Filha Da Noite
10 Capítulo Dez
Notas iniciais
– Mel, você não sabe o que acabou de acontecer! – Mia praticamente pulou de encontro à loira.
– O quê?
– Tem a ver com a Eve.
Melodie deu um olhar divertido para Nicholas, e então empurrou suas costas até ele estar fora da sala. Ela riu para ele e fechou a porta.
– Desculpe, Nick, papo de garota!
Mia sentou-se com ela na cama, cruzando as pernas abaixo do corpo. A história toda, com detalhes de cena, saiu com risadas e gritinhos. Mia acrescentou, no final:
– Oh, e eu descobri que essa garota é ex-namorada de William. Como ele a agüentava?
Melodie, porém, respondeu à outra coisa.
– Mia, acho que tem bastante gente nessa escola, e em mais outras, que foi namorada de William.
Uma ruga fina apareceu entre as sobrancelhas de Mia.
– Isso é um pouco decepcionante, sabe. Ele é legal comigo.
Melodie preferiu deixar aquilo de lado. Não queria discutir com Mia; ela já estava agüentando muita coisa, Mel não queria enchê-la com mais. Voltou ao que tinha acontecido.
– E então, o que mais Eve disse?
– Ela me ameaçou porque eu não deveria falar mais com Will. Isso é meio estranho. Eu o conheço há quatro dias, não é?
– Ela não sabe nada sobre você. Se ela tivesse alguma idéia do que são Lobos, ela não estaria sendo tão metida.
Mia concordou. Não havia dúvida disso.
Mia ouviu o telefone tocar, a ela agarrou-o sem pensar. Era o número de sua casa. Ela atendeu com a boca seca.
A jovem aproximou-se da janela, olhando para a linha de luz que o sol já erguido fazia no horizonte.
– Oi.
– Mia, como é que você está?
A garota passou a mão nos olhos, um pouco incomodada.
– Acho que nem eu sei, vovó.
– Escute, eu sei que é muita coisa para digerir no momento, e você deve ter muitas perguntas, mas nós vamos resolver isso com o tempo.
– Tudo bem. Só... Antes, me diga... – ela tentou se lembrar de antes da briga com Evangeline, quando lhe contaram sobre a lenda do primeiro Lobo. — Essa coisa dos descendentes do primeiro lobo; é tudo verdade? Nicholas e Melodie me contaram essa história.
A idosa suspirou devagar. Ela podia ser uma loba, mas a idade ainda a deixava cansada.
– É, é verdade. Você, nós, somos descendentes do segundo filho. Somos chamados de Elite. É uma longa história, e acho que você não precisa saber dela agora. – ela suspirou devagar. Ela estava mudando de idéia. Sem rodeios, continuou: — Só quero dizer que tudo isso foi mesmo para te proteger.
– Eu não tenho dúvidas disso, vovó. Não se preocupe.
– Há outra coisa, querida. Sua mãe não queria que eu lhe contasse, mas acho que é necessário. – ela fez uma pequena pausa, para aumentar a curiosidade de Mia. — Existem caçadores. Eles nos caçam.
Ela quase deixou o celular cair. Apertou-o contra a mão subitamente fria, prestando atenção.
– É porque somos da Elite. Achei que seria importante dizer, mas eu mesma queria fazê-lo. Não queria que os seus amigos lhe assustassem, porque não é esse o único motivo. Você é filha de um dos chefes do Código.
Mia ficou tão chocada que não pôde nem deixar o celular cair.
De repente, o assunto pai voltara à tona. A menção da palavra “Código” também não lhe era estranha, mas ela não se lembrava de onde.
– É por isso que não queríamos contar nada para você. Era muito perigoso, já que os caçadores estão atacando com mais frequência desde que você fez doze anos.
Mia sentia que ela estava escondendo alguma coisa. A respiração de sua avó ficou presa por segundos demais, como se pensasse se deveria falar mais ou não. A percepção de Mia a assustou um pouco. Ela nunca percebera coisas assim, tão facilmente.
– Vovó, tem mais alguma coisa que você deveria falar? Ontem a senhora prometeu me contar tudo.
– Por ora, isso é tudo o que deve saber.
A resposta a deixou irritada. Ignorando-a, a avó continuou:
– Eu não quero que você se preocupe com isso. Vou deixar você processar o que já sabe antes de lhe cobrir de coisas novas. Estude e tire boas notas. Faça alguns amigos, Mia. Tente não causar problemas.
Mia demorou um pouco mais para entender que deveria encerrar a conversa por ali, e que não deveria ligar pelos próximos dias. Ela suspirou longamente.
– Vou me comportar, vovó. Mande um abraço para mamãe. Também te amo.
Mia deslizou um braço pelo outro, e então pegou seus materiais. Viu que Melodie fizera o mesmo durante a conversa. A amiga abriu a porta, e juntas saíram do quarto.
* * *
Mia brincava com o canto da folha do caderno, olhando para fora. A paisagem já estava ficando alaranjada com o outono, e o céu não tinha muito azul pintando-o. Dava para ver um dos campos daquela posição, com alguns punhados de árvores ao redor. A aula estava entediante, e Mia não estava com cabeça para estudar. O professor apenas tagarelava sobre algo com números e símbolos no quadro-negro.
Algo chamou sua atenção na lousa. Um meio-círculo pequeno com outro dentro. Uma lua crescente.
A lua atual.
Um arrepio trespassou suas costas, seus olhos se arregalaram. Mais imagens apareciam conforme o professor riscava.
Presas. Olhos grandes e amendoados. Uma flecha afiada. Sangue que parecia realmente vermelho, apesar do giz branco.
Ela tentou desviar os olhos novamente para a janela.
Grande erro.
Subindo pela colina, que segundos atrás estivera completamente vazia estava a maior alcatéia que poderia haver nos Estados Unidos. Cinquenta, sessenta lobos correndo. Latindo. Uivando tão alto que o som chegou aos seus ouvidos. Só ela ouvia.
Os uivos se tornaram gritos humanos, tão altos que ela não ouvia mais o professor. As vozes clamavam por Mia. Chamavam-na, implorando que se juntasse a eles. Uma onda elétrica espalhou-se por seus braços, atingindo sua cabeça. Seus olhos ardiam, e ela vislumbrou uma sombra dourada.
Agora não, por favor. Mia remexeu-se na cadeira, desconfortável. Apesar de tudo que descobrira, parecia que a preocupação que diminuíra não afetava na frequência de suas transformações diurnas.
Ela gritou um pedido ao banheiro, desesperada, e correu até lá logo que o professor deu-lhe permissão.
Mia agarrou as bordas da pia branca e fria de porcelana, sentindo os batimentos aumentarem até que não pôde manter os olhos apertados tentando controlar-se; ela abriu-os rapidamente, arregalando-os, vislumbrando cenas que preferia não ter visto.
A lua à sua frente abria-se para uma ferida sangrenta, diante das garras de Mia, que a cobriu de escuridão total. Ela estava perdida; respirava em um ar que se condensava e via flechas de prata que atravessaram seu corpo com um grito agudo, agudo demais para ser ouvido. O grito era dela; entretanto, Mia demorou um pouco para perceber que apenas encarava o espelho sem ver nada, e nenhum som saíra de sua boca.
O foco retornou a seus olhos. Seu coração acalmou-se devagar.
Mas isso foi antes de focar no que estava atrás dela.
Aquilo a pegou tão de surpresa que não pôde nem gritar.
Havia uma garota jogada entre os batentes da porta de uma das cabines do banheiro. E quando dizia jogada, dizia literalmente. Seu corpo estava em um ângulo doloroso, com um braço apoiado na moldura da porta e outro por baixo do corpo. As pernas estendiam-se para dentro do cubículo onde estava o vaso, apoiadas de uma forma agonizante.
Mas é claro que não foi isso que assustou Mia.
O que a congelou foi o sangue.
De baixo da garota e ocupando boa parte dos ladrilhos do chão, uma poça de sangue inimaginavelmente grande estendia-se e avançava por entre as junções do piso, criando um desenho horrível e que daria bons pesadelos.
Mia jogou-se contra a pia, tentando se afastar do cheiro metálico que enchia seus pulmões.
Não estava dando certo. Aquilo estava por toda parte.
Suas unhas deslizaram pela porcelana quando percebeu que aquela garota era a mesma de pele escura e olhos verdes que a vira na sala de aula no outro dia, que a vira cravando as unhas na carteira.
Um modo de ela não abrir a boca, pensou Mia.
Nada no mundo a teria preparado para aquilo.
E quando ela pensou em mover-se ou gritar ou falar algo, um movimento chamou sua atenção.
A garota mexeu seus olhos de encontro aos de Mia.
Uma súplica desesperada; um último esforço com seu último suspiro de vida. E justo para quem a tinha atacado.
Foi então que Mia gritou.
* * *
Ela ainda sentia seu grito ecoando em seus ouvidos, mesmo depois de quarenta minutos.
Mia não sabia muito bem o que tinha acontecido após sua terrível descoberta no banheiro, por que depois do grito, aquilo virara só um borrão. Ela tinha certeza de que tentara correr para fora de lá.
Só que antes escorregara na poça de sangue e caíra nela.
Os professores das salas mais próximas, incluindo James, acharam-na caída no meio do corredor, após um trajeto conturbado de tropeços e soluços e escorregões. Logo havia um círculo de pessoas ao redor da garota coberta de sangue, chorando no meio do corredor.
Mia cuspia pedidos de ajuda para a garota no banheiro, e em menos de dez minutos, ela estava sendo tirada de lá ainda viva por um grupo de médicos um tanto apavorados.
Não sabiam o que tinha cortado seu pescoço em quatro tiras finas e não tão superficiais, mas tinham suspeitas.
Só que havia a pergunta: como um lobo entrara na escola?
Mia estava na enfermaria agora, e não se lembrava de como chegara lá. Alguém a trouxera no colo, por que ela estava histérica demais para andar.
Quando é que Mia atacara a garota?
A resposta veio devagar, assim como o pó que ela observava rodopiar para cima. Na noite passada, ela dormira profundamente, sem sonhos. Não se lembrava de nada.
Mia voltou a chorar compulsivamente. Não se importava muito com o que Melodie e Nicholas pensariam, olhando-a das cadeiras ao redor da cama da enfermaria. Uma moça lhe traria um calmante daqui a pouco, quando acabasse de tentar acalmar umas meninas histéricas que se apavoraram quando Mia estava no corredor, coberta de sangue.
Ela dissera que o tratamento maior levaria mais tempo.
Mia também estava apavorada por estar apavorada. Ela passava por transformações de corpo e mente, agüentava instintos lupinos fortíssimos (além dos humanos que todos tinham) e também passara por brigas – tanto vocais quanto físicas, das quais saíra bastante ferida – e fora considerada um objeto que impunha medo e que deveria ser afastados de todos em suas outras escolas. Mia se tornara forte.
Mas as pequenas esperanças que um tratamento descente de William, Melodie e Nicholas acabaram dando-lhe um conforto um tanto merecido por ter agüentado tanta coisa em tão pouco tempo. Ela não queria que isso lhe fosse tirado. Não tão rápido.
Ela sabia o que viria a seguir. Ela não era nada antes; e não queira ser de modo algum. Agora seria a Garota Que Encontrara O Corpo. A estranha que, no final, receberia olhares solidários ou penosos, mas que também seria motivo de risos e piadas que Mia já quase podia ouvir.
Aquilo acontecera uma vez. Há quase dois anos atrás, em um estado bem longe dali. Mas seria exatamente igual.
Ela olhou penosamente para os dois à sua frente, imaginado como estaria sua cara.
– Mia, você estava dormindo ontem. Eu ouvia seus batimentos. Estavam quase tão lentos quanto aos da garota quando foi retirada.
Mia encarou-a com seus enormes olhos azuis, um tanto inchados e vermelhos. O cabelo estava uma bagunça, os cachos selvagens nas pontas dos fios quase nem tinham formato; eram apenas uma mistura de nós e ondas e sangue seco em algumas partes que tocaram o chão.
– Ótimo, então parece que sou uma assassina de sangue frio. Meus batimentos nem sequer aumentaram quando rasguei a garganta dela.
Melodie ficou em silêncio. Foi a vez de Nicholas tomar a fala.
– Mia, você não é uma assassina. A garota está viva. E não tem nenhuma possibilidade de você ter feito isso. Não culpe a si mesma.
Ela apenas olhava para a ponta dos dedos, onde uma pequena camada de uma casca marrom depositara-se abaixo de suas unhas, onde o sangue secara. Mia sentia que queria imediatamente correr para o chuveiro de seu quarto.
Mas antes tinha de encarar um torturante final de manhã.
Ainda bem que o almoço chegaria logo, e Mia estaria sozinha em menos de dez minutos.
Ela queria fugir dali.
A enfermeira chegou, dando-lhe um copo d’água, um comprimido e uma longa fala sobre não se preocupar com o que ela tinha visto, já que a garota da pele escura – cujo nome era Paige – estava viva e se recuperando.
Mia assentiu. Mal a moça sabia o que ela estava pensando.
Será que deveria contar para a avó o que acontecera? Isso a preocuparia mais, não é? A avó lhe dissera para não ligar nos próximos dias, para Mia – e talvez ela — poder pensar. Se Mia não ligasse, apesar disso, talvez a diretora ligasse para sua casa. Ou não.
Ela teria pelo menos meia hora, talvez mais, para refletir sobre isso.
Logo, Mia estava sozinha na enfermaria.
O lugar ficava bem mais pacífico em silêncio. Talvez duas dúzias de camas enfileiradas jaziam encostadas nas paredes. As paredes eram brancas, com uma faixa fina verde-claro e o resto azul, até o chão. Haviam cortinas delicadas que separavam as camas como pequenos quartos de tecido.
Mia foi pegando no sono devagar, sendo vencida pelo cansaço. Ela acordou vinte minutos depois, após um sonho que envolvia unhas e dentes e sangue e gritos horríveis.
Seus olhos se abriram com um estalo e um grito mínimo. Sentia algo apertando seus dedos, e recolheu-os antes de pensar. Foi quando uma figura materializou-se sentada na beira da cama.
Ele apertou os lábios, envergonhado. Seu braço recuou de onde estava, e Mia percebeu que ele estivera segurando sua mão. Ela afagou os dedos que ainda sentiam um toque leve.
– Desculpe, não sabia que você estava aqui.
Ele soltou o ar, novamente relaxado.
– Eu soube do que houve, e quis ver como você estava. Parecia um sonho ruim.
– Eu... Sonhei com a garota.
William assentiu devagar.
– Não se preocupe com isso. Ela está bem.
– Você não faz idéia de quanta gente já me disse para eu não me preocupar. Só que... Foi horrível.
Ele ia falar alguma coisa quando uma voz grave penetrou o ar vazio do ambiente.
– Sr. Hawkes, eu poderia lhe roubar um momento para falar com Amelia?
James ergueu as sobrancelhas apenas um pouco, mostrando que aquela não era uma pergunta, e logicamente uma ordem. William percebeu o tom em sua voz, e levantou-se esfregando as mãos nas calças jeans.
– Sem problemas, senhor.
– Ótimo.
James esperou William sair para entrar e abaixar-se elegantemente numa das cadeiras do lado da cama. Mia observou tudo com olhos arregalados.
– Amelia, eu sei que tem razões para acreditar que você atacou a garota.
– Sim, e todos disseram que não devo me preocupar.
Ele piscou devagar. Seus olhos estavam incrivelmente verdes.
– Eu não vou dizer isso. Não tenho certeza de que não foi você.
Foi a vez dela piscar, confusa.
– Então eu... Represento alguma ameaça?
– Não, Amelia. Mas vejo que tem dificuldade em se controlar. Já vi você com os olhos dourados, mais de uma vez, em minhas aulas.
Ela abaixou a cabeça, claramente envergonhada. Ficava tão óbvio assim?
– Eu posso ajudá-la com isso. Mas só se você aceitar.
– Ajudar... Como?
– Digamos que seja uma espécie de treinamento. Eu sei algumas coisas úteis para você.
Mia tentava decidir o que diria, mas ele já levantara. Antes de sair, Mia falou num tom com que só ele a ouvisse:
– Quando?
– Amanhã à noite. No gramado sul. Tente não chamar atenção. Estarei lá pontualmente à meia-noite.
Então ele foi embora. Suas palavras pareceram um pouco duras, mas exatamente como um professor as diria.
Talvez aquilo a ajudasse. Talvez não precisasse usar o colar depois disso. Talvez se...
William entrou novamente no quarto. Hora de ativar seu lado humano, Mia pensou. Aquele pensamento a irritou. Ela na gostava dessa separação de sua personalidade. Mia nunca passara por isso antes, porque sabia que se continuasse, esse abismo só se separaria mais até algo ruim acontecer.
Mia tinha várias experiências com acontecimentos ruins. Ela queria evitá-los.
– Parece que ele não gosta muito de mim.
Mia limitou-se a erguer as sobrancelhas.
– Eu não exatamente espero que as pessoas gostem de mim. A maioria não gosta.
– Não sei por quê. – disse Mia antes de perceber que aquilo soaria estranho. Tentou consertar. – Você é simpático. Pelo menos comigo.
– Eu gostei de você. Parece uma boa pessoa para...
Ele deixou a frase em aberto. Mia ficou curiosa.
– Boa para o quê?
– É que... Eu gostaria de te mostrar algo. Só que é algo que eu mantenho em segredo. Deveria confiar em você?
– Depende de você decidir isso.
Ele riu, abaixando a cabeça. Ela estava gostando de brincar daquilo.
– Vou decidir confiar em você.
– Acho uma péssima decisão.
– Acho que vou arcar com as conseqüências.
Ele estava fazendo aquilo novamente. Seus olhos traziam um brilho brincalhão, algo que Mia estava tentando se acostumar. E talvez nunca conseguisse estar um passo à frente daquele olhar.
– Tem que ser à noite, se não se importa.
Mia meneou a cabeça, ponderando.
– É na ala das salas, no segundo andar. No final do corredor. Achei que isso podia te acalmar um pouco, depois do que aconteceu. Gostaria de vir?
– Deveria confiar em você?
– Depende de você para decidir isso.
Mia demorou um segundo mais para processar aquilo. Até lá, William já havia partido, deixando apenas um eco de sua risada no corredor.
Um eco que fez Mia sorrir.
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