Filha de Atena
2 O meu ataque de raiva é interrompido
Notas iniciais
Em passos firmes e apressados ela se dirigiu até a Casa Grande, tão absorta nos seus próprios pensamentos que passou direto por dois filhos de Hermes que estavam carregando caixas suspeitas. Quando chegou até a varanda, não se surpreendeu ao encontrar Quíron em sua cadeira de rodas, coçando o queixo em um sinal de reflexão. Parou no último degrau da pequena escadinha, ainda apertando o casaco contra o corpo. Não era nervosismo ou frio, não, longe disso. Era apenas um pressentimento.
– Quíron. — o cumprimentou em seu tom comum: frio, direto e forte.
– Annabeth, chegou em hora certa. — devolveu o cumprimento, com um olhar ainda reflexivo.
– É verdade sobre o garoto? — perguntou adentrando na varanda, encostando-se no parapeito e fitando o céu escuro, que parecia curvar-se para deixar a lua brilhar.
– Sim, criança. — a sombra de um sorriso — felizmente apenas a sombra — passou por seu rosto ao ouvir a última palavra, ele nunca mudaria o jeito de chamá-la, e pensando bem, era o único ali que possuía esse direito.
– Como ele está? — não deu tempo para o centauro responder-lhe — Desacordado, suponho.
– A equipe de prontidão do chalé de Apolo já fez o seu trabalho, curando os arranhões, cortes e afins. O que resta agora é esperar, ele está fraco, a ambrosia vai ajudar enquanto ele não se recupera, afinal precisa ser alimentado. Está exausto, inconsciente, me admiraria se não estivesse. É um garoto especial, o Jackson.
Annabeth percebeu que Quíron falava como se conhecesse o tal garoto, como se estivesse esperando por aquele momento há séculos. Percebeu também que o centauro estava inquieto, como se a chegada daquele campista fosse um presságio.
– Jackson? — Arqueou uma sobrancelha, se desencostando do parapeito e fitando os olhos de seu superior.
– Perseu, Perseu Jackson. — de repente o ar acolhedor da noite pareceu se esvair, era como se ela estivesse sendo esmagada contra o tempo e no fundo de sua mente, já tivesse ouvido aquele nome. O que era estranho, pois a sensação não vinha acompanhada de lembranças.
– Eu quero vê-lo.
Assim que chegou na enfermaria percebeu que o local estava quase vazio, exceto pela presença de um garoto com a cabeça enfaixada que dormia com uma careta de dor em uma das primeiras macas, e uma garota sentada ao seu lado, com os olhos marejados, como se contemplasse um milagre. Ignorou a cena e prosseguiu andando até a última maca, onde um rapaz — ela deduziu — estava esticado. Virou a cabeça para Quíron que estava — ainda na forma humana — parado na porta, ele assentiu e ela continuou a caminhada. Quando chegou perto o suficiente conseguiu observá-lo realmente. Era alto, alguns centímetros a mais que ela. Seu rosto tinha um tom bronzeado, tinha traços e contornos marcantes. Os cabelos eram negros, estavam desgrenhados e empapados de suor, assim como o resto de sua face. Parecia febril, e de vez em quando murmurava coisas desconexas durante o sono. Estava dando as costas quando percebeu que no criado-mudo ao lado da maca havia um enorme chifre preto e branco, com a ponta tão afiada que ela recuou indecisa. Então era verdade, aquele era o chifre do Minotauro. Olhou novamente para o garoto que agora estava calado, aproximou seu rosto do dele, seus olhos brilhavam em desdém.
– Então esse é o nosso herói, hum? Vai ser um prazer te estraçalh... ops, treinar com você, Jackson!
Três dias haviam se passado desde que ela havia visitado o garoto, Quíron perguntou se ela poderia ajudar a tratá-lo, mas ela dispensou a tarefa — claro, com toda a formalidade, profissionalidade e ótimas desculpas — jogando-a para o líder do chalé de Apolo. Afinal, aquela era uma área para o chalé 7 e não para o 6. Ela estava ficando exausta de tanto ouvir o nome de Perseu Jackson, não suportava mais escutar em todos os lados a mesma coisa: todos queriam conhecê-lo. Todos queriam se tornar amigos dele, as garotas de Afrodite estavam quase se desfazendo em tanta ansiedade e perfume. Para Annabeth, não fazia diferença. Era apenas mais um qualquer que, com muita sorte, seria esperto o suficiente para não bancar o bom e entrar em seu caminho. Logo após ter supervisionado os chalés e criado o relatório, estava no jardim* lendo, sob a sombra de uma grande árvore. Eram raros os momentos em que ela relaxava. O dia todo era corrido, o dia todo descontando pontos* de chalés, o dia todo dando sermão nos mais novos que insistiam em briguinhas ridículas, o dia todo supervisionando as diversas atividades que lá ocorriam, sempre arquitetando os projetos para os eventos. Ela podia dividir a tarefa, é claro. Mas ela era uma líder, e de longe a melhor líder que o acampamento vira em anos. Era rígida, porém justa, ela era distante ao mesmo tempo em que sempre estava presente, era fria, sarcástica, orgulhosa, quando dava ordens era alta e clara, ela sempre dava ordens e ninguém a desobedecia. Era uma guerreira nata, seus planos sempre dando a vitória para o seu time nos jogos que ocorriam, o chalé de Atena era respeitado, ela não admitia deslizes entre seus inferiores irmãos por parte de mãe. Ela mantinha tudo sob controle e tinha orgulho disso.
Logo após ter devorado metade do livro, deixou-o em seu colo e tentou concentrar-se em estratégias perfeitas para a próxima tarde, quando o treinamento entraria em ação. Era assim, todo mês dividiam os chalés em equipes, cada equipe possuía um líder. Ela sempre liderava a equipe em que estivesse e tinha o direito de escolher o líder da equipe adversária. Os jogos do acampamento eram bem interessantes, mas aquele era seu preferido. Era quando as equipes formavam fileiras, uma de frente para a outra, ao fundo de cada equipe havia uma bandeira cravada no solo, a bandeira era bordada com as principais cores dos chalés que eram pertencentes da equipe responsável por ela. O objetivo do jogo não era roubar a bandeira, e sim, defendê-la. Quando o apito soava, o jogo começava. O intuito do jogo era nada mais, nada menos, que colocar todo o treinamento em batalha, em ação. Claro, era proibido matar, machucar propositalmente e blá blá blá, o que era engraçado, já que era óbvio que se atacaria com a intenção de atingir o outro. Cada vez que um campista era desarmado, ele saía de jogo, o líder tinha três funções: guerrear junto de seu time, ao mesmo tempo em que era o defensor de sua bandeira e manter o jogo em ação, pois no instante em que um líder saía, o jogo acabava, dando vitória ao adversário. No final da batalha, era de se esperar que somente dois campistas restassem — os dois líderes — que se enfrentariam até um acabar caído e desarmado. O que acontecia com as bandeiras? A bandeira do time perdedor se tornaria um troféu para o time vencedor, o que somava pontos no fim de cada ano*. As equipes já estavam decididas: do lado azul estavam os chalés de Atena, Apolo, Hefesto e Deméter. Do lado vermelho se encontravam os chalés de Ares, Hermes, Dionísio e Afrodite.
Não que ela achasse que esse fosse o melhor time, mas precisava mudar, isso eram ordens de Quíron. Levantou-se rapidamente e rumou até o seu chalé. Chegando lá, elaborou toda a estratégia para o jogo, passo por passo, cada ação, cada mínimo movimento, tudo faria o seu time vitorioso. Pegou o papel em que havia escrito tudo com muitos detalhes e foi pessoalmente até o chalé ao lado – o 7 — entregar o plano para um dos campistas. Não gastou tempo conversando, apenas entregou e lhe pediu que repassasse todas as idéias para o chalé, em seguida deixando o planejamento nas mãos do chalé de Hefesto, que por fim passaria para o chalé de Deméter. O campista assentiu várias vezes, como um soldado costuma fazer com o general, e sua consciência lhe disse que era hora de fazer outras coisas.
Suspirou e recomeçou a rondar toda a extensão do acampamento, surpreendeu-se ao perceber que tudo estava calmo, normal, tudo estava ocorrendo sem brigas infantis, sem regras quebradas. Ela estava um pouco decepcionada, estava morrendo de vontade de dar um sermão em algum idiota. Vencida pelo tédio foi até a arena, deu graças aos deuses por estar vazia naquele momento. Ela queria muito descontar sua frustração em alguém e então ela já começava a sentir pena do sujeito que aparecesse em sua frente naquele momento. Caminhou na direção do primeiro boneco de palha que encontrou, tirou sua faca da bainha e em menos de cinco minutos o chão ao seu redor estava coberto de restos que um dia serviram como saco de pancadas para uma garota fria. Não se importava com isso, havia mais bonecos e então foi perfurando, rasgando e detonando um por um, até perceber que todos haviam se transformado em palha caída. Sentiu-se aliviada, e deixou que sua respiração voltasse ao normal. Estava tão enérgica que precisava se acalmar, ou a carga de energia acabaria estragando tudo. Deixou-se cair no chão, contemplando o estrago que havia feito. Tirou uma mecha de cabelo que caiu-lhe no rosto e fechou os olhos, puxando o ar e com ele acabou aspirando novamente a raiva, que aparecia nos momentos em que ela estava sozinha. Olhou para a entrada da arena, ainda estava sozinha, ótimo. Se levantou e já estava com a faca no alto, pronta para atingir... atingir o quê? Infelizmente, ela havia feito o favor de destruir tudo o que estava ao seu dispor.
– Desse jeito, vai acabar matando alguém.
Ela respirou fundo, preparou sua maior pose de desprezo e virou-se, pronta para tentar controlar a vontade de jogar a faca no meio do coração do infeliz que ousara aparecer naquele momento.
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