Notas iniciais
Boa leitura!o.O

Tudo estava quieto. Não havia barulho algum, nem mesmo o rugido do vento atravessando a folhagem. Sem o canto dos pássaros nas arvores. Sem o zumbido suave dos insetos. Nada. O único som que podia ser ouvido era o farfalhar das sandálias partindo as folhas secas abaixo de seus pés. No entanto, era um ruído tão baixo que poderia ser imperceptível por ouvidos intentos, mesmo que ainda estivesse lá, irrompendo o silencio da noite.

A mulher caminhou tranquilamente até o centro da pequena clareira, onde a figura encapuzada já a aguardava. Seus passos eram tranquilos quando uma leve brisa atravessou o campo aberto, fazendo com que seu vestido escuro sem mangas ondulasse atrás de si – como se o tecido fosse feito de nevoa – ao mesmo tempo em que seus cabelos dourados agitavam-se na mesma direção. Era linda, embora muito pálida. Ela fez uma breve reverência e, quando inclinou a cabeça, seus olhos foram iluminados pela luz da lua. Eram negros como a propria noite.

— Minha senhora – ela saudou respeitosamente. Sua forma cintilou, dividindo-se em três imagens enevoadas antes de se juntar novamente na aparência de uma bela mulher – Fiquei surpresa ao receber sua mensagem. Pensei que Ele havia...

— Ele não o fez. E não poderia fazer caso quisesse. – A segunda mulher cortou com a voz firme, meneando rapidamente com uma das mãos. Ela não removeu sua capa, de modo que não se podia enxergar com clareza os traços de seu rosto, embora fosse possível distinguir a densa áurea de poder que o envolvia, praticamente palpável no ar. – Mas eu não a chamei aqui para discutir sobre o que aconteceu, nem sobre as consequências da ignorância de Zeus para os deuses. Não.... – Ela suspirou, parecendo momentaneamente cansada — Eu a chamei por outro motivo. Preciso de um favor. Um favor de uma velha amiga.

A mulher deu um sorriso sereno. — Se estiver em minha disposição.

— Preciso que guarde algo para mim. Algo valioso – a outra disse com seriedade renovada. Ao longe, um cão uivou e a primeira mulher olhou rapidamente por cima do ombro na direção de que o som havia vindo. A figura sombria continuou: – Alguma coisa está se agitando na escuridão, e não tenho certeza se terei forças para impedir caso tentem tira-lo de minha posse.

Outro uivo atravessou a clareira, dessa vez mais próximo. A mulher comprimiu os lábios, sua expressão controlada se contorcendo por um efêmero instante em hesitação antes de retornar a transparecer a estabilidade costumeira.

— Sabe que eu faria qualquer coisa para ajudá-la, mesmo que fosse necessário comprometer a minha existência. – A mulher ponderou — Mas se a senhora não pode mantê-lo em segurança, a pessoa que me ensinou tudo o que sei, quais serão as minhas chances?

— Não ensino o Dom para qualquer um, descendente dos titãs. Você precisou de minha ajuda no passado, e esta noite eu te cobro o favor – Algo brilhou em um dos bolsos de seu manto quando ela colocou uma de suas mãos dentro dele – Uma guerra se aproxima. Não hoje. Talvez não amanhã, mas preciso saber se você e seus filhos estarão do meu lado.

A imagem tremeluziu, como uma câmera perdendo o foco. Se passou um longo tempo antes que viesse a resposta:

— Estaremos, minha senhora – sua voz ecoou pelo vazio, soando distante como alguém sussurrando do outro lado de um túnel. A figura encapuzada estendeu o braço, revelando um pequeno baú prateado por baixo de sua manta. A última coisa que pode-se notar foi um símbolo de bronze incrustado na lateral do delicado objeto, antes que a paisagem ao fundo rodopiasse como um caleidoscópio.

Então, logo em seguida, a clareira inteira havia se dissolvido em sombras.

Notas finais
Alguma ideia de quem sejam essas duas pessoas? (