Filha Da Noite
9 Capítulo Nove
Notas iniciais
Melodie seguia pelo corredor do dormitório masculino, sem se importar com os garotos que obviamente estavam atrás das portas escuras. Ela andou até uma porta da esquerda, e abriu-a com um clique. Nicholas nunca trancava a porta.
Melodie não pensara que ele podia estar se trocando ou algo do tipo, apenas entrou. Ele estava vestindo uma blusa, de costas para ela, e imediatamente Mel empertigou-se. Ela sabia que, depois de apenas alguns segundos, ele sentiria sua presença ali. Ela mordeu o lábio ao pensar que poderia ter ficado uns momentos na porta, o suficiente para ele notá-la e para Nicholas terminar de se vestir. Entretanto, aquilo era importante. Eles estavam a beira da mais longa discussão sobre seus objetivos ali; sobre o que a garota que agora estava dormindo – Melodie sabia disso pois sua vibração e batimentos cardíacos haviam diminuído – deveria saber ou não sobre sua família, sobre o perigo cada vez mais próximo ou sobre a Lua que viria.
Nicholas virou-se para ela, já com um vinco enrugando sua testa.
– O que aconteceu, Mel?
– Mia descobriu quem somos. Foi assustador, achei que ela ia ter um ataque.
– É, eu senti que havia algo de diferente. O que você falou?
– Que você e James também são lobos. Depois ela pediu para falar com a avó. Eu ouvi toda a conversa de longe, e acho que temos que conversar.
* * *
Mia teve a sensação de que havia mais gente no quarto. E, de fato, havia. Melodie estava lá, mas outra pessoa respirava. A estranha sensação de usar não só seus poderes de lobo, mas de aprofundá-los, um de cada vez, fez com que o coração de Mia batesse mais forte. Ela espiou entre a massa de seus cabelos, espalhados pelo travesseiro, e pôde ver o quarto ainda escuro.
Ela tentou forçar sua visão pela falta de luz, mas o resultado foi mais do que esperava. Todos os móveis ganharam um contorno dourado, leve e estático, que a permitia enxergar perfeitamente. Mesmo que não tivesse certeza, Mia sabia que aquilo era o que acontecia nos dias – ou melhor, nas noites – de lua cheia. Dois pontos de luz chamaram a sua atenção. Eram prateados e esticados, movimentavam-se graciosamente enquanto pulsavam lentamente. Eram as pessoas no recinto.
Logo de cara Mia percebeu qual delas era Melodie. Era pequena, talvez um pouco mais branca e brilhante que a outra. Mia tinha a sensação de que aquela era mais cálida e amigável, também. Seriam as exatas palavras que descreveria Mel.
Mia também percebeu que algo havia mudado desde a noite passada. Ela nunca usara as suas habilidades com tanta facilidade, com tanta naturalidade. Seus olhos se moveram só um pouco, para olhar a segunda luz. Esta era maior, pulsava mais rapidamente, impunha mais respeito e autoridade, mas de um modo contido. Também era bela e aquecida, e – não havia outra palavra para descrever – parecia tímida. Mia esperou mais duas batidas de seu coração para perceber que era Nicholas que estava lá.
– O que estão fazendo aqui acordados? São cinco da manhã.
Nicholas virou-se, subitamente notando que a garota estava acordada.
– Mel me disse o que aconteceu. Eu… vim conversar. Nós viemos.
Mia sentou-se na cama, arrumando o cabelo com uma mão.
– Vão me explicar coisas? Porque no momento, eu não sei nada.
– Meredith nos disse isso. – Mia sobressaltou-se, pois nunca se referia a sua avó pelo nome. Parte da surpresa também se empregava pelo fato de Nicholas ter falado com a sua avó. – Ela também nos falou que foi a sua mãe que fez isso. Ela queria que você fosse humana.
– E, dadas as circunstâncias, tudo que você puder saber vai ser útil. – Melodie completou. Mia piscou, os olhos estreitos. Por que eles estavam agindo tão estranho?
– Falaram com a minha avó? – Mia achou estranho, já que dentre todas as perguntas, ela escolhera essa.
– Vamos começar com algo mais simples. – Melodie interrompeu, como se Mia não tivesse falado. – Sabe de onde veio o primeiro lobo?
Mia ficou em silêncio, esperando.
– É uma lenda antiga, nem sabem a data. – Nicholas começou. – Estamos no mundo desde sempre. Começou quando um padre foi mordido por um lobo enfeitiçado.
– Amaldiçoado. – corrigiu Mel.
– Isso. Sabe que, com ele sendo um padre, passou a ser perseguido pelos próprios colegas. Pelos amigos, família. E isso o fez fugir. Ele reconstruiu uma nova vida, bem longe dali. Virou um lenhador, ou algo do tipo, e casou-se com uma humana. Ele escondia sua segunda vida. – ele deu um olhar bem sugestivo para Mia, seus olhos brilhando através do escuro. Eram seus olhos de lobo, algo próximo ao verde metálico. Ele a olhou porque era o que Mia fazia.
O rosto dela ardeu na escuridão. Será que se conhecesse outros lobos, eles a achariam estranha por ter vivido como uma humana por metade de sua vida? Ela tentou não pensar nisso.
– E ele teve um filho com essa humana. A criança herdou quase tudo dele, mas ainda tinha uma parte humana dentro dele. Então, esse homem, durante uma lua cheia, acabou mordendo a esposa. Sendo ela uma loba, tiveram um segundo filho, mais poderoso. Um lobo completo. E esses dois filhos tiveram filhos, mas o poder não se perdeu. Está vendo aonde quero chegar?
– Somos descendentes... deles? – Mia ficou inquieta, sabendo que mordidas não passavam seus dons. Então como será que isso acontecera? A avó nunca falara sobre isso, mas também falara sobre como a lua cheia os deixava. Agressivos, fazendo decisões espontâneas sem pensar nos prós ou contras. Talvez por ele ter sido o primeiro lobo, podia passar o dom por mordidas, e decidira isso quando estava alterado pela Lua.
– Somos descendentes deles. Mas alguns são descendentes do primeiro filho, e outros de nós do segundo. – Nicholas a olhou novamente daquele jeito, por tempo suficiente até Mia entender.
Era por isso que sua avó mandara Mel e Nick até ela. Por isso sua mãe queria protegê-la desse mundo. Mia era descendente do segundo filho, do mais poderoso. Do mais descontrolado. Do mais perigoso. Ela lembrou-se do colar, e sua mão agarrou-o antes que pensasse, o rosto transformado em uma máscara de desespero. Tudo fazia tanto sentido. A garota se perguntou por que a avó simplesmente não lhe explicara isso antes.
Mia ergueu-se num salto, e Melodie apareceu para segurar seus ombros e pará-la.
– Mia, ainda não acabamos.
– Tem mais? Quer dizer, mais que tudo isso?
Melodie suspirou de um modo que Mia nunca conseguiria. Doce, irritado e recatado ao mesmo tempo. Talvez até um pouco teatral.
– Tem, mas Meredith vai explicar a maior parte das coisas mais tarde. Por ora, só se acalme.
Mia sentou-se novamente na cama, os ombros caídos. Agora, era só esperar. Melodie sentou-se do seu lado, Nicholas juntou-se com as pernas cruzadas no chão.
Melodie segurou a mão de Mia, que segurou a mão de Nicholas. Em um círculo, os três sentiam que tinham uma forte conexão.
* * *
Mia saíra do quarto, para pegar um pouco de ar.
Ela percebeu que não havia saído de lá desde a tarde passada, depois de se transformar no corredor e voltar correndo. Isso a lembrou de algo que não teria importância nenhuma, visando o tamanho de seus problemas no momento.
William, o garoto mau da história de Nicholas, estava a defendendo de um amigo. E parecia se agarrar às suas opiniões fortemente, apesar de conhecê-la por tão pouco tempo. Mia chutou um pouco de pó no chão final do corredor, onde ela parara para pegar sol.
É claro que isso não significa nada, pensou. Não seja idiota.
A garota também estava um pouco decepcionada com o fato de que Will não era um lobo. Mas ela não deveria se preocupar com aquilo, talvez até fosse algo bom. Pelo menos ele não ouviria suas batidas do coração ou algo parecido, o que seria bem estranho por ora.
Mia virou-se para o pátio quadrado, morno e aconchegante com o sol da manhã. Ela se impressionou com o número de alunos já acordados e circulando por ali há essa hora.
É claro que ela não percebeu o problema vindo logo de cara. Só quando Mia sentiu um perfume forte demais para uma pessoa normal é que ela notou que havia algo errado.
Mia virou-se e deu de cara com Evangeline. A ruiva estava bem perto, olhando-a com seus olhos felinos.
– E então, Mia. Eu vim falar com você.
Mia apoiou seu peso em um pé, cruzando os braços em frente ao peito.
– Espero que seja algo importante, Eve. Tenho mais coisa a fazer.
Evangeline riu sarcasticamente, embora desse para ver que estava irritada.
– Não ouse me chamar assim outra vez, garota. Só meus melhores amigos me chamam assim. – De repente, seu rosto se iluminou, como se lembrasse de algo. – Por falar nisso, alguém estava conversando com William Hawkes, várias vezes, não é?
A jovem parecia estar começando a se divertir com aquilo, e Mia não sabia como revidar.
– E qual o problema em eu conversar com ele?
– Você causou problemas para mim, então não fale com meu ex-namorado.
Mia a encarou por um longo momento. Em parte por causa da explicação sem explicações de Eve, em parte por que Wiliam namorara aquilo. Mas que m...? Mia pensou, sem tempo para perceber que acabara falando a última frase de seu pensamento em voz alta.
Evangeline inflou-se de raiva.
– Eu vou ignorar isso contanto que você não fale com ele nunca mais, ouviu?
Foi a vez de Mia irritar-se.
– E quem é você para me dizer com quem falar? E eu não causei nenhum problema para você!
– E o que foi aquilo no primeiro dia? Você escolheu a pessoa errada para esbarrar!
Mia ergueu o tom de voz a um estado de ameaça.
– Escute aqui, eu estava correndo para tentar chegar a um banheiro, entendeu? Se eu tivesse parado para pedir desculpas, teria vomitado no seu silicone!
Mia estava enfurecida. Talvez aquela não fosse a verdade, mas era a sua versão da história, que já estava sendo usada para Melodie. A garota só não percebeu que exagerara no xingamento em Eve, que notavelmente não desmentira sobre a informação dos seios falsos.
E foi quando a ruiva avançou sobre Mia.
Antes que suas unhas incrivelmente longas atingissem o rosto de Mia, mãos fortes puxaram a garota para trás, e outras afastaram Eve da jovem que esperneava tentando soltar-se. Ela já entrara em diversas brigas estranhas, e essa não seria mais difícil de vencer.
William abraçava a cintura de Mia com força, erguendo-a do chão. O garoto não suportava ver que Evangeline continuava achando que tinha algum poder sobre a vida dele, e que por isso podia espancar qualquer garota que tivesse contato com ele.
– Evangeline, PARE! – sua voz ergueu-se num rosnado e que, surpreendentemente, surtiu efeito. A outra jovem, apertada entre os braços do amigo de Will – o mesmo da conversa da tarde passada – parou de repente, apenas olhando para Mia com olhos que eram uma sentença de morte.
Mia ergueu os lábios só um pouquinho, o suficiente para deixar as pontas de suas presas aparecendo. Seus olhos queimaram levemente dourados de encontro com os verdes de Eve.
A outra parou, aturdida. O amigo de William a acompanhou para longe dali, repreendendo-a com a voz ríspida.
– O que você pensa que estava fazendo, Eve? Tem idéia dos problemas que isso pode te causar?
E com isso, suas vozes se perderam no vento.
William soltou Mia no chão, passando as mãos nos olhos.
– Olhe, sinto muito por isso, está bem? Evangeline acha que pode evitar todos os problemas com brigas. Só... Sinto muito.
Mia pode realmente olhar em seus olhos desde a última vez que se encontraram, ainda quando ele a convidara para ir à festa, um assunto que Mia ainda não tivera tempo de refletir. Os olhos de William eram lindos, assim como ele em um todo. Mia abaixou o rosto, constrangida.
– Não tem problema. Eu sei me defender.
– Eu vi. – ele riu novamente com aquele tom baixo e doce. – Pode matar com suas unhas, não é?
Mia levou a mão ao rosto, rindo, apesar de ainda se sentir com a adrenalina no topo. Ela queria contar tudo a Mel, e tinha de falar com a sua avó, mas não se sentia confortável em livrar-se de Will.
Ela afastou-se do corpo dele como se um ímã os atraísse: devagar e forçadamente. Ela botou a massa de cachos escuros para trás da orelha, mais uma mania sua.
– Eu... Realmente tenho que ir. Desculpe, Will. – só então ela percebeu que usara o apelido, e não o nome todo. – Oh, William, quis dizer.
Ele sorriu, novamente do jeito tímido. Ou talvez fosse sedutor? Mia não pensara nisso antes.
– Pode me chamar de Will, se quiser. É o mínimo para desculpas depois do que aconteceu com a Eve.
Ele ajeitou o corpo, e Mia também notou algo, como o sorriso.
– Quer dizer que, se isso não tivesse acontecido, não poderia te chamar de Will?
– Eu não disse isso.
E então ele se afastou, também devagar. Pouco a pouco, ela andou para longe conforme a distância entre eles ia aumentando. Antes de dobrar para seu corredor, Mia espiou para onde William tinha andado, e viu que ele também parara para vê-la. Ela riu, observando-o. Parecia que era apenas uma garota normal, sem poderes, sem garras, sem colares ancestrais e sem problemas.
Obviamente, não se podia escapar da realidade.
Mas, por um momento, ela era apenas uma jovem de dezesseis anos, encarando um jovem que estava sendo extremamente simpático com ela.
E talvez mais que isso. Charmoso. Encantador. Ela virou-se, fugindo da visão do garoto alto e esguio que a olhava. O rosto de Mia estava vermelho, como nunca estivera antes.
Ela sempre ficava triste em olhar garotas comuns em suas tantas outras escolas, com namorados, festas, amigos e normalidade. Mia nunca tivera nada disso, e ficara ruborizada pela percepção de finalmente poder visualizar uma vida comum.
Talvez não exatamente comum, tirando o fato de Nicholas e Melodie serem lobos. De Mia ser um lobo. Ela pensou em mais alguma coisa, enquanto andava exageradamente devagar pelo corredor.
E se Nick e Mel estivessem próximos de Mia só porque sua avó mandara-os para ficarem de olho nela? Ninguém questionava que eram simpáticos e ótimas pessoas, mas eram seus amigos de verdade?
Mia só sabia que, apesar disso, ia contar o que acontecera a Melodie. E que ela, Mel e Nicholas eram amigos, independente de suas intenções com ela.
Mas... Onde William se encaixava? O garoto lindo, simpático e que aparentava gostar dela? O jovem um ano à frente dela, disputado por várias garotas, inclusive uma certa ruiva que demonstrara ódio à primeira vista?
Mia só sabia que, pela primeira vez, ela estava construindo uma vida, após nove escolas e cinco estados diferentes, em três anos. Quando chegou a porta, suspirou ao perceber que este seria um longo e agitado ano.
Fale com o autor