Filhos da Magia
10 Capítulo 9 - A guerra

A sala foi preenchida com comidas saborosas como frango, purê, arroz e outras delícias que faziam minha boca salivar. Mas tinha tantas pessoas na sala que minha fome insatisfatória não se saciaria, infelizmente. Enchi meu prato com carne como se não tivesse comido faz anos, então lembrei que vomitei minutos atrás.
— Não perca a compostura, Akemi — alertou Naomi, num tom baixo, ao meu lado — Se lembra que esta pelada por baixo do roupão. — ela riu, com a minha cara meio rosada.
— Não espalhe isso! — sussurrei de volta.
— Todos sabem. — sorriu ladino, voltando a comer.
Apenas revirei os olhos, ignorando esse fato.
Enquanto todos comiam o banquete dos deuses, Nicholas anunciou que contaria uma história — mesmo com os lamentos das outras pessoas — ele prosseguiu, se virando para mim e perguntando:
— Nakamura — chamou em voz alta — Você sabe o que sãos as Kitsunes?
— Oh — disse surpresa — Sim, são as mensageiras de Inari, deusa japonesa.
— Exatamente! — sorriu, mas logo ficou sério — Bem, elas foram erradicadas da terra, suas portadoras, logicamente. Acontece que o espírito de uma Kitsune vive, mas sua hospedeira morre, com o tempo, ou por algo ou alguém. De qualquer forma, elas estão extintas e não são as únicas — ele se levantou de onde estava e veio até mim — Quer saber como isso aconteceu? — olhou para mim sério.
Ri de escárnio.
— Eu não preciso de histórias, senhor. Preciso melhorar meu poder e salvar minha irmã.
— E essas histórias que te ajudaram a salvá-la, Akemi. Eu, o grande mago de Swamoris, te ajudarei, mas pra isso preciso que me escute — ele esticou a mão para mim — Me dê sua mão e te mostrarei parte de sua história.
Meio hesitante, eu a peguei.
E tudo escureceu, quando abri meus olhos, estava em um lugar diferente.
No campo de batalha, pairava a inebriante presença da morte. E eu estava no meio dele, vestida como uma guerreira, com a minha katana, e com as pernas tremendo de êxtase. O cheiro de grama não acalmava mais, o sol me fazia suar mais do que o normal, agradeci ao vento forte que aliviou o meu calor. Porém, não por muito tempo.
Eu estava no meio de um início de uma guerra, apenas esperava o estopim.
A minha esquerda, milhares de guerreiros com fardados e preparados para correr e sacrificar suas vidas; entre eles, um homem em especial, aparentava ter cinquenta anos, fios brancos fincados no couro cabeludo se misturavam com os pretos, as expressões de velhice em seu rosto não em enganava — com certeza tinha mil e um anos. Ele parecia ser quem comandava aquele exército. Sustentava um olhar superior enquanto olhava o outro lado do campo, e fiz o mesmo.
A direita, reconheci orcs, tritões, elfos, metamorfos e entre outras raças. Eles gritavam, rosnava e pretendiam avançar de uma vez, como essa guerra fosse o que todos mais queriam. Não havia um padrão de uniforme como o outro exército. Todos estavam trajados diferentes, mas lutavam por uma única causa — que eu não conhecia.
Por algum motivo, eu gostaria de ficar na direita.
O chão tremeu, meu estômago se revirou — a batalha tinha começado, e eu estava no meio dela. Sobrenaturais de ambos os lados corriam em minha direção, muito mais rápido que poderia captar. Os da direita estavam mais perto, peguei minha katana e avancei no primeiro que vi, um elfo — sim, eu tinha pegado meio que um trauma — com uma espada, ele gritava e corria em minha direção.
Então, desviei de sua facada fatal e o ataquei, enfiando a katana em seu peito, seu rosto empalideceu, colocou a mão no ferimento ensanguentado e caiu no chão. Mas algo estava errado. Quando caiu, seu corpo passou pela espada como se ele fosse um holograma.
Olhei confusa para minhas mãos, então, entendi que eu estava presenciando a guerra, mas não estava nela.
O verdadeiro assassino do elfo estava atrás de mim, logo me ultrapassou e continuou sua batalha, e eu permaneci parada, observando o caos que a luta se tornava.
Era um fantasma no meio da matança.
Tudo que via era sangue, corpos no chão, magos voando ou sendo jogados pelo ar, escutava nomes de feitiços sendo gritados e berros de dor. Porém, no meio tudo isso, um misterioso rastro de flores de cerejeira apareceu em meus pés, em fileira, contrastando com o verde e vermelho, e levava para o outro lado do campo, eu o segui, desviando estupidamente dos guerreiros que batalhavam — não tinha necessidade.
A trilha rosa me levou a alguém, o mesmo homem que tinha notado antes. Estava diante dele, perante seu olhar num misto de diversão e seriedade, mas o tamborilar de seus dedos em sua perna apontava sua ansiedade e seus olhos estreitaram-se para o campo, atento.
— Senhor Arthuro!
Virei-me para encontrar o dono da voz, um gladiador, que exalava preocupação pelos olhos e lhe faltava ar pois vinha correndo.
Arthuro, o homem que antes encarava, olhou soslaio para o guerreiro.
— Grande parte do nosso exército morreu, senhor. Essa batalha está perdida! — lamentou aos prantos.
Arthuro riu, virando-se totalmente para o homem, aproximou-se dele e passou o braço em suas costas, apertando. O guerreiro não entendeu, mas também não reclamou, apenas acompanhou seu líder enquanto o levava para onde Arthuro se encontrava.
— Olhe, Thelonious — gesticulou Arthuro para a batalha que continuava — Esplêndida visão, não é?
— Senhor...
E não sei o que era mais bizarro nessa cena, Arthuro elogiando as mortes — tanto de seus guerreiros, quanto dos inimigos — ou o sorriso sombrio que apareceu em seu rosto. Arthuro riu alto e sombrio, apertou o pescoço do homem ao mesmo tempo que chutou a varinha em sua mão, agora estava indefeso.
Suas unhas cresceram iguais às de lobisomem e as fincou na coluna do homem, passando por toda a armadura que vestia, sibilou palavras desconhecidas e algo começou a acontecer; uma estranha aura arroxeada se formou em volta de Arthuro, seus olhos negros se tornaram amarelos e seu sorriso assustador se iluminou mais ainda.
Essa frieza era anormal arrepiou-me dos pés à cabeça, mas o que Thelonious, o guerreiro, se transformava era pior; ele esperneava de dor, seus lábios se racharam e todo líquido do seu corpo foi drenado pelos dedos de Arthuro, sua pele morena virou cinza e flácida, seu cabelo negro se juntou a grama, estava irreconhecível, parecia uma múmia sem bandagens.
Após ter sua vida sugada, o corpo do gladiador se juntou ao chão assim como seu exército.
Arthuro sorriu novamente, umedecendo os lábios, parecendo estar satisfeito.
Me perguntou quantas vidas já ceifou assim?
Ele arregaçou as mangas, suas mãos, pulsos e braços eram marcados por cicatrizes e tatuagens com densas linhas marcando, na mão esquerda tinha o sol e na direita a lua. Ele respirou fundo, se ajoelhou no chão e fincou as mãos na terra .Suas veias se tornaram visíveis pretas e grossas, como raízes de árvore. A grama em sua volta morreu, seguida pelo resto do campo inteiro — ninguém pareceu notar isso. Uma barreira roxa cercava-o e, como estava perto dele, me cercava também.
Porém, alguns que lutavam por Arthuro viram a barreira e correram até nós, largando a batalha. Uma mulher loira consegue ultrapassar a barreira — talvez já fosse possível- abraçou Arthuro empurrando-o para trás, tentando tirar suas mãos da terra.
Os outros que viram a cena não podiam parar, estavam em guerra, e a vitoria era vital.
— Arthuro… por favor, não — eu pude sentir a dor em sua voz. Recusei olhar em seus olhos. Seu olhar se debulhava em tristeza. Aquela voz falha me corroía por dentro, podia notar que ela sentia algo por ele — Isso é errado! Pare! — ele hesitou por um instante, o suficiente para que o plano da mulher desse certo.
Aquela cena causou algo diferente em mim.
O que Arthuro pretendia fazer atiçou minha curiosidade, senti-me meio frustrada com a intervenção, mas meu coração apertou ao vê-la chorando agarrada no peito de Arthuro — esse permanecia estático, encarando o nada. Como se o tempo tivesse parado, o ar não circulava, e ela se sufocava em desespero.
Em meio de uma guerra, com tantas perdas, ela chorava como se Arthuro tivesse sentenciado a própria morte.
— Isso é guerra, Katharina. Choramos após a vitória, querida.
Seu choro cessou, ela o olhou estarrecida com suas palavras, tão frias quanto o vento gélido que passou.
— E na guerra, medidas drásticas devem ser tomadas. — o veneno escorregou de sua fala. Tão aborrecido pela interrupção.
— Vale a pena deturpar teu próprio corpo? — ela riu sarcástica.
— Vale a pena todo o… — foi interrompido.
— Sacrifício pelo meu povo. Eu sei! Mas… — ele a parou, raivoso.
— Então se sabe, porque questiona? — ela se silenciou e se afastou um pouco.
Eles se olharam por segundos como se não reconhecessem um ao outro. Tenho a impressão que Katharina não conhecia nem a metade de Arthuro.
No próximo segundo, tudo se tornou confuso até pra mim. Quando menos esperava, Katharina puxou Arthuro, pegou uma faca e fincou-a em suas costas. O homem ofegou sangue, olhou num misto de surpresa e raiva para a mulher que continuava com o olhar sofrido, como se doesse mais nela ao fazer isso.
— Traidora… — disse ao cair em cima dela, com o rosto em seu ombro.
— Tu irias se corromper, senhor… não pude deixar… — chorou, ela segurou a cabeça do homem com as mãos, olhando-o nos olhos e se aproximou.
— Falso. — disse Arthuro por fim.
Katharina arfou de dor, surpresa com a dor intensa e inesperada em sua barriga. As garras de Arthuro se contorciam e apertavam as entranhas da mulher enquanto ele a olhava nos olhos, estudando-a. Os braços de Katharina caíram ao lado de seu corpo, sua cabeça se encontrou com o chão, já morta.
Eu não sei porque Nicholas me mostrou essa visão ou quem são essas pessoas, mas não pude deixar de me sentir mal com a cena. Katharina parecia realmente gostar dele, mesmo eu não entendo o porquê de matá-lo.
As mãos ensanguentadas de Arthuro rapidamente pintaram o chão, fazendo uma estrela em volta de um círculo, recolocou suas mãos enterrada na terra, começando novamente o feitiço.
Não reconheci as palavras que pronunciou baixo, mas eram familiares de alguma forma. Além do mais, o que lançou foi algo poderoso demais, tão poderoso que me deixou tonta com a onda sombria que se expandia em volta de seu corpo.
De onde vinha tanta força mesmo estando esfaqueado?
Isso só podia ser uma coisa.
— Immortalem Mortis… — disse, sufocando-se com o sangue.
Então, aconteceu.
O corpo de Arthuro amoleceu, sua alma já não o dominava, sua cabeça se chocou no centro da estrela de sangue, seus olhos viraram as órbitas — ele já não estava nesse mundo.
Foi o que pensei.
Conseguia ouvir seu coração batendo, lentamente, até parar de vez, mas Arthuro não estava morto. Sua pele empalideceu, o sangue em sua boca, como ele estava curvado com a cabeça contorcida no chão, escorreu para a testa e ao cabelo. Surpreendi-me quando o chão sob meus pés começou a tremer. A aura que cercava Arthuro foi diminuindo, penetrando na terra e ressurgindo em seus guerreiros, um por um.
Foi grotesco. A cada homem e mulher caídos se transformaram em seres não vivos, andantes putrefatos — a decomposição de seus corpos por conta da aura sombria — olhos revirados e bocas sedentas por comida — seus inimigos. Porém, quando olhei atenta para o campo de batalha, percebi que os guerreiros de Arthuro não foram os únicos a se reerguer.
— Seu plano deu errado. — sussurrei, mesmo que ele não pudesse me ouvir, ainda olhando para os mortos vivos — Os guerreiros de lá reviveram.
Então, o olhei, e meu corpo paralisou de puro pavor com o que via; sua íris amarela tornou-se vermelha-sangue; seu rosto estava ensanguentado e decomposto com dentes afiados; sua pele infeccionada, como se estivesse morto a tempos, cinza feito cimento. E o pior, olhava diretamente para mim, arregalado e sorrindo.
Respirei fundo, lembrando-me que era apenas uma visão que fui implantada, ele não poderia me ver.
— Foi uma boa jogada, se pensar bem. Sacrificar seus homens e revivê-los com habilidade canibais — olhei para o homem em minha frente ainda ajoelhado no chão, mas sorrindo diabolicamente — Mas não tira o fato de você ter transformado todos, incluindo você, em criaturas grotescas.
O olhar de Arthuro pairou sobre mim, seu sorriso caiu e ele se levantou, virando em minha direção. Meu corpo sucumbiu ao medo, me fez quer retirar minhas palavras. Seus olhos eram vermelhos saturados se selvageria, eu conseguia ver o brilho neles, se olhar de perto. Quase hipnotizada, aproximei-me de seu rosto. O brilho era forte, era loucura.
Real demais.
Não havia mais salvação para a loucura que se enfiou. Ele foi inteiramente corrompido pela magia negra.
Quando abri os olhos estava de volta sala, ao lado de Nicholas, avaliando-me. Nem o cheiro de comida me aliviava, e sim me deixava mais tonta. Me sentia cansada como se eu estivesse 10 horas na frente do computador. Meus olhos estavam secos, não importa o quanto eu piscava.
— Não se preocupe, essa sensação acaba em segundos. Akemi… — Ele se agachou perto de mim, cauteloso — Essa foi apenas uma pequena parte da história. E tem muito mais para te contar e ensinar.
— Por quanto tempo? — consegui dizer.
— Um mês no mínimo. — eu olhei-o ofendida.
— E você acha que dentro de um mês minha irmã não estará morta?
Ele suspirou nervoso, passando a mão pelos cabelos.
— Você pode pelo menos tentar… tenho séculos de experiência com magia… tem como lutar contra o mal sem se corromper! Mas para aprender isso tem que ficar aqui.
— Não há necessidade disso. Com um exército… — Argumentei.
— Você viu muito bem o que aconteceu com exército de Arthuro. Onde conseguiria um exército? Lutariam apenas para achar sua irmã?
— Eu lutaria por ela. Mesmo que sozinha.
— Fique aqui apenas por duas semanas. Te contarei as histórias, e você no final tomará sua decisão. — Nicholas insistiu.
— Se não quiser ficar vocês vão me prender aqui de qualquer jeito, não é?
— O único jeito de sair daqui é com a minha permissão — Nicholas disse sério, levantando-se — 2 semanas.
Ele deixou a sala seguido de várias pessoas. Eu continuei chocada, olhando para o chão, controlando para não chorar.
Naomi se aproximou de mim e me abraçou. Tyler apenas apertou a mandíbula forte praguejando algumas palavras.
— Aonde está a gentileza que você me falou, Naomi?
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