Filhos da Guerra - Interativa
1 I- O Projeto Ares
Notas iniciais
I- O Projeto Ares
Aquele era um prédio silencioso.
Monica, uma das únicas cientistas que ainda tinha esperanças naquela ideia maluca o suficiente para trabalhar no local estava acostumada com isto, ainda que não a agradasse. Vestia saltos todos os dias justamente para que o som dos mesmos contra o chão metálico cortasse a quietude enfadonha, lhe sendo reconfortante.
Naquele dia, porém, não estava funcionando.
O fato de saber que atrás daquelas paredes estavam esperando-a para ajudar a explicar a situação, para mostrar-lhes um plano falido, fazia os saltos parecerem um apelo ao invés de um conforto aos seus ouvidos.
Alcançou a porta branca que a aguardava e, suspirando, adentrou.
Do outro lado seis personagens já a aguardavam, visivelmente impacientes.
O ar era artificial e as respirações pareciam explosões no silencio ensurdecedor.
Monica não pôde evitar engasgar.
— Até que enfim, senhorita Lancaster.
Theodore, seu chefe, um homem alto e alinhado, estendeu-lhe a mão em busca dos papéis que mantinha entre seus trêmulos. Ainda relutante, deu-lhes para ele e se sentou na cadeira vazia ao seu lado.
A mulher não fazia ideia de quem eram as outras pessoas ali e nem porque elas eram importantes, tão pouco ligava para coisa alguma! Precisava avaliar o que seria feito com os projetos que administrou até ali, era uma cientista, cumpriria apenas seu dever.
— Muito bem, senhores, é um prazer tê-los aqui hoje — Theodore limpou a garganta e juntou as mãos — Esta é a nossa cientista chefe, Monica Lancaster, e ela lhes falará logo, até lá deixe-me explica-los o que nos trás aqui. Serei o historiador desta noite e ela, bem, ela será exatamente o que é.
Com um sorriso forçado, ela olhou para todos rapidamente, fingindo-se de simpática.
— Anos atrás, como vocês bem sabem, houve uma guerra terrível. Estávamos sendo aniquilados, sem esperança de vitória... Então, com nossa ampla inteligencia robótica e biológica, criamos seres capazes de ganhar a guerra por nós, e nos entregar o mundo. Batizamo-os de Arianos, ou, como os conhecem, o Projeto Ares. Guerreiros com cabelos flamejantes e habilidades incomuns, e assim, vencemos — Monica fez mais do que sentir os sorrisos alheios, ela os ouviu, tão presunçosos que eram — O problema foi... Depois da guerra, o que fazemos com seres incapazes de sobreviver em um mundo em paz? No início achamos que podíamos controla-los e persuadi-los a ser nossa polícia, aguardando pacientemente novos conflitos. Que erro...
"Não se pode fazer Deuses da guerra capazes de proteger pessoas, eles não lutam por isso, eles lutam para matar pessoas. Tornaram-se agressivos e uma ameaça. Então, sem escolhas, decidimos destruí-los. O fato é que: Não sabemos se Arianos são capazes de ter sentimentos, os estudos não chegaram tão longe, mas eles pensam. E são espertos. Se reproduziram assim que notaram o que estávamos planejando, alguns com seres humanos comuns, outros com outros Arianos. Matamos os progenitores, é claro, mas não seriamos capazes de matar os bebes e, mesmo que o fizéssemos, outros escaparam e recomeçariam o ciclo. Não, extermina-los não era mais uma opção. Foi ai que a ilha surgiu, um lugar seguro e protegido por milicia segura onde todos eles habitam, longe de nós como a senhorita Lancaster irá explicar agora."
Theodore sentou-se, Monica se levantou.
Ainda não tinha certeza sobre ser uma boa ideia, mas tinha escolha?
— Ahn... — engoliu a seco, com medo de vomitar — Os bebês foram enviados a ilha Ares, como vocês sabem, onde são domados pelo exército e mantidos sob controle. Sabíamos que eles iam crescer, e no início houveram conflitos, é claro, mas hoje estão contidos. Os Arianos puro sangue são mais ariscos, e normalmente só criam laços entre si, formando uma separação na ilha: Um lado de meio humanos, outro de puros sangues. As casas são construídas por eles, por isso a irregularidade, e atualmente a nossa segunda geração vêm nascendo, ainda mais sob controle do que a primeira.
"Quantos aos... soldados... Se mediante o motivo certo, irão colaborar. Querem mais do que tudo conhecer o mundo de fora, viver nele... Mas há muitos conflitos, como o senhor Theodore frisou, os ancestrais foram feitos para a guerra, está em seu sangue e eles não podem evitar, principalmente os puros... Geralmente estes são mais poderoso e menos sentimentais do que os mestiços, afinal não houveram a mixagem para acalma-los, e todos tem cabelos vermelhos como os antecedentes. Por alguma razão nenhum dos mestiços possuem os cabelos desta cor e, sempre que tentamos alterar a colocação dos cachos puros, eles voltam a ser vermelhos..."
Ela sabia que havia mais a ser dito, porém não sentia vontade.
Alguns segundos depois, o superior levantou e ficou em pé ao seu lado.
— Novamente, como os senhores bem sabem, o setor leste do país nunca ficou completamente livre de ameaças radioativas. Um gerador nuclear ainda está ligado e o exercito não consegue conte-lo... Se ficar ligado por muito mais tempo, causará danos as cidades vizinhas e consequentemente ao país. Além do mais, logo atacarão no sul, a ideia de que não podemos controlar nossos Arianos correu, e agora eles acham que tem vantagem.
— Então o plano é? — Monica não olhou para a voz, estava olhando para as fichas escolhidas, mas a frieza do timbre a congelou por dentro.
— O plano é selecionar 12 deles para enviar ao leste, onde desativarão o gerador e matarão as ameaças biológicas surgidas por causa da radiação. Não lhes trará dano, são imunes. Diremos que irão poder viver entre nós se o fizerem, dando-lhes esperança. Os outros vão acabar sabendo, e vão ter esperança também, depois será fácil. É só garantir que, se lutarem a guerra por nós, irão ter o mesmo privilégio que os outros 12, e o farão sem exitar. Logo lutarão a guerra por nós outra vez.
— Mas e se ocorrer o mesmo problema anterior, com os Arianos originais?
— Não irá. Eles serão enviados a ilha logo depois de lutar.
Um silencio momentâneo.
— O senhor pretende engana-los?
Uma risada estranha e doentia saiu da garganta de Theodore.
— Não se ganha guerras com verdades, caro Senhor. Se ganha com soldados.
Outro tempo de silencio.
— Já sabe quem vai escolher?
— Monica separou os melhores. Vamos mostra-los assim que concordarem com o plano.
Seis assentidas depois, Monica começou a passar as fichas.
Não estava feliz, passara anos cuidando daqueles garotos e agora... Agora parecia que estava vendendo os próprios filhos. Não tinha escolha, no entanto, nunca se tem escolha.
O Projeto Paladino estava novamente em vigor, e ela era uma das culpadas.
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