Filhas de Vênus
4 A Volta da Estrela
Notas iniciais
Ela estava bastante extasiada.
Depois de anos de ostracismo, finalmente retornava ao seu habitat natural: os palcos! É claro que nunca perdera seu glamour, seu requinte e sua aura de atriz. Estava ansiosa, mas despreocupada. Afinal, uma diva nunca perde seu dom.
Toda a peça se encontrava, além disso, perfeitamente do jeito que ela queria. Fora escrita por ela! Nada poderia dar errado. Ela não era uma amadora.
O cenário fora montado. Os coadjuvantes preparavam-se para entrar, nervosinhos como crianças em sua primeira peça. O enredo devidamente decorado e na ponta da língua de todos. A iluminação pronta; a sonografia preparada; a plateia em expectativa para o reerguer da famosa atriz.
Detrás das cortinas, ela aguardava. Não estava nervosa. Era uma profissional! Achava-se apenas excitada e ansiosa. Não via a hora de exibir seu lindo rostinho novamente para o publico. É claro que ela não era a mesma de anos atrás, mas quem hoje não dá uma ajeitadinha no nariz, uma puxadinha nos olhos, uma aplicação de colágeno aqui e acolá e uma esticadinha na testa?
Ela queria ser aplaudida de pé, exaltada, reverenciada! Queria ouvir aplausos, elogios, murmúrios de aprovação. Queria ver uma fila na porta de seu camarim e fofocas de que fora excepcional! Nada de mais, de fato.
Desejava tornar a ver seu rosto de Afrodite estampado nas revistas e jornais no dia seguinte. Sua ascensão seria lembrada por toda a história da arte cênica e seu nome seria repetido por toda a nave do palco. Seria lembrado e homenageado com louvor e adoração. Afinal, era uma estrela, uma diva, uma deusa! Nascera para revolucionar e impactar, pensava.
O jantar que comera apressadamente revirava no estomago, mas ela empurrava qualquer sensação ruim para os recônditos de sua mente. O importante agora era preocupar-se com a atuação, com sua performance.
O diretor a chamou. Pediu para ela se posicionar.
Ela correu até ele. Deu-lhe uma piscadela e passou as mãos discretamente pelo volume entre as pernas dele, dando um leve beliscão. O diretor estremeceu. Ela riu. Se não fosse as longas noites na casa do diretor, ela nunca teria conseguido a chance de hoje. Aquele pênis fora fundamental na sua ascensão, pensava rindo.
Então, ela correu por uma escada para um patamar que se erguia acima do palco. Subiu até quase alcançar o teto e se sentou em uma espécie de balanço, que, ao iniciar da peça, balançaria por cima do público enquanto ela cantaria dando início à peça, como uma sereia sensual, no estilo Jéssica Rabbit. Portanto, ajeitou delicadamente o vestido vermelho berrante, pois estava completamente nua sem ele. Afinal, o que era um retorno sem um pouco de polêmica? E ela precisava pagar o diretor no final também!
Enfim, as luzes gerais se apagaram.
O silêncio recaiu sobre a plateia.
Um holofote acendeu na direção dela, fazendo suas lantejoulas cintilarem como diamantes lapidados.
O espetáculo começou.
E o balanço desceu, com ela cantando apaixonadamente e girando por cima das pessoas atônitas; e ela viu suas expressões abismadas e queixos caídos ao perceberem que suas partes íntimas estavam tão expostas quanto frutas no mercado.
Riu. Gesticulou, sorriu, agitou os cabelos, cruzou as pernas provocativamente, fazendo poses sensuais e biquinho de mimada. Cada expressão era registrada em um flash. Cada nuance engrandecia sua performance. E ela se exibia, como um pavão, sentindo-se a rainha da noite, como há muito tempo não sentia.
O cabo desceu-a mais um pouco, deixando-a a apenas três metros do chão. O público a olhava embasbacado, e ela regozijava, realizada.
Foi então que o verdadeiro espetáculo começou...
Um dos cabos que sustentava o balanço se rompeu com um estalo semelhante a um tiro e a canção da sereia se transformou em um berro de socorro.
A atriz se desequilibrou e escorregou do banco. Seu vestido se prendeu nas ferragens soltas do assento e, de uma hora para a outra, a estrela se viu suspensa no ar, completamente nua, agarrada à barra de sua roupa, chutando o ar, em desespero, enquanto a multidão se dividia entre os risos e as exclamações de surpresa.
Seus dedos se soltaram e ela despencou de barriga no chão com violência.
Levantou a cabeça, ruborizada, e viu uma centena de rostos com os mais diversos tipos de expressões encarando-a como se ela fosse um animal de circo.
O café da manhã se revirou em suas entranhas, devido à queda e a humilhação... E ela não aguentou mais...
A plateia silenciou num ímpeto quando a bela atriz abriu a boca e vomitou em alguém da primeira fila. Vomitou, vomitou e vomitou... Vomitou até o que não havia em seu estômago.
Depois, ela rolou de cima do palco para o chão com estrondo e sumiu de vista.
Ninguém riu.
O cabo terminou de despencar de vez e puxou com ele parte da fiação elétrica do teto. Houve um curto circuito e faíscas pipocaram por todo lado.
O pânico se instalou.
As pessoas se levantaram e saíram em disparada para a saída enquanto o palco inteiro pegava fogo. As labaredas se espalharam e começaram a consumir o cenário inteiro com uma voracidade bestial.
Ninguém voltou para procurar a bela atriz, embora seu retorno tenha ficado cravado em suas retinas para sempre, como um dos eventos mais inesquecíveis da história do teatro.
Mas ela continuava lá, como uma estrela cadente, cintilando no chão, de costas, nua, sem fala, sem movimentos, sem reação, apenas contemplando o mundo a sua volta virar cinzas.
Era uma estrela que nunca mais voltaria a brilhar; e a lágrima que escorreu pelo seu rosto evaporou antes mesmo de salgar sua boca, tal era o calor do momento.
Então, a fumaça negra do fogaréu fechou-se sobre tudo, como as cortinas se fecham ao término de um grandioso espetáculo.
Notas finais
Mas comentem o que acharem ;)
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