Filha Da Noite
5 Capítulo Cinco
Notas iniciais
Mia estava deitada havia uma hora, sem conseguir pregar os olhos. O vento que escapava da janela, apesar de fechada, enviava um vento frio para o quarto inteiro. O outono estava mais gelado que o costume. A garota remexeu-se sobre as cobertas, incapaz de dormir; apenas observando o recinto com curiosidade. Perscrutou a forma escura que era Melodie, adormecida profundamente na cama oposta.
Mia, frustrada com a falta de sono, passou a analisar o medalhão em seu pescoço. Distraidamente, passou a ponta dos dedos pela parte de trás da delicada peça, quando sentiu uma ponta metálica ressaltada. Logo, sentou-se cruzando as pernas, e, apesar de todo o escuro do quarto, conseguiu enfiar a unha sobre a ponta, inclinando-a para baixo.
Ouviu-se um clique delicadamente baixo. E, para a surpresa da jovem, a parte traseira do colar havia se soltado. De modo cuidadoso, desencaixou a pedra do resto da corrente, passando a pequena forma oval pelas mãos. Mas, ao olhar de perto, viu que aquilo não era uma pedra.
Era um frasco diminuto. E dentro dele havia sangue.
Seus pelos da nuca se arrepiaram com muita rapidez. Ela quase soltou o vidro, mas não o fez. Seus dedos congelaram ao redor do cristal, quando notou que, mesmo não tendo analisado o conteúdo, percebera o que havia dentro do frasco. Mia soltou o colar rapidamente, remontando-o e o colocando sobre o criado-mudo.
Ela ergueu-se num salto, quando sua pele começou a formigar. Era uma sensação ao mesmo tempo assustadora, grandiosa e reconfortante. Sentia como se estivessem soprando um vento em seu corpo todo. Mia abraçou o próprio corpo, confusa. O que é isso? Pensou, percebendo uma magnitude jamais imaginada ao encarar o colar repousando, silencioso e inútil, morto no pó recém adquirido do móvel ao lado da cama.
O colar não podia exercer seu efeito em Mia, já que ela não estava usando-o. E no momento que ela o retirara, ela sabia, mesmo sem concretizar nenhum pensamento: ela estava se transformando.
A garota só teve tempo de se virar ao espelho do armário antes que seus olhos estivessem brilhantes. O amarelo surgiu, fulgurante e ardente, despertando-a. Ela foi inundada por uma forte sensação de segurança, que lhe parecia correta e maravilhosa. Seu corpo dobrou-se com uma guinada, mas pela primeira vez não sentiu dor. Ela parecia fluído e concreto ao mesmo tempo, e sua respiração virou um som rouco e baixo.
Quando o mundo se estabilizou, ela deu alguns passos trôpegos, experimentando essa nova sensação. Suas roupas deslizaram ao chão por cima do pêlo lustro e acinzentado, formando um monte no carpete. Pela primeira vez, ela sentiu-se totalmente livre. Sentia-se como o vento. Podia correr por aí solta, sem se preocupar com nada. Não se sentia como um monstro. Mia quis, mais do que tudo, que nunca tivesse usado aquele colar, se ele lhe restringia essa ótima perspectiva do mundo. E esse novo mundo era enorme, selvagem e belo. Queria explorá-lo. Sua cabeça virou-se para a janela. Era só empurrá-la e estaria livre. De verdade.
Com dificuldade, a janela abriu-se silenciosamente. Agora, após o salto para o exterior, Mia era apenas um lobo. Suas patas moveram-se com rapidez, iniciando uma louca correria para os limites da floresta. O vento zunia veloz em seus ouvidos, e seu corpo não se cansava com a corrida. Era tudo o que Mia mais queria fazer, desde que chegara àquela escola.
Inebriada, sua parte humana que estava descansando pensava como um sussurro: era o colar que fazia suas saídas noturnas parecerem sonhos. Sempre pareciam lembranças vagas e esfumaçadas, mas agora era tudo vívido e ela sentia que correria até o amanhecer.
A floresta agora a cercava. Pulou sobre raízes retorcidas enquanto cruzava uma parte visivelmente já explorada. As árvores tinham mais distância entre si, e o chão continha uma camada de musgo fofa que acariciava seus pés. O ar frio se condensava na frente de seu nariz, mas o vento apenas roçava em seus pêlos, sem causar frio. Mia correu por alguns minutos, até chegar à floresta densa. O local era mais úmido do que antes, e carregava no ar um cheiro de madeira e natureza em seu estado puro.
Sentindo-se desafiada, a garota voava sobre galhos caídos e contornava os grossos troncos de árvores. Finalmente, após muito tempo, ela parou. Estava em uma parte extremamente distante da escola, sem dúvida. Pensou em voltar, mas sabia que ainda tinha bastante tempo para aproveitar. Mia aproximou-se de um córrego que timidamente corria por entre pedras, e bebeu a água límpida até perceber um movimento com o canto do olho. A face lupina ergueu-se curiosa, instintivamente silenciosa.
Havia um coelho cinzento que corajosamente saíra de sua toca para beber água. Os músculos de Mia se retesaram. Era hora de um pouco de diversão.
Ela pulou com destreza por sobre o riacho, e logo o coelho corria para longe dela. Ela estaria sorrindo se pudesse. Seu corpo movimentava-se com graça em perseguição ao coelho, e o pequeno animal estava frenético passando por baixo de plantas.
Após uns minutos, Mia parou e deixou a animalzinho ir embora. Não gostava da caçada, apenas da perseguição. Gostava de sentir a energia da presa. De sentir seu próprio coração batendo mais rápido com a forma de um objetivo que, para ser concreto, tinha que ser obtido. Ela tinha essa noção mesmo que não se lembrasse bem das noites de Lua.
Depois de alguns minutos, ela ficou cansada. Sabia que tinha de voltar, mas achou um local bem confortável em uma clareira e deitou-se. Antes que pensasse, o sono a atingiu.
* * *
Mia acordou ainda em forma de lobo. Esticou-se daquela característica forma canina e bocejou exibindo as presas brancas. O céu já adquirira uma cor rosada típica de antes do alvorecer. Ela sentia a quietude da floresta, da paz do silêncio. E então os pássaros começaram a cantar.
Distantes do medo que os humanos lhes proporcionavam, as pequenas criaturas começaram um enorme coro de piados suaves, que logo se transformou em um barulhento cruzamento de vozes orquestradas. A clareira brilhava com o começo do aparecimento do sol, e a visão era encantadora. Resíduos de folhas amassadas flutuavam ao encontro do céu, e o vento corria leve por entre as árvores. Mia estava em cima de musgo verde e flores, e ela estava feliz. O tempo que ela demorou apreciando a clareira foi o suficiente para que o sol subisse um pouco no céu, e a atingisse. A luz acariciou seus pêlos cinzentos, e a cabeça peluda abaixou-se, para transformar-se novamente em um rosto humano e delicado. Mia sentia-se ótima.
O cabelo longo estava descuidadamente por cima de um ombro, bagunçado e caído como um rio escuro em volta e por sobre seu rosto. Os olhos estavam novamente azuis. Ela nem sequer se importou com o vento batendo em seu corpo nu. Passou os braços em volta dos próprios ombros apenas pela alegria de se sentir novamente viva.
Após um tempo, ela encontrou um tecido (mais parecido com um pequeno cobertor), perto de algumas raízes de árvores. Enrolou-se naquilo e andou por onde seu olfato – que magicamente funcionava melhor agora – indicava. Terminou por perceber que chegara até os campos, na frente do enorme lago, e que o dormitório encontrava-se no topo da leve inclinação. Ainda era distante, mas Mia, na noite anterior, correra em um círculo aberto na extensa floresta, e agora só precisava voltar aquela centena de metros.
Depois de dez minutos, ela estava de volta ao quarto; Melodie ainda dormia e Mia pôde tomar um banho e trocar de roupa antes da colega de quarto acordar.
Quando o fez, Mia já estava sentada na cama, radiante, fazendo anotações em um caderno.
– Oi, Mia. – Melodie sussurrou, a voz embargada. – Isso vai ser rotina ou só está acordando cedo porque são os primeiros dias?
Mia deu uma risada baixa. Mel achou que a garota chegava a brilhar de tão feliz que parecia.
– Não. – respondeu Mia. – É só porque me falta sono às vezes.
Dizendo isso, pensou não haver mais nada para falar. Silenciosamente, a garota andou para fora do quarto, com as costas eretas e os olhos brilhando.
Ela andou pelos corredores até a ala das salas de aula. Quando chegou lá, viu que já havia bastante gente nos corredores, apesar da hora. Mia topou com William no corredor. Mesmo que não tenha parado, ele sussurrou a garota:
– Bom dia, Blake.
Mia ficou parada por um instante, tentando lembrar quando falara seu sobrenome ao jovem. Antes que perguntasse, porém, ele havia sumido.
Desprovida de alguma reação, ela apenas entrou na sala certa e aguardou o início da aula.
Uma voz baixa a chamou.
Ela virou-se e viu Nicholas sentado atrás dela, os cotovelos sobre a carteira e o tronco inclinado para frente.
– Bom te ver aqui. – ele disse. – É a primeira aula que teremos juntos, não é?
Mia assentiu devagar. A professora entrou antes que continuassem, se apresentou aos alunos e iniciou a aula logo.
Mia olhava para fora distraidamente, enquanto a professora escrevia na lousa. E então ouviu algo muito alto. Instintivamente, abaixou a cabeça e soltou um sibilo baixo, com um rosnado. Ninguém escutou. Ela procurou a origem do barulho repetitivo, e encontrou finalmente um aluno apertando o topo da caneta várias vezes, enquanto conversava com outro.
Era como no jantar de dois dias atrás. Mas muito, muito mais alto. Cada lápis raspando o grafite no papel soava como um grito estridente e agudo, cada risada dos alunos parecia terrivelmente assustadora, o giz desenhando a lousa era como uma constante explosão que nunca acabava. As vozes viraram zumbidos, e o movimento do ponteiro do relógio acima de sua cabeça era igual ao som de correntes sendo arrastadas pelo chão coberto de musgo da floresta.
Os olhos da jovem se arregalaram, e sua boca se abriu, muda. Os dedos em garra agarraram a borda da carteira em desespero. Ela viu sua própria mão erguendo-se no ar enquanto atraia o olhar da professora.
– Posso ir ao banheiro, Sra. Collins? – a voz dela também parecia ter sido colocada em um alto-falante e soava como a de outra pessoa.
A professora sorriu e disse sim, mas Mia simplesmente assentiu de resposta. Quando fez menção de se levantar, porém, sentiu os dedos da mão que não erguera presos a algo e, com dificuldade, soltou-os da madeira em que as unhas haviam se cravado. Pequenos vincos estavam na mesa agora.
Com os olhos vidrados, toda a alegria da noite anterior se esvaiu de Mia. Descobrira que podia se transformar apesar de não ser lua cheia, mas percebeu que seus dons tinham suas desvantagens. E que elas podiam ser enormes.
E que podiam vir a serem fatais.
Só não percebeu aquilo naquele momento. Ela já fechava a porta quando viu uma garota de pele escura e aveludada encarando-a do lado da classe em que Mia estivera. Ela tinha olhos verdes que perscrutavam a garota por trás do vidro da porta já fechada.
Entretanto, quando Mia já tinha ido embora, a garota na sala virou-se para o lado, passando os dedos cuidadosamente por sobre os vincos sobrenaturalmente fundos.
Desenho — Mia Blake
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