com magia.
Se comunicar com os mortos, não só era muito difícil e desgastante como também era muito arriscado, poucas vezes alguém tinha conseguido se comunicar com os mortos e em varias ocasiões tinha acabado muito mal.
Mesmo tento explicado isso para o homem ele não se importava, estava disposto a correr o risco, ele precisava falar uma ultima vez com o irmão, mesmo que o preço para tal pudesse vir a ser a vida dele.
Valq deu uma lista de coisas que seria preciso para uma das criadas, e foi atrás dos que eram mais difíceis de se achar ela mesma, Pryor aproveitou para jogar um pouco de chapalu, um jogo que é constituído por quarenta e quatro peças, vinte e duas para cada lado, com o objetivo de engolir as peças do adversário, e só acabando quando um dos lados consegue engolir todas as peças do adversário.
Cada peça tem dois lados, um branco e um preto, quando se engole uma peça muda-se o lado dela, o tabuleiro onde o jogo acontece conta com oitenta e oito casas, tendo formato quadricular.
As regras no geral eram simples, cada um movia uma peça por vez, e sempre uma casa, apenas a peça que tinha o símbolo da estrela poderia se mover ate três casas em uma única jogada, mais sempre indo na mesma direção, uma vez que se faça um movimento para um lado, não se pode avançar nem uma casa em qualquer outra direção naquela rodada, e para engolir uma peça, tinha que fazer com que ela se movesse de modo que ficasse na casa ao lado da sua peça.
O jogo trouxe muitas lembranças felizes a Pryor, mais também trouxe algumas dolorosas, muitas delas ele queria poder esquecer, mais infelizmente o mundo não se importava com os desejos dele, o mundo não ligava para os desejos e caprichos de ninguém, apenas para seus próprios planos, e naquele momento tudo que era possível realizar era viver para vingar-se daqueles que tinham servido como ferramentas do destino, pois isso não fazia com que o ódio dele diminuísse e tão pouco tornaria eles menos culpados.
Depois de algumas horas elas finalmente voltaram com tudo que precisariam, Valq pediu um quarto vazio para que pudesse fazer os preparativos para o ritual, e ficou sozinha lá, quando finalmente acabou pediu para que o homem fosse ate lá.
Pryor e os outros ficaram por perto para o caso de algo dar errado, assim que Valq começou a recitar os versos do encantamento uma forma feita de fumaça apareceu no meio do circulo que Valq tinha, apenas o homem que era o único lá dentro via e ouvia ele, os dois tiveram uma longa conversa, quando uma explosão de vento jogou todos longe, assim que conseguiu se levantar Pryor olhou ao redor, procurando sinais do responsável, mais não achou ninguém, todos estavam bem, o homem no circulo agora era um velho, parecia estar próximo da morte, as roupas e ate o cordão dele estavam muito velhos, os cabelos brancos, caiam sobre o rosto do pobre homem.
Pryor correu para ajuda-lo a ficar de pé, eles levaram o homem para se sentar em uma cadeira, o homem tentou falar, mais estava muito cansado, o processo tinha minado todas as forças dele. Depois de muito esforço conseguiram leva-lo para o quarto para que pudesse dormir.
Eles tiveram que esperar por alguns dias, Valq e Minuli ficaram lá, cuidando dele, foi uma tarefa desgastante e demorada, em varias ocasiões elas acharam que o homem tinha morrido.
Depois que ele finalmente acordou, já estava bem melhor, graças aos chás que tinha bebido, e as coisas que tinha comido. Ele disse que eles poderiam usar o barco, e que estava muito feliz, finalmente poderia morrer em paz.
Elas explicaram todo o horário, quando ele deveria tomar o que, e como preparar, elas passaram dois dias treinando as servas para que pudessem cuidar dele, o processo foi rápido por não envolver o uso de magia, mais os chás eram muito complicados de se fazer, tinham que ser na medida exata, não poderiam errar em nada.
Quando acabaram o treino das servas dele, elas partiram, Pryor estava no convés treinando com Liana e Eran, quando elas chegaram, eles pareciam exaustos, outros treinavam em vários locais espalhados pelo navio, era enorme e estava pronto para zarpar, esperando apenas elas chegarem para que Tobiro desse a ordem e todos assumissem seus postos.
Eles partiram poucos minutos depois que elas chegaram, todos pareciam mais calmos, a agitação para conseguirem vingança tinha diminuído, mais não o ódio e vontade de se vingar, eles tinham conseguido colocar os pensamentos em ordem, tinham voltado a serem o que eram normalmente, mais todos estavam voltados para um objetivo em comum, algo que iria precisar de todos eles para ser realizado.
Os primeiros dias da viajem foi calmo o vento soprava o barco com força, mantendo assim a velocidade sempre alta, o som da agua batendo no casco era agradável, Pryor adorava o mar, tudo no mar era tranquilizador, o som das ondas quebrando nas pedras, boa parte do tempo livre dele era gasto observando o mar ou as aves.
No decimo dia Pryor acordou sentindo os efeitos de tanto treino finalmente começarem a passar, as dores e o cansaço tinham diminuído, o céu estava limpo, não tinha uma única nuvem, o mar estava calmo, e o vento também, da mesma forma como tinha estado pelos últimos dois dias.
– Como você esta se sentindo? – Perguntou Liana se debruçando em uma das bordas.
– Melhor, quase não sinto mais dor. – respondeu ele, não muito animado. – E você, como esta? – questionou.
– Estou bem.
– Liana, sobre o que te contei. – ele começou a falar, então as palavras escaparam de sua boca, de repente ele não conseguia falar.
– Não se preocupe. – disse ela. – Prometo que vou guardar segredo ate que você me fale que posso contar a alguém.
– Muito obrigado, eu estava ficando louco, tinha que contar para mais alguém e não sei se esse é o melhor momento para contar a mais alguém. – ele falou quase sussurrando de tão baixo. – Me desculpe por te pedir para carregar um segredo desses com você.
– Não tem problema, fico feliz que confie em min. – ela olhou para o céu. – Pode contar comigo sempre Pryor.
Em um momento Pryor e Lina estavam encostados na lateral do navio calmos, no outro uma flecha quase acertara em Liana, poucos metros ao lado deles um pequeno barco estava parado, cinco homens com os arcos prontos para atirar, logo em seguida eles notaram que não era só um barco, deveriam ser uns três daquele lado, cada um com cinco homens.
Mesmo estando em menor numero, eles não pareciam com medo, então eles deveriam ser loucos, confiantes ou não deveriam ter medo de morrer, o que era o provável fim deles.
Eles estavam tão parados que pareciam estatuas, o único movimento deles era o dos olhos, percorrendo todo o navio, avaliando cada detalhe, procurando descobrir quem eram os mais perigosos.
– Queremos tudo de valor. – disse um dos homens. – Se colaborarem não terão motivos para se preocupar, deixaremos que partam em paz.
– Veja bem. – falou Tobiro. – Esse navio não tem nada de valor.
– Mentira. – gritou outro homem.
– Como não tem nada de valor em um navio de carga? – questionou um terceiro.
Infelizmente eles estavam certos, era difícil convencer que um navio de carga não teria nada de valor, ou deveriam ter mercadorias ou ouro, e não daria para ataca-los sem correr o risco de perder muitos, se tentassem pular na agua seriam acertados antes de tocarem a agua, não tinha nenhum canhão ou coisa do tipo, ele tinha sido feito apenas visando o transporte.
Tobiro pegou uma faca, e todos os homens preparam seus arcos para atirar e mandaram guardar a faca, ele olhou-os por um momento ele pareceu que iria guarda-la, então ele a atirou.
Com uma única flecha o homem com quem ele falava fez com que a flecha mudasse de direção, ele olhou furioso para Tobiro.
– Não queremos mas conversar, se não tem nada de valor, então vamos levar o navio. – Gritou ele. –Saiam agora ou faremos chover flechas em vocês.
Minuli apareceu correndo com um cetro nas mãos, ela ergueu-o bem alto, e bateu com toda a força que tinha, derrepente começou a chover, e ela ficou pálida, Pryor e Tobiro correram e seguraram-na, um raio caiu na direção de um dos barcos, mas um dos tripulantes atirou uma flechada, e o raio foi cortado.
Minuli levou um minuto para entender o motivo, então vários raios começaram a cair, descontroladamente. O barco deles não era atingido, e nem os barcos dos ladroes, mais e mais raios caiam, um rugido cortou o céu, era feroz e ensurdecedor, uma enorme coluna de energia caiu do céu, primeiro Valq acho que era outro raio, mas era muito mais intenso que um raio.
Poucos metros antes de acertar no navio, o raio se dividiu atingindo cada um dos barcos dos ladroes, mesmo que eles não tenham sido pegos pelo raio, as explosões e os destroços os acertaram.
Um pedaço de madeira atingiu Pryor, outro atingiu Liana na cabeça com tanta força que ela caiu inconsciente e com sangue escorrendo da testa, por sorte nenhum deles atingiu o casco com força suficiente para abrir um buraco.
Depois disso a viagem foi tranquila, e não foram mais atacados. Tiveram alguns problemas com o clima, e quase naufragaram duas vezes, depois de quase um mês eles finalmente chegaram.
Ainda tinham alguns dias de caminhada, agora não iriam se separar tanto, ao todo eles eram quatrocentos e cinquenta homens, eles se dividiram em grupos de cinquenta, e avançaram, não se afastaram tanto uns dos outros, cada grupo ficava no campo de visão de outros dois.
Levaram quatro dias ate que finalmente avistaram o palácio de Zam, a hora de se vingarem estava chegando, finalmente ele iria pagar por todos os crimes dele, todos se animaram, o clima frio estava castigando-os mais valia a pena, ninguém iria impedi-los de conseguirem matar Zam, mesmo que fosse Pryor quem fosse lutar com ele, os outros ainda iriam descontar sua fúria no restante dos soldados.
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