Filhos da Guerra - Interativa
2 II- Em Busca de Lobo e Luz
Notas iniciais
II- Em busca de Lobo e Luz
Elias Belcoot nem se movia enquanto Luth serpenteava ao redor dele, cansada o bastante para ficar mais lenta, porém não a ponto de ficar calada.
Ele estava começando a se perguntar se havia sido mesmo uma boa ideia acolhe-la naquela noite enfadonha, mas como sempre se perguntava aquilo quando passava mais de dois minutos com a menina, julgou que tudo estava nos eixos — ao menos isso -, além do mais, não era exatamente por isso que gostava dela? São engraçadas as coisas que te completam, sempre as mais detestáveis.
— Já disse para levantar mais o cotovelo, Luth.
— Já me disse para fazer muitas coisas, inclusive ir ao inferno.
— E por que não me obedeceu?
— Você sentiria minha falta.
— Negativo! Na verdade estou pensando em te levar ao inferno pessoalmente.
— E tomar o lugar do cara de lá?
— Engraçada, agora, cotovelos!
Ela investiu contra ele, que defendeu quase entediado. Considerando que ele quase sempre parecia mesmo entediado, Luth não se sentiu ofendida.
— Isso teria sido mais difícil se os cotovelos estivessem mais altos.
— Você finge que eu não sou párea para você, mas seus músculos também doem que eu sei.
Garota infernal...
— Sabe, estou com sede, e meus músculos doem tanto quando os seus — ele resmungou alguma coisa — Podemos parar um pouco?
Já estavam ali faziam duas horas. Luth estava com os cabelos grudados no pescoço e pingando de suor, respirando com força e com os braços molengas ao redor de si mesma. Elias estava apenas parado no meio da sala.
O ruivo olhou para o relógio e depois para a tutelada.
Quando se tratando dos outros o rapaz sempre fazia questão de permanecer ali durante muito mais horas a fio, e fazia muito mais esforço para deixa-los cansados do que fazia com a pequenina, deixando todos desconfiados de que ela era sua favorita.
Bem, estavam certos, ela era.
Lembrava-se como se fosse ontem do dia em que a resgatou: Uma mestiça invadiu sua casa em busca de comida... doces, para ser mais exato. Era pequena e jovem, bem mais jovem que ele, porém conseguiu segura-lo por mais tempo do que deveria. Lutava muito bem, era rápida e esperta... Era melhor que muitos puros sangues. Cansava mais rápido que ele, mas conseguia faze-lo ficar cansado também, o que era impressionante. Lhe ofereceu abrigo pouco tempo depois, e hoje, era sua protegida.
Claro que ele pensava em joga-la na rua toda vez que ela invadia sua cama afirmando ter tido um pesadelo com soldados ou coisas bizarras, e quando ele tinha que obriga-la a comer algo além de doces ou tomar banho como uma mãezona chata, e ainda mais quando ela o chamava de mãezona chata, porém Luth era dele agora. E ele era dela, não havia discussão nem nada que pudesse fazer.
Não importava o quanto fosse tentador estrangular ela num beco, ela ficaria exatamente ali, e ele adorava aquilo.
— Sabe, você devia treinar menos e comer mais, já está ficando magrelo... Aliais, você já foi de outro jeito?
Ela foi ignorada.
Ele se sentou no chão com ela, mas dispensou os doces que ela lhe ofereceu dizendo ser seu combustível. Eram a passagem dela para problemas dentais, isso sim.
— Por que vocês puros sangues ganham mais doces se são sem graça demais para come-los? Só ligam pro próprio ego, nem sei como cabe o célebro de vocês ai dentro, o ego devia ter coberto tudo!
— Cérebro, Luth. E nós ganhamos porque somos menos infantis que a sua espécie.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Agora é meu professor de português, também? E teoricamente a sua espécie e a minha espécie não são tão diferentes, ao menos não diferente o bastante para irem parar num lugar diferente — ela lambeu os dedos cheios de açúcar — No final, somos todos lixo.
— Você não é lixo, Luth.
— Você é. Um lixo mandão.
Elias a encarou, começando a se questionar com força o porquê de ter feito aquilo com a própria vida, quando as portas foram abertas.
Os dois levantaram de um pulo, o rapaz empurrando a garota para suas costas.
— Quieta agora, Luth.
Ele sabia que ela sempre o obedeceria se usasse esse tom.
Eram soldados. Quatro deles com armas muito bonitas.
O coração dele gelou. Iam assustar a garota, e não estariam ali sem um bom motivo.
— Senhor Belcoot, terá que vir conosco.
Uma das regras da ilha era nunca desobedecer uma ordem direta vinda de um soldado. Era a regra mais importante e mais desobedecida daquele lugar, principalmente por puros sangues que, é claro, não eram obrigados a nada, mas Elias estava numa encruzilhada.
Podia fugir pelas janelas mais próximas, seria rápido e estaria muito longe quando se dessem conta, mas havia Luth. Estava cansada depois do treinamento e demoraria a entender o que estava acontecendo, eles a machucariam e a culpa seria toda sua... Ela tinha ataques de pânico só de vê-los por razões ainda desconhecidas para ele, mas não arriscaria a vida dela nem um trauma ainda mais profundo em sua mente.
Ele teria de ir e perder um dia todo.
Virou-se para ela, muito calmo.
— Eu já volto... Volte para casa com cuidado, não deixe que ninguém te veja — ele estava sussurrando.
Ela negou com a cabeça, assustada. Elias sorriu.
— Já invadiu uma vez, não foi garotinha? Faça outra vez, e faça rápido.
Luth não era idiota, sabia que se eles estavam ali tinha algo errado, mas estava em pânico demais para dizer alguma coisa.
Então se virou para os soldados.
— Espero que não sejam condescendentes a ponto de me colocarem algemas, senhores, me deixaria irritado e tornaria nossa viagem ainda mais enfadonha. Podemos?
Elias não ousou olhar para trás nenhuma vez. Sabia que se o fizesse veria uma garotinha de olhos assustados o encarando, com doces ao redor e um olhar de quebrar o coração. E certos corações não são feitos para serem partidos.
(...)
Lucian adorava ver Amália brincando na água.
Sua irmã estava sempre tensa e obscura, cumprindo seu papel imposto pelo destino. Ela era a noite, ele era o dia, era o que a mesma costumava dizer... Mas quando estava brincando na água? Finalmente ela era só uma garota, o que deveria ter sido desde o inicio. Ela nadava, jogava água sem qualquer coerência, depois virava para ele com um sorriso enorme e... voltava a se apagar. O dia ao redor da praia e da cabana ficava mais escuro independente da hora, e ela saia de lá lentamente, matando toda a alegria envolvida.
Ele gostava de pensar que a culpa não era dele, mas já estava começando a ter sérias duvidas.
Eles eram mestiços, gêmeos e completamente diferentes.
Amália era negra como a noite, como seus poderes, os olhos eram cinzas como uma estrela. Como os dele. E Lucian tinha os cabelos prateados, a pele pálida, tudo claro como o dia. A mãe deles era uma puro sangue, mas nem ela foi capaz de dar a luz aos dois. Foi demais, e agora eles não tinham nada além da praia.
Viveram ali desde que puderam deixar de ser cuidados por soldados e ambos não tinham noção nenhuma de nada além da areia. Ninguém ia lá, eram apenas os dois. Para sempre.
— Estava morna hoje — foi tudo o que ela disse ao se sentar ao lado dele.
— Achei que você ia gostar.
Ela lhe deu um sorriso discreto.
— Sabia que tinha sido você.
Amália deitou a cabeça em seu ombro. Lucian não precisava olhar para saber que ela tinha fechado os olhos, e fechou os seus também.
— Devíamos fugir, Amy.
— Não poderíamos, Luck.
— É, eu sei. Mas parecemos humanos, quem sabe, não é? Não custa sonhar.
— Custa, custa sim.
Os dois ficaram em silêncio depois disso.
Lucian nunca perguntou qual era o preço por sonhar, mas de algum modo sabia que não era a hora de proferir aquela pergunta. Sofrimento te torna sábio, e ambos tinham sofrido o bastante para terem instintos muito bons para ousarem ignora-los.
Os dois ficaram ali, felizes por estar na companhia um do outro na pequena luz que Lucian produzia... quando ela sumiu.
O menino franziu a testa e se remexeu um pouco.
— Deixe a luz por mais um tempo, Amy, depois entramos.
Ela se mexeu ao seu lado, estranhamente desconfortável.
— Eu não fiz nada...
Foi então que os dois abriram os olhos.
Um dos soldados sorriu, os outros quatro apenas estenderam um pouco mais as armas.
Os dois arfaram, surpresos demais para se mexerem.
—Terá de vir comigo, Senhor Davis.
Seu sobrenome lhe soou estranho.
Os dois se levantaram lentamente após uma troca de olhares e mantiveram as mãos entrelaçadas enquanto olharam para os intrusos.
— Apenas o senhor. Me desculpe senhorita.
Amália apertou mais sua mão.
— Eu irei aonde ele for.
As armas foram erguidas um pouco mais, despertando os alarmes na cabeça de Luck, que agarrou a irmã pelos ombros e sorriu para a mesma.
Eram feitas para pessoas como eles, os apagariam em um segundo. Não ia permitir que isso acontecesse com ela.
— Vai ser rápido, Amis. Logo vou estar aqui, e vou até entrar no mar com você.
Lucian odiava o mar, o que sempre deixava Amália chateada. O sonho dela era que entrassem ali juntos.
Ele piscou, indecisa, juntou as sobrancelhas e uniu a testa de ambos.
Demorou um pouco para que ela falasse alguma coisa, e o fez apenas quando um soldado produziu um ruido estranho: — Odeio quando me chama de Amis.
Ele riu baixinho. Não era o que esperava num momento como aquele.
— Estou com um mal pressentimento... — a voz dela falhou. Ele não diria que estava também — Volte logo para mim, Luck. Não vou conseguir dormir sem você aqui... Certo?
— Certo.
Ela suspirou.
— Você promete?
Havia um pacto entre os dois, feito no segundo dia em que estavam na praia, depois de um longo período juntando madeira para fazer a cabana. Foi naquele dia que notaram que não tinham mais nada, que tudo começava e terminava ali, naquela praia. Os dois juntaram os dedinhos e prometeram que nunca fariam uma promessa que não pudessem cumprir. Nunca. Seriam a segurança um do outro.
Por isso ele apenas se afastou e, com um sorriso doce, disse: — Eu te amo, Amis.
Não faria uma promessa que não pudesse cumprir, e não tinha certeza sobre aquela.
Se foi com o coração mais apertado do que nunca, certo de que o pressentimento deles estava mais certo do que jamais esteve.
Tirou o colar e olhou para o pingente de lua preso nele. Ele estava com sua lua, e Amália estaria com o sol dela. Podiam ao menos fingir que tinham um ao outro.
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