Filhos da Magia
2 Capítulo 1 - Crendo no místico

A bela paisagem da floresta de Rillidan foi manchada por milhares de flocos de neve. Correntes frias de vento incomodavam meus olhos e os singelos cristais de gelo arrepiavam-me dos pés a cabeça, mesmo trajando roupas especiais para ocasião. A branquíssima neve se acumulava no chão, dificultando assim minha atravessada pela floresta. No meio da noite, em uma rigorosa nevasca, meus pensamentos e foco estavam todos voltados em um único lugar: A cerejeira, um local onde foi plantado a árvore histórica.
Com passos pesados, reforcei minha bandana que protegia meu nariz até o pescoço, segurei firmemente a mochila encorpada em minhas costas. Alguns postes de luz resistiam bravamente a ventania, iluminando o que antes era o caminho para a cerejeira. Ajeitei meus óculos de proteção, apertei o passo quando enxerguei a enorme árvore cor-de-rosa.
Um uivo alto ecoou pela escura floresta.
Para minha sorte, havia uma cabana propositalmente perto da árvore. Apressei-me para entrar na moradia de madeira, receosa pelos uivos incessantes que começaram a surgir.
A cabana era calorosa, decorada com uma fornalha, uma cama de casal e uma poltrona velha. Joguei a mochila no chão, aliviando o peso em minhas costas. Infelizmente, essa cabana era alugada por pessoas, casais em especial. Tive um pequeno receio de me deitar naqueles lençóis.
Suspirei alto, aproveitando o calor que a casa oferecia. Um monte de lenha estava perto da fornalha, as joguei na mesma de qualquer jeito, vasculhei a mochila a procura de um isqueiro. Peguei o objeto metálico, acendi o fogo, olhei para a pequena chama que faiscava e recitei:
— Ardente Igne, Ardente Igne, Ardente Igne. — repeti enquanto seguro o isqueiro com uma mão e estendendo a outra em direção da lenha.
Um formigamento satisfatório passou pelo um braço até o corpo inteiro. Resquícios de chamas começaram a surgir na palma da minha mão.
— Queime! — gritei, e um jato de fogo voou até a fornalha; pousando perfeitamente na madeira.
Sorri com a ação bem-sucedida.
Tirei casaco pesado que vestia e me sentei em frente à fogueira.
Ultimamente, minha magia vem progredindo, mesmo se passando apenas uma semana que a descobri. Acontece que o mundo mágico é surpreendentemente compreensível e fácil. Maioria dos feitiços são fáceis de completar, mesmo ensinando-os a mim mesma.
Mas a ficha ainda não caiu.
Tudo pelo que estou passando e que aprendi tem apenas um propósito: encontrar minha irmã. Eu a perdi já tem uma semana. Essa era a motivação para que eu enfrentasse uma nevasca em plena noite e aprimorasse um poder desconhecido.
Ela tem apenas dezesseis anos, dois anos a menos comparado a mim, e eu, irresponsavelmente, deixei-a sozinha em nossa casa para eu poder trabalhar. Quando eu cheguei em casa, após uma estranha ligação dela, tudo estava destruído e ensanguentado. Meu primeiro pensamento foi ligar para a polícia, porém as provas que acusariam o criminoso que fez isso eram um tanto peculiares; tinham marcas de garras pelas paredes e restos de animais mortos pela casa. Estranhamente, na ligação de Arisu, minha irmã, ela me mandou vasculhar nosso sótão e disse que lá encontraria algo que me ajudaria a viver. Eu realmente não entendi o que queria dizer, porém, ao procurar e procurar, encontrei um mapa, um livro e uma carta. O mapa me levava para a floresta de Rillidan, onde eu me encontrava agora, e uma carta foi escrita pelo meu pai. Na mesma, dizia em poucas palavras que encontraria alguém que me ajudaria nessa jornada de descobrimento e que deveria encontrar essa pessoa onde o mapa marcava.
E aqui estou eu.
Esperando pela tal pessoa que me ajudaria a compreender esse mundo com novos olhos. Uma semana se passou e ainda permaneço em espera.
Novamente, os uivos começaram, irritantes e altos. Olhei sobre meu ombro e observei a janela. Um vulto negro passou rapidamente, fazendo-me pular do chão e pegar K’onar, minha katana.
Alguém — ou algo — bateu fortemente duas vezes na porta. Eu apertei o cabo da katana, firmei os pés no chão, pronta para me defender do que for preciso.
— Não há necessidade de se preocupar, Akemi. — a voz masculina gritou do lado de fora.
Meu corpo estremeceu de adrenalina e um certo medo.
Não sei o que era, mas aquela coisa sabia meu nome.
No mesmo instante, o pingente do meu colar começou a brilhar intensamente. Isso só significa uma coisa: O que quer que esteja lá fora, não era humano.
— Você é algo… qual é sua missão, criatura? Porque está aqui? — gritei de volta.
— Seu pai, Fugaku Nakamura, ordenou que eu viesse aqui. — Disse simplesmente.
Um silêncio repentino preencheu o local. Apenas se ouvia o crepitar do fogo e a ventania da nevasca.
— Então, você é ele ? — sussurrei.
Apenas, e somente, eu e um pai sabíamos sobre o nosso aliado secreto.
— Sim. — respondeu.
A porta estava trancada. Ainda segurando a katana, ergui minha mão em direção a porta, concentrando-me na chave, girando a mão lentamente e, consequentemente, a chave. Quando a destranquei, esperei, ainda apreensiva, pela entrada do homem. Num movimento rápido a maçaneta virou, e uma figura toda de preto e encapuzada entrou.
Suei frio ao ver a pessoa a poucos metros de mim. Ele era alto, não estava por baixo de camadas de roupas, pelo contrário, vestia um simples moletom e calça preta, botas e uma mochila de acampamento em suas costas. Ele retirou o capuz, revelando cabelos pretos na altura do ombro.
— Sou Tyler, filho de Castiel, do Clã Laurent. Como já sabe, temos uma dívida com o seu pai que nunca será paga. Fui escolhido para levá-la em segurança para Swamoris, a Cidade dos Magos.
— O que exatamente é você? — levantei a voz ameaçadoramente.
Ele deu um passo à frente, ajoelhou-se diante à mim e disse como sinceridade em suas palavras:
— Sou seu guardião.
Fale com o autor