Ela estava olhando para mim sedutoramente me convidando a usá-la. Seus tons de prata brilhavam me chamando bastante a atenção. Imagino que seu corte deve fazer um bom estrago em alguém como eu.

Estava no banheiro me olhando no espelho quando peguei uma pequena faca, ia me cortar de novo. Eu me achava tão insignificante, que não merecia viver, eu deveria me isolar na lua. Eu sou tão ridículo! Podre! Não mereço ter ninguém que se importe comigo, que seja meu amigo.

Vários psicólogos, uns dos mais caros, já não sabem o que fazer comigo. Dizem que tenho fobia social, para mim tanto faz, desde o início de minha adolescência sou assim, nas várias escolas que já estudei, nunca fiz amizade, sempre dava algum surto que me obrigava a sair da escola e ir para outra, e assim sucessivamente. Já estou em outra escola, minha doce vó acha que posso me curar, se me introduzir na sociedade da minha idade, mas aí é que está meu problema. Não consigo interagir com pessoas na faixa etária de minha idade, principalmente com meninos, sempre dou algum surto e eles me acham estranho, e por algum motivo da natureza a escola inteira fica sabendo e então me isolam.

- Está tudo bem meu bem?- ouvi minha vó, para falar a verdade eu a amava, ela era meu chão, meu aconchego, minha casa. Desde que me entendo por gente, ela está comigo, diz ela que meus pais foram mortos durante um assalto, e ela ficou comigo, perguntei a ela sobre meus outros parentes e ela disse que ela só tinha minha mãe de filha, e meus parentes de parte de pai nenhum deles se quer, procuraram vir saber sobre a morte dele. Resumindo, só tínhamos um ao outro.

- Sim vó, já vou descer.- gritei através da porta do banheiro.

- Fiz sua comida favorita, ande antes que esfrie meu bem.

Ouvi ela saindo. Desisti da ideia de me cortar por enquanto.

Cheguei à cozinha e vi um delicioso prato de bolo.

- Nossa vó! Agora a senhora se superou!- disse já pegando meu prato.

- Obrigada meu filho. — Ela sorriu, mostrando suas marcas de expressão no canto do olho. Minha vó realmente parecia uma idosa, mas confesso que não queria me topar com ela em um beco escuro.

Fomos para a sala, era domingo à noite, sempre alugávamos algum filme e assistíamos comendo coisas nada saudáveis.

Dessa vez era a vez dela de escolher o filme, confesso que ela tem ótimo gosto para tudo! Ficamos assistindo o filme até tarde da noite.

- Pronto para a escola amanhã Dylan?- disse ela como não quer nada, mas eu sei que ela estava com receio deu ir para a escola.

- Acho que sim. — disse tão baixo que acho que ela nem escutou, mas ela continuou.

- Ótimo! Mas Dylan, por favor, tente se dar bem nessa escola agora.- ela olhou no fundo dos meu olhos.

- Vou tentar vó, pela senhora.

Ela me deu um abraço forte e correspondi.

- Agora vá dormir senhor Dylan. — disse ela tentando soar rígida mas querendo rir.

- Sim, senhora Elizabeth. — tentei entrar na brincadeira dela.

Rimos e entrei no meu quarto e ela no dela. Bem, meu quarto (acredito eu) que era o quarto que todo garoto deseja, de certo modo nós somos ricos, vovó disse que ela conseguiu esse dinheiro todo, depois que meus pais morreram e deixaram de herança, e a partir daí ela ficou administrando o dinheiro, mas quando perguntou a ela do que eles trabalhavam, ela mudava de assunto na cara dura, mas eu não a culpava, perder a única filha deve ser muito doloroso.

- Meu deprimente e idiota mundo, vai começar amanhã. — e dormi.

Acordei com o alarme tocando disparadamente na minha mesinha de criado. Dei vários socos nele tentando parar e na milésima vez, consegui. Peguei minha roupa e meu uniforme da escola, felizmente o uniforme escolar era só a camisa, e felizmente (novamente) era bonita. Coloquei a camisa, peguei o colete e coloquei, depois vesti minhas calças pretas, e meu all star, arrumei meus cabelos pretos e tirei a sujeira dos olhos. Estava pronto- ou não. Desci para a cozinha.

- Ah Dylan! Está lindo!- minha vó estava acordada arrumando o café.

- Ah vó, menos, por favor.- fiquei corado, uns dos meus problemas em relação a minha "fobia social", era que eu odiava receber elogios em relação a aparência, porque eu meu acho horrível.

- Ah menino! Larga de ser bobo! Se dê o crédito de vez em quando.- disse ela sorrindo para mim. Seus dentes eram incrivelmente brancos, e seus cabelos meios grisalhos estavam perto de seus olhos.

- Que seja. — respondi não querendo soar grosso, minha vó não merecia isso de mim.

Sentamos-nos os na mesa e comemos um delicioso bolo, e tomamos café, e de quebra tomei um iogurte.

- Meu amor agora você tem que ir, já está na hora, não quero que se atrase no seu primeiro dia.

- Certo vó, tchau. — beijei ela na bochecha e fui para um lugar repleto de gente melhor que eu, e que eu certamente não faria amizade.

Fui a pé para a escola, era perto de casa e quase não me cansei quando cheguei na escola.

Já sabia qual era meu armário e meu horário para as aulas. Primeiro fui para o armário.

A primeira aula era de Biologia, tinha que pegar os livros, peguei eles, mas quando fui fechar o armário, ele se recusava a me obedecer.

- Droga!- exclamei baixinho.

Fiquei lá que nem um otário batendo o armário.

- Precisa de ajuda?- ouvi uma voz masculina atrás de mim.

Me viro e vejo um cara alguns centímetros mais alto que eu, mas em compensação a sua largura era o dobro da minha. E vi que ele era também do time de futebol. Vi de relance que ele era loiro com os olhos preto. Rapidamente me virei de volta para o armário e fiquei de costa para ele.

- Precisa de ajuda?- ele insistiu.

- Não. — respondi rispidamente, como um cara como ele (provavelmente popular e pegador) estaria conversando com um nada como eu?

- Ah vamos lá, me deixe te ajudar. — ele me empurrou gentilmente para o lado e bateu no meu armário e ele se fechou.

Sem dizer nada saí andando apressadamente e desengonçadamente.

- De nada!- ouvi ele gritando por trás de mim.

Me senti um lixo e um trouxa, como deixo um cara que acabou de me ajudar no vácuo dese jeito? Enfim, se ele me xingasse ou falasse mal de mim, isso com certeza não iria me afetar.

Entrei na sala e me sentei lá perto do fundo, no canto. Estava tudo indo bem, quando o cara do armário entrou na sala, e me fitou. Meu coração gelou e por alguma razão senti remorso com o que fiz no corredor com ele. Ele sentou do meu lado e disse:

- Está tudo bem?- perguntou ele.

Assenti.

- Sou o Ethan.

Outra vez assenti, e ele continuou:

- Essa é a parte que você se apresenta.

Fiquei completamente sem jeito, mas me lembrei do que falei para minha vó ontem, disse que iria tentar me dar bem, então respondi:

- Sou o Dylan. — minha voz saiu baixa. — E a propósito, obrigado por me ajudar com o armário. — minha voz saiu normal, e isso foi o que mais falei com um estranho da minha idade e menino.

- Sem problema Dylan- ele deu um sorriso. — Se precisar de qualquer coisa me fale.

- Obrigado. — Confesso que fiquei impressionado com a gentileza do Ethan, em todas as escolas que estudei os jogadores de qualquer esporte, eram todos metido e playboys, mas Ethan não, ele realmente me mostrou que nem tudo é igual.

Continuei tendo as aulas normalmente, no recreio fiquei sozinho nas arquibancadas da quadra, mas isso era normal.

Voltei para casa pelo mesmo caminho, quando ouvi aquela voz familiar de novo:

- Dylan espere!- era Ethan.

Parei de andar e me virei para trás e esperei Ethan para minha própria surpresa.

- Você mora por aqui?- ele perguntou.

- Sim, bem ali. — apontei para minha casa que já estava perto, e pela primeira vez na vida, continuei uma conversa. — e você?

- Ali. — ele apontou para uma casa perto da minha. — É parece que somos vizinhos, você está morando aí por muito tempo?

- Não, me mudei faz somente alguns meses.

- Nunca te vi por aqui.

- Não costumo sair.

- Sério? Por quê?

Meu rosto ficou branco, como iria dizer para uma pessoa que acabei de conhecer que eu tinha "fobia social"?

- Me desculpe se perguntei algo que não devia.

- Não se preocupe.

- Então... Se você quiser ir lá em casa, fique a vontade.

- Obrigado.

Chegamos na porta da minha casa.

- Tchau. — disse ele.

- Tchau. — respondi e entrei.

- Vovó?- gritei pela casa.

- Sim Dyaln! Ai está você querido! Quero saber tudo sobre seu dia.- ela estava tão contente.

- Ah meu dia. — disse com desânimo.

Contei a ela sobre o que fiz na escola e sobre Ethan.

- Ah querido! Você fez um novo colega!

- Ei vó! Calma ai, primeira vez que conversei com o menino, nem sei se ele é legal mesmo.

- Ah menino! Pare de bobagem! Dê uma chance!

- A que vó?

- A sua felicidade meu filho.

- Como assim?

- Tente fazer amizade, seja feliz, seja jovem!

- A senhora ta parecendo um governante vó.- nós rimos.

- Mas meu filho, é sério. Dê uma chance. — ela em todo momento me olhava nos olhos.

- Vou tentar.

- Meu coração já se conforta com isso meu filho.

Ela me deu um beijo na testa e já ia para o jardim, cuidar de suas plantas, quando falei:

- Vó, preciso te falar outra coisa.

- Fale meu filho.

- Com Ethan, eu não sinto a necessidade de sair correndo, sinto que temos algo em comum, algo me faz acreditar nele, como se tivéssemos algo igual.

Os olhos da minha vó estavam chocados, não pelo fato deu ter sentido isso pelo Ethan, mas por algo misterioso em seu olhar.

- Algo errado vó?

- Não meu filho! Isso é ótimo! Estou tão orgulhosa de você!

Ela me deu um beijo na testa e saiu. Ficamos o dia inteiro vendo filmes e conversando sobre eles.

- Já é tarde vó, preciso deitar. — bocejei.

- Tudo bem, acho que vou dormir também.

Subimos para o segundo andar e fomos para os nossos quartos.

- Ah! Preciso escovar os dentes. — exclamei no meu quarto.

Fui silenciosamente para o banheiro que ficava no corredor meu e da minha vó. Mas hesitei quando ouvi minha vó falando sozinha.

-... Sim, acho que tem um aqui, mande alguém vir aqui ver isso, e se for verdade, já sabem o que fazer.

Então ela parou. E ouvi um barulho bem baixinho, e depois parou.

Fui para o meu quarto pensando “O que era aquilo?"