Filhos da Noite
19 Capitulo 19 - O que é Precioso
[Alexander – Congregação dos Caçadores]
— E se for o Khan? – Terry perguntou abrindo um livro bem empoeirado já, desde que começamos a digitalizar tudo, a biblioteca da congregação estava meio abandonada.
— Gengis Khan? – Perguntei erguendo a sobrancelha, recebendo um aceno positivo. – Ele não era asiático e com certeza não era grande o suficiente pra isso. – Respondi apontando o desenho do homem na página.
— Licença do artista para representar um conquistador. – Ele se defendeu. – Seria mais fácil se tivéssemos visto ele também.
— Quanto a isso não vou argumentar. – Aceitei. – Teria sido bem melhor ter ajuda...
— Acharam alguma coisa? – Padre Lucas questionou entrando no local. – Pelos rostos vejo que não.
— Calma, a resposta está em algum lugar. – Terry disse animado. – Só temos que descobrir qual grande vampiro não está morto.
— Quais! – Me intrometi. – A mulher também está viva e ela é perigosa.
— Vocês a subjugaram. – Lembrou Terry.
— Tivemos sorte. – Respondi. – Ela foi descuidada e arrogante, ela não deveria ter ido com contingente pequeno para um ataque logo lá, estávamos em bons números e quando chegamos o padre já havia eliminado os soldados dela. – Terminei.
— Nossa que sério. – Debochou Terry.
— Ele está certo. – O padre entrou na conversa enquanto também analisava alguns livros. – A sorte foi nossa aliada, e se o que ela disse for real, se nem o sol pode feri-la, precisamos descobrir com urgência quem e o que ela é.
— Na teoria o mundo é todo azul. – Ironizei. – Não faz sentido, tanto poder e nenhum registro, para ambos. Nunca vi uma magia como a que ele usou quando chegou e quando foi embora, assim como nunca vi um feiticeiro, vampiro ou bruxa conseguir derrubar tantos caçadores com palavras.
— Se tivéssemos alguma referência a mais, a idade ou mais do que só o nome Adam e o nome da espada. – Ou talvez algo mais palpável para pesquisar.
— Por exemplo? – Questionei.
— Belle poderia analisar o local, procurar resíduo magico, sondar sua mente por detalhes, cada coisa pode ser de ajuda. – A ideia do Terry era realmente boa, para outros casos.
— Ela está indisponível por enquanto. – Respondi seco.
— Vamos encontrar algo. – Falou o padre tentando nos animar virando um livro na nossa direção. – Carlos Magno? – Questionou antes dele mesmo descartar a ideia. – Ele já era velho quando foi transformado, não faz sentido.
— Esse é o problema, ele não bate com nenhum vampiro dos períodos que verificamos. – Explicou Terry. – Ela também, temos poucas vampiras registradas, elas são bem melhores em manter o anonimato que os homens, esse credito eu dou a elas.
— E lembrando que todos esses vampiros que já vimos, estão bem mortos. – Pontuei.
— Assim como para vampiros o seu clã estava extinto. – Hanzo foi o quarto a entrar na sala, ele tinha um grande e vermelho livro nas mãos, parecia feito de cristais. – No nosso ramo, temos que entender que até o diabo pode resolver aparecer em algum momento.
— E qual seria esse? – Terry questionou apontando o livro dele.
— Esse é a “Ordem do Dragão”. – Ele bateu o pesado livro a mesa, arrancando com os braços tudo que estava em volta antes de abri-lo. – Tendo seu nome copiado por Sigismundo em 1408. Esse livro na verdade é um registro com dados de todos os vampiros que desde o Império Romano, até o ano de 1876 haviam matado e absorvido os poderes de alguma criatura mítica única ou rara para aumentar os próprios poderes.
— E se ele e ela são tão poderosos... – Falamos quase juntos, todos havíamos chego a mesma conclusão. – Ele tem que estar. – Falei com esperança.
— Eu não quero estragar seu ânimo garoto, mas..., – Hanzo concluiu. – Eu já li e não tem nenhum Adam e só uma mulher é citada nele como a noiva do Drácula.
— E que também já está considerada morta. – Voltamos à estaca zero. – Assim será complicado.
— Eu trouxe o livro, porque além dos vampiros, o registro existe para marcar as criaturas caçadas e as que não foram derrotadas.
— E o que vamos fazer? Caçar alguma delas? – Terry perguntou e o asiático sorriu. – Eu acertei?
— Bom, os dragões estão praticamente extintos isso é conhecido. Mas, no Japão, meu País, há um dragão, um dos sábios e antigos. – Ele falava com naturalidade sobre uma criatura imparável, poderosa e mítica, como se fosse um conhecido qualquer.
— Você não está querendo visitar esse dragão por acaso? – Padre Lucas perguntou.
— Não, eu prometi não o incomodar por algum tempo depois do nosso último encontro. – Agora estávamos surpresos. – Ele me deu a parte da ceifadora que te entreguei. “Uma época de caos e perigo está a caminho e vocês devem se preparar.” Foi o que ele me disse antes de eu vir pra cá.
— Você conheceu um dragão, está vivo depois disso, ele te deu um tesouro e ainda conselhos. – Falei pasmo. – Isso deve ser inédito para qualquer caçador em nossa história.
— No ocidente com certeza. – Ele pontuou. – Os dragões do oriente sempre foram aliados, seres de justiça e sabedoria, poderosos e de compaixão. Os dragões ocidentais são como as próprias pessoas, gananciosos, agressivos, territoriais...
— Já entendemos, vocês têm melhores feras. – Terry o cortou. – E qual é o objetivo?
— Os vampiros não conseguiram matar algumas dessas criaturas. – Ele abriu numa página com três cabeças de dragões. – Dragões guardam tesouros e seriam os defensores lógicos para algo tão perigoso quanto o fragmento que procuramos. E se nenhum vampiro em mais de um milênio conseguiu mata-los...
— Ou eles são titanicamente invencíveis – Padre Lucas concluiu. – Ou foram protegidos por algum motivo.
— Se acharmos os dragões, achamos o fragmento. – Falei e Terry se levantou, apoiando-se em meu ombro. – Temos algum plano de resposta pelo menos.
— Dois deles estão no Brasil. “O Dragão de Porte de Pedras” e o “Dragão de Guabiruba”. – Hanzo leu. – E o terceiro “Ladon o dragão de cem cabeças que guarda as maçãs de ouro de Hera.”
— Pra um deles nem será uma viagem, agora os outros dois. – Comentou o padre. – Eu e Hanzo deveríamos ir a Grécia por ser mais próximo e podermos contar com reforços. – Ele olhou pra mim. – Você poderia ir com Terry e seus irmãos ao Brasil, há caçadores lá, posso contata-los e solicitar o auxílio.
— Eu posso ir só com o Terry ou...
— Padre e senhor Terry, poderiam nos deixar a sós por um momento? – Ambos assentiram ao pedido do japonês sem argumentar.
— Por que isso?
— Precisamos falar sobre família um momento, algo que nós dois entendemos mais que eles.
— Eles não precisam ir comigo. – Respondi firme.
Ele não disse nada, caminhou em silencio até as cadeiras do outro lado da mesa, viradas na direção do quadro de um antigo caçador. O silencio permanecia, eu o vi mexer no bolso interno de seu casaco por um momento, depois disso ele sinalizou a outra cadeira e ainda sem dizer nada, me sentei ao seu lado. Ele me entregou uma foto, um homem com uma criança, o homem era bem parecido com ele.
— Seu pai? – Questionei.
— Meu filho e eu... – Ele suspirou. – Satoshi seria três anos mais velho que você hoje, talvez fossem companheiros de oficio.
— Hanzo eu...
— Belmont san, por favor. – Pediu ele e eu não continuei. – Eu era jovem, mais rápido, menos experiente, muito mais orgulhoso do que sou hoje... Eu o treinei, entretanto, eu me recusava a permitir que me acompanhasse, afinal, que pai iria querer que o filho seguisse nesse caminho que estamos? – Ele tomou a foto em mãos. – Um dia ele agiu como seu irmão, ele os encontrou, ele lutou e ele foi derrotado, mas, diferente de você, eu não pude chegar a tempo.
— Eu entendo o que o senhor está me dizendo, mas, eles não...
— Com todo respeito Alexander Belmont, líder do clã Belmont, próximo portador da ceifadora e possivelmente o nosso próximo mestre caçador na congregação. – Hanzo me interrompeu. – Algo sem precedentes surgiu diante de nós, eu nunca vi ou enfrentei tal força, nosso padre aqui presente não conhece, nossos grupos não possuem conhecimento a respeito deles... Não é hora de poupar esforços. – Ele tocou meu ombro. – Eu conheço o sentimento de proteção, a sua vontade de evitar que assumam o risco com você. Contudo, é melhor estarem juntos agora do que perderem você ou pior, que você perca alguém pelo simples fato de tê-los afastado, quando deveria ter confiado em suas habilidades.
— Eu...
— Não responda agora meu jovem. – Ele tocou meu ombro novamente quando se levantou. – Você vai tomar a decisão certa por conta. Eu sou apenas um velho caçador que não deseja ver uma melhor geração, cometer os mesmos erros. – Ele se pôs a caminhar para a porta.
— Eu não vou decepcionar sua confiança. Tem a minha palavra. – Jurei para ele.
— Eu agradeço. – Respondeu sorrindo antes de me deixar sozinho com meus pensamentos naquele local. Pensamentos que me fariam refletir até que uma decisão concreta fosse tomada.
[Katrina – Torre Vermelha]
Lilian iria dormir novamente em algumas horas, seu corpo não estava completamente recuperado da exposição a energia sagrada, somada ao perigo daquela espada de Hanzo, mais um chicote Belmont com quase a ceifadora inteira para acompanhar... “Uma receita perfeita até contra o mais forte vampiro.” Pensei enquanto seguia com meus afazeres. Meus escaravelhos iriam aos lordes no continente, eu sabia que ela havia chamado apenas dois deles, mas, eu não arriscaria boatos, o maior número possível de vampiros deveria estar sob o nosso teto, prontos para lidar com o assunto, eles iriam ouvir a história e retornariam aos seus lares em silencio, só precisamos garantir que a calmaria permaneça, assim como a nossa segurança e anonimato.
— Quem está aí? – Questionei ao escutar uma voz desconhecida. “nada?”
Aparentemente minha mente iria começar a pregar peças, peças muito próximas de lembranças, lembranças que eu sabia que não eram minhas.
...
” De volta ao nosso castelo. Estávamos no balcão norte, do outro lado dos quartos, após a sala do trono e a sala do conselho. Era lindo, a vista panorâmica das terras e do horizonte, iluminados pela pálida e poderosa luz da lua. E na ponta, aguardando por mim, ele, meu amor.
— Olá meu amor. – Ele disse ao olhar para mim, com seu par de olhos cansados e muito charmosos. Olhos vermelhos não eram para qualquer um e nele, tinham a perfeição de rubis. Corri para ele, me aconchegando em seu abraço, por um momento eu me sentia aquecida, sem medos, completamente em paz... Sempre seria assim dentro do seu abraço. – Por que demorou tanto para voltar?
— Eu ficaria aqui o tempo todo. – Respondi com o rosto contra seu peito.
— Dias complicados? – Ele perguntou me segurando mais forte. Eu assenti. – Vamos descansar em outro lugar. – Ele ainda me impressionava, envolvendo nossos corpos a própria capa, rapidamente nos movimentando pelo espaço, eu via o castelo em câmera lenta enquanto flutuávamos até o nosso local de paz, o quarto para nossas crianças.
— Tão perfeito quanto poderia ser. – Falei tocando o berço, nosso príncipe dormindo tranquilamente, sem preocupações mundanas dos adultos.
— E a próxima também. – Disse ainda abraçado a mim. — Uma bela princesa, de cabelos dourados, para contrastar com o irmão.
— Está acabando com a surpresa do nascimento de novo querido. – Falei virando-me e tocando seu queixo. – Deixe que o inesperado me encontre.
— O inesperado já lhe encontrou Katrien. – Explicou tomando minha mão para beijá-la. – Uma vampira na terra do sol mais puro de todos, uma guerreira viajando sozinha ao perder seu mestre e amigo, de todos que poderia encontrar, você me encontrou, você me cativou como eu lhe cativei e do nosso amor, frutos, frutos eternos e ricos...
Eu o beijei para que parasse de falar. Eu queria ouvir mais, definitivamente um homem mais romântico, apaixonado e poético não há de existir, seja no presente ou em qualquer tempo que o mundo pudesse passar. Era incomparável, tão lindo quanto sábio, tão sensível quanto era feroz, uma perfeição que o mundo não poderia ter duas vezes e por algum motivo entre tantos, foi comigo que ele decidiu seguir, foi a mim que decidiu amar, foi a mim que ele entregou os seus únicos sentimentos, aqueles que por tanto tempo estiveram enterrados.
— Você é um poeta. – Falei enquanto nos separávamos lentamente. – E um ótimo poeta.
— Anos de prática, me preparando para alguém se tornar importante o suficiente para ouvir estas palavras. – Respondeu sorrindo, entes de segurar minha cabeça em suas mãos, acariciando meus cabelos. – O que te preocupa meu amor?
— O presente. – Revelei. – A segurança da nossa família, a proteção da nossa espécie, nosso legado... – Abracei-o novamente. – Eu precisava de você.
— Eu estou sempre com você querida.
— Não da mesma forma que precisamos. – Voltei para o berço de Adamas. – Nosso filho se expos, eles o viram, eles o enfrentaram...
— Ele não será ferido meu amor. – Ele me assegurou com a mão sobre a minha.
— Ele sempre será para mim o que é para você. O nosso bebe, nosso tesouro. – Coloquei sua mão sobre a minha barriga. – Nefertari... Está longe de nós, afastada, vivendo sua vida de uma forma diferente...
— Ela está vivendo o que precisa viver Katrien. – Reforçou. – Família não é um laço solúvel, ela voltará quando sentir que deve.
— Lilian está ferida, mentalmente, espiritualmente e fisicamente. Eu queria poder ajuda-la, mas, não é a tarefa mais simples do mundo.
— Meu amor, você está a tanto tempo pensando nos problemas de todos. – Ele depositou um beijo suave em minha testa. – Todos vão melhorar, todos vão aprender. E isso inclui você, essa preocupação é nobre, contudo, os momentos de pensar em si, são tão indispensáveis quanto.
— Eu tenho que me preocupar com todos, eu sou a mãe, eu sou a rainha. – Suspirei. – Eles esperam de mim a mesma força e capacidade que você possuía.
— Você e eu podemos ter semelhanças querida, entretanto, nossas diferenças e individualidades são exatamente o que nos torna únicos, especiais. – Ele me ergueu no ar. – A pergunta não é “o que Dracula faria?” A pergunta é “O que eu farei.”
— Está vendo, é dessa confiança, dessa sabedoria... É de você que eu preciso. – Respondi.
— A coroa é pesada e não é confortável. – Ele admitiu. – Quem a usa não gosta e quem não a tem, almeja tal poder, sem saber os pesares e dores que ela traz. – Sua voz estava se tornando um eco, não restava muito tempo aqui.
— Por favor, não. – Pedi. – Mais um pouco.
— O tempo... Infelizmente não é mutável aqui. – Nossas mãos ainda se seguravam. – Eu te amo.
— Eu também te amo meu amor. – Falei antes de voltar a minha realidade”.
...
De volta a minha sala em milésimos de segundo, todo o tempo passado ali, dentro daquele momento, compartilhando palavras, carinhos, todo aquele tempo, se esvaindo de minhas mãos como areia fofa que não resiste ao aperto.
— Eu sinto sua falta, meu querido.
[Adamas – Londres Noturna]
Não era algo simples, ver os humanos como algo mais do que a fonte de alimento que eu necessito, eu sou seletivo quanto a minha alimentação, não é qualquer humano que serve como fonte de sangue. Agora, interagir com eles de maneira totalmente proposital, me interessar por alguma frivolidade que seria dita, o que algum deles poderia acrescentar a uma conversa que eu já não fosse previamente ciente?
— Adam! – Belle chamou minha atenção. – Eai decidiu algo? – Ela perguntou apontando a multidão a nossa frente.
— Eu estou olhando para eles e vendo o sangue me seus corpos, os bons e os ruins, os que servem e os que nunca seriam adequados para...
— Estou falando apenas de uma interação normal. – Ela me cortou. – Se realmente quer entender e conhecer humanos, talvez seja melhor não olhar pra eles como comida apenas.
— Tudo bem. – Aceitei. – O que sugere?
— Alguma coisa, não as pessoas, algo. Algo aqui chama sua atenção? – Não havia tanto em volta, haviam jogos que eu venceria, haviam tentativas de manter padrões na decoração daquele bar, bebidas.
— Nada em particular é tão interessante. – Respondi. – O que quer beber? Eu pelo menos posso começar comprando nossas bebidas.
— Já é um começo. – Ela falou sorrindo. – Eu quero um mojito pra começar.
Eu queria que fosse fácil, interagir com humanos não deveria ser difícil, mas, se eu planejava fazer a coisa certa na visão da minha irmã... Eu precisava encarar eles, não como alimento, não como insetos pequenos, não como meus inimigos. Eu precisava vê-los como pessoas, pessoas que eu deveria tentar entender, conversar e esquecer. “Mais fácil falar do que fazer.” Eu poderia seduzir, hipnotizar, levar alguém daqui sem que ninguém no estabelecimento soubesse e minha vida continuaria a mesma, a mesma vida onde Nefertari não quer estar.
Nós seguimos a noite e graças a minha parceira, conversas toleráveis e breves aconteceram, pelo menos até algum individuo estragar o assunto ou o momento com comentários ou atitudes mundanas. Eu faria isso dar certo, eu conseguiria encontrar o que fosse “meu”, algo do meu gosto e eu sabia que levaria mais de uma noite saindo por aí pra conseguir desenvolver isso.
— Você vai precisar melhorar suas habilidades sociais. – Belle debochou quando nos sentamos no bar do Neftis, faltavam duas horas para o amanhecer. – O que não faz muito sentido, você tem que saber conversar e seduzir pessoas pra morder elas não?
— É diferente. – Respondi com a cabeça deitada no balcão. – A alimentação é um processo minucioso.
— Explique. – pediu ela escolhendo um vinho, era impressionante como ela sempre se sentia à vontade pra fazer o que bem entendesse aqui.
— Eu não deixo o acaso me guiar. Eu escolho, determino fatores. Não vou beber o sangue de alguém doente, de um idiota ou de um ignorante completo, de alguém que tem vinte e cinco anos e os rins estão pedindo socorro graças ao dono sem cuidado com o corpo. Pessoas saudáveis, pessoas cultas de preferência.
— E por que? – Ela me deu uma taça. – O fator físico eu compreendo, mas, o intelectual?
— Eu não quero as memorias de um energúmeno passando pela minha mente.
— Você também vê isso? – Pelo visto essa parte era novidade. – Achei que vampiros só podiam ver memorias de outros vampiros pelo sangue.
— Nós podemos. – Contei. – Um vampiro adormecido que precise acordar, para que não aconteça um choque cultural quando ele levantar, aquele que o acorda precisa dar uma parte do próprio sangue e garantir que as suas memórias das mudanças temporais e culturais estejam ali e estejam alinhadas. – Completei virando a taça. – Caso contrario o vampiro acorda confuso, é soterrado de estímulos externos, não é fácil absorver tanta informação quanto recebemos no primeiro minuto que nos levantamos.
— É uma sensação especifica e bem ruim pelo visto. – Ela respondeu. – Você já...
— Sim, eu dormi por um tempo considerável antes de acordar nesse século. Para uma espécie com um tempo de vida curto, a evolução e dominância dos humanos foi absoluta durante o meu tempo adormecido. – A taça explodiu na minha mão, voltando ao normal em seguida. – Os piores quinze minutos da minha vida. E antes que pergunte, quinze minutos normais são um tempo bem diferente pra mim.
— Ainda não explicou as memórias. – Ela estava fixa nessa parte.
— Bom, quando eu me alimento de alguém, eu posso me conectar com as memórias no sangue da pessoa. – Era muito diferente explicar minhas sensações a uma humana. – Eu vejo o passado dela, as vezes consigo até sentir sabores, eu vejo o presente, vejo suas alegrias, tristezas, traumas e conquistas... E em alguns casos, posso ver parte do que aquela pessoa poderia ter se tornado.
— Você vê o futuro?! – Isso havia deixado ela estupefata.
— Um futuro possível, completamente baseado nos pensamentos do indivíduo. – Pontuei. – Eu massageei minhas têmporas. – Pensando agora, eu nunca me alimentei de alguém e deixei que vivesse para me responder a sensação do outro lado, será que é bom ou provoca algo mutuo?
— Nuca alguém sobreviveu? – Questionou.
— Muitos sobrevivem, eu já fiz pessoas durarem para seguir com meu consumo. – Revelei. – Eu apenas nunca me interessei em questionar a eles, não que algum estivesse propenso a me ajudar com a dúvida.
— Ora ora, alguma coisa que você não sabe. – Ela debochou.
— Temporariamente, no próximo farei um esforço. – Ponderei um momento. – Terá de ser uma presa muito seleta, o jantar mais “complicado” da minha história possivelmente.
— Parece interessante e assustador ao mesmo tempo. – Ela se serviu novamente. – A alimentação vampírica gera muita discussão e indagação.
— Eu não vejo como, afinal só nossa espécie sabe explicar os dilemas, sensações e funcionamentos. – Eu suspirei. – Me alimentar é uma situação diária com resultados muito imprevisíveis.
— E existem vampiros que consomem sangue animal? – Era uma boa pergunta, ainda mais levando em consideração o que a cultura pop fez a nossa imagem.
— É possível, mas, o resultado dificilmente é bom. A longo prazo, seu corpo e ser vão pedir por sangue humano e sem que perceba, você esta cada vez mais bestial, mais incontrolável. Não recomendo esta pratica.
— Anotado. – Ela falou tocando a testa, em seguida me encarando. – Conhecimento nunca é demais.
— É justo. – Respondi.
— Posso fazer mais uma pergunta? Duas na verdade.
— Já fez agora e sei que fará de qualquer forma. – Brinquei com ela. – Acho que posso seguir com suas questões por enquanto também.
— Por que você é tão diferente? – Ela perguntou seria. – Você é muito superior aos outros vampiros, não só em poder pelo visto, mas, tudo parece tão simples pra você.
— Eu sou um príncipe. – Respondi, claramente essa resposta vaga não era o que ela esperava.
— Eu não acho que um título, por maior que seja, seria o divisor oceânico de águas entre você e outros. – Argumentou.
— Bom, eu sou um puro sangue. – Contei. – Significa que eu nasci vampiro, eu fui o primeiro, o que tornou outros como eu “possíveis”, ou pelo menos aumentaram as tentativas de lordes por algumas décadas.
— Espera, me explica essa parte da concepção vampírica.
— Vampiros só vão conseguir ter filhos da maneira correta com outros vampiros, e também a uma questão de compatibilidade, caso contrario é apenas um bebe natimorto. – Comecei a explicar. – Quando uma vampira tem um filho com um humano, a criança cresce rápido demais, o padrão é aproximadamente vinte anos para vocês, vinte anos nesse mundo e um envelhecimento equivalente a quase oitenta e nada de poderes o que é muito injusto.
— E um vampiro e uma humana?
— Nesse caso você terá os ghouls. Vampiros usam essa espécie como serviçais desde o início dos tempos, mas, esses em especifico são como uma subespécie. – Respondi com a memória viva em minha mente. – Monstros entre a vida e a morte com a consciência reduzida, ligados psiquicamente ao seu criador, o pai genitor no caso, eles crescem rápido, são grandes, feios, rostos humanos deformados, um par de asas mal desenvolvidas nas costas, pele cinza, garras enormes e um cheiro odioso.
— Já vi que não gosta deles.
— Alguns lordes usaram humanas como éguas reprodutoras no passado, formando hordas e exércitos dessas criaturas. – Contei. – Alguns tentaram se unir e se revoltar, nós tínhamos que lidar com humanos e com essa insurgência... Fora a atrocidade cometida por tais lordes. Minha mãe proibiu a relação entre humanos e vampiros depois disso, se um vampiro planeja ter um parceiro que é um humano, o cônjuge deve ser transformado.
— Desviamos da questão. – Ela lembrou. – Por que é tão poderoso?
— Eu herdei isso do meu pai e da minha mãe. Infelizmente eu não pude criar memórias com ele antes que os caçadores da família do seu amigo aparecerem.
— Sinto muito. – Ela respondeu.
— Não precisa, não foi você que fez isso. – Falei. – Eu não sou assombrado pela possibilidade, só o que me foi dito durante toda minha vida é o suficiente pra saber que se eu for metade do que ele foi, então estarei fazendo o melhor pela minha família e pela minha espécie.
— Agora falou como um príncipe. – Ela riu da própria resposta.
— Obrigado. – Eu também sorri. – Próxima pergunta?
— Eu posso ser a próxima?
— Próxima? Essa foi a minha perg... – Eu não entendi, não diretamente, mas, os segundos fizeram a ficha cair. – Não brinque com isso.
— Não é uma brincadeira. – Ela assegurou. – Quem seria mais adequado?
— É perigoso, não posso arriscar você. – Falei. – Pode ser que eu passe do limite seguro...
— Adam! – Ela me segurou pela gola da camisa. – Alguns minutos atrás você devaneou sobre essa possibilidade... – Ela tirou o cabelo do caminho, deixando o caminho para o seu pescoço completamente a vista, eu podia ver as veias, o sangue fluindo. – E eu já estou aqui.
— Belle... – Eu sou forte, eu não me alimentaria no impulso e com certeza poderia resistir a tentação do sangue comum. Contudo, não era um sangue comum, é um sangue magico, fortalecido por gerações... E por mais que eu não fosse admitir, o fator sentimental tinha influencia ali.
— Eu já consenti. – Ela veio mais perto. – Faça.
Não havia razão agora, havia instinto e vontade. E diferente de qualquer uma das minhas milhares de vítimas, dessa vez eu tinha cuidado, eu não via a necessidade de pressa. Eu segurei sua cabeça e suas costas, fazendo minhas presas se sobressaírem, eu senti dessa vez, o momento em que atravessaram a sua pele, a sensação da pele dela, a maciez, o perfume, o aroma dos cabelos, um cheiro de maça verde.
Eu vi, as memórias que ela trazia em seu sangue, cada memória importante, desde os seus tempos como uma criança. O dia em que desconhecidos para ela entraram em sua casa e sua vida, um treinamento magico complicado para a idade, o primeiro amor e até então o único, seu primeiro beijo, o pesar de uma maldição, tantos eventos, emoções em guerra, o alivio da liberdade...
— Tanta dor. – Quando ela falou eu sai do meu transe, quebrando a ligação e nos separando. – Tanta paixão...
— Você... – Eu não esperava por isso.
— Eu vi você, enquanto... – Ela sorriu, algumas lagrimas escapavam dos seus olhos e dos meus também. Ela tocou meu rosto sorrindo. – É lindo.
— Eu... – Ela não me deixou completar, removendo o espaço entre nós com um beijo.
Poucas vezes em séculos eu havia estado sem reação ou me sentido fraco, entretanto, nesse instante, era como se fosse um menino de novo, sem ideia do que fazer a seguir, apenas parado no momento, vivendo exatamente o que eu deveria viver.
Devagar, estávamos nos acostumando a sensação, seus braços em volta do meu pescoço enquanto eu ainda segurava sua cabeça e agora sua cintura. Seu coração acelerado parecia prestes a explodir de dentro do peito, assim como estaria o meu se batidas fossem possíveis. Eu não iria e não queria soltá-la, eu a apertei mais contra o meu corpo, eu sentia o seu calor, o suor que descia pelo seu pescoço...
— Belle. – A chamei entre o beijo, no momento em que ela recuperou o ar.
— Não fale. – Ela pediu e me abraçou. – Só me leve... – Eu obedeci, envolvendo-a no meu abraço, flutuamos juntos sem massa física entre as sombras e o ar, até o meu quarto. – Você. – Ela disse tocando meu peito.
— Você! – Foi a minha resposta, sorrindo e tocando seu rosto antes de beijá-la novamente.
“E no fim minha irmã, eu encontrei algo ou nesse caso, alguém de quem eu gosto.”
Fale com o autor