Filha de Atena
3 O líder de olhos verdes
Ok, ela havia decidido poupar a vida do idiota que ousara interrompê-la, porém quando virou-se, ele nem estava mais lá. Sim, ele, já que nenhuma garota poderia ter aquela voz. Sacudiu a cabeça cansada, guardou a faca na bainha e saiu da arena, observando cada pessoa que passava ao seu lado, tentando identificar milagrosamente o intruso. Não o encontrou, sorte dele. Foi até seu chalé, tomou um banho, se vestiu e já estava recomposta para enfrentar o que viria. Ela sentia uma necessidade crescente de treinar mais e mais, de desafiar aos outros, de desafiar-se. Passou o resto da tarde na parede de escalada, lutando como se aquilo fosse o fio que mantivesse sua vida. Enquanto não chegou ao topo, não ficou satisfeita. Annabeth estava muito inquieta naquele dia, motivos que nem ela própria conhecia. O que ela poderia fazer? Se abrir com alguém? Primeiro: ela não tinha amigos. Segundo: ela não precisava. Terceiro: leia as duas explicações anteriores até enfiar em sua cabeça que Annabeth Chase era uma garota sozinha, e que não importava-se com isso. E se ela se importasse, faria diferença para quem?
O dia amanheceu agitado, ela sentia a adrenalina pulsar em suas veias. Acordou dando ordens, dando uma dura em todos os seus meio-irmãos antes mesmo de saírem para o café da manhã. Liderou-os até o pavilhão, sentou-se confiante na mesa de Atena e estava tão enérgica que os campistas ao seu lado ficaram desconfiados. Mas quem liga para isso? Naquela tarde ocorreria o jogo de guerra, e ela mal podia esperar para detonar cada campista do time adversário, um por um. Ela tinha esse prazer em provar-se, em vencer. Ela ainda seria mais respeitada do que já era, pelo menos essa era uma das coisas escritas no seu destino. Ah, claro. Deixe-me explicar: ela é quem criava o próprio destino. Destino esse que não havia espaço para falhas, erros, proximidades, relações e todas essas coisinhas. Pouco depois do almoço, reuniu a equipe que jogaria sob sua liderança e foi muito clara sobre todas as ideias, foi muito clara quando disse que não aceitaria uma mísera falha, foi muito clara quando o seu tom de voz perigoso deixou avisado que ela não estava brincando, Annabeth Chase nunca brinca. Dispensou o time, ordenando que fossem preparar suas armaduras e armas, treinassem mais se fosse preciso. Expulsou Malcolm, Alice e Trisha que estavam dentro do chalé planejando algo, alegando que precisava de privacidade. Eles não protestaram, é claro que não. Ela sentou-se em sua cama, entrelaçou os dedos e com uma expressão pensativa, mal percebeu que o tempo havia corrido. Levantou-se e abriu a porta do chalé, observou que todos os campistas rumavam para a arena e seus olhos pareceram pegar fogo. Havia chegado a hora.
– Pronta para comer poeira, Chase? — é claro que só podia ser ela, Clarisse, para ter o atrevimento de provocar a líder do acampamento.
– Eu te garanto que comer poeira será melhor do que nem comer mais, porque uma de nós pode sair morta daqui, queridinha. E garanto que quem vai conhecer o reino de Hades antes mesmo de sair desse jogo, não sou eu. — sua voz tão cortante fez Clarisse xingar baixo, já que sabia que Annabeth seria capaz de arrumar uma desculpa para tirá-la do jogo.
– Quem será o líder escolhido? — um dos campistas de Hermes, do outro lado da linha traçada para dividir as equipes questionou.
– Só fale quando a palavra lhe for dirigida. — Annabeth cortou-o. — E, eu estou me sentindo tocada hoje. Deixo com... hum... podemos chamar de equipe o que se encontra em minha frente? Ok, deixo com a equipe de vocês o direito de escolher um líder.
O adversário todo se agitou, mas é claro que tudo tem um preço.
– Mas... receio que como Clarisse liderou no jogo passado e perdeu, ela está fora de cogitação. E bem, aproveitando para fazer uns ajustes, ninguém do chalé de Ares vai liderar.
– Você não tem esse direito! — alguém do chalé 5 gritou.
– Ah, não, é? Eu posso escolher o líder, estou dando o direito de vocês escolherem, retirando apenas uma opção.
– Você não pode criar regras! — uma voz protestou.
– Eu não estou criando, tampouco ultrapassando uma criada. Apenas estou sendo gentil com o adversário, mas quer saber? — foda-se. Ela não disse em voz alta, mas sua mente pensou em dizer.
– Não, está tudo bem, Annabeth. — Travis falou, calando o resto dos murmúrios. — Então, acho que nós teremos o direito de escolher alguém de nosso chalé para liderar, se nossa equipe estiver de acordo.
Vários consentimentos foram dados, muitas cabeças assentiram e muitos sussurravam entre si que a ideia não era tão ruim.
– Oh, Travis. E quem iria liderar? Você e Connor? — perguntou em tom de deboche, sabendo que ninguém teria a menor chance com ela naquele dia.
– Não, eu. — uma voz se pronunciou na multidão, era a mesma voz do dia anterior. Ela não identificou de onde vinha, mas viu os garotos de Hermes sorrirem de lado, evidentemente felizes com algo. Logo um garoto apareceu em sua frente, ficando a poucos centímetros dela. Ele tinha cabelos negros que estavam rebeldes com os ventos que chegavam, tinha o elmo debaixo do braço, e a encarava em tom de desafio. Seus olhos eram verdes, um verde vivo. Pareciam ondas agitadas do mar e um maldito calafrio percorreu a espinha de Annabeth. Aquele era o garoto da enfermaria, o que havia reduzido o Minotauro ao pó. Ele levantou o queixo, parecendo mais desafiador ainda. Ela engoliu em seco, sentindo todo o seu corpo entrar em ebulição.
– E posso saber qual é o nome do estúpido que se apresenta agora em minha frente?
Ele deu um sorriso seco, mordendo os lábios. Annabeth apertou o cabo de sua faca, entrando na defensiva.
– Percy, Percy Jackson. — ele disse, oferecendo a mão para que ela apertasse. Ela recusou, continuou encarando-o. Percebeu que todos aqueles que não haviam conhecido o suposto herói, estavam boquiabertos. Comentando entre si e viu de relance que as garotas de Afrodite estavam quase soltando coraçõezinhos pelos olhos. Clarisse ajeitou sua postura, com a mão no queixo, como se estivesse totalmente interessada assistindo o começo de uma guerra, mas uma guerra de verdade. Encarou Travis e Connor que entenderam imediatamente o que ela queria saber.
– Indeterminado, por enquanto. Ficou com o chalé onze, seguindo as regras. E, é nossa arma secreta, Annie. — Connor disse em tom zombeteiro, criando coragem o suficiente para chamá-la por um apelido que ela nunca havia autorizado. Annabeth sentiu a raiva borbulhar. Então agora esse cara resolvia aparecer e causar isso tudo?
– Ok, então — disse por fim, se afastando do garoto e ficando atrás da linha que marcava o território de seu time. — Equipe azul, preparar!
Percy Jackson fez o mesmo que ela, recuando até os limites da equipe vermelha. Sorriu satisfeito para ela, que sentiu vontade de arrancar-lhe o pescoço. Até mesmo Clarisse parecia tolerá-lo.
Quíron que assistia toda aquela situação de longe, aproximou-se. Com um olhar rápido Annabeth viu o sr. D sentado em uma cadeira, sendo abanado por alguns sátiros e estreitando os olhos prazerosamente para o centro da arena. Era óbvio que ele também adorava aquele jogo. Era óbvio que torcia para que saíssem algumas mortes dali.
– Tomem seus lugares. As regras são claras: nada de mortes, nada de trapaças, nada de aparelhos de última hora soltos no combate por vocês do chalé de Hefesto. Nada de travessuras por parte de vocês, Travis e Connor. Eu não quero nada desonesto, quero um jogo limpo. Preservem a nossa honra e a honra de seus pais. O jogo termina quando só restar um campista armado, campista esse que deve ser o líder. Caso um dos líderes seja desarmado, o jogo se encerrará cedo. Semideuses, boa sorte!
Lançou um olhar profundo para Annabeth, que assentiu, sentindo o delicioso peso de um líder cair-lhe pelos ombros. Lançou o mesmo olhar para Jackson, que girava uma caneta entre os dedos. Ela repassou pela milésima vez o plano em sua cabeça: eliminar os adversários que estão na primeira fileira, correr para perto da bandeira, defendê-la e esperar o líder — agora conhecido como Percy Jackson — aproximar-se. Ela não estava com pressa, iria adorar terminar com aquilo bem no seu próprio campo. Enquanto esperava Quíron dar início ao jogo, fez uma prece para sua mãe, pedindo que lhe abençoasse como fizera nas outras vezes em que ela entrava em combate. Abriu os olhos em alerta e viu que um par de olhos verdes a encarava.
– Boa sorte, Jackson. Vai precisar.
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