Filha Da Noite

7 Capítulo Sete


Notas iniciais
Sim, finalmente o cap. sete está aqui!! (aleluiaaaa!)Desculpe a demora, gente. É que nessas últimas semanas tem me dado um bloqueio criativo tão imenso que eu não consigo escrever nada às vezes. E mais, eu estou escrevendo outra história, então essa está entrando em um hiatus mental, já que a outra eu estou desenvolvendo e essa já está em andamento.

As pernas afastavam-se conforme ela se movia pelo corredor, que parecia interminável. Pessoas, provavelmente professores, bloquearam sua saída.

– Chamem o zelador! Temos um problema!

“Droga. Mil vezes. Estou completamente ferrada.” Mia pensou, as pernas travando e freando-a antes da barreira de adultos. Outro paredão cercou-a no outro extremo, fechando-a em um círculo. Ela engoliu, a mandíbula estalando, e alguns alunos afastaram-se com o som.

Como não pensara naquilo antes! Içando o corpo para a barreira dos alunos, de modo insano para o lado oposto da porta, Mia pulou, atingindo o chão e abrindo caminho de modo divertido.

As pessoas corriam para longe dela. Os professores, armados com curtos bastões para afastá-la, seguiam-na, mas muito lentos.

Antes que alguém a alcançasse, Mia chegou ao fim do corredor. A janela apareceu brilhante, como uma porta para o céu. A garota, utilizando sua desenvoltura leve, pulou esticando os músculos em toda sua envergadura, voando dois andares até o solo coberto de grama. Rajadas de vento corriam frias por entre seus pelos, a queda livre fazendo suas entranhas amontoarem-se no que parecia o teto oco de seu interior. Seus olhos se fecharam, sentindo o solo materializar-se abaixo de seus pés com um baque suave. A aterrissagem foi perfeita, como de costume.

Não se deixou levar pelos pensamentos, apenas pelos instintos. Antes, porém, virou-se para o grupo de humanos – que estavam parados reunidos no alto andar do prédio, boquiabertos — e deixou um latido em resposta.

Então, antes que alguém a seguisse, ela perdeu-se dentro da floresta.

Quando teve certeza de que estava sozinha, parou de correr. Não sabia o quão longe estava da construção, mas seu coração continuava batendo rápido demais, então persistiu na direção que estava seguindo. Depois de um tempo, ela notou que suas pernas estavam dobradas, e percebeu que engatinhava.

Suas mãos estavam totalmente enlameadas, junto com os joelhos e os pés. Mia apoiou-se em uma árvore para se levantar, desajeitada. Ela não conhecia o local onde estava. Havia uma neblina densa que se arrastava pelo chão, cobrindo-a até os joelhos. As árvores eram grossas e cobertas de musgo espesso, mas os galhos eram altos demais para serem vistos.

Mia estava com frio. Na verdade, muito frio. Uma chuva fina começou a cair, encharcando seus cabelos e fazendo-os grudarem em seu corpo de modo descômodo. Ela começou a pensar e reviver o que acontecera com ela nos últimos dias, do que acontecera nos últimos minutos. Encostou o corpo em uma árvore próxima e deslizou para o chão, sem se incomodar com a lama. Tentou ficar abaixo da linha da neblina, sem saber exatamente por que estava se escondendo se ninguém a encontraria ali.

Muitos minutos se passaram. A garota continuava parada na mesma posição, pensando. Tentou encaixar a visão que tivera de Will com a narração de Nicholas com o garoto que a defendera. Em qual delas deveria acreditar?

A jovem abraçou o corpo devagar, sentindo sua cintura fina entre as mãos. E o que o colar de sua avó fazia com ela? Mia só sabia que sua opinião quanto aquele objeto era incerta. Estaria ela mais segura sem ele? A resposta estava na sua atual situação. Quando é que ela fora vista em sua forma de Lobo enquanto seguira as regras?

Mas quando é que Mia sentira-se realmente viva sem tê-las quebrado? Ela bateu com força a parte de trás de sua cabeça contra a madeira, furiosa.

Mia passara por nove escolas nos últimos três anos. Pelo menos dez casas alugadas, em cinco estados diferentes. Nunca falara nem interagira com nenhum outro lobo, tirando a sua avó, que nem se transformava mais. E ainda assim, depois de tudo isso por que passara, Mia nunca perguntara sobre o que era para ninguém.

Também nunca falara muito sobre seu pai.

De repente, o assunto voltou à tona em sua mente. Tudo o que ela tinha sobre ele eram uma foto amassada dele e muitas perguntas. Só sabia que ele também era um Lobo, que Mia herdara seu dom dele e que ele deixara sua mãe logo que descobrira que a garota iria nascer. Só sabia que seu nome era Robert, que nem deveria morar nesse país e que deixara sua mãe com elas, como um fardo.

Mia engoliu com dificuldade, e um tremor incontrolável trespassou por todo o seu corpo. Ela nunca soube bem o que sentia por seu pai – raiva?, incredulidade? – mas já fizera e refizera seu encontro com ele milhares de vezes em sua cabeça.

Mia decidiu que era hora de ir. Levantou-se, estalando as juntas, e partiu por onde seu olfato lhe indicava. Mia nem percebera isso, mas agora que começara a usar seus sentidos mais avançados no dia-a-dia, se acostumara a eles. Não queria se desfazer da sensação de usá-los.

Mia também pensou sobre isso. A lua cheia viria, como em todos os meses, atingiria seu auge no quarto dia, e ela se transformaria. E seria como nas outras vezes? Pelas suas comparações, quando se transformara em outras Luas a sensação fora semelhante à noite passada. Ela usara o colar em todas as vezes. Mas na noite passada não era lua cheia.

Então... se ela não usasse o colar, o que mudaria? A sensação, a transformação? O... poder? Foi difícil pensar nessa palavra, mas ela saiu mesmo assim. Afinal, Mia nunca fora forte, ou poderosa ou superior.

O que mudaria?

Nesse momento, uma raiz engatou em seu pé e Mia caiu com força no chão. Não sabia bem explicar, mas esse gesto a lembrou de uma cena há tanto esquecida. O rosto de sua avó invadiu sua mente.

Eu tinha por volta de treze anos, e estava completamente obcecada pelas minhas transformações. Era algo tão novo, tão emocionante. Eu estava tentando imitar para a minha avó como era ter de andar com as quatro pernas, agachada junto ao chão, sentindo os músculos deslizarem sobre os ossos em poses tão estranhamente absurdas, as juntas estalando. Eu ria cada vez que isso acontecia, o que me fazia parecer mais criança do que era. Minha avó mostrava-se preocupada, entretanto.

– Mia, querida – ela dissera, recolhendo-me do chão com seus braços frágeis. Ela me aninhou em seu colo, forçando-me a olhar para ela. – As transformações não são exatamente assim. A coisa é muito mais sombria do que mágica.

Lembro que me sentira confusa. Não fora ela mesma que dissera tudo aquilo sobre o dom, sobre o orgulho de ser lobo, alguns dias atrás?

– Não queria explicar isso agora, mas sabe por que você só se transforma pela primeira vez quando tem essa idade? – a pergunta capturou minha atenção. Um vinco formou-se em minha testa, como se desse permissão para a avó continuar. – Pense nisso como uma alma dividida. Uma parte lobo, uma parte humana. Você só se transforma quando esta parte lobo está pronta para assumir o controle. Ela suprime a parte humana, muda seu corpo. Isso é a transformação.

Também lembro que a confusão ficou muito maior após essa explicação. Fiquei pelo menos uma noite inteira pensando sobre isso. O que acontecia com minha parte humana quando a outra parte a... suprimia?

Mia voltou para a realidade num salto. De repente, estava correndo de volta para o quarto. Um medo enorme afundava seu peito, embora não soubesse bem o porquê.

O que aconteceria se ela não usasse o colar? Seria perigoso? Sua parte lobo tomaria o controle com mais força?

Sua parte humana conseguiria voltar à tona? Mia ofegou com o pensamento. As perguntas teriam respostas.

E seriam as respostas da avó.

* * *

Ela chegara ao quarto há pelo menos trinta minutos, depois tomara o banho mais quente de sua vida e parara sentada sobre o colchão, encarando o celular. Um momento tenso de hesitação pairava no ar diante dela. Seus dedos brancos e finos esticaram-se, se retesaram e alongaram-se novamente.

Ela pegou o celular. Discou o número sem ver a tela, segurando o colar apertado em sua outra mão sem perceber. O coração de Mia batia forte, e ela tentou respirar mais fundo para se acalmar. Não deu certo.

O telefone começou a chamar, e alguém atendeu.

– Alô? – era sua mãe. Sua voz soou abafada pelo eco do ambiente. Ela estava em casa.

– Oi, mãe, sou eu. – Mia não queria assustá-la. – Eu...

– Você está bem, querida? – a mãe interrompeu. Ela conhecia a filha bem demais para não notar o tom trêmulo e ansioso em sua voz. – Aconteceu alguma coisa?

– Não, é que... – seu rosto se endureceu. Decidira ir direto ao ponto. – Preciso falar com a vovó.

A mãe ficou em silêncio por um instante. Sabia que, quando o assunto era com a avó, o assunto era sobre lobos. Houve um suspiro e um som de tecido raspando contra tecido. Havia mais alguém ali.

– Sua avó não está em casa.

Mia suspirou. A avó estava em casa. Ela estava ali do lado da mãe, ouvindo a conversa e tentando disfarçar sua presença.

– Mãe. – Mia engoliu com dificuldade. – Eu sei que ela está aí. Passe para ela, por favor.

Houve um tenso momento em que a idosa resistiu à chamada, mas ela tomou e telefone em suas mãos com um ruído. Quando ela já estava escutando, Mia começou com a voz baixa:

– Vovó, tem coisas estranhas acontecendo. – não esperou uma resposta. – É... a transformação. Eu estou me transformando fora da lua cheia. Meus olhos ficam dourados para tudo, eu me transformei no meio do corredor. Eu estou ouvindo melhor, vendo melhor, sentindo mais cheiros... O que está acontecendo comigo?

Ela acabou a frase com um soluço trêmulo. A avó ficou em silêncio, ponderando uma resposta.

– Mia, você está com o colar?

– Não mais.

Um suspiro baixo entrecortou o som de um carro passando do outro lado da linha.

– Bom, é... É por isso. Essas... coisas, elas sempre aconteceram. Mas você tem o colar, para tudo se tornar mais fácil. Mia, você está entendendo?

A última pergunta referia-se ao soluço estrangulado que Mia não conseguiu conter antes dele explodir.

– E... Por quê? Por que eu tenho de usar esse colar, e você, nem todos os outros, precisam? – Mia lembrou-se de outra coisa. Uma coisa que viera à sua mente dias atrás, uma coisa da qual ela não tivera coragem de pedir ainda. – E por que eu nunca vi outro lobo?

A pergunta pareceu surpreender a avó. Ela ficou em silêncio, por tanto tempo que Mia achou que a ligação tivesse caído.

– Vovó, uma vez você me disse que eu não podia falar com outros porque eu era muito jovem, não é? Agora eu não sou uma criança. Por que você não me conta?

Mia arquejou em busca de ar. Sentia suas presas cutucando os lábios, como se estivessem maiores do que o normal. Seu corpo tremia. A voz de sua avó surgiu num sussurro:

– Só fizemos isso para te proteger.

A resposta soou tão imensamente ridícula para Mia que um ronco, talvez uma risada, escapou de sua boca. O quarto ficou dourado de repente, a garota estava ciente de que sua raiva a estava transformando.

– A última coisa que vocês fizeram foi me proteger! Ter que viver duas vidas durante todo esse tempo não é proteção! – ela gritava agora, a voz tão estridente quanto possível. Mia chorava, ciente de que era a pior briga que podia ter começado. Uma risada ecoou pelo aposento, ficando suspensa no ar por tempo suficiente até que Mia percebesse que a risada era dela.

– Nunca pensei que fosse dizer isso, mas minha vida como lobo, me esgueirando por florestas e fugindo de noite é muito melhor do que uma onde sua família mente para você!

Ela respirou fundo, tremendo. Mia esperou mais uma resposta, mas tudo o que recebeu foi um suspiro. Seus olhos queimaram em ouro puro, quando ouviu o suspiro novamente. Estava tão... alto. Não era pelo telefone.

Mia virou-se devagar, baixando o celular do ouvido quando uma imagem impossível formou-se em seus olhos.

Melodie estava parada na porta.

Notas finais
Acho que é isso, então. Espero que tenham gostado, e só estou avisando que os próximos capítulos vão sair bem mais lentos agora.Beijos!