Estou na aula de história, e a menina ao meu lado é completamente o oposto de mim. Ela observa atentamente o professor, batucando a caneta sobre a folha do caderno quase lotada de anotações, ansiosa para não perder nenhum ponto da matéria que ele designou para nós. Ela provavelmente adora a escola e tem grandes planos para a faculdade daqui a alguns anos, treina todos os dias com o resto das animadoras de torcida e tem sua vida inteira programada em um diário que ela secretamente guarda todas as noites debaixo de seu travesseiro.

Está quase escrito na testa dela Perfeita Bonequinha de Aluna Exemplar.

Enquanto isso, eu tenho uma caneta e um pedaço de papel completamente rabiscado. Não com informações importantes sobre a Guerra Civil, como era de se esperar, mas com um desenho meio concluído de um símbolo estranho criado na minha cabeça. No entanto, a figura não está funcionando. Com um suspiro, rasgo outra folha do meu caderno, amassando e jogando-a de qualquer jeito dentro da minha mochila. A parte de dentro já está recheada com bolas descartadas de papel. Um claro sinal de que minha criatividade não está fluindo do jeito como eu esperava.

— Por que não divide com a turma o que está fazendo, Elise? Suponho que seja mais interessante do que minha explicação de como a eleição de Abraham Lincoln fez o Norte vencer a guerra.

Em um momento, minhas coisas estão em cima da mesa. Então, eu mal tenho tempo de tentar esconder a pequena obra de arte debaixo da mesa antes que ela seja confiscada pelo professor. A menina ao meu lado, a mesma que estava prestando atenção no que o professor dizia alguns minutos atrás, me encara com um olhar reprovador. Sei o que ela está pensando. Como todos ali, provavelmente acha que a escola está perdendo tempo comigo. Mas eu não me importo com sua opinião, então me limito a apenas revirar os olhos na direção dela.

— Que interessante. Vamos ver o que a diretora acha disso – Sr. Harris diz, voltando a sua mesa e escrevendo algo em uma nota – Leve isso com você. E espero, que da próxima vez em que entrar na minha sala, esteja mais motivada para aprender, Srta. Whitmore.

Solto o ar pela boca, levanto da cadeira e ando até a frente da sala com a mochila quase vazia pendurada nas costas. Ninguém parece estar genuinamente surpreso por ser eu a pessoa saindo de sala. Ouço alguém limpar a garganta e olho rapidamente por cima do meu ombro, encarando Thomas enquanto pego o bilhete da mão do professor. Ele está como de costume sentado em uma das cadeiras da frente, balançando ligeiramente a cabeça de um lado para o outro, como se não acreditasse que estou fazendo aquilo de novo. Sorrio de lado, dando de ombros e ele me lança um último olhar repreendedor antes que eu saia pela porta.

Thomas é meu melhor amigo desde os seis anos, quando ele e a mãe se mudaram de uma pequena cidade no México para abrir uma lanchonete perto do meu apartamento no Brooklyn. Eu costumava ir lá com meu pai todo sábado à noite. Primeiramente, porque ele nunca foi um mestre cuca na cozinha e, em segundo lugar, porque nós adorávamos os burritos da Tia Danna e ela sempre me deixava pegar molho a mais quando eu pedia. Acho que a mãe de Thomas havia sido desde o início a pessoa quem mais incentivou nossa aproximação, talvez porque na época eu não parecesse uma mini delinquente que levaria o seu filho para o mau caminho, mas ela sempre pareceu gostar de mim e hoje em dia era a coisa mais próxima de uma mãe que eu tinha. Thomas que havia demorado um pouco para se acostumar com minha presença, mesmo que não completamente por vontade própria. Com seis anos, ele já era um garoto magricelo e socialmente retraído, sempre usando óculos com armação duas vezes maior que o tamanho de seu rosto e carregando revistinhas de super-heróis nas mãos para cima e para baixo. Mas havia evoluído um pouco nos últimos dez anos, eu tinha que admitir. Os óculos já não ficavam tão estranhos uma vez que ele havia crescido, até faziam um contraste bonito com suas sobrancelhas grossas, cabelo castanho ondulado e traços latinos. Embora, para mim, ele sempre fosse ser o maior nerd existente na face da Terra.

E era por isso que Thomas não conhecia o caminho da diretoria tão bem como eu. Ao contrário de mim, que só estava estudando naquele lugar por que minha tia tinha arranjado um bico como professora de Inglês, o garoto havia conseguido uma bolsa integral pelas suas próprias qualificações e notas excepcionalmente altas no nosso colégio anterior. Nós realmente nunca havíamos feito o tipo de amizade convencional que todo mundo espera. Eu era o meio termo para a chatice dele enquanto Thomas era a voz de consciência que me impedia de arranjar problemas.

Não que eu fosse o tipo de pessoa que corresse atrás de encrenca, mas na maioria das vezes ela corria atrás de mim.

“Se hoje você não tiver nenhuma aula extra de robótica, cálculo avançado, nem reunião com seus amigos gênios para a dominação global, pode me encontrar no Danna’s mais tarde?

PS: Não ligo se você tiver alguma coisa programada para essa tarde. É meu aniversário. Eu que decido.

— Lizzie

Digito rapidamente assim que consigo alcançar meu telefone no bolso de trás da minha calça jeans. Eu pensei que Thomas só responderia quando a aula acabasse, como ele geralmente faz, mas me surpreendo quando sua mensagem chega apenas alguns minutos depois.

“ Posso faltar. Além do mais, não é um clube para dominação do mundo.

É só xadrez.

— Tom ”

Sorrio, enviando um emoticon de sorriso como resposta. Prefiro não arriscar mandar algo como uma pergunta sobre o que o aluno número um estava fazendo usando o celular no meio da aula; já sei que ele não vai me responder outra vez. Thomas tem um pequeno alarme que o alerta quando esta se parecendo muito comigo.

Meu olhar ainda está preso na pequena tela quando sinto algo se chocar contra o meu ombro e em seguida ouço um barulho metálico de um objeto caindo no chão. Meus olhos seguem da muleta para o menino na minha frente, e então eu rapidamente inclino o corpo para recolhe-la.

— Sinto muito – ele se desculpa, recolocando o apoio de baixo do braço. Seu rosto e pescoço estavam levemente rosados, e os ombros se encolheram um pouquinho – Eu não vi você aí.

— Sem problemas – murmuro, tentando reconhecer seu rosto – Hum.... Você está precisando de ajuda? Está perdido?

— Ah, não. Está tudo bem. Só estou procurando uma pessoa.

Franzo ligeiramente a testa, observando-o de maneira disfarçada. Estou certa de que nunca o vi pelos corredores antes, senão teria lembrado. Tenho uma memória incrivelmente boa. O garoto é um pouco mais alto que eu e tem braços e corpo musculosos demais para alguém que usa muletas, além de pele escura e cabelo cheio. Ele está vestindo uma blusa com a frase ‘Salve a natureza’ escrita em letras grafadas e me pergunto se ele percebe que ela está levemente rasgada e suja um pouco abaixo da bainha e perto do colarinho, como se tivesse entrado em uma briga de vale tudo.

— Tem certeza que não está precisando de ajuda? — Insisto mais uma vez.

— Sente esse cheiro? – Pergunta, olhando ao redor como se por um instante estivesse esquecido que eu estava ali – Parece um pouco como flores, não parece?

Cruzo meus braços sobre meu peito, tentando me proteger metaforicamente daquela maluquice repentina.

— Como é? –Corro meus olhos pelo corredor vazio, tentando decidir se aquele menino estava tirando com a minha cara ou se era melhor leva-lo até a psicóloga o mais rápido possível. Na minha antiga escola, os alunos mais velhos costumavam a fazer pegadinhas idiotas com os novatos, mas não faria sentido já que nessa altura do campeonato estávamos quase chegando nas férias. Volto meu olhar novamente para lugar onde o garoto estava parado, soltando um palavrão involuntário quando percebo que ele não está mais lá – Mas que diabos…? – Murmuro para mim mesma, procurando-o em volta. Mas não adianta. Eu estou sozinha no corredor.

Estranho. Muito Estranho.

Agarro a mochila em meus ombros, fazendo meu caminho até a diretoria com passos acelerados.

***

Encaro o relógio, sentada numa pequena poltrona acolchoada na sala de espera que leva até o escritório da Sra. Bridget. Alterno meu olhar entre Julie, a mais nova secretaria, e Madison, que está sentada a distância de algumas poucas cadeiras.

Costumo vir aqui vezes o suficiente para notar a dificuldade da diretora em permanecer mais de dois meses com a mesma funcionaria. Não me surpreende, já que ela é uma megera sem coração. Deve ser difícil de aturar. Mês passado a secretaria se chamava Lindsay, uma mulher ruiva e rechonchuda que tinha vários quadros de gatos espalhados pela mesa e geralmente me deixava pegar um pouco de café na máquina dos professores enquanto esperava, contanto que eu perdesse alguns minutos escutando sobre seus romances frustrados. Eu até que gostava dela, e vinha a visitar tão assiduamente que já estávamos quase virando amigas. Realmente pensei que dessa vez iria durar, mas há alguns dias ela havia sido substituída por aquela modela russa de meia tigela. Julie era amiga da minha tia, mas não conseguia deixar para lá a sensação que a mulher passava grande parte do dia, quando não estava atrás de um computador, me monitorando.

Era estranho, mas infelizmente minha fama me precedia. Ao contrário de Madison Sparks, que também estava sentada na salinha de espera, só que provavelmente para puxar o saco da diretora e não para levar uma bronca.

Nesse instante, a Sra. Bridget abriu a porta, interrompendo meus pensamentos. Ela sorriu para Madison, que lhe devolveu um aceno. Então ela virou a cabeça e me viu, e seu sorriso virou uma careta. Ótimo.

— Elise Whitemore, que surpresa – ela suspirou e andou até a mesa onde Julie já a esperava com alguns documentos. A mulher me lançou um olhar severo assim que a diretora se virou novamente na minha direção.

Entreguei o bilhete, lançando lhe um sorriso meigo.

— A senhora fez alguma coisa diferente no cabelo? Porque está muito bom.

— Sem brincadeiras suas hoje, Elise. Entre na sala e sente-se, estarei lá em um minuto.

E lá se ia mais um dia no paraíso. Enquanto ela discursava sobre as responsabilidades de um aluno em uma escola de alto nível, só conseguia pensar se eu duraria naquele lugar por mais dois anos, até que tivesse idade suficiente para pegar minhas coisas e finalmente ir embora. Me sentia sufocando, e aquela sensação de não pertencer a lugar nenhum estava me consumindo. Algo dentro de mim dizia que minha vida não era só aquilo, não podia ser.

Então, eu descobriria que não era.

Notas finais
Hey, pessoas! Eu fiquei muito feliz em ver a quantidade de gente que leu o primeiro capitulo. Desculpe se eu demorei muito para postar o segundo, mas eu estava realmente muito ocupada (estudando :/ ). Também peço desculpas se não consegui alcançar as expectativas com esse capitulo, porque eu fiquei tão animada por finalmente termina-lo que não acho que conseguiria revisar melhor... Só isso. Espero voltar em breve ʕ•ᴥ•ʔ Um beijo e até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.