Filhos da Magia

3 Capítulo 2 - Malditos Sobrenaturais!


A noite em claro que perdi valeu a pena. Após a chegada de Tyler, eu apenas fingi que dormia, mas escondi K’onar embaixo das cobertas — e ele sabia disso — e com a fornalha acesa, caso eu precise queimar alguém. Nenhuma palavra foi trocada desde sua chegada, apenas concordamos em ir para Swamoris como havia dito. Secretamente, eu já sabia de tudo. Meu pai me ditou cada coisa que aconteceria na carta que escreveu e prometeu que eu poderia pôr todas as minhas confianças nele.

Pela manhã, aproveitei pra tomar um banho quente bem rápido pra que já saíssemos da cabana de uma vez.

Preparei minhas malas, quando terminei, sentei-me em cima da cama esperando o menino acabar de tomar banho também. Um estranho cheiro de pelo molhado me causou ânsia de vômito. O ar frio da manhã era mais confortável do que o que vinha do banheiro. Equipei-me com o dobro de roupas quentes, coloquei K’onar em minhas costas e sai da cabana.

— Ar puro! — sorri satisfeita ao sentir os flocos de neve caindo em meu rosto.

Era normal nessa época do ano se jogar no chão coberto de neve, balançar braços e pernas fazendo um anjo da neve. Fazia isso direto com minha irmã, Arisu, já que era uma criança na época. Tristemente, não terá mais dias assim, pelo menos, não pra mim.

— Aproveite agora o que há de Rillidan, Akemi. — murmurou Tyler, já ao meu lado, trajando roupas leves como se não se importasse com o frio.

— Pretendo voltar pra minha cidade natal... com minha irmã.

— Talvez consiga, mas não digo nesse sentido. — ele começou a andar, mas parou no meio do caminho. Carregava duas mochilas e jogou uma para mim, que era a mais pesada e era minha.

Começou a andar novamente liderando o caminho e eu o acompanhei.

— O que quis dizer então? — perguntei, andando ao seu lado.

Ele permaneceu em silêncio, entendi isso como um sinal para que não fizesse mais perguntas. Tyler franziu a testa e encarava nenhum lugar específico, apenas, não me olhava nos olhos, levou a bandana customizada com uma caveira até o nariz, eu repeti movimento.

— Haverá uma guerra… destruirá tudo e todos que já vimos… por mais que tenha humanos desprezíveis por aí, ainda dá para salvá-los. Mais uma vez. — sua voz soou abafada por causa da bandana, mas entendi cada palavra.

No mínimo, demorava meia hora pra sair da floresta, para nossa sorte, a neve caia em pouca quantidade e não atrapalhava nossa visão. Chegando na parte mais comercial da cidade, poucas pessoas arriscam a andar na rua.

Tomei tempo para encarar Tyler, e não me surpreendi quando ao admirar sua beleza; ele era alto, comparado a ele era uns cinco centímetros mais baixa, escondia seu cabelo comprido em um gorro cinza e parte do seu rosto com a bandana de caveira. Sempre mantinha a expressão séria, olhar afiado e desafiador, porém, agora, óculos de proteção pretos escondiam seu olhar de mim. Tive a ligeira impressão de que ele me encarava de volta, de qualquer forma, desviei o olhar para o chão.

— Akemi, está com fome? — chamou em voz baixa, e fiz que sim com a cabeça — Nossa próxima parada é em uma cafeteira, então, não se preocupe, de qualquer forma, você precisa estar forte para o que vamos fazer agora. — completou. Eu apenas assenti e continuei seguindo-o.

Entramos dentro da cafeteria mais famosa da cidade, a Goodreams. Literalmente, tinha uma fila enorme apenas pra entrar lá, mesmo estando um frio daqueles. Só das janelas do lado de fora já dava pra ver a temática da cafeteria, era algo amarelo.

Tyler, sem olhar para cara de ninguém, adentrou no estabelecimento, apesar das reclamações de várias pessoas na fila. Eu parei um pouco receosa e observei a cena. No momento em que Tyler entrou, todos os olhares foram voltados a mim.

— Pode entrar, senhorita. — Disse o homem de terno, ele abriu a porta e se afastou dando espaço pra eu entrar.

Ignorando os protestos das pessoas, enfim entrei na cafeteria.

Era grande, decorado com imagens do Pikachu, o local estava cheio de gente trazendo calor humano, além dos aquecedores em cada canto.

Procurei igual a um suricato pelo meu guardião que me largou, e o encontrei lá no fundo, conversando com uma mulher loira que parecia ser garçonete. Aproximei-me dos dois desviando das crianças e mesas.

Tyler, sem aquelas camadas de roupas, olhou pra mim e sorriu minimamente. A mulher, que parecia está dando em cima dele, observou-me sentar na cadeira na frente de Tyler com um certo… desprezo.

Não segurei, e revirei os olhos sob o olhar da mulher.

— Akemi, amor, o que deseja? — Tyler me entregou o cardápio, lançando um olhar divertido, como se quisesse que eu entrasse em seu joguinho.

E assim eu fiz.

Deu pra ouvir e sentir o ciúmes e indignação da mulher ao nosso lado. Obviamente a ignoramos para chamar um ao outro com apelidinhos fofos — vulgo, nojentos. Eu o peguei, folheei um pouco, suspirei falso, fingindo estar cansada, coloquei o cardápio sobre a mesa e disse:

— Nada aqui me agrada, amor— sorri sugestivamente para ele — Surpreenda-me.

Por segundos, ele estudou minha expressão. Permaneci sorrindo de lado. Era curioso perceber que a garçonete continuava observando a situação, enquanto eu e Tyler nos divertíamos testando sua paciência.

— Ela vai querer o mesmo que eu.

Sem graça, a garçonete, cujo o nome escrito na plaquinha era Dafne, saiu deixando-nos a sós.

Observei-a saindo e comentei:

— Quais são suas táticas para seduzir as pessoas? — vire-me para ele, sendo pega de surpresa ao ser hipnotizada por seus olhos negros — Essa…dádiva vem da sua raça?

— Todos os sobrenaturais têm isso.

— Está usando isso em mim agora, certo?

— É involuntário. — ele deu de ombros.

Nossos pedidos chegaram, e Dafne disse nenhuma palavra.

— Boa pedida! — elogiei ao ver minha refeição: nada mais que um hambúrguer x salada, Coca-Cola e batatas fritas — Não saudável, mas gostoso.

Ele apenas concordou enquanto mordia um enorme pedaço do hambúrguer.

— Então — começo chamando a atenção do moreno em minha frente — O que exatamente faremos agora?

— Há um portal num hotel aqui perto.

Parei de mastigar, não chocada, mas apenas processando isso mentalmente.

— Eu não duvido, para falar a verdade. Magia está me fazendo duvidar de tudo.

Quando terminamos, Tyler pagou a conta e voltamos a andar para esse tal hotel. Mas algo estava errado. Não em mim, mas sim no ar, e em Tyler. Ele parecia ansioso, cuidadoso, ligeiramente olhando para os lados, como se espera algo. Eu fiz o mesmo, lembrando-me mentalmente da katana em minhas costas e facas guardadas.

A rua foi ficando vazia, apenas neve aparecia, mas havia algo junto a nós.

Meu colar começou a esquentar e brilhar em meu pescoço, confirmando que havia algo aqui. Tyler percebeu isso. Olhei para suas mãos, pensando que iria pegar uma arma, mas seus dedos — ou unhas — esticaram, como garras.

Uma flecha flamejante passou diante dos meus olhos e fincou na parede de uma loja. Alarmada, peguei a katana em minhas costas, fiquei na direção ao contrária de Tyler e procurei pelo atirador. Não havia ninguém, nem humano, nem sobrenatural.

Um rugido me manteve alerta. Quando olhei para trás Tyler, já em sua forma lupina, batalhava com um homem loiro com pele mais branca que a neve, vestindo uma armadura preta com detalhes roxo, com ombreiras em forma de caveira.

Um humano nos atacando? pensei, e no mesmo instante, avancei sobre ele. Porém fui impedida de forma dolorosa: com uma flechada flamejante na minha perna direita.

Joguei-me no chão, retirando a flecha no mesmo instante.

Olhei raivosa para a arqueira que se mostrou em cima de um dos prédios metros longe de mim. Seus longos cabelos loiros balançaram contra o vento, era impossível não notar as semelhanças entre ele e o homem com quem Tyler lutava, vestida da mesma forma que ele. Mas então, eu notei algo diferente nela. Suas orelhas eram enormes e decoradas com piercings.

Uma elfa.

Ela sorriu maldosa, ergueu o arco enorme feito de ossos em minha direção e atirou.

Joguei meu corpo para o lado, desviando assim da flecha. Se não tivesse me mexido, a flecha teria me acertado diretamente na barriga. Mesmo assim eu peguei a flecha que tinha atirado em mim por precaução.

Não esperei mais tempo, até porque a elfa continuava a disparar contra mim, me levantei e corri.

Pude perceber o olhar de Tyler sobre mim, verificando se ainda estou viva. Corri até um muro de um supermercado e me escondi nele, ficava um pouco longe do lobisomem, eu grite:

— Seja cuidadoso! Eu vou cuidar dela. — e corri novamente, mas, dessa vez, em direção da atiradora.

A adrenalina me deu impulso para correr como nunca. Desviava com muita dificuldade das flechas, mas, graças as lojas da cidade, consegui manter meu corpo sem nenhuma perfuração. Ela atirava em cima de um prédio médio, mas quando cheguei perto, ela já tinha sumido. Eu tirei uma faca que estava guardada na minha perna e averiguei o perímetro.

A rua estava um silêncio, sem sinais de humanos ou elfa, porém as pegadas na neve não mentiam. Ela tinha fugido, ou me levava para uma armadilha. As pegadas levavam em um beco. Não seria burra o suficiente pra cair nessa.

Não conseguiria vê-la sem magia. Então, usei a neve ao meu favor.

Desenhei um círculo, uma estrela dentro dele e posicionei a flecha no meio. Coloquei a mão sobre o desenho, mas não pude completar o processo pois, de repente, algo se explodiu a poucos metros do carro que me escondia.

— Flechas explosivas! — ofeguei, apressando-me para terminar o feitiço — Mostre-me onde está elfa que atirou em mim. — o desenho não me mostrou nada, me deixando agoniada.

Mas algo melhor aconteceu: A explosão causada pela flecha da elfa botou fogo numa loja de casamento. Pra alguns, isso seria um desastre, mas, pra mim, mostrou a resposta. A chama que queimava o vestido de noiva vislumbrou, não uma, mas duas elfas, uma no terraço e outra na entrada da loja.

— Parece que o feitiço virou contra a feiticeira — ri sem vontade, baguncei o desenho — Estúpidas, apenas me ajudaram a encontrá-las. — murmurei, tentando conjurar um feitiço de invisibilidade.

Não duraria muito, apenas dez minutos, e também não era tão eficaz, já que meus passos seriam marcados pela neve. Era tempo de economizar energia e magia, não poderia simplesmente começar a flutuar ou enfeitiçar meus pés, ou coisa do tipo. Tinha que aproveitar essa minha vantagem-desvantagem para matar aquelas elfas.

Notas finais
pretendo postar capítulos três vezes por semana, uma vez aprendi que fanfics minha com longa duração acabam sendo excluídas. e sim, na cafeteria vende hamburguer. porque não?