Filha Da Noite

6 Capítulo Seis


Notas iniciais
Sim, esse capítulo demorou, mas está aqui! (ouço o coro de aleluia!)Para lembrar, a fic agora tem um trailer, graças à minha irmã!Aqui está o link: http://www.youtube.com/watch?v=GX2UckGzPC8

Mia havia jogado água no rosto, e encarava seu próprio reflexo pelo espelho quadrado sobre a pia. Mesmo com a água fria, não saíra do choque. Ela havia estado tão alegre antes, sabendo que podia transformar-se sem a Lua, mas agora havia mais sensações. Confusão. Ela sentia-se estranha. Mas havia mais uma coisa.

Medo.

Podia ser pequeno, mas estava ali. Protuberante e puro, crescente. Ela afastou-se, andando para trás com determinação, para retornar à sala de aula. Na classe, seus olhos focaram-se em um ponto qualquer, sem nada ver. Após o lento e torturante fim das aulas da manhã, Mia seguia devagar para o refeitório, sem vontade de conversar nem de ver seus novos amigos. Não sabia muito bem o porquê dessa destruição interna ao qual se submetia, já que a descoberta da noite passada fora tão boa. Ela soltou um sorriso leve ao perceber que pensara na felicidade no passado.

Antes que pudesse alcançar qualquer ponto longe da massa dos alunos, Mia viu William subitamente ao seu lado. Ele não pronunciara nenhuma palavra, portanto não era possível descobrir a quanto tempo estava ali. Tampouco os ouvidos aguçados da garota alertaram-na sobre sua aproximação. Sob um longo suspiro, ela disse:

– Oi, Will.

Ele produziu um som rouco, ainda sem olhar para ela, identificado como uma risada e uma lamentação juntas.

– Por que está tão triste? Dá pra ver em seus olhos que está aborrecida com algo.

Ela contou oito passos antes de responder. Tentou formular algo que não fosse uma mentira – mas que também não expusesse a verdade. Foi preciso acelerar sua mente para que pudesse responder.

– Eu não dormi nada ontem à noite. Estou me sentindo péssima. – para enfatizar, esfregou uma das mãos, que não estava ocupada com os livros, nos olhos.

William pensou por um pouco. Um pequeno sorriso nasceu em seus lábios, o que fez Mia olhá-lo.

– Acho que isso pode te animar um pouco... Sabe aquelas festas que eu te falei? Vai ter uma daqui a uma semana; você pode vir comigo, se quiser.

Mia bem que queria dar uma resposta sensata àquele pedido. Coisas como: ela não o conhecia bem, não gostava de festas, isso quebrava as regras... Além de a Lua chegar quatro dias depois da festa. Visando que as coisas já não estavam boas faltando treze dias... Deus sabe o que a proximidade a faria.

Mas algo a impediu de dizer não. Mia queria livrar-se da presença de Will, mas a confirmação não resolveria o problema da lua cheia. Era algo no olhar dele. Algo sincero e inocente. Uma amizade. Uma forma de aproximar-se dela. Devagar, não acreditando em seus próprios movimentos, Mia assentiu.

– Eu vou com você. Como amigos. – para assegurar a ele de que Mia não era nenhuma garota estúpida, acrescentou: — E não tente nada comigo, ou juro que posso te matar com minhas unhas.

Ela riu no final da frase, mostrando que era brincadeira. Claro que era por trás das brincadeiras que algumas verdades escondiam-se. William riu também, logo baixando o rosto e falando em voz séria.

– Eu não vou tentar nada, eu juro. Não sou assim como minha reputação diz. – as palavras saíram amarguradas, lembrando de algum passado não contado. Uma voz soou ao longe. – Sinto muito, Mia, mas tenho que ir agora. Até mais.

Dizendo isso, ele moveu-se veloz para longe, guiando seu corpo esguio por entre as pessoas para chegar mais rápido onde era solicitado. Logo, não estava mais à vista. Mia ficou pensando no que ele falara. Ela deveria ter aceitado o pedido? Bom, agora era tarde demais. Mia seguiu seu próprio caminho, passando por aquela garota com a pele escura e olhos verdes. Ela encarou-a longamente, e Mia sustentou o olhar. A garota a olhava com certa raiva, intensamente e sem piscar. Mia retribuiu com um olhar penetrante, mas logo a garota não estava mais a vista. Sem perceber, ela começara a pensar nas palavras que dissera antes a William. Era uma pequena brincadeira, aquilo de matar com as próprias unhas. Mal sabia ela que brincara com algo que podia vir a se concretizar.

* * *

Após o almoço e as aulas da tarde, Mia finalmente estava liberada e poderia afundar-se em sua cama, para pensar sobre tudo. Antes, porém, percebeu que teria de enfrentar mais uma torturante conversa com Nicholas, que esperava por ela perto da porta de seu quarto. Ela ficou com raiva dela própria por ficar com raiva dele. Nada tinha a ver com ele. Ela franziu o cenho e Nicholas notou a careta, rindo baixinho da situação confusa dela.

Mas logo, logo, quando o jovem se aproximara dela, sua face fechou-se para uma expressão séria, que Mia não tinha visto ainda em seu rosto. Parecia preocupado.

– Eu... vi você falando com aquele garoto, William. – ele respirou devagar, percebendo que fora direto ao ponto rápido demais. O rosto de Mia adquiriu uma expressão confusa, os lábios separando-se e ficando ainda mais grossos e rosados. Ela também respirou mais profundamente, temendo o que Nick diria. Quando o fez, sentiu um perfume vindo dele. Tentou concentrar-se em ouvir, mas o olfato aguçado – que decidira funcionar mais que os ouvidos – não estava ajudando em nada.

– E o que tem em conversar com ele?

– É que... Ele tem não só uma má reputação, mas ele não é uma boa pessoa. – ele olhava para ela com os grandes olhos verdes, que iluminavam seu rosto inteiro. Havia algo de estranho em seus olhos, mas o lampejo foi embora antes que ela o decifrasse.

Mia bufou de modo inaudível.

– Espero que isso não seja baseado em boatos.

Foi a vez de Nicholas suspirar.

– Eu... Vi isso, um ano atrás. Eu era novato e estava procurando meu irmão pela escola, quando me perdi. Quando abri uma porta, vi ele e uma garota lá dentro, mas eles não me viram. Acho que eram namorados, mas estavam brigando feio. – ele baixou a voz a um sussurro. – Eles estavam quase lutando. A garota era bem pequena e baixa, e com certeza iria perder. – seu olhar focou Mia, que tinha essas características. Continuou: — A garota começou a gritar muito alto, mas eles não estavam se tocando. Não que eu tenha visto, mas não sabia o que ele estava dizendo. Eu não sabia o que fazer. Sorte da garota que meu irmão entrou lá, e separou os dois logo.

Mia estava paralisada demais até para respirar direito. A garota sentiu o sangue pulsar na ponta de seus dedos. Sem deixar o efeito de suas palavras passarem, ele continuou:

– A garota não se feriu nem nada do gênero, mas saiu da escola dois dias depois do que aconteceu. Eu confesso que fiquei observando tudo por esses dois dias, mas... – os olhos dele pareceram entrar na alma de Mia, tornando-se assustadores e perigosos. – Mia, quando ela foi embora, ninguém veio buscar ela. Ela não pode ter ido embora a pé. Foi até a estrada, e entrou na floresta. Estranho, hein? – não a esperou responder. — Mas não o mais de tudo. Vinte minutos depois, vi William sair da porta e ir para a mesma direção que ela. Voltou meia hora depois, e a garota não foi mais vista.

Mia permaneceu em silêncio. Não sabia o que dizer. Após essa história, a noite passada parecia obsoleta. Seus olhos ergueram-se tristemente para o rosto de Nicholas, e então ela compreendeu o lampejo que transpassara o rosto dele antes.

Dor.

Ela tentou se recompor, sem sucesso. Balançou a cabeça com força, tentando clarear a mente.

Nicholas abriu a boca devagar novamente.

– É por isso que vim falar com você... Eu sei que nos conhecemos só faz três dias; mas você parece ser muito legal, dócil e inocente para não ser avisada. Principalmente sobre isso.

O lábio inferior dela tremeu. Ela sentia-se fraca e diminuta nessa posição. Queria dizer a Nicholas que não era frágil, muito menos dócil. Sabia se defender. Mas Mia tinha mais um dom além de sua transformação. Era um tipo de sexto sentido, parecido com uma intuição. Seus braços eram transpassados por uma corrente elétrica e seus pelos da nuca se arrepiavam. E essa intuição a avisava se o que estava atrás de uma porta era perigo ou brincadeira, se alguém estava mentindo ou dizendo a verdade. E, nesse momento, Nicholas não podia ser mais verdadeiro. Tudo o que Mia pode dizer foi:

– Obrigado.

Ela escorregou para dentro de seu quarto e fechou a porta atrás de si, sem se preocupar se o garoto fora embora ou não. Ela tentou não pensar, mas as coisas saltavam sobre ela, uma atrás da outra. Muita coisa acontecera em três dias nessa nova escola. Mia soltou um gemido baixo, que soou ridículo. Era demais. Ela tentou achar uma saída para essa situação.

Mia lembrou-se que aceitara ir com William para a festa. Seu rosto ardeu de vergonha. Mas ela estava abalada e só pensava em dormir, e não queria pensar no assunto. E também não sabia ao certo, mas parecia que agora ela e Nicholas agora compartilhavam um segredo. Pelo olhar dele, sentira que a última parte da história nunca fora contada antes. Ela hesitou ao lembrar-se do problema da Lua.

Olhando de repente para o criado-mudo ao lado de sua cama, Mia percebeu o celular pousado sobre a madeira, ao lado do colar. Só havia um jeito de resolver essa parte.

E seria falando com a avó.

* * *

Antes de tudo, descobriu o quanto estava cansada, já que na noite passada não dormira nada. Mia deitou-se, espreguiçando-se, acomodada sobre os lençóis. Deixou-se por um momento sem pensar em nada e, antes que percebesse, fora levada à inconsciência.

Enquanto dormia, sua inconsciência parecia flutuar para a superfície de seu sono, permitindo que Mia ainda escutasse perfeitamente os sons à sua volta. Sua audição parecia um pequeno polvo com vários tentáculos, esticando-se pelos corredores e ouvindo conversas aleatórias. Ela soltou o ar quando um tentáculo encontrou o que buscava. A voz de William surgiu como em um filme antigo:

– Ela é OK, certo?

Outra voz surgiu, provavelmente era um amigo de Will:

– Quem, aquela garota? O nome dela... Mia?

O coração dela palpitou mais forte, e suas pálpebras moveram-se, mas continuaram fechadas.

– Sim, ela.

– Eu não sei não... Ela é um pouco sem graça.

– Para mim, ela é OK.

“Mas o que está acontecendo?” A mente dela gritou. Ele estava defendendo-a? A voz do amigo a interrompeu.

– Eu ainda não sei por que você fica por aí, atrás de novatas, se você poderia estar com alguém melhor. Como a Eve.

– Eu não estou atrás de novatas. Não estou atrás de ninguém. Ela é... – ele pareceu pensar que palavra classificaria Mia. – Uma amiga. E mais, Evangeline é desprezível. Você viu o que ela fez com aquela garota no primeiro dia?

A menção do nome fez o peito de Mia arder de raiva. O amigo falou novamente, e dessa vez Mia quase ouviu sua sobrancelha erguendo-se.

– E a garota era quem mesmo...?

William riu timidamente. Era um som tão doce e baixo; Mia teve que forçar seus ouvidos para ouvi-lo.

– Sim, foi assim que eu a conheci, não disse?

Mia praticamente os via agora. Estava envolta em um torpor tão imenso que nem percebera que literalmente os via na sua frente. Desfocados, de um ângulo estranho, de baixo para cima.

Ela estava encolhida na curva de um corredor, observando-os enquanto vinham em sua direção. Mas... Havia algo de errado, não havia? Ela não se lembrara de ter acordado, de ter vindo até ali. Então o que...

Um grito assustadoramente alto ecoou no corredor.

Todos olharam para a nascente do som, e encontraram uma garota com olhos arregalados, apontando para o chão.

Apontando para Mia.

Só depois de alguns segundos, quando um tumulto originou-se no corredor e as pessoas começaram a correr, Mia entendeu o que acontecera. Uma voz estridente lançou acima da confusão:

– Lobo! No corredor!

Ela demorou um pouco até digerir a informação. Olhando agachada para os braços que a sustentavam, Mia encontrou patas. E garras.

O pânico apoderou-se dela, acelerando seus batimentos por sobre os sons nos ouvidos. Por entre a confusão que se criara, Mia correu para o lado de fora com toda a velocidade que conseguia.

Notas finais
Se vocês viram o trailer, devem ter visto que os personagens, tirando a Mia e a Mel, não são nem um pouco parecidos com o que deve ter sido imaginado. Mas esses atores só foram escolhidos por causa das características físicas, ok?Espero que tenham gostado do cap. seis! Beijos!