Filhos da Magia

9 Capítulo 8 - Anjo indecente


Como Alice caindo na toca do coelho, tudo que via era a escuridão, uma queda inevitável ao imenso nada, sem vestido para evitar que meus ossos quebrem, mas sem medo de me machucar. A queda deveria me causar vertigem, deveria tremer de medo e gritar de pavor, mas eu respondia ao contrário; era relaxante sentir o vento bagunçar meus cabelos, o roupão que ainda vestia insistia em deixar minha pele à mostra, meu coração disparava e meu corpo arrepiava e eu sorria maravilhada.

Era lindo como na escuridão havia luz, e nesse caso tinha várias, pequeninas e brilhantes, como estrelas. Realizava meu sonho de criança — talvez de qualquer criança -, voar no céu, pois era assim que se parecia, que eu sobrevoava a linda noite livremente sem ter asas. Caindo de costas, fechei os olhos aproveitando o sentimento de felicidade que me acolhia.

Akemi, isso não é uma história da Disney. Acorde! a voz ecoou em minha cabeça, e eu a reconhecia.

Flashbacks do meu pesadelo passavam diante meus olhos. Toda a alegria que sentia esvaziou em segundo, sucedido pelo desespero.

Comecei a avistar telhados e terraços de casa, árvores, castelo e milhares de pontinhos pretos, ou seja, pessoas.

O pavor me atingiu antes de minha cara no solo. Não conseguia focar num feitiço fraco de levintamento, pois meus olhos focavam no chão que se aproximava mais, e mais. Meu estômago embrulhou, os meus braços tremiam feito um chihuahua, minha boca ficou seca e me faltava voz para pronunciar qualquer feitiço, a não ser gritar.

Fui surpreendida ao não ser esmagada pelo impacto com o chão.

Ainda metros de altura longe do solo, as pessoas me olhavam de baixo e apontavam, tão surpreendidas quanto eu. Aliás elas não olhavam para mim, e sim para quem me segurava. Olhei de soslaio para o homem que me apertava firmemente com seus braços por trás de mim, pude perceber que dirigia o olhar para mim também, mas desviou e começamos a nos afastar mais ainda do chão, voando novamente, dessa vez menos desesperada. Ao me mexer desconcertada, ele mudou de posição, carregando-me feito uma noiva.

— Obrigada.— sussurrei, sincera.

Ele apenas assentiu.

Era difícil olhar para ele e não reparar em sua aparência, e ele era o que chamo de beleza rara: cabelo castanho , com um topete no estilo Danny Zuko, olhos heterocromáticos — um preto e outro avelã — e um sorriso brilhante e convencido.

Então, foi perceber que ele tinha notado que estava reparando em seu rosto.

Oh, merda.

Olhei para onde nos levava, em direção ao castelo que tinha visto enquanto caía, mas esse castelo de pedras era separado, ficava em uma ilha bem distante da onde tinha visto. Essa ilha tinha um formato estranho, parecia um polvo e os tentáculos do “polvo” eram preenchidos de árvores, assim como o castelo. Porém,a ilha era cercada e rodeada por muralhas enormes. Era surreal. Que tipo de cidade é essa?

Contornamos e passamos sobre as muralhas, pude observar dezenas de torres — como eu disse o castelo era enorme — e centenas de guardas fardados com os olhos visando em nós.

Olhei incerta para o moreno que me segurava, porém fiquei boba ao perceber que me distrai com a paisagem, quando ao meu lado havia a mais bela visão que já presencie.

Ignorei o fato que ele me carregava sem usar camisa — também ignorei o rubro em meu rosto — e foquei nas esplêndidas asas em suas costas. Eram idênticas e diferentes ao mesmo tempo, perfeitas e grandes, mais que o dobro do meu corpo, o bater das asas era lento, porém alto e forte, e as cores eram diferentes — assim como os olhos do dono — a da esquerda era branca e a outra preta. Tão lindas que me dava vontade de tocá-las, mas não me atreveria.

Em uma das torres mais altas, nós pousamos. Quando meus pés tocaram o solo, meus joelhos tremerem e eu caí, sentindo toda a tontura que antes não me atacou.

Estava suando, coloquei meu rosto no chão frio, tentando me aliviar, mas meu estômago reclamava e retorcia, comecei a sentir ânsia de vômito, sentindo o líquido ardente em minha garganta. Quando me dei conta, estava vomitando no chão. Nem liguei pra que me assistia, me sentia terrível.

Quando eu encontrar Naomi, eu vou terminar o serviço, matando ela que me jogou aqui.

— Você é tão fraca assim? — comentou num tom provocativo.

Ao terminar de botar minhas tripas para fora, enxuguei os lábios na manga do roupão.

— Sweet Home. — cantarolou, olhando para mim sugestivo.

Olhei-o de olhos semicerrado, tentando compreender o que ele queria dizer com isso.

Então, ele apontou e tocou no meu roupão, mais especificamente na logo que estava escrito...

— Sweet Home… — repeti, fiquei boquiaberta.

Ah, não.

Olhei para o que vestia e me lembrei de que não vestia nada por baixo. Simplesmente, nada! E quando eu caí… as pessoas que olhavam para cima…o cara que acabou de me salvar…eles me viram… ah, isso não ‘tá acontecendo.

— Para de murmurar pro vômito. É estranho. — ele me olhou como se fosse uma alienígena, mas só estava curtindo com a minha cara.

Já não gostei dele. Por que caras bonitos tem que ser uns babacas? Pra não ser zoada pelo o que aconteceu, é melhor fingir que não se importa. E, sinceramente, quem se importa?

Fechei a cara, respirei fundo, juntando toda a força que não tinha jogado fora junto com o vômito e me reergui. Olhei séria para o homem ao meu lado enquanto ajeitava meu roupão, dando mais um nó.

— Naomi, aprendiz de Nicholas, me convocou. E a perdi junto com um amigo, Tyler Laurent. Aonde eles estão? — olhei em seus olhos coloridos para não ser hipnotizada pelo seu torso nu.

Sorriu minimamente e disse:

— Siga-me. — e assim eu fiz.

Descalça e ainda tonta, o segui pelo castelo, então percebi que suas asas tinham sumido e se tornado uma tatuagem em suas costas. Descemos as torres, passamos por vários corredores e, na entrada de cada, havia um estandarte preto com detalhes dourados, e no meio a forma de dois animais, uma cobra e uma raposa. As paredes eram decoradas com tapeçarias que contavam contos de ambos os lados, mas a da direita não mostrava um final feliz, novamente, era uma raposa preta e uma cobra roxa brigando.

Ele parou em frente de uma porta de madeira, abriu-a e adentrou na sala, e eu o segui. No momento em pus meu pé na sala, dois guardas me barraram com suas espadas, fazendo um “X“ e interrompendo minha passagem. Como esperado, eles usavam armaduras reluzentes pretas, detalhadas com roxo e dourado, e elmos pretos.

Fiquei parada olhando para as armas em minha frente.

— Diga seu nome! — exigiu um dos homens, rispidamente.

— Akemi Nakamura — respondi, enquanto dava uma espiada na sala — Saiam da frente. — e assim fizeram, hesitantes e resmungando.

— Como pode entrar com tanta autoridade, sendo que está aqui pela primeira vez? — perguntou o rapaz das asas.

— Me chamaram aqui por algum motivo certo? Irão me barrar para o quê? Além do mais… — meu olhar caiu sobre Tyler e Naomi sentados na mesa que compartilhavam com outras pessoas — Eu sei que estou no lugar certo.

Finalmente, entrei na sala, dando uma averiguada no local. A minha esquerda duas largas janelas que mostravam a bela noite e as estrelas, em cima, novamente, tapeçarias, porém eram rostos; na direita, armas penduradas na parede e outros equipamentos de batalha; no meio, uma larga mesa de madeira com no mínimo trinta pessoas ao redor, entre elas meus amigos, e, propositalmente, uma cadeira sobrando entre eles.

— Oh, então, finalmente ela chegou — uma mulher ruiva comemorou, meio aborrecida — Minha nossa… que trajes são esses?

Olhei-a entediada.

— Com o que se parecem? — perguntei retórica. A mulher fechou a cara, não esperando essa resposta.

— Igual à mãe, respondona e sem modos. — resmungou a senhora.

— Nakamura. — a voz masculina me chamou.

Olhei para o dono da voz, um homem com cabelos loiros e olhos azuis, ele sorria acolhedor para mim, mas eu podia ver a cobiça em seu olhar, brilhava feito diamante. Ele trajava roupas iguais de príncipe, porém sem as formalidades, estava igual aos outros, com espada embainhada na cintura e sem coroa. Parecia que iria a uma guerra.

— Esse nome marcará nossa história. Sente-se e acomode-se, Akemi, pois te contarei uma história que te esconderam, te contarei parte de você.

Notas finais
Aviso: Os próximos capítulos serão grandes, pois começarei a detalhar mais já que sem detalhes a fanfic fica "rala" percebi que a qualidade dos meus capítulos estava caindo, aí eu caprichei nesse capítulo. corrijo depois até