Filhas de Vênus
3 Mudanças Drásticas
Notas iniciais
Todo dia era a mesma rotina para Emily e ela já estava cansada disso.
Acordava pela manhã, tomava café com a mãe e depois ia a pé para o colégio caro pago pelos pais ricos, pois não era tão distante de sua casa. A caminho, juntava-se a Pedro, um menino bonitinho que ela acreditava estar a fim dela. Talvez um dia ela até desse uma chance para ele.
Às cinco da tarde, seu pai vinha busca-la de carro e ela retornava para sua casa em um bairro nobre, onde se enfurnava em seu quarto para estudar e ver televisão. Pronto. Simples. Acabou.
De segunda a segunda, sem falhas, nem mudanças, a rotina seguia, inexorável, ininterrupta, infalível. E Emily já estava saturada. Não conseguia imaginar uma adolescente bela e vigorosa como ela em uma situação como aquela! Os pais não a deixavam sair com os amigos, ir a festas ou sequer dar um passeio, exceto com parentes. Os motivos variavam: ou a cidade que era perigosa demais, ou porque devia estudar, pois os exames de vestibular estavam próximos. Mas, no ápice dos seus 16 anos, tudo aquilo era insuportável. Emily sentia-se sufocada. Ela não era mais criança afinal! Precisava viver, respirar novos ares, conhecer alguém além do Pedro, que a perseguia desde que trombara com ela aos seis anos de idade no maternal!
E foi por isso que, naquela terça-feira cinzenta e fria, Emily resolveu inovar. Fazer algo diferente. Fugir. Escapar daquela rotina massacrante.
Assim, decidida, saiu de casa pela manhã e... tomou um rumo diferente. Agarrada à mochila, começou a correr pelas ruas, feliz como um cachorrinho livre de sua coleira, como um passarinho solto da gaiola. Ela quase podia sentir o cheiro daquela liberdade bizarra, inesperada e proibida. Sabia que estava exagerando, mas fazer o quê? Era algo novo para ela.
Sentia-se de outro mundo, e até ridícula por agir feito uma idiota. Mas o gosto do livre-arbítrio era tão saboroso quanto o sorvete que ela comprou na esquina da praça. Chegou a dar trezentos reais inteiros a um menino pedinte, todo sujinho, à porta do cinema, tal era sua felicidade e êxtase. Ao atravessar uma rua, desatenta, fez dois carros se chocarem, mas ela nem ligou e ignorou os xingamentos e berros histéricos dos donos dos automóveis.
A emoção em seu peito era inexplicável e foi a melhor coisa que já sentira; e o sorriso no rosto, o primeiro verdadeiro que ela já dera até hoje. E corria, e pulava, e saltitava pelas ruas, praças e avenidas, como se fosse a dona delas, girando em torno de si feito louca, feito criança.
Todos paravam seus afazeres para olha-la. E riam da garota estranha e bonita no meio da calçada, rindo à toa, como se nada lhe importunasse.
Emily não se incomodava com os olhares. No dia seguinte, quando voltasse à velha rotina, contaria a Pedro o que fizera, dar-lhe-ia um beijo também, e o convidaria para sair, para fugir da rotina também, pelo menos umas três vezes por semana.
E no meio da rua ela parou, gargalhando sozinha, girando num pé só, sentindo-se livre, sentindo-se...
BUM!
O terrível barulho de pneus freando foi ouvido a duas quadras de distância, seguido de gritos horrorizados, histeria coletiva e espanto.
Foi inevitável.
O enorme ônibus atropelara a jovem que surgira do nada no meio da rua movimentada e a arremessara dois metros no ar antes de ela cair como uma boneca de trapos no asfalto quente, mole, sangrando, de olhos abertos e as pernas e braços torcidos em um ângulo estranho.
A ambulância chegou duas horas mais tarde, contudo, ao chegarem com a garota no hospital, ocorrera algum imprevisto com o médico que deveria estar de plantão e Emily não foi atendida por um especialista.
Morreu em um leito frio meia hora depois, ainda com um sorrisinho congelado no corpo, o último resquício de sua efêmera liberdade.
O jovem Pedro era muito apaixonado pela colega de escola Emily. Naquela terça-feira, ele ia pedi-la em namoro, mas, por incrível que pareça, ela não apareceu. Ele esperou, esperou e esperou, na esquina de sempre, até perder a hora do colégio. Desapontado, resolveu sair para tomar ar fresco, coisa que nunca fizera, imaginando o que teria acontecido a sua amada. Emily sempre fora fiel a sua rotina!
Vagou sem rumo o resto do dia pela cidade. Ao anoitecer, entrou em uma lanchonete para comer alguma coisa, sentindo que talvez não fosse mesmo para ele ter alguém como Emily.
E foi lá que conheceu Carol, uma simpática cobradora de ônibus, dispensada naquele dia do trabalho porque houvera um problema com o automóvel para o qual fora escalada.
Após a morte de Emily, Pedro, desconsolado, entregara-se a Carol, apenas de corpo, pois sua alma sempre pertenceria a Emily. A mulher, entretanto, tornara-se outra pessoa. Interesseira e infiel, traía-o constantemente e todos sabiam disso.
Pedro vivia uma vida infeliz. Não tinha filhos, um trabalho satisfatório e sua mulher, todos os sábados à noite, desaparecia descaradamente.
Entregou-se ao álcool, perdeu o emprego e, um ano depois, quando Carol fugiu com uma mulher com o dobro da idade dela, ninguém nunca mais ouviu falar dele.
Nelson tinha sete anos, porém, já sustentava sua pequena família, pedindo esmola na frente do cinema do bairro, um lugar que gostava muito.
Naquela terça-feira, contudo, tomou um grande susto quando uma maluca depositou em seu boné nada menos que trezentos reais!!
Ele saíra correndo no mesmo instante para entregar à mãe, feliz, mas ela não acreditou em sua história. Chamou-o de ladrão e o bateu até suas pernas ficarem repletas de manchas roxas e a palma da mão inchar com as palmadas. Foi deixado na porta fora de casa para aprender, onde passou a noite inteira chorando, na chuva e no frio.
Pegou pneumonia e os vizinhos, diante disto, denunciaram sua mãe.
Ela foi presa e pouco tempo depois, em um incêndio que houve no presídio feminino, foi encontrada morta, sufocada pela fumaça.
O doutor Edgar nunca perdoou a filha da mãe desgraçada que cruzou o sinal vermelho como uma doida varrida naquela terça-feira, causando o acidente de carro entre ele e outro cara que estava atrás dele. Xingou a garota dos infernos, mas ela nem se importou.
Acabou se atrasando no plantão do hospital daquele dia e culpou eternamente a maluca quando soube que uma adolescente morrera sem atendimento adequado devido ao seu atraso. A culpa era pior, pois a menina vinha de uma família rica, e ele sabia que, nesses casos, ele seria o responsável e deveria prestar contas, ainda que injustamente.
Cheio de remorsos e completamente atordoado, no mesmo dia, acidentalmente, anestesiou o medicamento errado em um paciente que morreu em suas mãos. Foi exonerado da profissão de médico, abriu uma clínica clandestina e terminou preso poucos anos depois.
O pai de Emily ficou louco quando ela não apareceu na saída do colégio quando ele foi busca-la. Nem ela, nem Pedro. Saiu desesperado com o carro pela cidade, pois sua filha nunca fizera algo assim. Procurou desesperadamente sua garota e, por falta de atenção, acabou chocando-se com o carro da frente quando este freou bruscamente por algum motivo torpe.
Abalado e com a cabeça ainda concentrada na busca pela filha, deu meia-volta no mesmo segundo e partiu dali com a frente do carro em pedaços, sem tomar contas com o cara no qual batera.
Não percorreu cinco quarteirões quando o carro, devido a uma grave falha mecânica causada pelo acidente, saiu de seu controle e ele bateu em um muro, quebrando uma das pernas. No hospital, foi medicado errado por um médico desatento, e, por causa de uma forte reação alérgica, faleceu.
A mãe de Emily era uma renomada e importante figura social. Diretora do maior presídio feminino da cidade, era uma mulher rígida, fria, que impunha obediência à filha com mãos de ferro. Por conviver diariamente com mulheres que não valiam nada, tão perigosas quanto homens, sempre fora linha-dura no tratamento com a filha.
Mas, naquela terça-feira, quando ela recebeu a triste notícia de que sua filha morrera em um acidente e o marido falecera num hospital como resultado de um analgésico errado, percebeu que talvez sua vida não fosse assim tão prestigiada como pensara.
Entregou-se à depressão e rejeitou de vez a sociedade e as pessoas com quem sempre lidara. Afastou-se inclusive do próprio emprego e, depois que uma terrível rebelião em seu presídio terminou em um pavoroso incêndio, ela teve absoluta certeza de que não servia mais à sociedade, pois tudo o que ocorrera de ruim na sua vida devia-se somente ela. Ela era a culpada.
Sumiu por uns bons anos de vista e só reapareceu muito mais tarde, quando descobriram que ela se assumira lésbica e fugira com uma mulher qualquer para ter uma vida longe de todas as turbulências do dia-a-dia.
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